Radiografando a Nouvelle Vague Soviética

 

“Curioso é notar que os tempos turbulentos da Guerra Fria não influenciaram a produção russa. Os filmes tinham uma preocupação muito maior com o sujeito, com questões mais amplas como o que é a vida, onde personagens jovens se desvencilham do fardo do stalinismo e da guerra, se importando com questões mais subjetivas e com uma vida comunal mais solidária, que talvez se aproximasse de uma ideia matriz mais utópica da revolução, embora fique claro que essa ideia de comunidade não seguia nenhuma ideologia de Estado”.

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Morte em Veneza – Do livro ao filme, da epifania à queda

Um momento suspenso no tempo, breve como o escoar da areia na ampulheta observada por Aschenbach, perceptível somente no final, “quando não resta mais tempo para pensar a respeito”: assim nos afigura a via crucis de Gustav Von Aschenbach em A morte em Veneza, livro de Thomas Mann transposto com precisão e originalidade para as telas do cinema por Luchino Visconti.

Mais que uma adaptação da obra de Mann, Morte em Veneza complementa a obra literária, dá a ela sentidos novos sem deturpar sua essência. Não realizando mera cópia, Visconti consegue manter, portanto, a originalidade e o caráter de “arte” do cinema, dá significações complementares ao filme. […]

Claude Lanzmann (1925-2018): cineasta do indizível

Le dernier des injustes (O Último dos Injustos, 2013) de Claude Lanzmann

O cineasta Claude Lanzmann faleceu no passado dia 5 de Julho, em Paris, já com mais de 90 anos. Apesar de ser mais lembrado pelo “melhor documentário da história do cinema”, Shoah (1985), Lanzmann manteve uma produção contínua até ao início deste ano. Carlos Alberto Carrilho escreve exactamente sobre esses últimos títulos da sua carreira, Le dernier des injustes (O Último dos Injustos, 2013) – estreado comercialmente em 2015, crítica de Carlos Natálio –, Napalm (2017) – exibido na última edição do DocLisboa – e Les quatre soeurs (2018) – exibido na última edição do IndieLisboa. Já Luiz Soares Júnior escreve sobre o monumental Shoah, “um pequeno filme de horror incrustado numa obra prima do fora de campo“. […]

Como se regalar no Inferno: O Corpo Presente de J. P. Cuenca

A literatura brasileira deu mostras de vigor no início do século. Não o vigor físico do corredor de maratonas, mas de vigor intelectual mesmo, de criatividade, impulsionada pela aquisição da classe-média dos serviços de internet. Quantos podemos nomear dessa geração, dependendo do gosto, das escolhas, de cada um? São bem diversificados os nomes e os estilos de muitos dos ainda jovens escritores. Foi uma espécie de “revolução por cima”, mas que dinamizou nossa produção artística a partir de portais literários como o Paralelos, Bestiário, Cronópios, e tantos outros. Foi uma forma de democratização da literatura que produz resultados consistentes até hoje. Logo, também é necessário uma crítica.

Ao comparar a literatura de João Paulo Cuenca com a de Ricardo Lísias, podemos ver duas formas de se entrar no inferno. O segundo parece transitar entre sub-paradoxos, entre pseudo questões que compõem um inferno não só pessoal, mas solipsista. É um pequeno eu escandalizado com mínimos escândalos mundanos. Cuenca, pelo contrário, parece se regalar no Inferno, numa atitude que, se não tem relação direta com a chamada “carnavalização” na literatura, como estudada por Bakhtin, passa pelas estações infernais tanto de Dante, quanto de Henry Miller ou Roberto Piva. Assim, a comparação que se propõe forma uma boa métrica para um caso de estudo da literatura brasileira mais contemporânea.

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Sobre as implicações políticas de “Dedo no cu e gritaria”

Trata-se de uma revelação, de um ato visionário, de Paulo em Damasco. Nenhuma dessas histórias de “ah!, como se deu seu processo criativo?”, “o que te levou a essa descoberta maravilhosa?”, etc. Tudo isso é baboseira, até porque depois de qualquer visão deve suceder o mais rígido escrutínio crítico, até porque ela tem as mais prolíferas consequências para a luta política atual e como diagnóstico do tempo que vivemos. […]

Teoria do domínio da mídia

A questão da “teoria do domínio da mídia” ressignifica boa parte do que foi criticado como a “teoria do domínio do fato”. Elas simplesmente pulverizam qualquer visão superior para dar conta dos inumeráveis fatos, em boa parte conflitantes, e nivelam por baixo o que poderia ser uma visão integradora, hegemônica, em favor do Brasil.

Nesse caso, a chamada “mídia progressista” abraça a velha mídia e cantam em conjunto.

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A cultura dos 80 segundo o Matador de Passarinho

Rogério Skylab tem uma trajetória peculiar dentro da música brasileira. Pouco se destaca, além de seus posts no Facebook repletos de audiência (em sua maioria nazistóides, segundo o próprio), sua produção escrita, sua crítica literária e musical, que nos conta bastante sobre a história recente do Brasil, do período em que ganhou maturidade e soube escolher suas referências musicais, como Torquato Neto e a chamada Vanguarda Paulista. Acompanhar seus escritos, seu antigo programa na TV, além de sua atuação nas redes, permite traçar toda uma história do Brasil nas últimas décadas. Do “fino” da literatura e da música, de Dr. Silvana a Jojo Todynho (na companhia de análises de alguém não menos capacitado, o escritor Marcelo Mirisola), toda uma teoria do riso, assim como uma história do Brasil emerge. Foi o que procurei traçar nesse texto.

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O que é uma obra de arte? A revista Documents, de Georges Bataille

 

 

A criação de uma não-revista: o único meio de se falar de Arte

Aos 31 anos de idade, Georges Bataille passou a dirigir, de forma oculta, a revista Documents, durante apenas dois anos, mas não menos decisivos, 1929 e 1930. Deveria ser, pelo menos na intenção de seus patrocinadores, uma “verdadeira” revista de arte, fartamente ilustrada, com edições luxuosas e seguindo as diretrizes iconográficas, como apontadas por nomes como Erwin Panofsky, Fritz Saxl e Piero Toesca. “Mas, como se sabe, Bataille fez muito mais do que jogar aquele jogo. Parafraseando aqui sua célebre expressão relativa à noção, ou, antes, ao uso do dicionário, poderíamos dizer que, para ele, uma revista de arte devia começar – ou começar a explodir – a partir do momento em que não oferecesse mais o sentido, mas as tarefas das imagens[1]”. A negação do que seria o sentido em arte, a tarefa da iconologia, fez da Documents a revista de arte por excelência, ou seja, ao negar o sentido e colocar em funcionamento a tarefa das imagens: […]