Veredas: um grande consenso patriótico e internacional

Os Sertões e nosso combate contra o diabo do autoritarismo

Guimarães Rosa divide seu Sertão entre dois grupos políticos principais. Se lermos esse romance como um trabalho artístico de fato, ou seja, como metáfora ou alegoria relativos a um processo social real, ele pode trazer alguns subsídios para compreender o que vivenciamos atualmente. […]

Realismo fervido na revolta

 

Obra do escritor João Antônio ainda é um retrato preciso da marginalidade nas metrópoles. O foco de sua literatura ilumina aqueles que vivem à margem de uma sociedade abocanhada pela pretensão de uma sofisticação burguesa, contra a qual ele vociferava. Prostitutas, jogadores de sinuca, vagabundos, meninos de rua, traficantes. Pessoas pobres e esquecidas, que se equilibram numa fronteira entre a malandragem e a vida criminosa. A literatura marginal brasileira não pode ser estudada se o nome de João Antônio não estiver no meio.

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7 motivos para ler Alberto Mussa, o escritor que você precisa conhecer

Foto: Paula Johas

Você conhece Alberto Mussa? Não? Pois apresento. Carioca, 56 anos, e um dos escritores mais originais do país. Já ganhou prêmios como o Casa de Las Américas, Machado de Assis, Biblioteca Nacional e Oceanos, mas, como sabemos, essas honrarias não são suficientes para que um escritor se torne conhecido do grande público brasileiro. […]

Como se regalar no Inferno: O Corpo Presente de J. P. Cuenca

A literatura brasileira deu mostras de vigor no início do século. Não o vigor físico do corredor de maratonas, mas de vigor intelectual mesmo, de criatividade, impulsionada pela aquisição da classe-média dos serviços de internet. Quantos podemos nomear dessa geração, dependendo do gosto, das escolhas, de cada um? São bem diversificados os nomes e os estilos de muitos dos ainda jovens escritores. Foi uma espécie de “revolução por cima”, mas que dinamizou nossa produção artística a partir de portais literários como o Paralelos, Bestiário, Cronópios, e tantos outros. Foi uma forma de democratização da literatura que produz resultados consistentes até hoje. Logo, também é necessário uma crítica.

Ao comparar a literatura de João Paulo Cuenca com a de Ricardo Lísias, podemos ver duas formas de se entrar no inferno. O segundo parece transitar entre sub-paradoxos, entre pseudo questões que compõem um inferno não só pessoal, mas solipsista. É um pequeno eu escandalizado com mínimos escândalos mundanos. Cuenca, pelo contrário, parece se regalar no Inferno, numa atitude que, se não tem relação direta com a chamada “carnavalização” na literatura, como estudada por Bakhtin, passa pelas estações infernais tanto de Dante, quanto de Henry Miller ou Roberto Piva. Assim, a comparação que se propõe forma uma boa métrica para um caso de estudo da literatura brasileira mais contemporânea.

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A cultura dos 80 segundo o Matador de Passarinho

Rogério Skylab tem uma trajetória peculiar dentro da música brasileira. Pouco se destaca, além de seus posts no Facebook repletos de audiência (em sua maioria nazistóides, segundo o próprio), sua produção escrita, sua crítica literária e musical, que nos conta bastante sobre a história recente do Brasil, do período em que ganhou maturidade e soube escolher suas referências musicais, como Torquato Neto e a chamada Vanguarda Paulista. Acompanhar seus escritos, seu antigo programa na TV, além de sua atuação nas redes, permite traçar toda uma história do Brasil nas últimas décadas. Do “fino” da literatura e da música, de Dr. Silvana a Jojo Todynho (na companhia de análises de alguém não menos capacitado, o escritor Marcelo Mirisola), toda uma teoria do riso, assim como uma história do Brasil emerge. Foi o que procurei traçar nesse texto.

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O que é uma obra de arte? A revista Documents, de Georges Bataille

 

 

A criação de uma não-revista: o único meio de se falar de Arte

Aos 31 anos de idade, Georges Bataille passou a dirigir, de forma oculta, a revista Documents, durante apenas dois anos, mas não menos decisivos, 1929 e 1930. Deveria ser, pelo menos na intenção de seus patrocinadores, uma “verdadeira” revista de arte, fartamente ilustrada, com edições luxuosas e seguindo as diretrizes iconográficas, como apontadas por nomes como Erwin Panofsky, Fritz Saxl e Piero Toesca. “Mas, como se sabe, Bataille fez muito mais do que jogar aquele jogo. Parafraseando aqui sua célebre expressão relativa à noção, ou, antes, ao uso do dicionário, poderíamos dizer que, para ele, uma revista de arte devia começar – ou começar a explodir – a partir do momento em que não oferecesse mais o sentido, mas as tarefas das imagens[1]”. A negação do que seria o sentido em arte, a tarefa da iconologia, fez da Documents a revista de arte por excelência, ou seja, ao negar o sentido e colocar em funcionamento a tarefa das imagens: […]

H. G. Wells e a Conspiração Aberta

Foto de Shelagh Bidwell inspirada no livro “A máquina do tempo”.

Conhecido escritor de obras de ficção científica, H. G. Wells, como muitos dos escritores desse gênero literário, tem a fama de serem como que profetas de tempos futuros. Quando se olha para o escritor inglês, contudo, vemos a humanidade reduzida a refém de poderes extraterrestres e escravos do aprimoramento tecnológico, como no livro “A guerra dos mundos”, onde as bactérias derrotam os marcianos, e não a humanidade, ao todo, impotente.

Como corolário da incapacidade dos seres humanos de enfrentarem os próprios desafios, mais complexos com o passar do tempo, Wells foi publicista das ideias discutidas nos altos círculos do Império Britânico que o fizeram ser, além de escritor de ficção científica, também um dos pioneiros na produção de literatura pornográfica. “Seu talento era, como ele implicitamente descreve a si mesmo, um homem com o olhar de um proxeneta para suscetibilidade de sua clientela depravada com fantasias sexuais não tão escondidas”.

Suas três antecipações de acordo com as ideias da elite dirigente que o patrocinava foram 1) armas nucleares, 2) governo mundial, 3) masturbação neo-malthusiana, ou seja, ambientalismo. Armas nucleares e governo mundial vemos agora no íntimo entrelaçamento entre a política bélica ocidental reunida em torno da OTAN e as diretrizes de “crescimento zero”, de atentado à soberania nacional, feitas pelo sistema financeiro transatlântico, seja através de FMI, Banco Mundial ou correlatos. São duas forças que andam juntas. Na parte mais “estética”, mais “soft” das políticas imperialistas, o ambientalismo como meio de alavancar o “crescimento zero”, como nas “tecnologias apropriadas” para a África e não projetos de integração regional com alto grau de investimentos, para dar um exemplo. 

Balcanização e não desenvolvimento dos Estado-nacionais soberanos. A prática da chamada Guerra Fria, como no macartismo passado e como no atual, talvez ainda mais intenso (e que sentimos como nunca aqui no Brasil). Profeta do caos, das ideias nefastas dos círculos dirigentes internacionais. Este, H. G. Wells.

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Benjamin e o olhar petrificante

Fotografia da montagem de Esperando Godot, por Nelson Kao

O famoso Anjo da História, de Paul Klee, da forma como ficou conhecida pela descrição feita por Walter Benjamin, seria o que identifica a História com os vencedores, ou seja, não exatamente com o que está nas histórias oficiais, mas com os que fica de fora da própria história. Ele é o “anão corcunda” das teses sobre o conceito de História, que move o autômato chamado Turco. A história oficial conta as façanhas da máquina, porém não revela, como Benjamin, seu mecanismo invisível.

Como um ritornelo infernal, a criança que aparece na peça de Beckett para falar que “Godot não vem, mas amanhã ele virá”, é semelhante ao tipo de teleologia menos da “historiografia” – como se chama -, do que das narrativas oficiais ou majoritárias, sejam elas historiográficas ou não. Apontam para um fim que não vem enquanto a ruína de destroços se espalha por nosso caminho, ainda maior quanto mais fortes forem os ventos que foram chamados de “progresso” por Benjamin. O resultado pode ser visto tanto no quadro de Klee, Angelus Novus, quanto no Melancolia, de Dürer, e chamado nas famosas teses “Sobre o conceito de História”, de acedia, ou seja, tristeza ou melancolia. 

Que espécie de tristeza (acedia) nos leva a nos identificar com os monstros do passado, com os vencedores contumazes, com os supostos anjos salvadores da História? No centro da crítica de Benjamin, a social-democracia. No Brasil, os identificados ideologicamente ou partidariamente com essa vertente ocupam os postos chaves que movem a economia nacional. As sobrevivências na história, os anacronismos no tempo presente… E novamente somos levados pelas prestidigitações do anão turco, o que vence todos os jogos de xadrez, como se por força de uma inteligência invisível ou do acaso… Será com o terrível Leviatã que sonha os que oferecem a solução para nossa mazelas? Um governo de salvação nacional, com o Supremo, com tudo… 

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O Rambo brasileiro

O cineasta que mora em Miami por “motivos profissionais” e prega o voto nulo por ausência de culhão para o enfrentamento político. Quem anos depois iria endeusar como o capitão Nascimento (quase um “nome-metáfora”) o capitão do mato Sérgio Moro, e fazer de mero bandido o Escobar: combate-se a desigualdade com a luta contra o crime. Esse o mote de nossos liberais, da suposta classe-média, em suma, de quem deu o golpe. Não se combate a desigualdade na luta contra  pobreza. Morar em Miami… O lugar que virou, no governo Lula, o Paraguai da classe ascendente – muito mais exigente.

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