Políticas da memória, doutrina de guerra e neoliberalismo

Joel Rufino dos Santos

“A naturalidade e a aceitação da prática de tortura atualmente é uma das heranças da nossa escravidão. E é significativo que ela só fosse publicamente condenada quando atingiu militantes políticos, ou seja, durante a última ditadura civil-militar”.

Classe e memória

Pode ser sugerido, a partir dessa afirmação de Joel Rufino dos Santos, que a prática da tortura, que ocupou pelo menos 4/5 da história brasileira, com a escravidão, só foi condenada publicamente quando atingiu os setores de classe-média ou os militantes políticos? Se for assim, qual é o escopo, atualmente, de uma política da memória verdadeiramente abrangente? E onde ela se encontra hoje, pois não está mais no Estado e, talvez, não seja fabricada de forma ampla na academia?

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Walter Benjamin e a tarefa da crítica

Por Márcio Seligmann-Silva*

Revista Cult, 14 de março de 2010

Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.

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Nota da república dos Bruzundangas a respeito da atual situação dos luzias

Na foto, parte da capa do belo livro de Nicolau Sevcenko, “Literatura como missão”. Nele se encontram os projetos literários de Lima Barreto e Euclides da Cunha, em contraposição à modernização conservadora que quis fazer do Rio de Janeiro uma Paris tropical…

Leia a nota abaixo:

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Simas, Joel e Luiz Rufino, Gramsci e o lado de fora da universidade

Confesso que me sinto como alguém que “pegou o bonde andando” na recente reação raivosa da ultra-direita contra Antonio Gramsci. Em minha época de graduação, as referências eram para pensadores brasileiros tradicionais (Sérgio Buarque, Caio Prado, G. Freyre), talvez na intenção de marcar a importância do trabalho intelectual no Brasil diante das correntes de pensamento estrangeiras. Existiam também as referências a autores franceses mais contemporâneos. Numa escola historiadora, os Annales são presença constante, além dos inúmeros livros, entrevistas, artigos, prefácios e tudo o mais, de Michel Foucault. Assim, Gramsci aparecia (pelo menos para mim como jovem estudante) como algo deslocado. Um duplo deslocamento: temporal, frente a nova e abundante produção intelectual brasileira em estreita relação com os chamados clássicos nacionais, e conceitual, i. e., deslocado em relação aos “avanços” do estruturalismo e das correntes intelectuais que apareceram depois, em especial na Europa.

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Rio, Europa e o mar em Machado de Assis

Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: " O Machado para mim era branco. [...] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica"...
Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: ” O Machado para mim era branco. […] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica”…

Entre a década de 1970 e 1990, quando Roberto Schwarz escrevia sobre os primeiros romances de Machado de Assis (Ao vencedor, as batatas) e sobre Brás Cubas (Um mestre na periferia do capitalismo), um inglês, John Gledson, na década de 1980, se debruçava sobre o tema da traição em Dom Casmurro. Segundo o autor, o marco histórico fundador do romance seria 1871, ou seja, a Lei do Ventre Livre, que teria sido outorgada pelo imperador para poder fazer sua viagem a Europa e pousar como progressista. Outras correntes cruzam essa data simbólica: a questão religiosa que, com a proclamação da república e do Estado laico fez com que, definitivamente, faltar com a palavra seja fenômeno mais corriqueiro do que na época de maior religiosidade… E o ideal moderno, simbolizado pelas veleidades de Pedro II de frequentar o ambiente europeu como um monarca ilustrado. Porém um mar separa não só a Europa do Brasil, como também os personagens de seus sonhos ou o país de sua modernidade…

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Niilismo e Concórdia: os leitores de Machado de Assis

Em boa medida, quem criou o Machado de Assis que conhecemos foram seus leitores. Diante da imensa fortuna crítica que conta com importantes trabalhos estrangeiros (às vezes esses chegam a suplantar em importância os nacionais), além dos escritos de Roberto Schwarz, cujo empenho de quase toda uma vida se deu a interpretar quem chamou de “mestre na periferia do capitalismo”. Este mesmo crítico, apesar de uma forte contenda com Silviano Santiago a favor de modelos explicativos nacionais contra modelos estrangeiros para explicar a literatura brasileira, sempre contrapõe nossa sociedade a um tipo de liberalismo estrangeiro que nosso país nunca chegou a alcançar.

Se essa própria noção de liberalismo pode em muito ser criticada, ainda mais seria sua aplicação à realidade nacional. Esse estrangeirismo na leitura de Machado de Assis transformou-o não em um grande autor, mas em um gigante. Contudo, o século XIX é repleto de lutas sociais importantes, teve autores de grande relevância participando disso (um dos casos paradigmáticos é Sousândrade), e tudo parece se ofuscar frente a presença do “bruxo do Cosme Velho”. Mas não se ofusca só a literatura, mas a complexa sociedade brasileira da segunda metade do século XIX como um todo.

O pequeno texto abaixo tende a abrir algumas brechas diante dessa unanimidade machadiana, provocar alguns questionamentos, na análise principalmente dos leitores de Machado e do que se chamou de “autor hipocondríaco”, ou seja, o éthos da escrita machadiana.

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Olavo sem Partido e Gramscianismo Cultural

Um casamento inusitado e celebrado de forma inédita com muita bateção de panelas.

Na análise da chamada “base social” do governo Bolsonaro, as loucuras aparentes podem apontar para combinações ainda mais insólitas. Quem achava que já tinha visto de tudo com os glamourosos economistas do Plano Real (mistura própria aos anos 90, “requinte” e “cultura popular”, como em programas da Hebe), a nova virada política (sem contar o tosco parênteses chamado Michel Temer), não acreditava que os degraus em direção a porteira do inferno fossem tantos.

Já que comecei a abordar o tema por baixo, vou rapidamente contar o caso do “emérito” Divaldo Franco, médium espírita, que bem antes do “escândalo do WhatsApp”, cerrava fileira junto aos piedosos olavetes. Depois veremos como isso se insere no contexto geral do programa Olavo sem Partido e do Gramscianismo Cultural.

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A boataria como fenômeno do estado de guerra

O fenômeno atual de boataria é um sintoma da quadra histórica em que vivemos, ou seja, numa espécie de mundo submetida a lei natural hobbesiana, pré-contratualista, que seria real se não fosse algo fabricado. Não por acaso, o medo e o autoritarismo, a solução do Leviatã, hoje encontra tamanha repercussão. As chamadas “fake news” são a espuma das ondas da história. Não devemos ser dramáticos nem apressados ao tirar conclusões sobre esse fenômeno, assim como ter em mente que um boato pode durar por séculos, como o do famoso poder taumatúrgico dos reis, como relatado em um livro clássico do historiador Marc Bloch depois de vivenciar a experiência da multiplicação dos boatos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

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Veredas: um grande consenso patriótico e internacional

Os Sertões e nosso combate contra o diabo do autoritarismo

Guimarães Rosa divide seu Sertão entre dois grupos políticos principais. Se lermos esse romance como um trabalho artístico de fato, ou seja, como metáfora ou alegoria relativos a um processo social real, ele pode trazer alguns subsídios para compreender o que vivenciamos atualmente. Continue lendo “Veredas: um grande consenso patriótico e internacional”

Realismo fervido na revolta

 

Obra do escritor João Antônio ainda é um retrato preciso da marginalidade nas metrópoles. O foco de sua literatura ilumina aqueles que vivem à margem de uma sociedade abocanhada pela pretensão de uma sofisticação burguesa, contra a qual ele vociferava. Prostitutas, jogadores de sinuca, vagabundos, meninos de rua, traficantes. Pessoas pobres e esquecidas, que se equilibram numa fronteira entre a malandragem e a vida criminosa. A literatura marginal brasileira não pode ser estudada se o nome de João Antônio não estiver no meio.

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