Imagens sonoras e visuais num misterioso romance de Nei Lopes

Os que acreditaram em mim estão perdoados: acreditaram na História. ‘A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo’, sabe de quem é isso, meu prezado Correia? Nos domínios do Grão-Turco só são reais os indomáveis delírios”. Joel Rufino dos Santos, Crônica de indomáveis delírios.

Continue lendo “Imagens sonoras e visuais num misterioso romance de Nei Lopes”

Deleuze, Cinema e o Estado Novo

Rio Negro, 50, romance publicado em 2013 por Nei Lopes, é um livro visionário no mesmo sentido que Deleuze dá ao cinema do pós-guerra, de Rossellini a Marguerite Duras e o “cinema do Terceiro Mundo”. A gargalhada de Tião Medonho recontada no livro, pouco mais de 50 anos depois do célebre Assalto ao trem pagador, parece a descrição cristalina de um processo que se repetia: a afirmação das classes populares, uma efervescência política e cultural, atualizada nas últimas décadas pelo sorriso de Chávez, Kirchner e Lula, que há dez anos traziam a paz para a América do Sul. A gargalhada se transformou num refrão do que o país cada vez mais precisa, desde o início do processo do golpe de Estado no processo eleitoral de 2014 e a instauração da Lava-Jato como guerra irregular moderna, até a hora atual, onde o golpe e sua política de extermínio continuam.

Continue lendo “Deleuze, Cinema e o Estado Novo”

O Rio Negro, de Nei Lopes, e a “degeneração dos negros”, de Octavio Ianni

Em seu romance Rio Negro, 50, Nei Lopes atualiza a antiga discussão sobre a “cordialidade brasileira” em contraposição a um debate da época ambientada no livro, relativa a chamada “revolução brasileira”. Na academia, as discussões não avançaram muito, ainda apegadas ao Édipo correspondente à identidade nacional, a do “homem cordial”. Porém o professor João Cezar de Castro Rocha mostra um caso flagrante de, no mínimo, desonestidade intelectual na leitura sobre o tema, vinda da Escola Paulista de Sociologia através da figura de Octavio Ianni. O presente texto pretende contrapor a abordagem ficcional a acadêmica, caminho que pode abrir novas perspectivas para a leitura de alguns dos clássicos formadores da história do Brasil.

Continue lendo “O Rio Negro, de Nei Lopes, e a “degeneração dos negros”, de Octavio Ianni”

A literatura como arquivo da ditadura brasileira

Da Revista Brasileira de Literatura Comparada (trechos com breves modificações para exposição em blog)

“Ler o livro da professora Eurídice hoje, tendo em vista as etapas de seu processo de produção, nos força a remontar toda essa complicada etapa que vai da concretização de um avanço democrático em 2014 até a consolidação do governo protomilitar, miliciano-judiciário, em curso”.

Continue lendo “A literatura como arquivo da ditadura brasileira”

Políticas da memória, doutrina de guerra e neoliberalismo

Joel Rufino dos Santos

“A naturalidade e a aceitação da prática de tortura atualmente é uma das heranças da nossa escravidão. E é significativo que ela só fosse publicamente condenada quando atingiu militantes políticos, ou seja, durante a última ditadura civil-militar”.

Classe e memória

Pode ser sugerido, a partir dessa afirmação de Joel Rufino dos Santos, que a prática da tortura, que ocupou pelo menos 4/5 da história brasileira, com a escravidão, só foi condenada publicamente quando atingiu os setores de classe-média ou os militantes políticos? Se for assim, qual é o escopo, atualmente, de uma política da memória verdadeiramente abrangente? E onde ela se encontra hoje, pois não está mais no Estado e, talvez, não seja fabricada de forma ampla na academia?

Continue lendo “Políticas da memória, doutrina de guerra e neoliberalismo”

Walter Benjamin e a tarefa da crítica

Por Márcio Seligmann-Silva*

Revista Cult, 14 de março de 2010

Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.

Continue lendo “Walter Benjamin e a tarefa da crítica”

Nota da república dos Bruzundangas a respeito da atual situação dos luzias

Na foto, parte da capa do belo livro de Nicolau Sevcenko, “Literatura como missão”. Nele se encontram os projetos literários de Lima Barreto e Euclides da Cunha, em contraposição à modernização conservadora que quis fazer do Rio de Janeiro uma Paris tropical…

Leia a nota abaixo:

Continue lendo “Nota da república dos Bruzundangas a respeito da atual situação dos luzias”

Simas, Joel e Luiz Rufino, Gramsci e o lado de fora da universidade

Confesso que me sinto como alguém que “pegou o bonde andando” na recente reação raivosa da ultra-direita contra Antonio Gramsci. Em minha época de graduação, as referências eram para pensadores brasileiros tradicionais (Sérgio Buarque, Caio Prado, G. Freyre), talvez na intenção de marcar a importância do trabalho intelectual no Brasil diante das correntes de pensamento estrangeiras. Existiam também as referências a autores franceses mais contemporâneos. Numa escola historiadora, os Annales são presença constante, além dos inúmeros livros, entrevistas, artigos, prefácios e tudo o mais, de Michel Foucault. Assim, Gramsci aparecia (pelo menos para mim como jovem estudante) como algo deslocado. Um duplo deslocamento: temporal, frente a nova e abundante produção intelectual brasileira em estreita relação com os chamados clássicos nacionais, e conceitual, i. e., deslocado em relação aos “avanços” do estruturalismo e das correntes intelectuais que apareceram depois, em especial na Europa.

Continue lendo “Simas, Joel e Luiz Rufino, Gramsci e o lado de fora da universidade”

Rio, Europa e o mar em Machado de Assis

Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: " O Machado para mim era branco. [...] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica"...
Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: ” O Machado para mim era branco. […] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica”…

Entre a década de 1970 e 1990, quando Roberto Schwarz escrevia sobre os primeiros romances de Machado de Assis (Ao vencedor, as batatas) e sobre Brás Cubas (Um mestre na periferia do capitalismo), um inglês, John Gledson, na década de 1980, se debruçava sobre o tema da traição em Dom Casmurro. Segundo o autor, o marco histórico fundador do romance seria 1871, ou seja, a Lei do Ventre Livre, que teria sido outorgada pelo imperador para poder fazer sua viagem a Europa e pousar como progressista. Outras correntes cruzam essa data simbólica: a questão religiosa que, com a proclamação da república e do Estado laico fez com que, definitivamente, faltar com a palavra seja fenômeno mais corriqueiro do que na época de maior religiosidade… E o ideal moderno, simbolizado pelas veleidades de Pedro II de frequentar o ambiente europeu como um monarca ilustrado. Porém um mar separa não só a Europa do Brasil, como também os personagens de seus sonhos ou o país de sua modernidade…

Continue lendo “Rio, Europa e o mar em Machado de Assis”

Niilismo e Concórdia: os leitores de Machado de Assis

Em boa medida, quem criou o Machado de Assis que conhecemos foram seus leitores. Diante da imensa fortuna crítica que conta com importantes trabalhos estrangeiros (às vezes esses chegam a suplantar em importância os nacionais), além dos escritos de Roberto Schwarz, cujo empenho de quase toda uma vida se deu a interpretar quem chamou de “mestre na periferia do capitalismo”. Este mesmo crítico, apesar de uma forte contenda com Silviano Santiago a favor de modelos explicativos nacionais contra modelos estrangeiros para explicar a literatura brasileira, sempre contrapõe nossa sociedade a um tipo de liberalismo estrangeiro que nosso país nunca chegou a alcançar.

Se essa própria noção de liberalismo pode em muito ser criticada, ainda mais seria sua aplicação à realidade nacional. Esse estrangeirismo na leitura de Machado de Assis transformou-o não em um grande autor, mas em um gigante. Contudo, o século XIX é repleto de lutas sociais importantes, teve autores de grande relevância participando disso (um dos casos paradigmáticos é Sousândrade), e tudo parece se ofuscar frente a presença do “bruxo do Cosme Velho”. Mas não se ofusca só a literatura, mas a complexa sociedade brasileira da segunda metade do século XIX como um todo.

O pequeno texto abaixo tende a abrir algumas brechas diante dessa unanimidade machadiana, provocar alguns questionamentos, na análise principalmente dos leitores de Machado e do que se chamou de “autor hipocondríaco”, ou seja, o éthos da escrita machadiana.

Continue lendo “Niilismo e Concórdia: os leitores de Machado de Assis”