H. G. Wells e a Conspiração Aberta

Foto de Shelagh Bidwell inspirada no livro “A máquina do tempo”.

Conhecido escritor de obras de ficção científica, H. G. Wells, como muitos dos escritores desse gênero literário, tem a fama de serem como que profetas de tempos futuros. Quando se olha para o escritor inglês, contudo, vemos a humanidade reduzida a refém de poderes extraterrestres e escravos do aprimoramento tecnológico, como no livro “A guerra dos mundos”, onde as bactérias derrotam os marcianos, e não a humanidade, ao todo, impotente.

Como corolário da incapacidade dos seres humanos de enfrentarem os próprios desafios, mais complexos com o passar do tempo, Wells foi publicista das ideias discutidas nos altos círculos do Império Britânico que o fizeram ser, além de escritor de ficção científica, também um dos pioneiros na produção de literatura pornográfica. “Seu talento era, como ele implicitamente descreve a si mesmo, um homem com o olhar de um proxeneta para suscetibilidade de sua clientela depravada com fantasias sexuais não tão escondidas”.

Suas três antecipações de acordo com as ideias da elite dirigente que o patrocinava foram 1) armas nucleares, 2) governo mundial, 3) masturbação neo-malthusiana, ou seja, ambientalismo. Armas nucleares e governo mundial vemos agora no íntimo entrelaçamento entre a política bélica ocidental reunida em torno da OTAN e as diretrizes de “crescimento zero”, de atentado à soberania nacional, feitas pelo sistema financeiro transatlântico, seja através de FMI, Banco Mundial ou correlatos. São duas forças que andam juntas. Na parte mais “estética”, mais “soft” das políticas imperialistas, o ambientalismo como meio de alavancar o “crescimento zero”, como nas “tecnologias apropriadas” para a África e não projetos de integração regional com alto grau de investimentos, para dar um exemplo. 

Balcanização e não desenvolvimento dos Estado-nacionais soberanos. A prática da chamada Guerra Fria, como no macartismo passado e como no atual, talvez ainda mais intenso (e que sentimos como nunca aqui no Brasil). Profeta do caos, das ideias nefastas dos círculos dirigentes internacionais. Este, H. G. Wells.

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Benjamin e o olhar petrificante

Fotografia da montagem de Esperando Godot, por Nelson Kao

Como um ritornelo infernal, a criança que aparece na peça de Beckett para falar que “Godot não vem, mas amanhã ele virá”, é semelhante ao tipo de teleologia menos da “historiografia” – como se chama -, do que das narrativas oficiais ou majoritárias, sejam elas historiográficas ou não. Apontam para um fim que não vem enquanto a ruína de destroços se espalha por nosso caminho, ainda maior quanto mais fortes forem os ventos que foram chamados de “progresso” por Benjamin. O resultado pode ser visto tanto no quadro de Klee, Angelus Novus, quanto no Melancolia, de Dürer, e chamado nas famosas teses “Sobre o conceito de História”, de acedia, ou seja, tristeza ou melancolia. 

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O Rambo brasileiro

O cineasta que mora em Miami por “motivos profissionais” e prega o voto nulo por ausência de culhão para o enfrentamento político. Quem anos depois iria endeusar como o capitão Nascimento (quase um “nome-metáfora”) o capitão do mato Sérgio Moro, e fazer de mero bandido o Escobar: combate-se a desigualdade com a luta contra o crime. Esse o mote de nossos liberais, da suposta classe-média, em suma, de quem deu o golpe. Não se combate a desigualdade na luta contra  pobreza. Morar em Miami… O lugar que virou, no governo Lula, o Paraguai da classe ascendente – muito mais exigente.

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A estética como política: às margens da literatura contemporânea

Para Rancière, arte implica na constituição das formas de vida “comum”, passa pela constituição da voz àqueles que só podem murmurar ou fazer barulho. Como esse conceito tem implicações para a literatura contemporânea, especialmente a brasileira, caso se considere como precursor da passagem da “sociedade punitiva” para a “sociedade de controle”, as literaturas de Kafka e Beckett? Fazendo convergir o pensamento de Jacques Racnière com o de Giorgio Agamben, foi o questionamento que quis levantar com esse texto.

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O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea

O Mao de Salvador Dali (na verdade, a Marilyn Monroe “vestida” de Mao): isso não é arte, mas publicidade


Ricardo Lísias escreveu um romance com o título de “Divórcio”. Prêmio Granta, escritor consagrado, passível de uma crítica forte, já que contemporâneo. Na sua tentativa de romance, consegue mostrar a idade do cinismo que vivemos, dos fluxos abstratos de capitais, do “capitalismo financeiro” e toda sua cultura refinada – ainda a psicanálise, ainda determinado cultivo do ego, ainda o pior do que as classes-médias podem apresentar. Numa época de golpes e austeridades financeiras mundo afora, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda. Mostra “como ainda somos piedosos” – e cínicos -, na leitura de Nietzsche feita por Guattari e Deleuze.

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O tema e o tom do Camões de José Saramago

O mercado editorial não é o campo de flores dos “campeões de venda”, como a Companhia das Letras. É uma mercado sombrio, como o as brumas do Porto como descrita por Saramago, quando faz reviver Camões em sua peça teatral. Na foto, o mínimo cuidado editorial, com as ilustrações de Günter Grass, até para compensar, visualmente, os apelos para a venda de um livro incompleto (Alabardas!). Não tem café grátis e, no dia a dia, só mediocridade, como descrito na crítica ao projeto gráfico da imperial Companhia editorial brasileira.

O Império suposto responsável por fazer de Camões um maneirista ao invés de um classicista, tinge com as mesmas cores melancólicas obras brilhantes de autores contemporâneos. No caso, Saramago, reeditando a partir da figura de Camões o furor heroico de Heitor, na mais exata acepção grega de acordo com a leitura renascentista, como atesta Giordano Bruno, tenta restabelecer as bases legítimas da guerra, ao contrário da fúria aquilina, do auto-amor magoado, do sujeito vingativo, do agente imperial capaz de cometer todas e quaisquer sandices, como Homero retratou com a descrição do lamentável funeral de Pátroclo.
A caixa de fundo falso que é a Companhia das Letras, repetindo paradigmas filosóficos-editoriais-mercadológicos que ecoam práticas do século das Luzes, como a caixa de fundo falso montada por Joseph de Maistre em seu Elogio ao Executor, mostra claramente as diferenças da civilização heroica do Renascimento, fundamentalmente mediterrânico, contra os prejuízos da hipotética ilustração dos países da civilização científica banhados pelo Mar do Norte.
No mais, fazemos às vezes do dr. Challenge (para mim, na humilde tradução, o dr. Charada), de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no Mil Platôs. Confundimos os estratos, os tempos verbais, as camadas geológicas que formam o substrato da história terrestre. Nada mais atual do que os arcaísmos, como na arqueologia foucaultiana, na história da arte de Didi-Huberman, ou pelo amor ambivalente do historiador pelo passado. Qual seria, hoje, a cidade do Porto que José Saramago quis reescrever?



O tema e o tom do Camões de José Saramago
Um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto não se divisasse, como de costume, as naus; muito menos suas longas velas, brancas, porém que antes serviam como se fossem a bandeira nacional, como se estandartes da antiga gloria lusitana no mundo. Não que faltassem velas ou barcos, o porto estava movimentado como de costume. Contudo, tampouco pessoas podiam ser vistas como normalmente as vemos. O cheiro da canela, da pimenta, a voz dos marinheiros embriagados confundida com a gritaria dos vendedores que se apinhavam no ponto nodal da cidade, tudo isso parecia também imerso em trevas, na treva cinzenta que se apoderava naquela manhã da cidade do Porto. Um retrato mudo como mudos foram todos os retratos que os antigos se acostumaram a admirar, sem cinema, sem o domínio da reprodução eletrônica do som, sem a eloqüente figuração de personagens e eventos nas páginas dos romances modernos. Naquele momento em Portugal, somente silêncio e versos, versos ainda menos inteligíveis do que o inexpressivo burburinho do porto frente à névoa cinzenta, versos heróicos e bravos que são ainda maiores e mais altos do que a eloqüência humana frente a vitória lusitana nos tempos passados. Versos heróicos não como os do velho Camões, mas versos líricos acompanhados da mais profunda solitude, como vivenciou com grandeza o velho Camões. Por isso, um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto…
O tema da capa do livro de José Saramago, Que farei com este livro?, é ainda mais enigmático do que imaginar uma cidade do Porto coberta de névoa pesada, cinzenta, pois nada diz e, portanto, pode dizer qualquer coisa. A capa do livro editado pela Companhia das Letras pode servir para qualquer outro livro de Saramago, como a qualquer outro autor de qualquer área do conhecimento. É do tipo de arte abstrata como incentivada por Rockfeller, Fundação Ford e outros think-thanksdurante o período conhecido como Guerra Fria cultural. Esse tipo de arte, não metafórica, nos conduz não apenas à simplicidade expressiva de sociedades consideradas menos evoluídas (quanto a esse tipo de “pensamento primitivo”, foi trabalho feito por Levi-Strauss durante toda sua vida em demonstrar a complexidade estética, religiosa e lingüística dessas sociedades), mas ao que se entende por desvio de foco. O mal não se encontra em deliberadamente, conscientemente, fazê-lo; antes, o próprio fato de não conscientemente, voluntariamente, fazer o bem, deixando as “coisas correrem” ou ser indiferente ao potencial de bem que posemos alcançar, por si só já é o início do mal. Portanto, quando deliberadamente se escolhe por um bem menor, ou por uma fórmula expressiva que não remete à complexidade da mentalidade humana, ou seja, a potencialidade da ação humana sobre o mundo, ainda que esta arte não seja em si má, é uma operação que encobre todo o bem potencial a ser realizado. No caso do livro, nada em seu exterior, muito menos em seu tratamento editorial, remete à metáfora produzida por Saramago ao falar através de Camões, talcomo Kepler fez em sua hipótese vicária ao falar como se fosse umantigo, porém para esgotar suas limitações e trazer a descoberta de um novo princípio físico para a humanidade.
A editora Companhia das Letras poderia, em determinado sentido, ser considerada um orgulho nacional devido ao seu inegável sucesso editorial. No entanto, o que enxergamos quando analisamos um pouco mais detidamente a estrutura dessa companhia é uma caixa de fundo falso, que remete a um outrem não devidamente reconhecível. Detém o controle acionário “nacional” o sistema bancário Itaú-Unibanco; contudo, 45% de suas ações foram compradas pela Penguin, outro sucesso editorial, só que do mundo anglo-saxão. A Penguin, por sua vez, se uniu a outro gigante do setor, a editora britânica Randon House; todas são controladas pela Person, empresa controladora de revistas como a The Economist e do jornal Financial Times. É notório o vínculo da chamada mainstream mediacom os bancos transnacionais, a indústria armamentista e instituições culturais como as de Ford e Rockfeller. Todo o pacote embutido no controle acionário da Companhia das Letras remete a essa caixa de fundo falso com uma bela embalagem, no caso em questão, a administração da editora por Luiz Schwarcz e sua mulher, historiadora e antropóloga, Lilia Moritz Schwarcz, e também a família Moreira Sales. Essa teia cujas cabeças nos são desconhecidas, por ser similar a mitologia Hidra, ainda controla grandes centros educacionais no Brasil e mundo afora, como é o caso do Sistema Educacional Brasil (SEB), do empresário Chaim Zaher, de Ribeirão Preto. Com isso, a afilhada da Person-Penguin-Randon House e co-irmão da The Economist e do Financial Times, Companhia das Letras, passou a ter mais alguns irmãos em sua família, no caso as marcas que trabalham com a educação COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name1.
Poderíamos compor um elenco de capas esdrúxulas dos livros editados pela Companhia das Letras, abstraindo um pouco do tema central de nossas palavras, ou seja, a peça de José Saramago. Não podemos fazer isso para não prejudicar o restante da análise com temas correlatos, porém é importante enfatizar que a relação entre livro e capa é oposta a da relação embalagem-caixa. Se o Itaú-Unibanco nada tem de nacional, antes trabalhando de acordo com as diretrizes financeiras dos think tanksinternacionais, atuando dessa maneira como um global playerna economia nacional, sem ao menos lhe passar pela cabeça a idéia de fomentar o desenvolvimento do país, a feia capa que esconde o livro de José Saramago e demais escritores não é suficiente para apagar o que foi escrito, ainda que as diretrizes editoriais dessas indústrias antes zelem pela ausência de um trabalho científico-editorial, ou seja, um posicionamento político-filosófico, que a permita contribuir e dialogar com a educação e a cultura no Brasil, e não fazer um trabalho de encobrimento dos valores culturais através da ostentação de suas supostas virtudes no mercado global e dos meros “títulos” que ostentam em seu catálogo.
O que está em jogo aqui é o contraposto claro a atonia dos personagens que se acotovelam numa cidade do Porto imersa em sombras. O escândalo, pressuposto necessário a paralisação das reações humanas normais e rotineiras, somente pode ser superado por um ato de natureza bem distinta e superior. Ao escândalo produzido pela corte corrompida do mitológico rei Sebastião, com seus vestais da ética fantasiados com os panos negros que semeiam o dissídio entre os seres humanos – cardeais, bispos, o papa – se contrabalanceia a razão camoniana, focada não tanto em palavras de ordem, em discursos moralizadores e gestos grandiloqüentes. A historiografia mais rudimentar é capaz de reconhecer a distância enorme que separa Camões e seu espantoso conhecimento erudito, do eruditismo de movimentos letrados como os dos iluministas franceses. Porém, essa historiografia rudimentar conhece apenas uma espécie de espaço-tempo newtoniano, uniformemente regular dentro de uma sequência infinita de eventos que ocorrem dentro de um espaço plano. O que separa a erudição camoniana da encontrada nas Luzes não é um suposto caráter mais moderno, científico, desta última. Se Rousseau pregava a ausência de representação para combater os problemas inerentes ao sistema representativo, no seu caso o personalismo à romana embutido no Absolutismo, Camões sai da ordem do discurso, do espaço plano newtoniano, das meras palavras ou do que se conhecesse hoje como “matemática pura”, e se posiciona no centro do escândalo que absorve todas as energias de sua pátria outrora gloriosa. Camões, como Heitor após ouvir o clamor de Helena, pode cantar assim:
Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e do filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos Gregos2.
A ironia do texto homérico não compreendida por Platão é a concepção que separa Heitor de Aquiles. Este é conhecido não só pelo calcanhar, mas por sua “fúria” e uma suposta descrição fantástica do seu escudo por Homero. Aqui, inclusive no mito do calcanhar, reside a ironia homérica. Aquiles, furioso com a morte de seu escudeiro Pátroclo, resolve esquecer os dissídios com Agamenon e entrar na guerra. Seu alvo é Heitor, o maior guerreiro de Tróia. Pode-se conceber uma ironia em Homero porque ele não faz uma crítica direta aos deuses; ele os louva, ao mesmo tempo em que mostra toda a confusão gerada por eles. Os deuses fomentadores de guerra da Grécia arcaica são contrapostos pela nobreza guerreira de Heitor, amante da pátria, da sua família e de seus conterrâneos. A destruição da lendária Ílion, dos construtores de cidade nas terras banhadas pelo mar Egeu, dos filósofos pré-socráticos e do início do renascimento do mundo antigo ocorrido a partir da Grécia, é retratada por Homero como uma trama dos deuses, dos deuses oligarcas, tal como no império invisível que assolou com guerras e destruição todo o século XX e continua espalhar o caos no século atual, principalmente nas sociedades construídas no norte do Atlântico. A intriga dos deuses, o escândalo por eles provocado a fim de levar a destruição a formosa cidade retratada na Ilíada, é a ironia incompreendida por Platão, incapaz de reconhecer Heitor como protótipo do guerreiro que menospreza a vida com o objetivo de salvá-la. Por isso, Saramago relembra, dentre tantos versos dos Lusíadas, especificamente estes, dramatizando-os:
LUÍS DE CAMÕES
(lendo e acentuando progressivamente a ênfase)
Dai-me uma fúria grande e sonorosa, / E não de agreste avena ou frauta ruda, / Mas de tuba canora e belicosa, / Que o peito acende e a cor ao gesto muda; / Dai-me igual canto aos feitos da famosa / Gente vossa, que a Marte tanto ajuda: / Que se espalhe e se cante no universo, / Se tão sublime preço cabe em verso. (Falando como se pensasse). Aqui é que deverá entrar a dedicatória a el-rei… (Lendo outra vez). E vós, Tágides minhas… (Fala). Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei… (Torna a ler). E vós, Tágides minhas… (Fala). Um verso, para começar, que emparelhasse com este, um vocativo… (Começa a ouvir-se a sineta da galera dos mortos da peste). E vós, ó bem nascida segurança… Sim, isto será… (Senta-se à mesa, puxa pena, papel e tinta e começa a escrever. A sineta vai aumentando de intensidade) E vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança… (Vai diminuindo o tom, enquanto diminui também o toque da sineta e a luz baixa)3.
Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei…”. Assim pensa Camões enquanto escreve seus versos. Segundo Saramago, Diogo do Couto vê sombras. Como ser diferente, devido a sua longa estadia nas Índias, com a visão de todos os descalabros cometidos pelos portugueses naquelas terras? Camões, pelo contrário, canta o alvorecer da glória portuguesa, a faina guerreira que levou seu povo às maiores glórias. Ao contrário da prosa crepuscular de Couto, Heitor renasce em seus versos, como o único caminho capaz de tirar sua pátria do atoleiro imposto pelo rei lunático e o fanatismo imposto pelo Santo Ofício. Porém, são crepusculares os diálogos teatrais de Saramago, como também foi a conturbada vida de Camões. Este conseguiu publicar sua grande obra, ninguém ainda hoje sabe ao certo como. O que é certo é que só publicou depois de assistir ao aprisionamento e depois assassinato de seu amigo, o humanista e historiador Damião de Góis, um dos mais ácidos críticos da decadência portuguesa. É pela bravura, pela coragem indômita, tal como a dele, a de Diogo Couto, a de Damião de Góis, que clama o poeta. É a partir dessa coragem que nasce sua vontade de saber, não importa sob quais circunstâncias. Na pobreza e miséria da Índia ou de Portugal, Camões esculpiu seus bravos versos, não como o intelectual bem remunerado ou agraciado nos salões como os “iluminados” da sociedade científica dos séculos XVII e XVIII. Estes, por sua vez, são os pressupostos necessários para se entender a luta pela ausência de representação, pela supressão da ordem e ascensão da personalidade carismática, tal como ocorrido no período do Terror jacobino.
O jacobinismo, regiamente pago pela Companhia das Índias Orientais britânica, procurava fazer subir ao poder seu “carismático” rei, carinhosamente chamado, em tradução livre, de Felipe Igualdade4. O Bourbon, amigo do banqueiro suíço Jacques Necker, foi a tentativa falha realizada posteriormente pelo primeiro fascista moderno, Napoleão. Queimados na pira revolucionária – onde parece que se ergueu a primeira guilhotina como para lembrar a primeira fogueira acessa na fatídica Noite de São Bartolomeu –, Robespierre, Danton, Marat, são os modelos do tipo de criticismo contemporâneo em torno fundamentalmente de assuntos políticos. Reeditam a fúria do semi-deus Aquiles, e encontram a morte por meio de destino semelhante ao de seu ídolo. Quando sua mãe Tétis o avisa que caso entrasse na guerra, ao pelejar contra Heitor, não escaparia da morte, é o mote para Homero brilhantemente construir a fábula do calcanhar do herói, sendo a flecha que o acerta nada além do velho significado deste símbolo, ou seja, a verdade, filha da precisão e da destreza dos nobres heróis que corajosamente a lançam. No caso, o errante Páris, incitado a guerra por Heitor, é quem coroa a tragédia, cobrindo de vileza o funeral do idolatrado semi-deus, capaz apenas de lançar poeira ao alto e contribuir ainda mais para a confusão, o escândalo e o genocídio que representam o fim da gloriosa Ílion. Este tipo de semi-deus que se ergue com a revolução na França, com toda sua fúria à moda de Aquiles, é do tipo de indignação que nasce do amor-próprio ferido, e da reação desproporcional que segue como a ação dos filhos dos deuses do Olimpo, no caso francês o império britânico patrocinador do fim do movimento científico que tinha por fim estabelecer as bases de um governo constitucional no país, ao invés do tipo de parlamentarismo refém dos interesses de um banco central independente, tal como o modelo britânico pressupunha, modelo este idêntico ao babilônico-aristotélico responsável pela queda de Ílion e da Atenas de Sócrates e Platão.
A distinção entre Heitor e Aquiles é fundamental para se entender o que desde a Grécia compreendemos como Ideia, ou seja, o modelo espitemológico platônico, e a ideologia da “grande prostituta”, como retratada por João em seu Apocalipse, que é aquela que fala muitas línguas e confunde os homens a fim de enredá-los em sua rede de intrigas – como nas redes tecidas pelos panfletos acusatórios jacobinos, rede fratricida cujo intuito era o colapso da ordem social vigente e dos debates que se faziam para superá-la através de um princípio epistemológico superior, o ordenamento constitucional. Esta rede são as que hoje cotidianamente produzem o escândalo ou a perversão cultural, como na Guerra Fria cultural, todos tendo a forma de uma caixa de fundo falso, como o cadafalso admirado por Joseph de Maistre, amante da revolução jacobina e teórico preferido de Napoleão; essa é a caixa de fundo falso que nos conduz a análise de instituições como a da global player Companhia das Letras, achada no mesmo saco de think tankscomo The Economist, Financial Times, a editora Penguin, Itaú-Unibanco – sem esquecer da face admirável, da antropóloga e seu marido, mais a família Moreira Salles, como supostos controladores da editora. É bom relembrar as célebres palavras de Maistre em seu elogio ao Executor, o qual, segundo Isaiah Berlin, estava nas origens do fascismo, como bem exemplifica seu maior seguidor, Bonaparte:
Qu’est-ce donc que cet être inexplicable qui a preféré à tous les métiers agréables, lucratifs, honnêtes et même honorables qui se présentent en foule à la force ou à la dextérité humaine, celui de tourmenter et de mettre à mort ses semblables ? Cette tête, ce coeur sont-ils faits comme les nôtres ? ne contiennent-ils rien de particulier et d’étranger à notre nature ? Pour moi, je n’en sais pas douter. Il est fait comme nous extérieurement; il naîte comme nous; mais c’est un être extraordinaire, et pour qu’il existe dans la famille humaine il faut un décret particulier, un FIAT de la puissance créatice. Il est comme un monde. Voyez ce qu’il est dans l’opinion des hommes, et comprenez, si vouz pouvez, comment il peut ignorer cette opinion ou l’affronter ! A peine l’autorité a-t-elle désigné sa demeure, à peine en a-t-il pris possession, que les autres habitations reculent jusqu’à ce qu’elles ne voient plus sienne. C’est au milieu de cette solitutde, et cette espèce de vide formé autour de lui qu’il vit seul avec sa femelle et ses petits, qui lui font connaître la voix de l’homme : sans eux il n’en connaître que les gémissements… Un signal lugubre est donné ; un ministre abject de la justice vient frapper à sa porte et l‘avertir qu’on a besoin de lui: il part; il arrive sur une place publique couverte d’une foule pressée et palpitante. On lui jette un empoisonneur, un patricide, un sacrlège : il le saisit, il l’étend, il le lie sur une croix horizontale, il levé le bras : alors il se fait un silence horrible, et l’on n’entend plus que le cri des os qui éclatent sous la barre, et les hurlements de la victime. Il la détache ; il la porte sur une roue : les membres fracassés s’enlancent dans les rayons ; la tête pend ; les cheveux se hérissent, et la bouche, ouverte comme une fournaise, n’envoie plus par intervalle qu’un petit nombre de paroles sanglantes qui appellent la mort. Il a fini: le coeur lui bat, mais c’est de joie; il s’applaudit, il dit dans son couer: Nul ne roue mieux que moi. Il descend : il tend sa main souillée de sang, et la justice y jette de loin quelques pièces d’or qu’il emporte à travers une double haie d’hommes écartés par l’horreur. Is se met à table, et il mange ; au lit ensuite, et il dort. Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille. Est-ce un homme ? Oui : Dieu le reçoit dans ses temples et lui permet de prier. Il n’est pas criminel ; cependant aucune langue ne consent à dire, par exemple, qu’il est vertueux, qu’il est honnênte homme, qu’il est estimable, etc. Nul éloge moral ne peut lui convenir ; car tous supposent des rapports avec les hommes, et il n’en a point.
Et cependant toute grandeur, toute puissance, toute subordination repose sur l’exécuteur : il est l’horreur et le lien de l’association humaine. Ôtez du monde cet agent incompréhensible ; dans l’instant même l’ordre fait place au chaos, les trônes s’abiment et la société disparaît. Dieu qui est l’auteur de la souveraineté, l’est donc aussi du châtiment : il a jeté notre terre sur ces deux pôles : car Jéhovah est le maître des deux pôles, et sur eux il fait tourner le mond5.
No tom épico do texto de Joseph de Maistre, a saga do Executor é retratada como a do Cordeiro imolado, porém nunca morto. Ele ressurge após a execução, volta para casa, come e dorme: “Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille”. Ele é um homem, pergunta Maistre? Claro, Deus o recebe em seu seio e permite que ele ore, ainda que nenhuma voz ouse se levantar para chamá-lo de virtuoso, de honesto, de admirável. Toda grandeza, todo o poder, contudo, reside nele. Tal como a caixa de fundo falso, ele é ambivalente, ambíguo como o Deus bipolar que faz o mundo girar. Ele é o Deus do cadafalso, da guilhotina, do jacobino Tribunal da Razão, da acusação sem provas, do amor pelo terror. É como o doutor Angélico fornecendo as premissas teóricas para as Cruzadas dos papas ultramontanos: o problema não são os infiéis, mas o que eles podem representar. Faremos, portanto, uma guerra de prevenção contra todos aqueles que podem, algum dia, levar a perder a hegemonia católica no mundo. Façamos guerra aos que chamamos infiéis, presumindo-os culpados por um crime que talvez nunca venham a cometer. Assim se chega às guerras preventivas de Bush Jr. e Dick Cheney no Iraque e no Afeganistão; assim chegamos ao tipo de acusação tendenciosa dia a dia feita pelos conglomerados midiáticos que se ramificam mundo afora, e dos quais a estimada Companhia das Letras faz parte.
Depois de condenar os hereges à morte, ainda que revogável com o perdão papal caso se submetam às diretrizes católicas, o doutor Angélico assim se expressa (em tradução livre do inglês, por não ser redação original):
Existem alguns infiéis como os gentios e os hebreus que nunca aceitaram a fé cristã. Esses não podem de nenhuma maneira serem forçados a acreditar… A força apropriada deve ser usada pelos fiéis para prevenir que eles interfiram na fé com a blasfêmia ou vis estímulos, ou perseguição aberta… Essa é a razão pela qual os cristãos freqüentemente fazem guerra aos infiéis, não para forçá-los a acreditar… mas para prevenir que eles interfiram na fé cristã. Contudo, existem outros infiéis, como os heréticos e todos os apóstatas que uma vez aceitaram e professaram a fé. Esses devem ser obrigados, ainda que pela a força física, a cuidarem do que eles prometeram e manter o que eles uma vez aceitaram6.
Como José Saramago poderia compartilhar de semelhante sentimento ao destacar os bravos versos camonianos? O que podemos destacar como uma tendência recorrente em toda sua extensa bibliografia (que não se evade, antes procura os temas espinhosos, históricos e políticos), é a serenidade, a capacidade de julgamento lúcido, ainda que incisivo, sem ter sido pego nas teias das ideologias fabricadas mundo afora, cujo intuito é reeditar o tipo de cisão cultural e política entre os homens, tal como na Guerra Fria. Guerra ao terror, guerra à corrupção, como se faltassem alternativas viáveis para se discutir dentro do terreno político, como por exemplo projetos de infra-estrutura e integração entre a Europa e o Oriente Médio. Não, só guerra e acusações infundadas. Como se no combate a corrupção não estivesse em jogo o modelo do sistema político, no caso brasileiro moldado por Golbery, numa espécie de parlamentarismo disfarçado, onde vemos o poder executivo refém dos interesses de um Parlamento que atende às vozes dos interesses bilionários que o patrocina. A moralização da política nesse sentido serve apenas para levar ao poder figuras carismáticas, controladas por interesses complexos dentro da rede de tramas do oligopólio financeiro internacional – ninguém é mais símbolo desse estilo de poder “moral” do que Hitler…
Por isso Saramago não se enreda nessas redes. E é por esse mesmo furor guerreiro ou furor heróico, como nomeou Giordano Bruno, que Camões, como Gil Vicente em sua época, incita a pátria à guerra. Como os reis guerreiros da Idade Média, ainda na Renascença é impossível pensar em riqueza sem a expansão das fronteiras nacionais, o que implicava a guerra de conquista. A Conquista de Ceuta é o marco do novo estado que surge com a dinastia de Avis. O que já em Gil Vicente, e de maneira ainda mais veemente, quiçá desesperada, aparece em Camões, é a necessidade do Estado voltar a se expandir, trazendo a riqueza do comércio para a população, e não se enredando nos descaminhos do ganho fácil, dos nobres que parasitam a corte já no reinado de D. Manoel. É de sacrifício próprio e não o alheio que fala Saramago, Camões e Gil Vicente. Este, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa:
Deveis, Senhores, esperar
Em Deos que vos ha de dar
Toda Africa na vossa mão,
Africa que foi de Christãos,
Mouros vo-la tem roubada.
Capitães ponde-lh’as mãos,
Que vós vereis mais louçãos
Com famosa nomeada.
Ó Senhoras Portuguesas,
Gastae pedras preciosas,
Donas, Donzellas, Duquezas,
Que as taes guerras e emprezas
São propriamente vossas.
He guerra de devação,
Por honra de vossa terra,
Commettida com razão,
Formada com discrição
Contra aquella gente perra.
Fazei contas de bugalhos,
E perlas de camarinhas,
Firmaes de cabeças d’alhos;
Isto si, Senhoras minhas,
E esses que tendes dae-lh’os.
Oh! que não honrão vestidos,
Nem mui ricos atavios,
Mas os feitos nobrecidos;
Não briaes d’ouro tecidos
Com trepas de desvarios:
Dae-os pêra capacetes.
E vós, Priores honrados,
Reparti os Priorados,
A Suiços e soldados,
Et centum pro uno accipietis.
A renda que apanhais
O melhor que vós podeis,
Nas igrejas não gastais,
Aos pobres pouco dais.
E não sei que lhes fazeis.
Dae a terça do que houveres,
Pera Africa conquistar,
Com mais prazer que puderdes;
Que quanto menos tiverdes,
Menos tereis de guardar.
Ó senhores cidadãos,
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante! não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear7.
O objetivo das guerras de conquista ou pelo menos a admoestação a esse tipo de prática por poetas como Vicente e Camões, ou seja, de D. Manoel a D. Sebastião, é para impedir o parasitismo cortesão, como minuciosamente demonstrado na recriação da Portugal quinhentista por José Saramago. A soberania do reino fora extinta pela submissão ao Santo Ofício, fato verificado a partir de D. João III. O rei jovem, D. Sebastião, sem visão estratégica de governo e influenciado de forma malsã pelos padres da Companhia de Jesus, empreende uma guerra com objetivo utópico no Marrocos, com pouca ou quase nenhuma possibilidade de sucesso. As trevas que caem sobre Portugal são tão densas no período em que a nação é dominada pelos jesuítas, que a simples convocação para a guerra como feita por Vicente não era mais possível. Havia antes de se lutar contra o inimigo interno, o inimigo alojado no coração do Estado, que sugava todas as suas forças materiais e mentais, num quadro em que o parasitismo se instalara talvez de modo definitivo. O próximo passo seria se submeter a um rei estrangeiro, este também um monarca católico, bem distante da tradição peninsular de independência frente a Igreja, tradição essa que lhe rendeu os maiores frutos, como os advindos dos Descobrimentos.
É pela voz de Heitor que chama Saramago, no horizonte distante que faz ecoar os versos de Camões, já fatalmente submerso nas trevas entrevistas por Gil Vicente décadas antes. Saramago-Heitor tateia nas sombras da escuridão milenar que procura separar o mais legítimo sentimento de defesa da pátria e de seus iguais, num Portugal refém de um suposto “concerto europeu” que iria desembocar no Tratado de Lisboa8, ou seja, na tentativa de artificialmente criar uma unidade política européia a partir da união monetária. A Troika, como o jesuitismo alhures, nesse momento em que Saramago não tem mais olhos para ver o destino de seu país, ergue seu manto cinzento sobre o “concerto europeu”, levando a velha dama Europa a um passo do abismo, incapaz de ouvir a voz de Heitor que ecoa na planície – incapaz de ouvir o tema que incita à coragem. O tom é de névoa cinzenta e o tema é desagradável para todos aqueles que se acostumaram a viver na caixa de fundo falso, nas sombras da caverna platônica, no mundo dos sentidos, no mundo do escândalo jacobino,e da impotência do cidadão médio fascinado frente ao esplendor das luzes que descem do Olimpo – como se realmente fossem luzes, e não névoa cinzenta. Divide et impera, como sempre, o lema.
2 Homero, Ilíada. Tradução de Odorico Mendes. Campinas, Editora UNICAMP, 2010. Canto VI, p. 249.
3 Saramago, José. Que farei com este livro?. Lisboa: Editorial Caminho, 1980, p. 54.
4 Uma excelente referência ao assunto são dois artigos, feitos a partir de inéditas fontes primárias, publicados por Pierre Beaudry no semanário norte-americano Executive Intelligence Review, com os títulos de Jean Sylvain Bailly: The French Revolution’s Benjamin Franklin e Why France Did Not Have an American Revolution?. Podem ser lidos em: http://www.larouchepub.com
5 Extraído das Soirées de Joseph de Maistre, publicado no apêndice do ensaio de Isaiah Berlin, Joseph de Maitre and the Origins of Fascism. Em: Berlin, Isaiah, The crooked timber of humanity: chapters in the history of ideas. Nova Jersey: Princeton University Press, 2013.
6 Aquino, Tomas de. Summa Theologia, ii, ii, Q.10, Art. 8. Extraído de: Beaudry, Pierre. The Ultramontane Papacy. Publicado no site pessoal do autor: http://www.amatterofmind.org
7 Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

8 A Carta de Lisboa pode ser um eixo de análise a partir do qual se contrapor ao infame Tratado. A história de Darcy Ribeiro é fonte merecedora da mais legítima atenção, caso queiramos nos contrapor ao estilo de fascismo imposto atualmente, ainda mais se pensarmos no ocaso da civilização que se desenvolveu às margens do Mar do Norte (chegando ao norte da América), e no fascismo que hoje a derruba e querem nos impor. Fascismo londrino por excelência e norte-americano por descendência.

Como o homem vê seus deuses

O homem-deus-besta egípcio e o homem grego representando Hermes e seu filho Dionísio, na escultura de Praxiteles

Na célebre peça de Ésquilo, Prometeu Acorrentado, três visões se dividem: uma em que Prometeu nada mais é do que um traidor, um integrante do grupo dos deuses oligarcas, e que deve ser castigado; na outra, a de um herói revolucionário, apaixonado, de conotações marxistas, e que traz o fogo à Terra; numa terceira visão, não é Prometeu, mas Zeus, o deus oligarca, o personagem trágico da peça.No escudo de Aquiles, descrito por Homero, também toda uma concepção distinta a respeito da visão do homem de seus deuses e heróis pode ser vista. Como isso molda nossa cultura? A qual espécie de deuses imaginamos servir, em nossas mentes e em nossas atitudes cotidianas como atitudes sempre políticas?

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Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA)

Créditos a Arlindo Daibert

PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA



O texto integral pode ser acessado em pdf na Academia.edu ou na Revista Ideias/Unicamp

A primeira parte pode ser acessada aqui: PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE

Segunda parte do texto que entrelaça história, literatura e filosofia, especificamente as relações do Grande Sertão: Veredas e a nomadologia. História que se contrapõe aos cânones clássicos sobre o “jaguncismo”, notavelmente a história do grupo de Lampião, e que permitiu, através da literatura, desvendar a montagem de uma máquina de guerra nômade em pleno sertão, com posicionamento geográfico delimitado (não o nordeste da narrativa clássica) e que teve início na virada do século XIX para o XX. Como um romance pode contar tal história? Seria ela real?
Ao contrário da tese clássica de Hobbes segundo a qual o Estado é criado para conjurar a guerra, a nomadologia segue as diretrizes da “sociedade contra o Estado”, de Pierre Clastres: Ela só existe na medida em que conjura a existência do Estado, das formas “estriadas” de existência. Deleuze e Guattari invertem também a conhecida tese de Clausewitz, onde a guerra seria a continuidade da política. Na nomadologia, a política é entendida como extensão da atividade guerreira, mas não se limita nem à prática de guerra, tampouco aos usos tradicionais da “política”.
Como essa história tem relação com a expulsão dos insurgentes, durante a Independência, pelas tropas mercenárias contratadas por José Bonifácio? Mais ainda, como João Goulart planejou a criação de uma máquina de guerra nômade para tentar fazer reverter o golpe que se avizinhava? Logo, como hipótese de trabalho, podemos perguntar: a máquina de guerra rosiana, a história por ele relatada, teria relação com os movimentos autóctones que começaram a surgir no pré-golpe, como as Ligas Camponesas, ou seja, com movimentos nacionais pela soberania e por independência? Seria o próprio romance “Grande Sertão: Veredas” construído em seu tempo como uma máquina de guerra?




O romance na história
Edward Said, no seu “Cultura e Imperialismo”, fez breve e excelente interpretação do platô “Nomadologia”, que trata exatamente da “máquina de guerra nômade” e seus efeitos em todos os ramos do conhecimento e do poder humanos.
O capítulo intitulado “Traité de nomadologie: La machine de guerre”, baseia-se na obra de Virilo e estende suas idéias sobre o movimento e o espaço num estudo altamente excêntrico de uma máquina de guerra itinerante. Esse tratado profundamente original apresenta uma metáfora sobre uma espécie disciplinada de mobilidade intelectual numa era de institucionalização, arregimentação e cooptação. A máquina de guerra, dizem Deleuze e Guattari, pode ser identificada com os poderes militares do Estado – mas como ele é fundamentalmente uma entidade separada, não é necessário que o seja, da mesma forma que as perambulações nômades do espírito nem sempre precisam ser posta a serviço das instituições. A origem da força da máquina de guerra nômade não está apenas em sua liberdade nômade, mas também em sua metalurgia – que os autores comparam à arte de composição musical –, que forja os materiais, moldados “para além das formas separadas; [essa metalurgia, tal como a música] acentua o desenvolvimento contínuo da própria forma, e para além dos materiais individualmente diferentes, ela acentua a variação contínua dentro da matéria”. Precisão, concretude, continuidade, forma – todas elas possuem os atributos de uma prática nômade cujo poder, diz Virilio, é não agressivo e sim transgressivo. (SAID, 1995: pp. 406 – 407).
Segundo os autores, o Estado possui uma violência que não passa pela guerra, ao contratar policiais e não guerreiros, ou adquire uma força armada, mas que pressupõe uma organização jurídica da guerra e uma organização da função militar. A máquina de guerra não funciona por tratos, mas por traições. “Il serait plutôt comme la multiplicité pure et sans mesure, la meute, irruption de l’éphémère et puissance de la métamorphose” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 435). Hobbes diz ser o Estado contra a guerra e a guerra contra o Estado. Caso não concluirmos que a guerra é um estado natural, ela seria, ao contrário, um modo de estado social que conjura e impede a formação estatal. Segundo Pierre Clastres, a guerra impede as alianças, as trocas comerciais, ou seja, impede o “fator” Estado, impede a fusão de grupos. A partir desse ponto de vista, é impossível enxergar uma continuidade, uma evolução que levaria as sociedades primitivas chegarem à complexidade estatal. As sociedades primitivas e o Estado são pólos distintos e irredutíveis.
Em nossa exposição que se pretende sumária, definiremos de uma vez o que os autores entendem como nomadologia a partir da fórmula que os mesmo usam de Clausewitz, na qual “a guerra é a continuação por outros meios das relações políticas”. É claro que guerra, no texto que ora analisamos, não se reduz aos campos de batalha, sendo toda a disputa cientifica, social, econômica, etc., ou seja, existe toda uma relação que se empregam na relação entre o Estado e os mecanismos que formam seu exterior. A fórmula de Clausewitz não seria uma idéia pura que levaria a um aniquilamento abstrato do adversário. Ela teria a guerra como objetivo e que entretém com a mesma uma “relação sintética potencial ou suplementar”.
Na nona e última proposição do texto, se afirma que “a guerra não necessariamente tem por objeto a batalha, e acima de tudo a máquina de guerra não tem necessariamente por objeto a guerra, apesar de a guerra e a batalha assim resultar necessariamente (sob certas condições)”. Portanto, seria a guerra ela mesma objeto da máquina de guerra? Ela é a invenção dos nômades, por sua essência ser constituída pelo espaço liso, da ocupação desse espaço, do deslocamento para esse espaço e para a correspondente composição dos homens: “c’est là son seul et véritable objet positif (nomos). Faire croîte le désert, la steppe, non pas les dépeupler, bien au contraire” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 519). Se a guerra acontece “necessariamente” é porque a máquina de guerra se choca com o Estado e as cidades, “como as forças (de estriagem) que se opõem ao objeto positivo”. Assim começa a guerra, ao se procurar anular as forças do Estado, ao tentar conseguintemente destruir a “forma-Estado”.
O problema propriamente dito não seria da realização ou não da guerra, mas da apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado. Enquanto aquela possuir um “devir abstrato”, procura perpetuar sua própria forma para além das inibições da estratificação social – como a história do bando de moleques de rua e sua vida livre e carregada de poesia em os “Capitães de Areia”, de Jorge Amado –, este (o Estado) procura se apropriar dos mecanismos fluídos do nomadismo a fim de que ele trabalhe para si, para seus objetivos políticos, os quais consequentemente aparecem como forma de guerra. É interessante o conceito de Deleuze e Guattari sobre a guerra total praticada pelos Estados e sua gênese na apropriação da máquina de guerra:
La question donc moins celle de la réalisation de la guerre que de l’apropriation de la machine de guerre. C’est en même temps que l’appareil d’Etat s’approprie la machine de guerre, la subordonne à des buts “politiques”, et lui donne pour objet direct la guerre. Et c’est une même tendance historique qui entraîne les Etats à évoluer d’un triple point de vue: passer des figures d’encastement à des formes d’appropriation proprement dite, passer de la guerre limitée à la guerre dite totale, et transformer le rapport du but et de l’objet. Or les facteurs qui font de la guerre d’Etat une guerre totale sont étroitement liés au capitalisme: il s’agit de l’investissement du capital constant en matériel, industrie et economie de guerre, et de l’investissement du capital variable en population physique et morale (à la fois comme faisant la guerre, et la subissant). En effect, la guerre totale n’est pas seulement une guerre d’anéantissement, mais surgit lorsque l’anéantissement prend pour “centre” non plus seulement l’armée ennemie, ni l’Etat ennemi, mais la population tout entière et son économie. Que ce double investissement ne puisse se faire que dans les conditions préables de la guerre limitée montre le caractère irrésistible de la tendance capitaliste à développer la guerre totale. Il est donc vvrai que la guerre totale reste subordonée à des  buts politiques d’Etat et réalise seulemnt le maximum des conditions de l’appropriation de la maquine de guerre par l’appareil de’Etat. Mais il est vrai aussi que, lorsque l’objet de la maquine de guerre appropriée devient guerre totale, à ce niveau d’un ensemble de toutes les conditions, l’objet et le but entrent dans ce nouveaux rapports qui peuvent aller jusqu’à la contradiction. D’où l’hésitation de Clausewitz quand il montre tantôt qu’elle à effectuer l’Idée de la guerre inconditionée. En effect, le but reste essentiellement politique et determiné comme tel par l’Etat, mais l’objet même est devenue illimité. On dirait que l’appropriation s’est retournée, ou plutôt que les Etats tendent à relâcher, à reconstituer une immense machine de guerre dont ils ne sont plus que les parties, opposables ou apposées. Cette machine de guerre mondiale, qui “ressort” en quelque sorte des Estats, présent deux figures successives: d’abord celle du fascisme qui fait de la guerre un mouvement illimité qui n’a plus d’autre but lui-même; mais le fascisme n’est qu’une ébauche, et la figure post-fasciste est celle d’une machine de guerre qui prend directement la paix pour objet, comme paix de la Terreur ou de la Survie. La machine de guerre reforme un espace lise qui prétend maintenant contrôler, entourer toute la terre. La guerre totale est elle-même dépassée, vers une forme de paix plus terrificant encore. La machine de guerre a pris sur soi le but, l’ordre mondial, el les Etats ne sont plus que des objets ou des moyens appropriés à cette nouvelle machine. C’est là que la formule de Clausewitz se retourne effectivement; car, pour pouvoir dire que la politique est la continuation de le guerre avec d’autres moyens, il ne suffit pas d’inverser les mots comme si l’on pouvait les prononcer dans un sens ou dans l’autre; il faut suivre le mouvement réel à l’issue duquel les Etats, s’étant appropriés une machine de guerre, et l’ayant approprié à leurs buts, redonnent une machine de guerre qui se charge du but, s’approprie les etats et assume de plus en plus de fonctions politiques (DELEUZE; GUATARRI, 1990: pp. 524 – 525).
A guerra total promovida pelo Estado é, nos dias atuais, a guerra do Afeganistão e do Iraque, os dois exemplos mais notáveis. Sem nenhuma base na realidade, cooptando os meios de comunicação (três ou quatro que são os maiores do mundo e que portanto tem suas notícias ecoadas por todas as partes sem possibilidade, a priori, de maiores averiguações), criam factóides para continuar a construir civilizações à base da rapina. A apropriação da máquina de guerra pelo Estado é a guerra do Paraguai cooptando escravos e os escalões inferiores da sociedade para defender um expansionismo despótico e é também encarnada nos cientistas nazistas, onde cada um fazia uma parte minúscula de uma pesquisa bem mais ampla e que no fim daria como resultado a bomba atômica, muito bem barganhada pelos EUA através dos serviços de Robert Oppenheimer.
A apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado é atestada no caso brasileiro durante a formação da Marinha Imperial. A historiografia acostumou-se a tachar simplesmente de mercenários os capitães ingleses que dominaram as revoltas no Pará, Maranhão e Bahia após a Proclamação da Independência. Um estudo independente dos cânones, feito por Nélio Galsky (sua tese de mestrado), na UFF, vem clarear um pouco as origens de nossa Marinha e, por contraste, a de seu fundador nativo, Tamandaré. Vamos a uma pequena biografia do Almirante Cochraine, antes de se engajar nas lutas brasileiras, escrita por Nélio:
De origem aristocrática, herói das Guerras Napoleônicas, ele se transformaria rapidamente em crítico do almirantado britânico. Depois de acusar alguns superiores de covardia, discutiria a lisura dos tribunais de presas, e principalmente, investiria contra as condições desumanas impostas aos marinheiros. Em uma época em que o recrutamento forçado ainda era a tônica nas Marinhas européias, ele atacaria a falta de alimentação adequada nos navios, de recursos médicos, e a ausência de pensão no caso de incapacidade dos feridos. Suas críticas à corrupção nos altos escalões da Royal Navy o aproximariam dos radicais da política britânica, ao mesmo tempo em que lhe criariam inimizades em vários setores da elite. Eleito para o Parlamento em 1807, ele defenderia várias posturas do jacobinismo inglês, como a ampliação do sufrágio universal. Porém uma questão mostraria os limites do seu radicalismo: a cada vez que um dos seus colegas pedia a retirada das tropas que lutavam na Espanha. Cochrane retirava-se da sala e não participava dos trabalhos parlamentares. Lutar contra a corrupção na Marinha e pela melhoria das condições de vida dos marinheiros era uma coisa, lutar pelo término da guerra, que representaria o fim das possibilidades de apresamento de barcos e cargos, era outra.
Em 1814, foi expulso do Parlamento, em consequência de um escândalo na Bolsa de Valores: um coronel, conhecido de Cochrane, espalhou o boato da morte de Napoleão. A notícia era falsa, mas fez com que houvesse uma alta súbita das ações, beneficiando certo número de investidores, entre os quais estava o próprio Almirante. Embora tenha protestado inocência e atribuído seu envolvimento no escândalo a uma conspiração política dos seus inimigos conservadores, ele perderia todas as suas condecorações e títulos. Após 1818, o Almirante deixaria a Inglaterra e dedicaria a sua energia e coragem à criação e/ou liderança das forças navais do Chile, Peru, Brasil e Grécia (GALSKY, 2006: pp. 16 – 17).
Continuando seu estudo, o autor nos narra que o corso servia como forma de sobrevivência ou uma espécie de fonte de renda dos oficiais da marinha britânica durante a época moderna, já que não se havia instituído no país a racionalização da administração estatal, fruto, entre outros motivos, das guerras napoleônicas, as quais fizeram as monarquias européias aparelharem seus mecanismos de poder com uma força armada forte, numerosa e de alistamento compulsório. A perda da lealdade ao capitão em favor da lealdade ao Estado é o corolário desse movimento, tornando anacrônica a cumplicidade entre os oficiais e seus subordinados provocadora do corso, da “pirataria oficial” realizada até então.
Os meios de coesão entre os integrantes das esquadras britânicas mudam de feição à chegada da burocratização cada vez maior do Estado surgido após as revoltas e revoluções que marcam o fim da Era Moderna. O fim do corso também é conseqüência da introdução dos navios a vapor nas navegações de grande distância e a resistência à profissionalização da Royal Navy pode ser imputada à mentalidade independente dos nascidos na Bretanha, que se outorgavam o direito de servir aos países que falavam mais próximo às suas concepções de deveres de oficial.
Cochrane, depois se sair vencedor nas guerras brasileiras e ao nomeado Marquês do Maranhão, iria enfrentar graves empecilhos para reaver as terras e o dinheiro que achava em seu direito após as conquistas realizadas. Grenfell, o qual mais tarde se tornou o mais prestigiado marinheiro estrangeiro a serviço do Império, por seu lado, além dos problemas relativos às presas (situação quase cotidiana enfrentada por esses comandantes e seus tripulados), foi também protagonista quando ainda possuía 26 anos e comandava a frota de Cochrane na pacificação do Pará de um dos episódios mais obscuros da reconquista das terras brasileiras por eles promovida. Além de ter executado, aparentemente de forma aleatória, cinco revoltosos da situação política no Pará, teve em seu navio uma rebelião de presos cujo final resultou na morte de praticamente todos que lá estavam condicionados, ou seja, mais de duzentas pessoas. Não se sabe ainda hoje com plena certeza como o tumulto se iniciou e muito menos a causa de um desfecho tão trágico. O comandante fez sua defesa, mas levou a fama, apesar de não ter levado a pena (que não conseguiu ser provada) pelo massacre.
Não queremos aqui um julgamento pessoal desse ou daquele herói. A Marinha ou os historiadores dos feitos militares é que carregam a responsabilidade sobre tais discussões. Queremos posicionar as frotas de Lord Cochraine dentro da perspectiva da apropriação da máquina de guerra nômade pelo aparelho de Estado e da grave importância do militarismo frente à desagregação do país promovida principalmente pelas Cortes de Lisboa.
Guattari e Deleuze expõem o aspecto negativo da cooptação de elementos exteriores ao Estado. Invertendo a lógica dos autores franceses e tendo em frente a importância de uma Independência que manteve o Brasil senhor de todos seus territórios, de todas suas riquezas, sem maiores derramamentos de sangue (pois estes existiram e saltam aos olhos de quem os estuda, apesar de relativamente menor do que se as Províncias, instigadas por forças externas, quase todas se insurgissem), poderemos entender o poder nômade capturado pelo Estado como fundamental para a união nacional. Os oficiais britânicos que por aqui passaram, todos eles pertencentes à “velha escola” naval de seus países e como tal relegados a segundo plano, erravam pela América do Sul, ajudando nas guerras de independência de nações ora aqui ora lá.
O aparelho de Estado, no caso brasileiro, admitindo esses guerrilheiros em seus quadros oficiais através da criação por José Bonifácio da Marinha Imperial, promove uma “guerra total” contra as Províncias aliadas a Lisboa desprezando a organização da guerra que cada vez se tornava maior, em grande parte, depois que passaram pelo Velho Continente as tropas arregimentadas pelo gênio militar de Napoleão. O fator surpresa, assim como a mentira pura e descarada (a traição, nas palavras dos teóricos de França), foram os motores desses combates, como na conquista da maior província brasileira, a do Grã-Pará, por Grenfell, um oficial de apenas vinte e três e que chefiara somente uma expedição anteriormente – e de muito menor importância, a de busca e captura de fragatas no litoral da América Central. Chegara com uma carta de Cochraine que o mesmo e sua esquadra estavam realizando uma operação na foz do Amazonas e não tardariam.
A realidade é que Cochraine partira após os sucessos no Maranhão para o Rio de Janeiro a fim de agilizar questões relativas aos apresamentos realizados no norte. Com a bravata, a adesão dos paraenses ao Império de D. Pedro não tardou, apesar dos problemas que surgiram posteriormente, resolvidos ainda sim por um comandante jovem e sem grande habilidade política, mas com indomável coragem.
É interessante nesse momento de nosso trabalho colocar um fator de condicionalidade ao que ocorreu factualmente. Quero problematizar o ocorrido. Cochraine herdou extensas e numerosas terras no Maranhão, assim como boa parte da riqueza lá produzida. O que levou de fato do governo brasileiro, diz o Almirante, foi muito aquém do que se julgava merecedor. Qual seria o destino do lord caso quisesse entrar em guerra franca com as autoridades nacionais, se instalasse no Maranhão com seu poder que fazia temer aos habitantes daquela terra e se tornasse, sem sombra de dúvida, um verdadeiro Marquês do Maranhão (título realmente concedido a ele pelo imperador)? Tal pergunta, claro, só saberíamos com plena certeza caso tal fato se materializasse em nosso horizonte histórico. Por outro lado, não seria difícil prever as dificuldades que iria encontrar o nobre saxão, principalmente se aspirasse a se tornar uma espécie de Gárcia D’Ávila com sua Casa da Torre.
A morte, por que não, poderia ser seu fim. Caso transformasse o temor dos provincianos em amor, talvez tivéssemos um território dividido dentro do conjunto nacional. Um estrangeiro, dado o preconceito e as reservas dos homens da época a esse tipo de elemento com alguma espécie de poder, teria contra si os meios oficiais de repressão e intrigas gigantescas sem maiores esforços poderiam surgir. E o lord deveria tocar mais uma vez os clarins da guerra, só que agora em total contradição com sua luta inicial, a de manter íntegro o Brasil. A fuga, o exílio do Almirante, sem sombra de dúvidas foi a melhor escolha que poderia fazer. Tal figura não viveria pacificamente num Estado que lutava com todas as forças para encontrar sua própria identidade.
A realidade do exílio – voltando ao grande tema que ora estudamos -, a ficção de Guimarães Rosa, qual seria seu corolário na realidade plena, a da vida, tal como vemos até aqui, onde o romance em muito prefigura os acontecimentos nacionais pré-64? Jango, acredito ser a resposta correta. A realidade da máquina de guerra nômade mais uma vez se inverte ao defrontarmo-la com a história brasileira. O conceito de nomadologia se insere não exatamente em grupos que se formam às margens da sociedade ou se desenvolvem como as grandes empresas globais em seu centro, mas que guardam certa independência da regulação dos mecanismos estatais. No caso da república brasileira pré-64 existe um governo cuja representatividade está nos movimentos sociais – incipientes à época se comparados aos de hoje –, fundamentalmente inserido na questão trabalhista, que vai de encontro à tradição do oligopólio dos plantadores de café que sustentaram o Império e financiaram o início de nossa vida republicana.
Jango, com uma aprovação popular de 47 % meses antes do golpe, pode ser considerado um político bem aceito pela sociedade como um todo, devido tanto aos seu pouco tempo na chefia do Estado, como também pela ausência de canais amplos que promovessem seu governo, tal como hoje fazem a mídia partidária da tradição direitista ou como Getúlio fez para se autopromover. Tudo isso excluindo os graves conflitos que o presidente teve de enfrentar devido à tentativa de golpe de Jânio Quadros, gerando um quadro político de grande instabilidade e da insistência das Forças Armadas e das alas conservadoras do país em impedir sua posse como vice-presidente eleito.
A falta de representatividade do presidente, com os movimentos sociais pouco ramificados dentro da sociedade; os conflitos dentro dos mesmos, muitas vezes instigados por agentes exteriores neles infiltrados; a herança conservadora de nossa política desde a colonização pelo elemento português junto à marcha conservadora afim de dar legitimidade ao golpe, levantando a bandeiro de Deus e da Família, minaram as forças da política desenvolvimentista, trabalhista e autóctone que lutava por se implantar em nosso país. Tivemos a posse da presidência pelo vice-presidente eleito feito dentro dos ditames legais, mas o mesmo não obteve êxito em se legitimar como dirigente nacional. Tivemos um caso em que os elementos oriundos dos extratos marginais ao Estado, os trabalhistas, chegaram ao poder. A máquina de guerra nômade se apossou do aparelho de Estado.
Como Cochraine, Jango buscou dominar o Brasil, mas não através das armas. O plano ideal buscado por ele foi o de fazer comícios como o da Central do Brasil por todo o país, e assim conseguir o apoio popular que lhe faltava à época. Percorreria a nação, utilizando de seus poderes como dirigente máximo da pátria, e espalharia, como numa cruzada, as idéias que ele e sua base defendiam, através de um Brasil ainda deveras provinciano, no qual os acontecimentos políticos ocorridos no centro-sul pouco ou nada interessavam ao restante do país. Ao contrário de 64, a mobilização popular nas eleições de 2010 representaram grande avanço na consciência política nacional, contra uma campanha do ódio e do preconceito, os velhos trunfos da velhacaria udenista. Jango não teve tempo nem meios para conquistar o povo como um todo.
Como representante de um poder nômade, alheio às estruturas sedimentadas do conservadorismo político que dava seu golpe máximo naqueles anos, teve por bem evitar a guerra civil e procurar o exílio no Uruguai. As forças que se movem paralelas à sociedade tradicional não necessariamente têm a guerra como objetivo na conquista de seus ideais. Cochraine voltou à Inglaterra; Jango partiu para o Uruguai. O exílio como opção foi a saída justa para não comprometer de maneira irreparável a coesão nacional.
Como Guimarães Rosa resolveu tal conflito entre poderes extremamente opostos em sua ficção? A oposição representada por seu personagem Zé Bebelo, centralista e se preciso cruel, como os príncipes idealizados por Maquiavel, contra a contratualidade entre a população e os líderes jagunços proposta pelo bando iniciado por Medeiro Vaz – o jagunço que busca pacificar o sertão – , é o sinal, na realidade política brasileira, de uma possível união, não perene, mas de conjectura, entre a esquerda e a direita moderadas. Tanto é uma posição de situação que Zé Bebelo é líder dos jagunços enquanto não possuíam um líder de fato. Após a emergência de Riobaldo como chefe, Zé Bebelo volta a Goiás e não mais aparece.
Talvez em nossa realidade institucional pré-64 não houve situações pertinentes para tal união. Após o golpe, sim, apesar da coalizão de forças não ter saído vitoriosa. O fato é que o exílio proposto por Guimarães Rosa não é sua exclusão das relações diretas com o poder estabelecido. Seu diálogo durante todo o romance com a figura do Doutor é exemplo disso. Realmente, não vemos em sua prosa a questão do exílio como tal, mas é concreta sua posição de independência frente aos símbolos considerados sagrados pela sociedade de então. A vitória do jagunço Riobaldo e de seu bando, a pacificação do sertão mineiro com o fim do banditismo, é uma espécie (talvez falando vulgarmente) de “destino manifesto” para as forças populares que chegaram a alguma espécie de poder ou de independência frente ao Estado, através de lutas internas e de acordos mútuos. É a sabedoria de Lord Cochraine em não reivindicar como um todo o que achava legítimo para si após suas conquistas e a sabedoria de João Goulart ao não fomentar a guerra civil e dividir o país, como parece ter havido essa movimentação nos bastidores da política norte-americana a partir do domínio (político e econômico, não militar) do estado de Minas Gerais.
A “máquina de guerra nômade”, o conceito criado pelo psicanalista Félix Guattari e pelo filósofo Gilles Deleuze, não é nada além do que as forças exteriores, as quais vivem paralelamente ao Estado e que em relação a sua órbita transitam em um movimento por este considerado excêntrico. Podem partir como uma Idéia Pura (conceito de Deleuze), ou seja, algo absolutamente desvinculado dos poderes oficiais; ou podem tanto ser cooptados por esses mesmos poderes, mas não com o fim de uma guerra total (o simples dualismo que os autores por vezes insistem em cair) e sim de promover, através dos mecanismos legais, o bem comum. Podem, de outra forma, estar mesmo dentro do centro de poder, porém sem o consenso geral (ausência que pode ter inúmeras causas), se tornando um movimento exterior ao próprio aparelho que administram (o caso de Jango). Não nos esquecendo da guerra sertaneja narrada por Guimarães Rosa, a qual se encaixa melhor na primeira opção, se bem que sem maiores conflitos (a não ser a ida eventual das tropas do governo nos sertões) com o Estado.
O romance de Guimarães Rosa é um “destino manifesto” de nossa independência no sentido em que propõe um contrato civil entre o povo e suas lideranças, quando nos mostra uma união altamente livre e democrática já no início de seu romance ao relatar que, caso houvesse necessidade de guerra, mesmo Riobaldo não sendo o senhor do sertão, teria amplas condições de se reunir a quantos sertanejos fossem necessários para não trazer novamente a desordem para o lugar onde vivem. É a diplomacia do embaixador da causa de Zé Bebelo em seu julgamento pelos jagunços inimigos: quieto, confiante, pacífico e fundamental no desfecho para um sentença justa. É a negociação que prevê imagens edênicas (Diadorim), mas abraça a realidade dada com toda sua beleza (seu casamento com Otacília), não se calcando pelo remorso odiento, fermentador de disputas e conflitos. Acima de tudo, é representação de um povo que através de sua história mais e mais vai tomando consciência de si e de sua integração na comunidade nacional como um todo e que por movimentos independentes dos poderes oficiais reúne-se pelo pacto mútuo para atingir os objetivos prementes que sua situação social lhes sugere.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. “Capitalisme et schizophrénie 2 – Mille plateaux. 1”. Ed. Paris: Éditions de Minuit., 1980.
FAUSTO, Boris. “História do Brasil”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.
GALKY, Nélio. “Mercenários ou libertários: as motivações para o engajamento do Almirante Cochrane e seu grupo nas lutas da independência no Brasil. 2006”. 138 f. Tese (Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2006.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil”. São Paulo: Brasiliense, 2004.
SAID, Edward W. “Cultura e imperialismo”. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE)

Créditos a Arlindo Daibert


PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE


O texto integral pode ser acessado em pdf na Academia.edu ou na Revista Ideias/Unicamp



Utilizando do conceito de “máquina de guerra nômade”, de Gilles Deleuze e Félix Guatarri, analiso de forma sintética, a partir dos movimentos autóctones narrados no “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, as forças exteriores, aquém ou além do Estado, inserido dentro dele ou não, que lutaram consciente ou inconscientemente pela soberania nacional, através de passagens no Império, na República pré-64 e no Brasil dos dias atuais. O romance de Guimarães Rosa é visto como síntese das forças políticas que atuavam no país antes do golpe militar de 1964, mostrando suas raízes no Império e que se desenvolveram até a nossa década, num de seus desdobramentos não-vistos, porque originado nos Sertões (Nonada).




A história do romance
É no Segundo Reinado que se inicia o fortalecimento das instituições nacionais e se estabelece uma ampla consolidação da soberania brasileira dentre todo o seu território. Do início da década de 40 até 1848 foi um período difícil para nosso Estado. Uma imensa fileira de insurrectos em Pernambuco, rebuliço na capital do Império frente ao avanço dos Conservadores, a restauração do Poder Moderador e do Conselho de Estado. Na realidade, a transição para Independência, a instituição da Regência, o fardo da escravidão, entre outros fatores, quase fragmentaram o país em pequenos pedaços. Do Rio Grande ao Maranhão, da Farroupilha à Balaiada, o Brasil agitava-se nas dores extremas do parto.
O governo, procurando assemelhar-se ao parlamentarismo inglês, mas extremamente dependente de uma força capaz de unir interesses tão diversos no país que mal iniciara sua caminhada de nação livre, o poder do imperador se fez valer como nunca antes, poucos anos depois da subida ao trono do ainda jovem monarca. Vale lembrar o decreto de 1847 que criou o cargo de presidente do Conselho de Ministros, equivalendo ao cargo de Primeiro Ministro, cujos membros se alteravam no poder ao desejo do imperador. Contudo, como destacou Boris Fausto:
Na verdade, tratava-se de um sistema flexível que permitia o rodízio dos dois principais partidos no governo, sem maiores traumas. Para quem estivesse na oposição, havia sempre a esperança de ser chamado a governar. Assim, o recurso às armas se tornou desnecessário (FAUSTO, 2009: pp. 180).
A atitude firme do imperador, apesar das enormes dificuldades enfrentadas pelo sistema político do país nascente, garantiu, ainda que sob mãos de ferro, uma relativa alternância de poder entre liberais e conservadores, se bem que ainda longe do modelo que inúmeras vezes os homens públicos brasileiros procuraram imitar das nações consideradas mais evoluídas. Com o Regresso, o qual garantiu a tomada de posse pelo jovem príncipe, o país entrou em ebulição novamente, reeditando o período conturbado da Regência. As revoluções liberais de 1842 agitaram os grandes proprietários da região sudeste, causando um clima de pânico nas esferas próximas ao poder. A Praieira, em 1848, marca o fim das revoltas mais conhecidas, assim como o ciclo revolucionário pernambucano iniciado com a expulsão dos holandeses.
Para prosseguir, quero fazer uma rápida incursão pelo pensamento dos descobridores da América, com o intuito de chegar a um paralelo entre o pensamento e atitudes políticas no Brasil oitocentista (adesistas ou não à monarquia) e o Romantismo no país. Farei uma breve leitura, na verdade um pequeno corte, em “Visão do Paraíso”, de Sérgio Buarque de Holanda.
No início, o que moveu os expedidores europeus à busca de ouro e pedras preciosas na América, fora a ambição natural de cada homem e – por que não? – a alimentando, foi principalmente os mitos e lendas. Estes, originários muitas vezes da Bíblia ou remontando a Antiguidade ou a narrativas orais ou escritas de diversas espécies e origens, eram modificados por cronistas da época ao sabor dos acontecimentos e dos desejos dos homens de então. No caso do Brasil, passaram mais de dois séculos até a confirmação da existência de riquezas em abundância no interior do país.
Mesmo com a descoberta anterior nas terras de Castela a fantasia foi o que moveu aqueles colonos. Tendo os portugueses criado ou não as lendas, foram por elas movidos, pois a confirmação de achados lá não necessariamente presumia os daqui (num mundo onde as distâncias eram tão grandes, a fantasia era quem as reduzia, como no caso das terras peruanas que ficariam às margens do sertão nordestino, segundo o imaginário popular). O ouro espanhol pode ter recrudescido as buscas, mas dificilmente se tornou seu motivo principal.
Caberia aqui perguntar se apenas a procura da Coroa por jóias e ouro, no intuito de enriquecer o reino, ou seja, por motivos meramente políticos e econômicos, seriam capazes de levar tantos e por tão longo tempo a esse objetivo. Se não couber também uma outra, a de que a própria casa real foi ou não embalada nos mesmos sonhos retirados do afã renascentista. Esquecendo os monarcas, fica do mesmo modo passível de comprovação se somente o “ouro do sertão” era a busca daquelas gerações (patrocinadas ou não pelo Reino), ou se as diversas maravilhas edênicas, como a da ilha repleta de amazonas, não foram algo que aqueles homens procuravam realmente encontrar.
A Natureza é, em suma, “o livro da Natureza”, escrito por Deus e, como a Bíblia, encerra sentidos ocultos, além do literal. Até a razão discursiva, feita para uso diário, deixa-se impregnar, não raro, da influência do pensamento mítico, e entre os espíritos mais “realistas” encontram-se as marcas dessa atitude, que traz no bojo um sentimento vivo da simpatia cósmica. (HOLANDA, 2004: pp. 66)
Apesar de Sérgio Buarque não se aprofundar no que diz respeito às crenças dos reinóis, no seu fundamento puramente religioso, não estaria por detrás das visões endêmicas da América o desejo de fundar definitivamente aquele Paraiso Terreal, o Reino de Cristo na Terra? Ao invés de conquistar Jerusalém, sua rota se deslocaria para o Ocidente, onde, navegando por um dos afluentes que provinham diretamente do Éden (Nilo, Ganges; depois São Francisco, Amazonas – como chegaram a pensar os conquistadores e aventureiros), conquistariam definitivamente a cidade santa, instaurando enfim, sob os escudos da coroa lusitana, o reino de glórias prometido por Jesus.
O mito da Cidade Santa teve seu aparecimento com o povo judeu. Buscavam, premidos pelas necessidades inerentes a escravidão, uma cidade de glórias aonde poderiam se tornar soberanos. Com o advento do Cristo, o reino celeste passa a “não ser deste mundo”. Mas a afirmativa segundo a qual nosso planeta nunca irá se transformar num Éden é interrompida pela revelação do “dia do juízo final”.
Na idealização da Colônia do Sacramento, a qual, se nos limitarmos à análise do imaginário social, podemos atribuí-la conotações escatológicas, como a edificação, na realidade, de um “mito das origens” ou a concretização do paraíso terrestre baseando-se na simbologia dos sacramentos eucarísticos. Não houve tal engenho por parte dos portugueses na ocupação do Maranhão ou da Amazônia, de Sergipe ou do Rio Grande do Norte. O Rio da Prata foi o aglutinador das “visões” dos colonizadores, concretizando o ideal numa cidade sagrada que haveria de ser construída em meio às belezas douradas da Eternidade. A “Serra da Prata” igualmente serviu como mito que conduziu Martim Afonso de Souza à colonização do litoral sul do Brasil, porque então dali partiram os conquistadores ao interior, em busca dos cimos dourados.
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O Romantismo foi exatamente a identificação do homem oitocentista com os locais de sua origem. Se antes o mito da cidade sagrada se encontrava fora dos limites da pátria natal, depois esta passou a prevalecer como perspectiva ideal. O que Pedro II encontrou como situação e oposição, todo o multifacetado jogo político a que ele teve de harmonizar, não era nada além das reivindicações da terra a surgirem por todos os lados. É o momento onde o Brasil passa a ter uma população de sedentários, em nítido contraste com a Colônia.
Assim como o Iluminismo precedeu o Romantismo, o Modernismo brasileiro foi o precursor do Regionalismo. O Modernismo foi, na literatura, o último movimento onde se expressaram diretamente as idéias do Iluminismo, nele encerrando sua imensa zona de influência e que teve o regionalismo de Jorge Amado e Guimarães Rosa como seu corolário. Os críticos e teóricos da literatura podem afirmar que GR não pertence exatamente ao movimento regionalista. Diversas vezes procuram colocá-lo como um gênio isolado, avesso às influências exteriores. É certo que sua prosa é única em sua época. Como também pode ser atribuído o mesmo adjetivo a qualquer outro grande escritor do período. Sua singularidade está antes no local de onde é produzida a sua escrita, os sertões mineiros – talvez mais obscuro por ser o contraste da grande Minas dos coronéis, dos políticos ilustres, do ouro e da religiosidade triunfante. Quanto a sua figura imponente de diplomata, poliglota e erudito, nada tradicionalista, “europeu”, os Gerais poderiam nos proporcionar desde a revolta ilustrada chamada Inconfidência e a distinção e inteligência tantas vezes auto-atribuídas por JK ou Tancredo Neves.
As manifestações autóctones do século XX (as que começam, no máximo, na virada deste século), o regionalismo expresso na cultura, primeiro na literatura e depois na música com o fluxo migratório para os centros urbanos, nada mais são do que o corolário do Romantismo do século passado, sua emanação alcançando os rincões do país e de caráter ainda mais popular, sem líderes ilustres ou amoedados a projetar suas aspirações nas lutas populares. O Modernismo foi urbano, paulista, centralizador – dos poetas “iluminados” como os Andrades. Com o regionalismo conhecemos os limites de nossa pátria.

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No que consistiu, finalmente, a luta armada nos sertões mineiros na primeira metade do século XX? Medeiro Vaz, chefe dos jagunços, se desfaz de todos os seus bens, inclusive os sentimentais, ao descaracterizar a sepultura de seus parentes, e reúne um grupo de homens para acabar com a desordem nos Gerais. No romance, o assalto à cidade de São Francisco em 1896 é o relato de que em Minas os grupos armados bastante fortes antes até das primeiras décadas do século XX e do tempo de reinado de Lampião no nordeste. Quando este possuía todo o poder que já lhe atribuíram Medeiro Vaz com suas tropas corria o sertão para moralizá-lo. É nesse sentido que o estado mineiro precedeu o nordeste em relação às milícias rurais. As razões para essa afirmativa pode estar na interiorização mais recente no norte. Com a busca do ouro no centro-oeste os pequenos povoados mais cedo se fortaleceram, preludiando a situação que era, por exemplo, a da Itália no tempo de Maquiavel. De outro modo, devido às plantações costeiras e a produção voltada para o mercado externo, somente mais tarde se interiorizou os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas, etc.
Foi preciso, no nordeste, a entrada da força repressiva oficial para conter o cangaço; em Minas, segundo o relato de Guimarães Rosa, foram os próprios jagunços os responsáveis pela extinção do banditismo. O reinado dos jagunços mineiros não teve todo o esplendor ou causaram todo o choque que as tropas de Lampião e Corisco lançaram no sertão. Mais afastados das zonas produtoras de riquezas do país, no caso a lavoura canavieira – longe também da produção aurífera, há muito extinta –, o declínio da jagunçagem ocorreu perto ou simultaneamente ao período dourado do cangaceirismo.
Os Sertões se dividem em dois grupos, o de Zé Bebelo, que é uma espécie de legalista do sertão, cujo sonho é acabar com a jagunçagem e ir para capital colher os louros de seu feito elegendo-se deputado. Depois voltaria para suas terras e promoveria o bem estar social apoiado pelas tropas do governo e através das finanças do Estado. É como se Zé Bebelo fosse uma espécie de Maquiavel do sertão, aonde somente um príncipe forte e respaldado em plenos poderes pudesse por fim à barbárie daquelas terras sem dono. O grupo encabeçado por Joca Ramiro e Medeiro Vaz, o qual depois da morte de ambos é liderado pelo protagonista, Riobaldo, está mais para John Locke e os contratualistas da época das Luzes. Riobaldo estabelece um governo de consenso entre os sertanejos, respeitando-se as liberdades individuais de cada um em tempos de paz. Se necessária a guerra, arregimentaria tropas, também por consenso geral, pela necessidade de se manter o estado a que todos passaram a gozar depois de sua vitória.

É significativo em relação a essa filosofia as primeiras páginas do romance, onde despontam tiros, mas não de homens. Logo depois, Riobaldo enumera seus companheiros que vivem em terras próximas, alguns que moram em terras distantes, e conta como todos estariam prontos para pegarem em armas – muitos desses são seus antigos companheiros jagunços – caso a desordem tente voltar a reinar no sertão. Também se percebe como todos vivem em relativa paz, livres do banditismo dos últimos anos, e como os mesmo têm, no máximo, uma relação “protocolar” ou “diplomática” com os homens da capital, como é o caso do Doutor, cuja conversa com o ex-jagunço percorre todo o romance. Finalmente, o governo é feito entre o consenso das gentes, dos sertanejos, a despeito de qualquer medida centralizadora implementada pelo Estado.

CONTINUA NA PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA (COM A BIBLIOGRAFIA COMPLETA)