A indústria dos fundos financeiros, de Roberto Moraes Pessanha

Roberto Moraes Pessanha expõe em seu livro as transformações do capitalismo posteriores a crise de 2007-8. Como o capital se tornou cada vez mais volátil e apesar de tudo ainda se ancora em determinadas estruturas físicas? Através da noção de frações de capital o autor tenta estabelecer as relações entre “fixos e fluxos” numa cartografia que tende a ser especular tamanho o fracionamento da produção física e a estruturação do capital derivado. Com as emissões quantitativas posteriores a crise, todo um novo sistema da dívida foi formado, encontrando no Brasil terno fértil para se multiplicar. Nosso país, ao invés de ser uma “terra de ninguém”, possui uma regulamentação sofisticada para atrair especuladores através de um sistema de dependência externa montado desde a ditadura.

 

YOUTUBE: https://youtu.be/qo9oDuR3Q3Y

PODCAST: https://anchor.fm/rogeriomattos/episodes/A-indstria-dos-fundos-financeiros–de-Roberto-Moraes-Pessanha-e1kkhgv

Narrativas do passado: a condição historiadora segundo Paul Ricoeur

Na passagem da publicação de dois livros importantes (“Tempo e narrativa” e “A memória, a história, o esquecimento”), Paul Ricoeur refina seus instrumentos analíticos para buscar a compreensão da escrita dos historiadores. Com o grau de sofisticação alcançado pelos livros de história depois de movimentos como o da micro-história e da 3ª geração dos Annales, história e ficção passaram a ter conexões tão estreitas que passaram a desafiar como nunca antes aqueles interessados no ofício historiográfico. Além dessa abordagem, procuro no programa discutir algumas noções do conceito de tempo em Ricoeur por ter implicações diretas com sua visão da história da historiografia.
 

Eleições coloridas, Barack Obama e a economia política do Vale do Silício

Se houve um reordenamento do poder em escala internacional depois do fim da URSS, na virada do século XXI, com o crescente protagonismo dos países do sul global até sua reunião ao redor dos BRICS, os EUA tiveram que redesenhar sua propaganda democrática, virar a página do impopular governo de Bush Jr. e se apresentar “mais colorido” para o mundo. Esse novo episódio da “democracia americana” já em 2007-8 surge junto ao poder das Big Techs, com poder ainda embrionário se comparado com o que possui hoje. Não só: a reorganização financeira após a dita “crise do subprime”, além de ter promovido uma transferência massiva de recursos para as camadas mais ricas do setor econômico transatlântico, forneceu a liquidez necessária para o investimento massivo em novas tecnologias do trabalho, já acentuada por um processo de desindustrialização vigente há décadas. São esses alguns dos aspectos da nova “democracia americana” que comento no novo episódio de meu programa.

(27 min)

YOUTUBE: https://youtu.be/6OMMmMxXevU

PODCAST: https://anchor.fm/rogeriomattos/episodes/Eleies-coloridas–Barack-Obama-e-a-economia-poltica-do-Vale-do-Silcio-e1hnevv

Platonismo vulgar nas “ideias fora de lugar” de Roberto Schwarz

Uma crítica que talvez possa ser feita ao eminente crítico Roberto Schwarz é sobre essencializar o que ele entende por direitos humanos. Ao colocar como pré-definidas determinadas formas consideradas de progresso do história europeia, acabaria ele julgando ou pré-julgando o desenvolvimento histórico brasileiro? Por que existiria uma “ideia” e necessariamente no nosso país ela estaria “fora de lugar”? Não seria a própria ideia de direitos humanos, tratada de uma forma que não se questiona ou seus princípios, uma outra forma de etnocentrismo? São essas algumas das indagações que faço ao famoso intelectual paulista.

YOUTUBE: https://youtu.be/2e5GCDGuPyk

PODCAST: https://anchor.fm/rogeriomattos28/episodes/Platonismo-vulgar-nas-ideias-fora-de-lugar-de-Roberto-Schwarz-e1h81h8

Obama, o legado do imperialismo e a captura da esquerda

A política neomacartista, antirussa, com a guerra da Síria, o golpe ucraniano e sua extensão dentro do território dos EUA, isto é, o Russiangate, capturou a esquerda com a pauta das fake news, como demonstrei em artigo de 2018 [aqui]. A criação do termo “fake news” abriu precedente para a captura da contestação ao poder pelos grandes meios de comunicação que, hoje através das bigtechs, nos diz o que são ou não fontes confiáveis. A disputa entre fato ou fake é uma aberração positivista.

As políticas de flexibilização quantitativa neokeynesianas de Obama abriram precedente para a efeméride da MMT e do Plano Biden, enquanto faziam girar uma espiral inflacionária e especulativa que mudou na raiz o modo de organização dos países da América do Sul. Através das contabilidades não declaradas ganhas com a impressão indiscriminada de bônus para fundos especulativos, foram financiadas as revoluções coloridas e uma mudança significativa no mercado de trabalho a partir da política do Vale do Silício (escrevi sobre isso em junho de 2019 [aqui]).

O efeito de superfície de um projeto amplo de mudança estrutural do remanescente da sociedade industrial do pós-guerra foi a guerra culturalista ao redor da pauta identitária, variante híbrida das revoluções de cor, em pleno funcionamento agora. A noção de forças produtivas do trabalho desapareceu em prol de uma aliança ampla dos meios de comunicação com a esquerda colorida que não questiona os poderes fáticos e financeiros. É o primado da democracia americana baseada em noções genéricas de liberdade e igualdade.

Enquanto a esquerda não reaprender a questionar, ser o olho vivo sobre o poder, continuará capturada pelo imperialismo que, na quadra atual, foi bem sucedido com a eleição colorida de Barack Obama.

Olavo e os dois fatores que dois conheço

Por que o monopólio das “teorias da conspiração” viraram monopólio bolsolavismo e não tem mais a irreverência e a agudez da época de um Glauber Rocha? O que antes era apanágio da esquerda dita radical, se tornou o “lugar de fala” de setores reacionários. A incapacidade de quem se chama progressista, hoje, de denunciar os movimentos de capitais transnacionais adquire feições mais do que preocupantes. No mundo dominado pelo Vale do Silício, nunca antes a esquerda se fez tão dócil ao discurso da mídia, braço de comunicação do aparelho de guerra das potências estrangeiras.

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A contraface do governo Trump

Meu esforço atual nesse espaço é tentar qualificar um pouco mais o debate da política internacional. Como venho fazendo? Delimitando que existe uma facção bipartidária também chamada de “Partido da Guerra” e a facção trumpista, que não é um projeto dos republicanos, tampouco exclusivo da “alt-right”. É algo que venho trabalhando desde 2019, em séries de textos, mostrando como se o mundo atual não tivesse alternativas a além do velho e usual capitalismo (Bush/Obama e asseclas) e anarquia (vulgarmente, a “alt-right”, que ainda precisa ser melhor estudada).

O texto seguinte talvez seja o mais maduro dessa série (não sei se o mais importante). Contudo, no Brasil, devido à associação automática feita entre Trump/Bolsonaro, não se enxerga de forma alguma as fissuras ou as diferenças entre os dois, e se capitula terrivelmente, quase todo dia, às armadilhas do Império ou ao seu “soft power”. É necessário descer aos detalhes, sempre.

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A democracia distópica da intelectualidade bem-pensante

Em meio ao caos da guerra civil vivida nos EUA, chama a atenção como comentaristas brasileiros tratam com complacência (para dizer o mínimo) os bons tempos da presidência do Partido Democrata. Em 2016, último ano de governo de Obama, os EUA jogou 26171 bombas sobre suas vítimas, em maioria pessoas alheias aos seus combates. É um aumento de dez vezes o que seu predecessor, George W. Bush, fez durante sua guerra ao terror. Ainda em 2016, também sob Obama foram feitas guerras encobertas a cerca de 70% das nações do mundo, isto é, 138 países – um salto assombroso de 130% em relação ao seu predecessor do Partido Republicano.

Não só analistas brasileiros, mas astros estadunidenses como LeBron James ou Brad Pitt fazem a campanha dos meios de comunicação tradicionais, os mesmos que inventaram as bombas nucleares no Iraque e que levou ao ciclo de destruição do Oriente Médio, ainda em curso. O que se espera, pelo menos dessa chamada “intelectualidade bem pensante” é que se consiga pesar algumas diferenças significativas entre a atual presidência e a anterior. Não é por acaso que republicanos como Bush e ultrabelicistas como Hillary Clinton se alinhem em favor da candidatura de Joe Biden. Isso é só vira-latismo por parte dos brasileiros ou remete a uma incompreensão ainda mais profunda das grandes transformações que o mundo vem passando atualmente?

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A guerra da CIA contra a NSA e os golpes na América do Sul

Um povo degradado e sua elite mentirosa

Os americanos são tão mentirosos que conseguiram, como que por uma metáfora, transformar o grande corpo objetivável da Terra em camada de ozônio. Tudo isso parecia ter entrado num breve ocaso ou passado a operar de forma menos intensa na virada do século: ascensão da China e recuperação da Rússia (rearticulação do eixo eurasiático), e a recuperação do sonho de desenvolvimento dos países do antigo 3º mundo, com seu centro de poder a partir da América do Sul (integração sul-americana + eurásia = BRICS).

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O dia em que Pepe Escobar descobriu o Brasil

Acredito que possa ser feita uma distinção entre progresso e desenvolvimento. A primeira palavra muitas vezes ilustra um estado de coisas relativas a uma história de tipo monumental, ou seja, de grandes feitos, mas cujos efeitos sociais são nulos ou negativos. O próprio ideal de progresso, da época das Luzes até o amplo processo de industrialização e urbanização a partir do século XIX, parece ter virada um monumento da história.

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