A contraface do governo Trump

Meu esforço atual nesse espaço é tentar qualificar um pouco mais o debate da política internacional. Como venho fazendo? Delimitando que existe uma facção bipartidária também chamada de “Partido da Guerra” e a facção trumpista, que não é um projeto dos republicanos, tampouco exclusivo da “alt-right”. É algo que venho trabalhando desde 2019, em séries de textos, mostrando como se o mundo atual não tivesse alternativas a além do velho e usual capitalismo (Bush/Obama e asseclas) e anarquia (vulgarmente, a “alt-right”, que ainda precisa ser melhor estudada).

O texto seguinte talvez seja o mais maduro dessa série (não sei se o mais importante). Contudo, no Brasil, devido à associação automática feita entre Trump/Bolsonaro, não se enxerga de forma alguma as fissuras ou as diferenças entre os dois, e se capitula terrivelmente, quase todo dia, às armadilhas do Império ou ao seu “soft power”. É necessário descer aos detalhes, sempre.

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A democracia distópica da intelectualidade bem-pensante

Em meio ao caos da guerra civil vivida nos EUA, chama a atenção como comentaristas brasileiros tratam com complacência (para dizer o mínimo) os bons tempos da presidência do Partido Democrata. Em 2016, último ano de governo de Obama, os EUA jogou 26171 bombas sobre suas vítimas, em maioria pessoas alheias aos seus combates. É um aumento de dez vezes o que seu predecessor, George W. Bush, fez durante sua guerra ao terror. Ainda em 2016, também sob Obama foram feitas guerras encobertas a cerca de 70% das nações do mundo, isto é, 138 países – um salto assombroso de 130% em relação ao seu predecessor do Partido Republicano.

Não só analistas brasileiros, mas astros estadunidenses como LeBron James ou Brad Pitt fazem a campanha dos meios de comunicação tradicionais, os mesmos que inventaram as bombas nucleares no Iraque e que levou ao ciclo de destruição do Oriente Médio, ainda em curso. O que se espera, pelo menos dessa chamada “intelectualidade bem pensante” é que se consiga pesar algumas diferenças significativas entre a atual presidência e a anterior. Não é por acaso que republicanos como Bush e ultrabelicistas como Hillary Clinton se alinhem em favor da candidatura de Joe Biden. Isso é só vira-latismo por parte dos brasileiros ou remete a uma incompreensão ainda mais profunda das grandes transformações que o mundo vem passando atualmente?

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A guerra da CIA contra a NSA e os golpes na América do Sul

Um povo degradado e sua elite mentirosa

Os americanos são tão mentirosos que conseguiram, como que por uma metáfora, transformar o grande corpo objetivável da Terra em camada de ozônio. Tudo isso parecia ter entrado num breve ocaso ou passado a operar de forma menos intensa na virada do século: ascensão da China e recuperação da Rússia (rearticulação do eixo eurasiático), e a recuperação do sonho de desenvolvimento dos países do antigo 3º mundo, com seu centro de poder a partir da América do Sul (integração sul-americana + eurásia = BRICS).

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O dia em que Pepe Escobar descobriu o Brasil

Acredito que possa ser feita uma distinção entre progresso e desenvolvimento. A primeira palavra muitas vezes ilustra um estado de coisas relativas a uma história de tipo monumental, ou seja, de grandes feitos, mas cujos efeitos sociais são nulos ou negativos. O próprio ideal de progresso, da época das Luzes até o amplo processo de industrialização e urbanização a partir do século XIX, parece ter virada um monumento da história.

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A CNNização das esquerdas

A cegueira branca causada pelos holofotes do poder

Com a coronacrise, todas as teorias da conspiração foram imediatamente canceladas. Não foi pela falta de esforços de alguns, com a contribuição notável de Gorgio Agamben, inesperadamente protagonista das discussões desde o início do que chamou de “invenção de um pandemia”.

Diante dos gráficos expostos diariamente pela mídia, não pode existir razão argumentativa. E o pior disso tudo é que, logo após o Imperial College soltar seus gráficos apocalípticos, Michael Levitt, químico laureado com o prêmio Nobel, lançou sua série de dados que mostraram uma realidade alternativa, não menos consistente (e agora mais acertada depois da consolidação dos dados em muitos países) que a versão londrina no uso de algoritmos.

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Guerra de facções num mundo sem povo

A recente mudança de hegemonia

Entre 2014 e 2016 assistimos a uma escalada militar sem precedentes desde a Crise dos Mísseis. Ao contrário da histeria macartista da atual Guerra Fria, o conflito entre EUA e URSS foi televisionado. Era um conflito aberto desde que Churchill iniciou a guerra com os soviéticos em seu discurso sobre a Cortina-de-Ferro. Para alguns, foi o início da recolonização dos EUA pelo Império Britânico…

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Fim das “armas da crítica” e ascensão das revoluções coloridas

Em seu trabalho sobre o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, Higor Codarin Nascimento conta como o grupo revolucionário, após alcançar grandes feitos com o sequestro de políticos estrangeiros (não foi apenas o famoso sequestro do embaixador americano), acabou por se encontrar em uma situação no mínimo ambígua. A orientação era de não recuar mesmo depois do recrudescimento da repressão após a fama nacional alcançada com o sequestro de Charles Elbrick, ou mesmo depois de ter lideranças capturadas aos montes pela polícia militar.

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Estado Profundo versus América Profunda

Depois das imensas provocações da OTAN contra a Rússia que tiveram seu auge entre 2014-16, ou seja, até o período da eleição de Trump e do Brexit, cada vez ficou mais claro que a orientação unilateral dos poderes fáticos e financeiros ocidentais sofreu uma ruptura. A campanha anti-Rússia ficou a cargo dos democratas e liberais, enquanto havia uma distensão das tensões militares. Por outro lado, o processo de regionalização das economias ou o anti-globalismo se tornou evidente no Atlântico norte.

Como disse em uma série de outros textos, parecia haver um racha entre as elites. De um lado, uma orientação liberal-financista e outra para o que no nazismo se chamou de “sangue e terra”. O modelo econômico único imposto após o fim da URSS não existia mais. Esse é um movimento relativamente recente e peculiar a Europa e aos EUA: países sem história recente de lideranças públicas comprometidas com o desenvolvimento nacional, muito menos partidos políticos populares organizados, de massa ou o histórico de lutas, como na América do Sul, contra as ditaduras e neoliberalismo. Para eles, em medida maior do que para nós, parece que a única escolha é entre o velho capitalismo ou a anarquia.

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Onde o mundo experimenta racionalidade?

“A verdade parece ser uma criatura bonachona que ama suas comodidades, que dá, sem cessar, a todos os poderes estabelecidos a certeza de que jamais causará o menor embaraço a alguém, pois ela, definitivamente, é apenas a ciência pura“. NIETSZCHE, Shopenhauer educador, § 3.

A invenção de uma esquerda anti-pandêmica?

René Descartes, na incrível simplicidade de seus escritos, fazia uma apelo à razão natural dos seres humanos. Fugiu das carregadas terminologias aristotélico-escolásticas (“ente”, “substância”, “enteléquia”, etc.) e, através da língua comum (no caso, o francês) buscou criar um método objetivo o suficiente para dar conta de todo o saber possível. Lembro de uma passagem do filme de Rossellini, Blaise Pascal, onde este filósofo (morto jovem) pergunta ao ilustre sábio Cartesio por que sonhar em resolver tudo com um método único e que se pretende infalível. Se a realidade é complexa, muitos métodos diferentes têm que ser conjugados para ajudar na solução de um problema. O caso de Descartes, contudo, não era criar um novo método, mas tornar filosófico o senso comum.

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O capitalismo dependente da república militar e o imperialismo 3.0

O desenvolvimento da dependência (1968-2002)

Com o fim da União Soviética, o mundo passou a viver com um modelo econômico único, o liberalismo dos banqueiros-financistas. No Brasil, o governo do PSDB deixou 64 milhões de pessoas na fome, quebrou o país por três vezes e criou uma política de longo prazo, de amarras ficais (tripé macroeconômico) que ajudaram na contenção das políticas expansionistas e industrializantes dos governos do PT, como também foram os fundamentos econômicos para a guerra midiática diária contra um governo de base popular.

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