A Nova Rota da Seda e o Cone Sul

Os que se chamam liberais nunca puderam ser tão contestados depois da crise financeira (ainda atual). Ressuscitaram mortos com a ajuda estatal, que por sua vez ficou mortalmente comprometida. A China, com novos objetivos de financiamento da economia mundial, traça uma outra geografia internacional. Na Nova Rota da Seda aparece a centralidade de países como a Bolívia, um mar de equilíbrio em meio aos descalabros no sul do continente, e que pode ser o centro da integração regional nos próximos anos.

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A Condor judiciária e a integração regional

Por que agora quando se fala em Lava-Jato se esquece o nome Petrobras e só se fala em Odebrecht? Será por nacionalismo? Por que “corrupção” agora tem como sinônimo Odebrecht e não Petrobras como anteriormente?

No meio de tudo, imagens idílicas passam a despontar na grande mídia, que passa a mostrar os campos do pré-sal como um Eldorado. Quando não interessa mais ao desenvolvimento nacional, mas como propaganda para justificar a rapina em curso, ou seja, mais de uma década depois dos investimentos cruciais que levaram ao domínio técnico, único no mundo, que nos fizeram extrair petróleo de alta qualidade do fundo do mar, finalmente desponta como “algo bom” os recursos naturais que até então serviriam para financiar a educação e a saúde, garantir o conteúdo nacional, e trazer o retorno dos vultuosos investimentos realizados por nossa maior empresa nacional. Quando se muda o modo de exploração desses recursos, quando a lógica colonial entra novamente em jogo, o Brasil aparece novamente como o Eldorado dos recursos naturais abundantes.

No Brasil, querendo ou não, o nome Petrobras está sempre no centro da questão, mesmo quando se prendem engenheiros peruanos, ou seja, quando se mudam as prioridades nacionais em favor dos interesses do Atlântico norte e não daqueles que vêm do Pacífico. O ataque da Condor judiciária na América do Sul – agora sob o signo Odebrecht – vem para desmantelar os projetos de integração regional e desfazer parcerias estratégicas com o governo chinês, dentro do contexto da Nova Rota da Seda, a mesma que financiou e construiu o Canal da Nicarágua, para ultrapassar de vez a dependência dos contato entre o Pacífico e o Atlântico através do Panamá, ou seja, dos EUA.

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Bilderberg, o filme

Daniel Estulin grava seu filme sobre o Clube Bilderberg

 

Ao contrário dos argumentos tradicionais, baseados em pressupostos jurídicos e político-eleitorais, o atual predomínio de políticas “neoliberais” vão muito do estabelecimento de um Consenso de Washington, dos marcos legais que permitiram a proliferação de paraísos fiscais, e das eleições de Thatcher, Reagan e Mitterrand na década de 1980. Foi um marco a chamada “crise do petróleo” na década anterior, uma crise econômica controlada que, de um lado, iniciou a hegemonia do dólar no mundo com os petrodólares (e a concomitante desvinculação dessa moeda ao padrão ouro por Nixon, base do tratado de Bretton Woods), e de outro (por causa do aumento artificial do preço do petróleo e a consequente ausências de divisas norte-americanas para dar conta do incremento do dispêndio com o combustível) criou o “sistema da dívida” que até hoje aferra os países latino-americanos, que pegaram empréstimos a juros baixos e logo após tiveram que lidar com juros extorsivos.

 Mas o fundamental foi o debate dentro dos círculos da elite mundial depois do fim da Segunda Guerra. O Império Britânico, vendo que não poderia continuar sendo um império territorial, paulatinamente passou a exercer sua soberania através dos instrumentos financeiros. Forma-se, ainda na década de 1950, a aliança anglo-americana, que conta de uma lado com a City de Londres e Wall Street e, de outro, com a OTAN. Como diz o autor do livro best-seller, Daniel Estulin, Rockefeller é uma metáfora do poder. Na mesa dos poderosos, sua família no máximo serviria o café. Igualmente para o Clube Bilderberg. Bilderberg é um signo, uma indicação para além dos marcos tradicionais, de onde se sedia e como foi desenvolvida a atual hegemonia militar e financeira. Falando dele, abre-se espaço para debates que, infelizmente, não se encontram ainda em praça pública.

 

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O “efeito 1914”: a ameaça de guerra mundial feita pelo mercado financeiro

Exército Sírio: Sputnik, publicado na EBC


Ao contrário do que diz a The Economist, é o império, com sua globalização, que ameaça fazer guerra, seja na Síria, nos Bálticos, na Ucrânia, no Mar da China, ou com terroristas mundo afora para aumentar a tensão e apontar como culpados o nacionalismo, o populismo, a defesa da soberania nacional.

Texto meu publicado agora no Brasil Debate, ao lado dos de Fernando Nogueira Costa e Roberto Amaral, entre outros. Uma crítica a um artigo recente da The Economist, na verdade uma ameaça de guerra através de um dos portais do mercado financeiro internacional.


DO BRASIL DEBATE (com todos os hiperlinks agora devidamente adicionados)

O “efeito 1914”: a ameaça de guerra mundial feita pelo mercado financeiro

A revista The Economist publicou recentemente um artigo onde vê ocorrer agora uma contra-reação ao projeto de globalização bem-sucedido nas últimas décadas, tal como no século passado a mesma contestação ocorreu contra uma “primeira globalização”. O “efeito 1914” aludido na seção chamada Buttonwood (referência à arvore debaixo da qual se fundou Wall Street), dedicada aos assuntos do mercado financeiro, seria a reação representada principalmente pela eleição de Trump e pelo Brexit aos progressos dessa suposta globalização. Em 1914, a emergência de um tipo particular de nacionalismo foi o estopim, mais do que o assassinato do arqueduque Franz Ferdinand, para a eclosão da Primeira Guerra. Os progressos do livre-mercado, de 1980 a 2008, agora contestados, poderia nos levar a uma outra guerra mundial num curto espaço de tempo. 
A história narrada na revista é interessante na medida em que culpa os inimigos errados. Quer dizer então que a globalização, ou seja, a força que move o imperialismo hoje, é contra a guerra, ao contrário de 1914? Trump é um perigo (por isso, Russian-gate), o Irã (novamente a mesma história…) e a China via Coreia (e nada da ocupação estrangeira no Mar da China?). O projeto de globalização, de unificação de mercados e não de povos, de uma união política forçada por uma união monetária, falha na Inglaterra e, logo, quem se expressa são eleitores reacionários, nacionalistas que beiram a xenofobia e abominam o “progresso”? O fato da União Monetária Europeia entrar em crise pode deslanchar uma guerra? Isso parece mais uma ameaça da The Economist do que um alerta. 
A China propõe amplos projetos de desenvolvimento conjunto com o projeto da Nova Rota da Seda, com altos níveis de tecnologia aplicados, fora seu programa espacial, e a saída seria a criação de novas tecnologias? Mas aonde? Com o Vale do Silício, que não dá emprego a ninguém com as famosas empresas “.com”? Com mais financeirização da economia, com os contínuos resgates bancários, das imposições da Troika, da lei Dood-Frank, dos Q.E. de Obama? Com trilhões em derivativos, resultado dessa mesma política dos “muito grandes para falir”, se amontoando cada vez mais e ameaçando uma crise de liquidez ainda maior? Não dá para ler qualquer texto da The Economist sem o mínimo argumento crítico. Para eles, a era de ouro é a de Regan e Tatcher até a crise de 2008, quando sua hegemonia foi colocada em questão: com Trump, com Brexit, com a parceria russo-chinesa e, ainda antes, com todo o ciclo da esquerda sul-americano, iniciado com Chávez, e que trouxe para o palco da política mundial tantos “populistas”, quiçá terroristas, na verdade uma leva de “corruptos” como se costuma chamar todos dessa corrente política? Tudo fora da desregulamentação desenfreada para eles não vale. Logo, é o Império novamente, com sua globalização, que ameaça fazer guerra, seja no front sírio, nos Bálticos, com as provocações na Ucrânia, no Mar da china, e espalham uma rede de terroristas (atentados que flertam com o fake, com os não-fatos, com os simulacros) mundo afora para fazer aumentar a tensão e novamente apontar como culpados o nacionalismo, o populismo, a defesa da soberania nacional. 
Podemos recontar com outros nomes, com outras referências, a história ou a ameaça velada nas páginas da revista dos financistas britânicos: McKinley foi assassinado em 1901, último presidente da facção de Lincoln; Bismarck, que de uma plataforma liberal adotou o protecionismo no estilo dos EUA do séc. XIX (dos irmãos Carey, de Frederich List) e também industrializou seu país, foi demitido. O império tinha que colocar a Rússia contra a Alemanha, então acéfala, e financiar boa parte do bolchevismo para manobrar a política russa com mais facilidade. As provocações da virada do século XIX para o XX foi um meio de o império fazer romper esse jogo virtuoso, com Bismarck, a continuação das políticas de Hamilton e Lincoln, com a parceria entre Sergei Witte e Gabriel Hanotoux para a construção da ferrovia transiberiana e do projeto ainda não levado a cabo, a ferrovia que ligaria Berlim a Bagdá (a mesma interligação euroasiática prevista nos projetos da Nova Rota da Seda). Estes foram os projetos, nacionalistas, que deram a dinâmica econômica ao século XIX. 
A Primeira Guerra foi um modo de interromper esse ciclo; a Segunda Guerra, a de estabilizar o mercado financeiro com governos altamente militarizados, daí a generosidade dos bancos estrangeiros com a dívida alemã depois que Hitler assume o poder, daí também seu patrocínio por grandes fundos, com os da família judia dos Warburg, o papel da Prescott Bush na venda e financiamento de armas para o regime nazista, e o silêncio de Churchill até Hitler perder o controle e se voltar não apenas contra a Rússia, que era o objetivo, mas contra a Europa. Sem a liderança de Roosevelt, o “homem esquecido”, talvez os planos britânicos tivessem dado certo e a potência euroasiática, a Rússia, e o país mais industrializado da Europa, teriam se destruído para a glória da Grã-Bretanha e de seus livres-mercadistas. Não dá para engolir as palavras do império, mais uma louvação da globalização, mais um lixo – e uma ameaça grave – produzida direto da City de Londres e de seus porta-vozes em Wall Street, a revista The Economist. Com certeza, sem um nítido projeto nacional e de coopeação entre os povos, como na parceria BRICS, orientado para o futuro, continuaremos convivendo com a desintegração financeira e com as ameaças de guerra. Continuaremos vivendo o contínuo conflito social que hoje é realidade em quase toda a América do Sul, porém não menor nos EUA dos desempregados e subempregados, da epidemia de drogas e suicídio entre a classe-média, e na Europa que tem contra seu “projeto” a crise de imigrantes, todo o lado leste de sua fronteira que é ignorado cegamente desde a suposta vitória das liberdades democráticas ocidentais com a queda do muro de Berlim.

Para acessar a tradução do texto da revista The Economist clique aqui.

A teoria da dependência, 20 anos depois de Ruy Mauro Marini: uma leitura anacrônica

Publicamos tempos atrás um artigo nesse blog sobre a captura da Teoria da Dependência por Fernando Henrique Cardoso, quando este ainda era um acadêmico e se utilizava de suas leituras do Capital, de sua pose de esquerdista e dos amplos financiamentos da Fundação Ford ao CEBRAP. Da teoria à prática, FHC, já em conluio com José Serra desde a época dos debates acadêmicos e do esforço sistemático à deturpação da teoria de Marini, o PSDB colocou como paradigma de sua governamentalidade o dependentismo em sentido inverso, ou seja, a associação ao capital estrangeiro para injetar recursos na economia nacional, mantra dos liberais pelo menos até o minuto seguinte à publicação desse texto.

Uma leitura anacrônica é válida frente à leitura retrospectiva de Carlos Eduardo Martins no blog da Boitempo, porque o “subimperialismo” lulista não pode ser, sem mediação, sem qualquer consideração de conjunto, colocado junto ao programa econômico da república dos quartéis; o regime de superexploração do trabalho, outro conceito de Marini, não pode ser “por ligação direta”, associado à financeirização da economia nos mesmo governos Lula e Dilma. Se for o caso de falarmos de financeirização de nossa economia, podemos considerar a manutenção do tripé macroeconômico instituído pelos tucanos; a falcatrua da manutenção do sistema da dívida; a falta de controle sobre a entrada de capitais, a intervenção frouxa nas taxas de câmbio, mantendo o real subvalorizado para beneficiar as classes-médias compradoras em detrimento do incentivo à indústria nacional. Do Paraguai à Miami, este foi o movimento de nossa classe-média durante os últimos anos, baseado no aumento dos rendimentos, no aumento da oferta de postos de trabalho, em conjunção com a política de manipulação cambial, de não interferência do executivo e dos órgãos competentes nessas taxas. Criou-se um novo estatuto para essa classe-média, mais uma ilusão levada a efeito pela política de não intervenção direta em assuntos que se tornaram dogmas sociais, ou seja, um mínimo de estado liberal deveria se manter vigente para que não se rompesse o pacto que levou o Partido dos Trabalhadores ao poder executivo federal.
O subimperialismo no contexto de Ruy Marini era o da criação de grandes empresas como a Varig, da associação do regime com empreiteiras na construção de muitas obras fracassadas e que renderam frutos para seus participantes em forma de largas propinas – nada tão diferente do que escandalizou a burguesia moralista nos anos mais recentes -, como relatado no livro Estranhas Catedrais, de Pedro Henrique Pedreira Campos. Esta dentro do contexto de se criar uma classe-média com poder de compra suntuário, capaz de injetar recursos na economia em grande vulto, em completo desprezo à integração social de ampla parcela da sociedade que, por sua vez, deveria sofrer com o regime de superexploração, condição essencial para nos manter como uma colônia dos países desenvolvidos. O wall fare state só foi possível no longo prazo pela superexploração do trabalho nos países periféricos. Talvez esta a afirmativa mais radical de Ruy Mauro Marini.
No médio e longo prazo, porque o regime de colônia que os militares voltaram a impor ao país se consolidou depois da crise do petróleo, do aumento exponencial do juros da dívida pública pelo aumento unilateral das taxas americanas, resposta de Nixon à perda de recursos devido ao aumento do preço do petróleo no mercado internacional. Dá para se criar um contínuo entre o que Ruy viu nas décadas de 1960-70 no Brasil e em seus exílios pelo mundo com nossa situação atual. A deficiência do artigo do professor Carlos Eduardo Martins é tentar uma abordagem diacrônica, baseado em dois tempos separados, e que, por mágicas da teoria das semelhanças, cujo precursor sombrio é a infame categoria aristotélica de mímeses na escrita literária (e todas as escritas são uma ficção, tem suas próprias peripécias e modos de construir sua argumentação, sua trama e seus personagens-conceito). O que lhe falta é uma geohistória, o panorama de como foi se desenrolando muitas das teorias de Marini que ainda eram sementes quando publicadas. Elas frutificam de modos muito diversos. Não é pelo fato de querer se livrar dos tão propalados “erros da esquerda”, algo tão corriqueiro que criou fenômenos políticos eleitorais como Marina Silva, Luciana Genro ou Heloísa Helena. Ou ainda a pusilânime declaração de Freixo, por exemplo, que ao perder para o pastor a disputa no município do Rio de Janeiro, culpou o PT por sua derrota.
Não há lugar para meia culpas. A esquerda cheirosa produz rebentos teratológicos não muito diferentes dos aberrantes herdeiros da velha política. Estão aí, talvez tenham algo a dizer, porém acrescentam pouco ou nada para os debates sobre o desenvolvimento nacional. Considerando o professor, especialista em Marini, alguém não tão cheiroso assim, e compreendendo a validade de seu texto como “semente”, como subsídio para uma discussão mais aprofundada, republico ele aqui por se tratar de contribuição importante para as ciências brasileiras, ainda mais se formos lembrar não apenas dos exílios, mas do papel atuante de Vânia, Ruy, Theotonio e demais nas formulações do trabalhismo brasileiro, com Darcy, com Brizola, e que tem um potencial de fazer sacudir o bom-mocismo do economicismo acadêmico, girando sempre na tautologia infernal de Heyke ou Keynes.
Assim, a leitura anacrônica talvez seja menos a minha, por não querem forçar passagens. O anacronismo aludido diz respeito à necessidade de se considerar alguns aspectos da formulação original e ver que não saltam para os dias atuais as mesmas abordagens através de um salto qualquer. Foram as que enxerguei. Contudo, como não somos nem um pouco limpinhos, vale muito ouvir um pouco mais a história da criação da teoria que substitui com toda sofisticação e inovação possíveis os velhos companheiros, sejam eles Furtado ou Caio Prado, JK ou Jango. Theotonio, Bambirra e Ruy; Darcy, Brizola e Lula: uma nova configuração.

A teoria da dependência, 20 anos depois de Ruy Mauro Marini

Por que liberais e fascistas se uniram para impor barreiras à atividade intelectual de Ruy Mauro Marini e à divulgação de sua obra? Que consensos o autor desafiou? Passados 20 anos de sua morte, como avaliar o legado da sua obra?

Por Carlos Eduardo Martins.

Este mês completa-se 20 anos da morte de Ruy Mauro Marini, um dos principais expoentes do pensamento crítico e do marxismo latino-americano. Ele foi um dos mais destacados formuladores da teoria marxista da dependência e dedicou sua vida à luta teórica e prática contra o desenvolvimento da economia mundial capitalista e as principais formas em que se manifestava – as estruturas excludentes do capitalismo periférico e o imperialismo –, vendo no socialismo a principal forma de enfrentá-los e superá-los.

Breve resumo da vida e obra de Ruy Mauro Marini

Dirigente da POLOP e do MIR chileno, sofreu diversos exílios e ostracismos. Exílios das ditaduras militares no Brasil, em 1964, e no Chile, em 1973. Convites para se retirar do México em 1968/69 por sua influência intelectual no movimento estudantil durante a repressão desatada por Luis Echeverría, então Secretário de Governo e depois Presidente da República. De volta ao Brasil, a partir de 1982, foi marginalizado do debate acadêmico e político por uma intelectualidade emergente que buscou circunscrever a redemocratização ao compromisso com o modelo econômico legado pelo golpe de 1964, à sua reorientação para o neoliberalismo e aos limites da lei de anistia imposta pelos militares. Seu regresso ao país foi precedido de uma dura crítica à Dialética da dependência (sua obra mais conhecida, publicada nos Cadernos Cebrap em 1978) por Fernando Henrique e Jose Serra que, por incapacidade de interpretação ou má-fé, manipularam e deformaram livremente seu pensamento, aproveitando-se do desconhecimento do público brasileiro sobre seus escritos e da censura que impuseram à sua resposta, divulgada na Revista Mexicana de Sociologia, em polêmica aberta. Reintegrado à UNB em 1987, após sua expulsão sumária pela ditadura, apenas em 1992 publicou seu primeiro livro no Brasil, Dependência e integração na América Latina. Em 1993, volta ao México para assumir a direção do CELA/UNAM, retornando ao Brasil, já doente de câncer linfático, para falecer em 1997.
Mas por que liberais e fascistas se uniram para impor barreiras à sua atividade intelectual e à divulgação de sua obra? Que consensos o autor desafiou? Responder a essa questão exige fazer um levantamento ao menos sumário das principais suas contribuições. Marini deixou uma obra instigante e provocante que renovou o marxismo, formou diversas gerações de pesquisadores e projetou o pensamento latino-americano para os grandes centros influenciando a esquerda estadunidense e europeia. Ele lançou as bases de uma economia política da dependência ao desenvolver os conceitos de superexploração de trabalhosubimperialismo e padrão de reprodução do capital, e demonstrar a compatibilidade do progresso técnico com os esquemas de reprodução de Marx. Analisou a fragilidade das democracias latino-americanas formulando conceitos como os de Estados de contra-insurgência e Estados de 4º poder. Sistematizou e analisou criticamente as principais correntes do pensamento social latino-americano constituídas desde os anos 1920, bem como os dilemas do socialismo no século XX e no século XXI, que viria.
Para o autor, o capitalismo é um modo de produção mundial que se articula em formações sociais, as quais isoladamente não representam mais que formas particulares de sua lógica global. Tal visão rompe assim com o enfoque eurocêntrico que postulava serem a Europa Ocidental e os Estados Unidos a essência do capitalismo e sua expressão modelar, enquanto a América Latina e a periferia seriam regiões de atraso, marcadas por formas pré-capitalistas ou insuficientemente capitalistas de organização econômica, política e social. O capitalismo constitui-se através de uma economia mundial que institui uma divisão internacional do trabalho monopólica, hierarquizada e competitiva, baseada em formas distintas e complementares de especialização produtiva e gigantescas transferências de excedente e de mais-valia das periferias para os centros. A teoria marxista da dependência, ao lançar luz sobre o lugar da América Latina no sistema mundial capitalista, contribuía para desvendar sua gênese, suas estruturas e dinâmicas de evolução. Mais que uma teoria do capitalismo na periferia, constituía-se em ponto de partida para uma reinterpretação do capitalismo global e nos centros, mostrando as interconexões entre as distintas formações sociais que articulava.
superexploração do trabalho seria uma consequência da forma como o capitalismo se estrutura nas periferias e na América Latina. Nelas ocorrem dois tipos de transferências de valor, fundadas em última instância no monopólio tecnológico, ainda que não só nele: das economias locais para a economia mundial, e da pequena e média burguesia para os segmentos monopólicos internos, constituídos pela burguesia nacional que se associa por meio da dependência tecnológica, comercial e financeira, e pelo próprio capital estrangeiro. Tais transferências seriam mais dinâmicas que a própria geração local de mais-valor, reproduziriam economias mundiais e internas cada vez mais assimétricas, e teriam como consequência a apropriação de parte do valor da força de trabalho pelo capital, como forma de compensação. Esta apropriação se daria com a queda dos preços da força de trabalho por debaixo do seu valor e se efetivaria sob a forma combinada ou isolada de redução salarial, aumento da intensidade, da jornada de trabalho e aumento da qualificação da força de trabalho sem pagamento proporcional ao trabalhador.
A superexploração limitaria a expansão do mercado interno, uma vez que a redução do valor da força de trabalho independentemente da produtividade seria um dos recursos utilizados no capitalismo dependente para baixar custos de produção e compensar as pressões competitivas dos monopólios internacionais e internos. Entretanto isso exigiria, para sua efetivação, altos níveis de desemprego e limitações ao exercício da soberania popular, comprometendo parcialmente a capacidade de geração de progresso técnico, uma vez que esta depende da qualificação da força de trabalho. Assim, os amplos níveis de desigualdade e pobreza, a fragilidade de nossos sistemas de educação, ciência e tecnologia e de inovação, a instabilidade democrática e os golpes de Estado seriam parte do constitutiva do capitalismo na América Latina e não uma excepcionalidade – esta sim referida aos períodos de inclusão e ampliação do mercado interno, de fortalecimento democrático e de afirmação da soberania produtiva e popular.
Todavia, a integração tecnológica gerada pelo capital estrangeiro tenderia se chocar com os limites do mercado interno, levando, para a realização de mercadorias, à ênfase no consumo suntuário, nas compras estatais e no desdobramento para o mercado externo. Criaria-se o espaço para o subimperialismo nos países onde a burguesia alcançasse um diferencial de composição técnica do capital em relação aos seus vizinhos, tendo ao alcance mercados regionais, sem nenhum competidor externo importante, para os quais pudesse orientar a produção manufatureira e obter fontes de matérias-primas e suprimentos estratégicos. O subimperialismo se desenvolveria nos marcos de uma política de cooperação antagônica entre países dependentes e imperialistas, mas estaria ao alcance apenas de alguns dos países dependentes. Nestes, o subimperialismo disputaria a primazia com o alinhamento radical à potência hegemônica, podendo ser ou não a alternativa hegemônica de políticas públicas.
Nos anos 1990, no contexto de um amplo balanço do pensamento social latino-americano que apenas iniciou em suas Memórias e continuou na série Teoria Social Latinoamericana que coordenou na UNAM, Marini menciona a necessidade de se retomar o fio da teoria da dependência dos anos 1970 de modo criador e transcendê-la, seja para avançar na construção de uma teoria marxista da dependência, que depure a teoria da dependência de suas aderências funcionalistas e desenvolvimentistas, seja para avançar na análise dos processos de reestruturação do capitalismo mundial impulsionados pela globalização, com profundos impactos sobre sua economia política e o sistema interestatal. Nesse sentido, em seus últimos trabalhos, o autor menciona a necessidade de se estender o conceito de superexploração aos países centrais para analisar as transformações provocadas pela globalização no capitalismo mundial. Segundo Marini, o deslocamento do monopólio tecnológico para ciência e o aumento das escalas produtivas que orienta a produção para mercados mundiais criam uma nova fonte de mais-valia extraordinária mundial na combinação entre tecnologia de ponta e força de trabalho superexplorada, passando a regular os salários nos países centrais pelos da periferia.
Passados 20 anos da morte de Ruy Mauro Marini, como avaliar o legado da sua obra?

Atualidade da obra de Ruy Mauro Marini e da Teoria Marxista da Dependência

Marini morreu em pleno auge do neoliberalismo e embora tenha esboçado no México certos elementos para a retomada do pensamento latino-americano não chegou a presenciar mais que o início de sua nova ofensiva, que permitiu a retomada e desenvolvimento de sua obra pelas novas gerações, rompendo parcialmente o bloqueio que a ela fora imposta, principalmente no Brasil. Ao denunciar o caráter superexplorador do capitalismo dependente, ele colocava em cheque as ilusões do pensamento desenvolvimentista e o discurso de modernização social do liberalismo brasileiro e latino-americano, mostrando sua tendência à convergência com os setores mais conservadores.
Homem generoso e dedicado formou gerações e gerações de pesquisadores. O conheci, a partir de contato mediado por Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra, e dele recebi ampla acolhida em minhas iniciativas de pesquisa durante o mestrado, quando me orientou na leitura de O capital durante um ano e meio, em sessões mensais que duravam 3 a 4 horas em sua casa.
O rompimento do bloqueio à obra de Marini surgiu de um conjunto de fatores que se articularam: a publicação de sua obra na internet em site hospedado na UNAM permitiu amplo acesso a mesma; a crise do neoliberalismo na América Latina despertou o interesse da juventude sobre seus escritos; a reorganização da capacidade de pesquisa do pensamento crítico latino-americano através de organismos como CLACSO, SEPLA e ALAS, que fogem ao controle das agências nacionais de fomento dirigidas em geral pelo pensamento conservador e liberal; o trabalho ativo de pesquisa das novas gerações; a penetração de suas ideias nos movimentos sociais; e a publicação de diversos livros sobre sua obra, entre os quais a pioneira coletânea brasileira publicada em 2009, pela Boitempo, América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini, organizada por mim e Adrián Sotelo Valência e coordenada por Emir Sader e Theotonio dos Santos.
A história da América Latina no século XXI evidencia a força das teses e da obra de Marini. Entre os principais aspectos que a reforçam podemos indicar:
(a) O abandono da burguesia latino-americana de qualquer pretensão industrialista e soberana em favor da financeirização e do modelo exportador centrado na reprimarização, nas maquilas, em nichos de mercado agroindustriais ou voltados para a geração de partes e componentes de menor intensidade tecnológica;
(b) A forte resistência às experiências nacionais-populares promovidas pela ascensão das esquerdas e as tentativas de desestabilizá-las, bem como as reformas sociais e políticas de inclusão social impulsionadas pelos governos de centro-esquerda na América do Sul;
(c) A restauração conservadora e neoliberal realizada através de golpes de Estado, como no Brasil, Paraguai e Honduras, ou por apertadas vitórias eleitorais, como na Argentina, cujo objetivo é destruir direitos sociais, restabelecer as elevadas taxas de superexploração, privatizar o patrimônio público, e aumentar a desigualdade e as taxas de pobreza
(d) O restabelecimento do subimperialismo como variável chave na política externa brasileira com a pretensão dos governos petistas de impulsionarem as cadeias produtivas industriais brasileiras, sem inseri-las de maneira efetiva em marcos institucionais de integração regional cooperativos que lhes planificassem; e
(e) A forte ampliação dos níveis de desigualdade e a elevação dos níveis de pobreza nos Estados Unidos, a partir da combinação entre finaceirização e deslocalização produtiva para a China e o México, ou na União Européia, a partir da introdução do euro e da combinação na Alemanha entre alta tecnologia e baixos salários, oriundos da absorção da força de trabalho do Leste, para destruir e reverter a lenta convergência do nível de renda que se realizava entre a Europa mediterrânea ou latina e o norte europeu.
No plano teórico e analítico o enfoque marxista da dependência tem se desdobrado de forma criativa nas seguintes direções neste século:
(a) No caminho, destacado por Marini, de inversão dos fluxos colonial e eurocêntrico das ideias que passaram, nos anos 1970, com a Teoria da Dependência, a influenciar os Estados Unidos e a Europa Ocidental desde a América Latina. Trata-se então para prosseguir neste caminho de compreender a teoria marxista da dependência como uma primeira etapa da construção de uma teoria marxista do sistema mundo, que não apenas avança na ressignificação das teorias do imperialismo dos anos 1910-20, mas também dos enfoques mais recentes de Immanuel WallersteinGiovanni Arrighi e Beverly Silver;
(b) Na análise dos padrões de reprodução do capital na América Latina, mostrando sua vinculação com a financeirização, o neoliberalismo, os ciclos econômicos e a revolução científico-técnica;
(c) No estudo do conceito de superexploração do trabalho, sua gênese e suas novas formas de concreção;
(d) Na investigação das novas expressões do subimperialismo na América Latina;
(e) Na análise dos novos padrões de reprodução ideológica da dependência em nossa região
(f) Na investigação da crise da democracia liberal, da natureza dos Estados de exceção latino-americanos e de sua proximidade com o fascismo;
(g) Na elaboração do desenho estratégico dos processos de emancipação de nossos povos da dependência, enfatizando sua geopolítica regional e mundial, sua base de classes, étnica, social, ambiental e seus eixos político-institucionais
Apesar dos avanços nos últimos anos há muito o que se fazer. O desenvolvimento da teoria marxista da dependência segue encontrando resistência na esquerda centrista, que cada vez mais perde espaço diante da violenta restauração neoliberal, e na esquerda pós-moderna, que pretende priorizar as questões identitárias e ambientais, mas em detrimento das classes sociais, do Estado e da geopolítica mundial como instrumentos de análise, de poder e de transformação.
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Para aprofundar a reflexão, recomendamos a leitura de Padrão de reprodução do capital: contribuições da teoria marxista da dependência, uma reinterpretação coletiva da história latino-americana feita por Jaime Osorio, Marcelo Carcanholo, Mathias Luce, Carla Ferreira e Marisa Amaral, além o próprio Ruy Mauro Marini – que formam duas gerações de vigorosa tradição da teoria marxista da dependência; e da Revista Margem Esquerda n.17, que abre com uma aprofundada entrevista de Vânia Bambirra a Carlos Eduardo Martins, além do mencionado A América Latina e os desafios da globalização.
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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe(Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Veneza se move para o norte: as origens do sistema financeiro transatlântico

Londres e Wall Street: mudanças de regime e guerras por procuração
Nesse texto irei abordar duas questões: como uma de ordem conceitual, como se formou, na modernidade, o princípio oligárquico. Outra historiográfica: falta a detecção de o que foi a chamada Nobreza Negra veneziana, relatada por Dante, Maquiavel, a mesma nobreza que, na Grã-Bretanha, foi responsável pelo assassinato de Christopher Marlowe, que escreveu o primeiro Fausto, e descreveu nele seus crimes.
 
Devido a ausência de modelos explicativos satisfatórios para dar conta da crise financeira internacional, cujo processo parece repetir um padrão único e em constante progressão, precisamos buscar em diferentes fórmulas discursivas entender o caráter exato da crise de desintegração econômica que vivenciamos. A velha teoria cíclica sobre a ascensão e queda constantes da saúde das economias nacionais encampada pelo marxismo tradicional, mostra-se incapaz de entrever a profundidade, a constância, de um padrão único de política econômica, cuja raiz na história ocidental pode ser encontrada no capitalismo financeiro veneziano. Veneza, desbaratada pela crise que ela própria criou e que teve como consequência a Peste Negra, e também expulsa pelos ventos progressistas do Renascimento na Itália, move-se para o norte, primeiro na Holanda, para aí sim encontrar seguro refúgio nailha britânica, num movimento ainda não detectado pela historiografia tradicionalista dentro ou fora das universidades.

Continue lendo “Veneza se move para o norte: as origens do sistema financeiro transatlântico”

O liberal-fascismo e os travestimentos da palavra democracia: o que é a legitimidade política atualmente



A luta pelo renascimento das “diretas já” mostra talvez menos a força do que a fragilidade social em que fomos jogados. Reconhecer o Congresso inteiro como corrupto não é legitimar, agora no chamado campo da esquerda, a deslegitimação da política que faz cotidianamente, por exemplo, lutadores de MMA se tornarem mais honrados do que qualquer político profissional?

Por que não se consegue debater, ainda agora, as vias normais de volta à normalidade, ou seja, a recondução da presidenta deposta ao cargo?

Por que sempre os gritos de guerra saindo de todos os lados?

Somos atacados pelo império com suas inúmeras artimanhas e focos de combate: guerras irregulares com uso ou não de armas, com manipulações políticas, jurídicas, mas cujo alvo sempre é a economia do país visado. Lava-Jato.

Liberal-fascismo: a palavra que deve dar nome a muitas coisas que hoje se chamam simplesmente de “democracia” ou aumento das liberdades individuais ao custo do bem-estar público. Esta a nossa conjuntura.

O que é a legitimidade política atualmente?

Bill Clinton, um presidente fraco, de vida pessoal questionável, sem o caráter necessário para reverter a campanha do “complexo industrial-militar” contra ele (um processo de impeachment por causa de um caso extraconjugal, uma aberração que nos faz ver que as tentativas de golpe estão dentro das relações de força, das guerras travadas dentro da sociedade, do que num campo supostamente jurídico), aboliu de uma vez com a lei Glass-Steagall, implantada por Roosevelt, responsável pela separação bancária: os bancos de investimentos eram proibidos de usarem da poupança ou mesmo das contas correntes das pessoas para fazerem suas apostas. Com o fim da lei, acabou se dando mais liquidez ao sistema de especulação e, rompida sua vitalidade, teve de ser socorrido com os Q.E. neokeynesianos da era Obama, criando uma transferência massiva de recursos da sociedade para o setor financeiro, para, num cinismo próprio aos tempos mais modernos, não se acabar nem com uma nem com o outro.
São as práticas oriundas das fórmulas matemágicas do liberal-fascismo que fazem multiplicar recursos de diversas fontes para manter o regime imperial, não globalizado propriamente nos dias atuais devido à resistência que representa o desenvolvimento econômico chinês e seu preparo para dar mais um salto com a política da Nova Rota da Seda, terrestre e marítima; resistência na zona de conflitos que se tornou o Oriente Médio com as guerras para mudança de regime, sejam ou não por procuração, como bem demonstrou Trump, ou seja, que pode querer não se delegar à terceiros o trabalho sujo a ser feito. Matemágicas que criaram a fórmula encantada das “pedaladas fiscais”, simples artifício para se esconjurar a presidenta eleita, e logo congelar os gastos primários, a rede de proteção aos trabalhadores, encolher os bancos públicos a começar pelo assalto de 100 bilhões ao BNDES (devemos lembrar da autorização do saque do FGTS para trabalhadores endividados, parte para capitalizar os bancos brasileiros, sem qualquer problema de solvência, e para deixar as sobras para injetar algum recurso na economia através do consumo popular; fora a recém liberada “divisão dos lucros” do Fundo, outra pá de cal na capacidade de poupança necessária à criação de crédito para investimentos públicos) com o fim da Previdência, com a medida populista do saque ao FGTS, como falamos, ou seja, o esvaziamento do tesouro público, da transferência de recursos que se encontravam com a Caixa Econômica migrados para os bancos privados através da renegociação de dívidas feita pelos cidadãos, etc. 
A luta pelo renascimento das “diretas já” mostra a fragilidade social em que fomos jogados. Reconhecer o Congresso inteiro como corrupto não é legitimar, agora no chamado campo da esquerda, a deslegitimação da política que faz cotidianamente, por exemplo, lutadores de MMA se tornarem mais honrados do que qualquer político profissional? A necessidade de se voltar à normalidade democrática é uma frente aberta para se fazer retornar a esperança que um governo não elitista volte ao poder ou continue nele. É uma esperança, uma chamada à guerra, já que vemos os limites do que se chama democracia quando temos de nos submeter aos arbítrios de uma Suprema Corte como “último bastião” das aspirações populares – talvez seja essa a expressão, já que lá se diz que é a guarda da constituição, ou seja, da democracia e da sociedade (talvez falemos dessa instituição como se fosse uma Santa Sé, para sermos devidamente arcaicos, para pedidos últimos de clemência). Uma democracia que, ao chegar a seus limites, deve guardar alguma esperança num órgão extremamente elitizado, sem nenhum cheiro de povo, de democracia, deve ser aprofundada com um chamado à luta, à criação de um estado de exceção artificial – a demonização, via novas diretas, do político -; seria esse o caminho? Com certeza, pois um caminho deve haver, mas sem esquecer que o caminho legítimo é a recondução ao cargo da presidenta eleita através da devida submissão dos decanos aos ritos constitucionais que devem obedecer, ou seja, o julgamento da inépcia jurídica, da revanche política, que foi todo o processo que levou ao afastamento de Dilma. Este seria o caminho normal; o outro, o de exceção. Infelizmente, o que nos traz mais esperança e capacidade de mobilização é o segundo, até pela própria percepção política da sociedade que continua a ver em Dilma uma presidenta, talvez, inadequada… Ecos da grande histeria que nos joga no estado de conflagração social que vivemos. Aporia inevitável entre uso de toga e exercício do voto popular: como se a democracia fosse algo acabado, algo perfeito, a mais legítima conquista social diante dos atrasos de muitos séculos de tirania. Na verdade, instrumento do império com suas inúmeras artimanhas e focos de combate: guerras irregulares com uso ou não de armas, com manipulações políticas, jurídicas, mas cujo alvo sempre é a economia do país visado. Lava-Jato.
(escrevo agora revendo meu texto. as diretas já, campanha encampada também por dilma rousseff, é, como disse, a frente de luta capaz de arregimentar, de formar uma frente de batalha frente à situação atual. o que não desvia nossa tenção de que o caminho para a normalidade seria a recondução da presidenta ao cargo. os ataques continuariam com sua ferocidade, em suma. caso contrário, a frente das diretas não seria a bandeira para se “arregimentar” o que quer que seja. seria, no mais, o caminho da exceção, como o que pedia benjamin contra o estado totalitário? é esse exatamente nosso caminho? não acredito na duração da reexperiência nazista, como vivemos. o que não nos anula de alertar para sua intensidade, principalmente no contexto internacional)
[seguiremos como se nada houvesse acontecido. claro e sempre, esse é um texto com revisões]
Mauro Santayana, um primor de lucidez, melhor do que qualquer “jornalista ansioso”, qualquer um tão acostumado com audiências (nesses tempos de blog, quantos tipos de audiências? o “ansioso” é mais tradicional nesse quesito, o que de forma alguma lhe testemunha a favor), disse que as denúncias contra o MT são uma espécie de complô para tornar mais palatável a possível prisão de Lula. Nem uma coisa nem outra, é o que sugere algumas evidências. Mas o fundamental não são as evidências, no caso, mas o princípio, o que os lavajatenses jamais conhecerão. Luís Nassif tem uma tarefa, para mim enojante, de esmiuçar algumas facetas da convivência diária no meio judiciário. No caso, em especial, na Procuradoria Geral. Fez inúmeras publicações sobre Janot. Tornou-se quase um especialista nessa espécie de sombra de Moro – pelo menos é como se apresentou até então. E a sombra ou o Sombra engoliu seu pupilo. É isso que nos faz divergir em termos de Santayana. Nassif foi certeiro sobre as disputas internas que levaram Janot a de algum modo aceitar os acordos dos plausíveis donos da Friboi (porque até que se prove o contrário a empresa é propriedade do Lulinha) ao mostrar simplesmente que, ao não conseguir apoio para sua segunda reeleição, Janot chutou o balde (existe também a questão da união de Janot com a Globo, no sentido de fortalecer o MPF, colocar um nome de confiança deles, para morrerem por aqui as investigações estrangeiras sobre as atividades criminosas do consórcio Globo-CBF). Fernando Brito foi ainda mais arguto: Sérgio Machado foi quem divulgou o “essa porra”, o “acordo com o Supremo, com tudo”. já cordado com Marcelo Miller, hoje definitivamente convertido à iniciativa privada. Com Miller, torna-se mais clara a questão que colocamos em maio do ano passado:
Agora, contudo, ainda fica uma questão. As gravações feitas por Sérgio Machado foram publicadas no fim do mês de maio, sendo que foram feitas em março – dizem. Se o processo de impeachment só foi votado no senado já quase chegando no meio do mês, por que as gravações só foram divulgadas talvez mais de dois meses depois de terem sido feitas? Dá para se argumentar que as gravações foram feitas como uma espécie de auto-proteção de Sérgio Machado. Tipo “se der merda” tenho isso aqui. Mas por que que não “deu merda” antes, mas só depois de 15 dias de governo interino? As gravações, inclusive por envolverem o presidente do senado, poderiam ter simplesmente bloqueado a votação da admissibilidade do impeachment. Mas a Folha de São Paulo resolveu que só daria merda no fim do mês, e soltou as gravações que supostamente colocariam o jornal novamente no “campo progressista”, pura estratégia de marketing como vários analistas já viram, triste reedição do “progressismo” do jornal durante o inevitável, as Diretas Já.
(…)
Logo, frente ao óbvio dessas gravações, é o que o Abertinho pergunta, clama, esbraveja: Por que não foram divulgadas antes? Imagina essas gravações com a tentativa de Waldir Maranhão… Não dá para se especular muito agora. Somente dá para concluir que é muito conveniente tudo isso vir só agora. Se viesse depois, já que a fonte é uma pessoa que teve a vida devassada pela PF em dezembro, traria ainda mais incredibilidade para o PIG, e poderia atear fogo no país caso fosse divulgada uma conversa de março depois de julgado o mérito do impeachment. Seria grotesco também porque deveriam paralisar a caça a Machado, e a Mani Lipute não para nunca. Mais uma de suas entranhas seria desvelada. A Torre de Londres caso fique um dia ou mesmo algumas horas inativa poderia ruir. Sei que Sérgio Machado poderia ter calado Renan na hora certa, e todo o PIG e os admiradores de J. Barbosa junto.
Miller, ao tempo ainda no setor público, sem o cargo tão bem remunerado que o fez pedir demissão de um dos empregos mais rentáveis do país, saberia da gravação. Depois da delação da empresa supostamente subordinada à figura intangível a que se chamou Lulinha – um fantasma criado -, Miller fará no campo do livre-mercado judiciário seus transcurso com a PGR. Que belo final! E ainda podendo servir nos escritórios de advocacia americanos que foi contratado, como advogado dos irmãos Batista. A relações entre desejos pessoais e o ato de guerra contra o presidente ilegítimo é tão flagrante que a delação é de 6 de maio e seu pedido de demissão de Miller ocorreu ocorreu no dia seguinte. É um direito inalienável, segundo os liberais. Sem apelo algum ao linchamento, eis um movimento interessante até demais para não ser investigado por nossos doutores tão ocupados de encher a boca para cuspir o Anão – “fora Temer” e respeito à Lava-Jato, ainda que seus movimentos contradigam qualquer imparcialidade. Liberal-fascismo: a palavra que deve dar nome a muitas coisas que hoje se chamam simplesmente de “democracia” ou aumento das liberdades individuais ao custo do bem-estar público. Esta a nossa conjuntura.

“Onde não houver democracia nós levaremos nossos aviões”: não se preocupe, esquerda bolivariana

Ride the highway west, baby / Ride the snake, ride the snake
É com essa frase sensacional do candidato da “ultra-esquerda” francesa (são sempre muito divertidos essas denominações por geralmente não dizerem absolutamente nada – José Serra à esquerda de FHC que também foi de esquerda, e assim seguimos até o inferno), Jéan-Luc Mélachon: “onde não houver democracia levaremos nossos aviões”. Versão bem pós-moderna da doutrina do Big Stick. Ao ser perguntado sobre o “regime de Maduro”, o candidato à presidência da França fez uma pergunta muito simples: você está me falando do Maduro, o presidente, ou da constituição venezuelana? O que seria o “regime” de Maduro: um ou outro? O entrevistador, claro, não tem o que responder. Isso é demais para qualquer “liberal”, qualquer propagandista do fim do mundo quando seus objetivos não são atendidos. Aliás, quando são, falam em “fim da história”…
Mélachon retruca perguntando sobre o por quê da centralidade da Venezuela no debate francês: e o Iêmen, e o Qatar, Bahain  – presos políticos, morte de civis, supressão de partidos – sobre nada disso se fala enquanto se louva a Democracia. Sobre a Venezuela: e a partilha dos recursos do petróleo? Queremos que a Venezuela (e isso é o que Dilma sempre falava em termos de “maldição do petróleo”) se torne uma monarquia ao estilo árabe para assim obter o apoio Ocidental? Os venezuelanos se manifestam contra o governo de Maduro? As manifestações na França são do mesmo teor: manifestações de oposição. Qual sua predileção como jornalista que é? Que tipo de democracia defende? Seria uma alternativa real ficar todo o tempo fazendo o balanço entre gastos fiscais e gastos sociais para se definir qual será diretriz econômica francesa? Os “gastos fiscais” são realmente assunto relacionados à soberania nacional ou assunto exclusivo da Troika?

E assim vai. Para quem quiser assistir, disponível só em francês, clicar aqui ou ver aqui embaixo.

Assad também se apresentou essa semana num diálogo bem franco, com um jornalista sírio que, por conhecer minimamente os problemas internos, não tem que ficar aludindo toda hora à deusa América. Falou sobre seu diálogo com a oposição, com a impossibilidade de qualquer tratativa de paz com os terroristas, pois em grande parte são estrangeiros e são financiados por outros países. Na verdade, são mercenários numa região do planeta em que esse meio de vida é comum. Sem abusar da comparação, é como no Sertão rosiano: ou se vira jagunço ou se vira padre. É claro que, no Oriente Médio, não sabemos qual seria a alternativa ao “padre” de Guimarães Rosa. Achamos conhecer tão bem a região quando falamos de guerras e fundamentalismo porém se, caso consideremos a hipótese habitual, de que o fanatismo religioso é aliado do ímpeto guerreiro, o Grande Sertão é o Éden já que, pelo menos, oferece mais do que uma opção.

Não sabemos ainda se foi um show de pirotecnia de Donald Trump seu ataque à Síria e as ameaças à China veladas com ameaças à Coreia, ou se sua virada de mesa é algo definitivamente sério.

I explained to the President of China that a trade deal with the U.S. will be far better for them if they solve the North Korean problem!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 11 de abril de 2017

O presidente Coringa estava sendo atacado por todos os lados por causa de um suposto envolvimento com a Rússia. Foi o que falei quando disse pertencer à sofística os vocabulários “pós-modernos” como fake news, pós-verdades e etc. O que vale, e isso há bem mais tempo do que se conta, é o neomacartismo. Não foi sobre outra atmosfera que cresceu o governo Lula, por exemplo, tendo sempre que viver uma liberdade negociada. Agora são tempos de guerra e a perseguição ao inimigo não admite mais trelas – como se vê no caso de toda a América do Sul, visivelmente ameaçada pelas forças de conquista do Império, ainda que não se veja aviões ou drones no nosso céu. Mas a violência dos mísseis Tomahawk são apenas a tradução física do ataque quase nuclear que fizeram (nuclear também no sentido que quiseram devastar, transformar em terra arrasada, todas as políticas que levaram o país em 2014 – nem tanto tempo assim atrás – a sair do mapa da fome da ONU e atingir os 4% de desemprego). Logo, segue atuante também por aqui as palavras de Mélanchon, que não saíram sem uma boa inspiração.

ONDE NÃO HOUVER DEMOCRACIA NÓS LEVAREMOS NOSSOS AVIÕES

Pós-verdade, narrativas e fake news: palavras vazias diante do neomacartismo

Como disse Jim Morrison: the West is the best

As “feak news” da Folha, numa matéria intitulada “Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil“, começa com um tema para chamar a atenção de seus leitores. Gilberto Gil supostamente teria chamado Sérgio Moro de “juizinho fajuto”. É o que desperta a atenção do paneleiro leitor. Mas as inverdades são desmentidas. O responsável pela divulgação da fala de Gil, Beto Maluco, diz ter reportado de outro site segundo o qual o cantor teria se expressado dessa maneira num show. Como não há vídeo que prove, o Maluco perdeu o processo e ainda pode coçar os bolsos para dar a Gil “danos morais”.

Fábulas urbanas como o não menos estranho costume urbano de pés no chinelo e calçada molhada – sempre se procura evitar. Rasteira, imunda e superficial: é assim que a Folha quer mostrar “a engrenagem das notícias falsas no Brasil”? Engane o idiota e produza sua própria fake news. Esta seriam modo de malucos produzirem manchetes sensacionalistas, ganharem cliques e faturarem algum trocado. Não sei se é tanto para guardar na Suíça ou no luxuoso apartamento dos tucanos em São Paulo – em notas vivas, nativas e estrangeiras. As fake news, portanto, estão reduzidas a um tipo de comércio de baixo nível e pode manchar o nome de pessoas públicas. Será só isso mesmo?
O competente historiador Robert Darton, na mesma Folha, remete as fake news ao Gênesis:
s historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existirams historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram

Os historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram…

E as notícias falsas sempre existiram. Procópio foi um historiador bizantino do século 6  [sic] famoso por escrever a história do imperador Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news” , arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha presidencial americana. 

A meu ver o principal difusor de fake news, ou “semi-fake news” (porque as notícias continham um pouquinho de verdade), foi Pietro Arentino (1492-1556), um grande jornalista e aventureiro do início do século XVI. Em 1522, quando sua carreira começou, ele escrevia poemas curtos, sonetos, e os colava na estátua de um personagem chamado Pasquino perto da Piazza Navona, em Roma. Ele difamava cada dia um dos cardeais candidatos a virar papa. E os poemas eram hilários. Ele caçoava de um que era muito tímido dizendo que era o menino da mamãe, que outros tinham amantes, etc.

Esses poemas ficaram conhecidos como “pasquinadas”. Eram fake news em forma de poesia atacando pessoas públicas, fizeram grande sucesso e Arentino os usou para chantagear pessoas, papas, figuras do império romano etc que lhe pagavam pra que ele não publicasse essa espécie de tuíte ancestral. 

Aí eu pularia par meu próprio período de estudos, o século 18, quando havia gente que espalhava fake news, às vezes por dinheiro, noutras por esporte.

Na Londres de 1770 os chamados “homem-parágrafo” recolhiam fofocas e as redigiam em um único parágrafo em pedacinhos de papel e vendiam para impressores/editores, que as imprimia em forma de pequenas reportagens muitas vezes difamatórias. 

Acho que essas histórias eram muito mais escandalosas do que hoje. 

Atuavam também em Paris, de forma mais subterrânea, porque havia censura à imprensa.
Então você tinha esse tipo de fake news – eram como tuítes ou posts do Facebook – circulando por toda parte em Paris e Londres às vésperas da Revolução Francesa e em boa parte do século 18.

Outro conteúdo genérico a respeito das “notícias falsas” – propaganda amiga – pode ser visto no comercial do New York Times:

Tudo isso mostra o empenho da mídia em pautar o que é ou não uma notícia falsa. Das fofocas de facebook até os grandes temas internacionais, o importante é ter o controle sobre as narrativas. O G1 faz uma reportagem sobre o empenho da Facebook em combater as “fake news”. Um cidadão consciente, não sei se mais ou menos famoso do que Jobs, com certeza mais militante que Snowden, quer trazer a verdade para a rede.

Um palhaço no palco.

Quando se fala em Big Data é claro que não se pensa em Octopus. Não importa onde se procure, serão sempre temas amenos os encontrados na mídia, em qualquer uma delas, em 99% dos casos. Falar a verdade, como pode lembrar os últimos estudos de Foucault, sempre vem acompanhado de um componente de risco. Não só de processo judicial, mas para a própria vida. O livro Conspiración Octopus, de Daniel Estulin, foi o primeiro e único livro do autor em narrativa romanceada. Impossível contar toda a história do que é essa pós-indústria estadunidense, de Googles e Facebooks, sem, simplesmente, ser assassinado, como foi Danny Casolaro e alguns outros. Snowden é outro caso semelhante, porém conseguiu refúgio na Rússia – esse lugar anti-democrático – e ainda consegue, mesmo sem acesso aos arquivos de inteligência, falar a verdade de como as narrativas são fabricadas. Que as agências de inteligência estrangeiras podem invadir os smartphones, o whatsapp, etc., é verdade de polichinelo, pelo menos desde Snowden. Até televisões com câmeras ou microfones foram acessados pelos EUA no escândalo da espionagem que veio a tona durante o governo Obama. É um eufemismo falar em conteúdo pornográfico. A intimidade das pessoas como um todo é exposta nesse gigantesco sistema de Big Data. Não tem nada a ver com publicidade; relação alguma com dinheiro. Não se deve pensar em termos de “geopolítica”, como se fala. Não se invade o Oriente Médio para extrair petróleo. Essa é a parte exotérica da situação. Desde a questão do roubo do ouro dos Yamashita, do saque no sudoeste asiático logo após a Segunda Guerra – para falarem que não sou historiador – a questão do dinheiro nada mais é do que uma pós-verdade, uma “fake news”.

Escrevíamos esse post antes dos ataques estadunidenses à Síria. Estava em pauta ainda, e de maneira bem intensa, o chamado “Russian Gate“. O escândalo fabricado tinha relação direta – na verdade era o que a mídia chamava de caso maior – de fake news. Ao contrário do que se continua pensando aqui no Brasil, nos EUA o voto em Trump não foi só uma questão de “sistema eleitoral” ou de racismo dos antigos degredados da Saxônia. Muitos votaram em favor de uma “nossa América” que seria a primeira na prioridade do governante. Não às guerras externas, ao expansionismo indefensável, à desmoralização internacional, etc. Aí a grande decepção: pior que Obama. O tímido democrata, apesar de sua retórica imperialista, não ousou atacar diretamente um Estado soberano. Patrocinou oficialmente os “rebeldes moderados” e continuou, via monarquia do Golfo Pérsico, a financiar a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Trump acabou logo com a politicagem do correto. Atacou direto e dane-se o resto. Na cara dos chineses ameaçou a Coreia. Só um ponto, os coreanos do norte não estão “se armando até os dentes” por causa de uma remota possibilidade de ataque dos coreanos do sul. O que causa furor aos aliados chineses é o estabelecimento do sistema THAAD, o escudo anti-mísseis concebido durante a guerra fria, e que seria para ser estabelecido numa cooperação com a URSS. Foi o maior esforço para acabar com apolítica de confronto e quem liderou essa iniciativa foi Lyndon LaRouche. Por isso foi preso, ele e seus colaboradores, num processo secreto movido por Kissinger e que levou à prisão política dos líderes americanos em plena queda do muro de Berlim, ou seja, quando supostamente as liberdades democráticas do ocidente estavam, de vez, asseguradas para a população mundial. 

Logo, ficou um pouco sem motivo a militância que faríamos quando idealizamos o post. Trump realmente superou todas as expectativas. Aqui sempre o chamamos de o Coringa. Pode ser uma carta muito útil no baralho, mas pode ser também de valor zero. Na verdade, o Coringa está mais para o algoz do Batman do que para a surpresa na mesa de jogo. E ele fez zerar muitas expectativas. Decepcionou a muitos. Não parece que vai reverter seu procedimento. Não tem qualquer preparo para isso. O atentado à Síria foi praticamente uma declaração de guerra mundial. Contra  a Rússia, primeiramente. Com a intervenção da China e o papel da OTAN, um novo Apocalipse se nos avizinha – mas já alertamos isso em muitas outras vezes, desde que criamos esse blog ano passado, o que não quer dizer que não estamos alertando para esse risco –  por vezes nitidamente inevitável – de uma nova guerra mundial – desde que escrevemos para um público mínimo, seja me nossa monografia de graduação, em nossa dissertação de mestrado, e em qualquer situação em  que podemos fazer nossa fala pública, seja de maneira escrita ou oral.

Como falar novamente de fake news agora? A Carta Capital lançou algumas artigos tentando explicar o tema. remeteu ao dicionário Oxford às origens do termo, comemorou que o Facebook tomou iniciativas a respeito do tema!, remeteu a Trump, como é de praxe, mas nunca encontrou o nexo entre pós-verdade e “notícias falsas”. Esta teve sua forte campanha, quase que sua certidão de nascimento, quando da eleição americana e os vazamentos contra Hillary Clinton. o problema, e isso não se vê ainda agora, que a Wikileaks vazou a favor de Sandres. Trump nunca foi o favorito, mas o adversário de Hillary poderia ganhar as primárias de seu partido. O republicano eleito sempre foi o cara mal visto pela mídia, escrotizado pelos politicamente corretos. De minha parte, sempre achei que, se uma guerra haverá, e das proporções que se avizinham, seria melhor em prol da verdade que Barack ou Hillary a começassem para não ter hipocrisia quanto aos instigadores de tal aventura. Começou uma guerra mundial: logo, culpado é Trump, o escroto ricaço analfabeto. Queria um neoliberal democrata a começar a aventura. Seria o fim das máscaras. Mas caso o Apocalipse de fato venha a acontecer, vamos ver as “afinidades eletivas” se definirem.

O fato é o seguinte, independente do que quis dizer antes do ataque à Síria: quando se atacou Trump por suas posições inicialmente pró-Rússia era neomacartismo. Tudo o que se inventou a partir disso eram as fake news. A pós-verdade, tema um pouco mais antigo, talvez tenha sua origem no 11/09, e de fato com o Ato Patriota: não importa quem você é, mas quem achamos que você é. Daí você pode ser processado, preso e torturado. A verdade está estabelecida antes de qualquer comprovação. Não importam as narrativas. Esse relativismo nunca existiu e não sei qual alam piedosa continua a pelo menos lembrar nesse tipo de conceito. Remete à questão das imparcialidades, dos pontos-de-vista, etc. Isso não existe na experiência existencial que vivemos. à beira de uma guerra de aniquilação, narrativas na verdade são versões diferentes pra a mesma mentira. E aqui chegamos a nosso ponto, independente das intenções anteriores ou posteriores ao nosso artigo: é a liberdade negociada em que vivemos, nosso neomacartismo. O perigo vermelho rondando de todos os lados. Ainda mais agudo internacionalmente depois que Trump foi eleito. Parece que se uniu o reino das pós-verdades, das acusações feitas num filme de ficção científica – completamente surreais – ao que se chama de “notícias falsas”, para falar da “conexão russa” de Trump, tudo isso na esteira da sanha persecutória do neomacartismo, que já vitimou nosso governo eleito e ataca Lula. Sempre o perigo vermelho. A guerra mundial, se virá, será na esteira da perseguição ao inimigo. Como fazem a Lula, ao PT, a Rússia, a China, a Venezuela e tudo o mais. Friedrich Schiller, quando da Revolução Francesa, disse que um povo pequeno encontrou um grande momento da história. Daí o seu fracasso. Não temos dois povos pequenos, mas os atlanticistas querendo dominar o mundo, querendo impedir que ele cresça para 10-15 milhões de pessoas e se tornar ingovernável, incontrolável. Esse será – e já é – o tom da guerra. Esse não será o fim.

Será o filho do Santo nosso herdeiro?

O Santo e seu filho
Já se configura com clareza que o filho trairá o pai, mesmo sendo este o Santo, como chamado pelos anjos do juízo nas últimas revelações que chegaram ao nosso pequeno, minúsculo, mundo político. Se discordei da dualidade Ciro-Lula, e refutei o Luis Nassif, a quem admiro demais, não tem como não concordar que Dória, com seu populismo rasteiro, filho imaculado do ninho tucano, caminha aceleradamente para a traição, condição sem a qual não chegará à disputa que insistem a seus ouvidos que é o mais preparado. Mais preparado já foi o Serra, já foi o FHC, o próprio Alckmin: tudo o que cheira a tucano vale mais do que os feios e fedorentos petralhas. São Paulo, fonte da virtude brasileira, dos verdadeiros pais do país, dos bandeirantes, mostra seu reino e sua glória: opus dei.


Nassif está certo sobre o protagonismo futuro do atual prefeito paulista, como outros também, e talvez há menos tempo. Essa é a única certeza, ou o caminho mais viável. Talvez possa ser ortodoxia de minha parte rechaçar Ciro como o candidato necessário caso consigam inviabilizar Lula. Como respondi a um dos meus leitores, Gabriel, fala que reproduzo logo abaixo, são fracos os argumentos que querem colocar um “pecado original” no PT. Houveram desvios, talvez o principal, o afastamento de Paulo Lacerda da chefia da PF. Não se procurou controlar a justiça como se fez com a economia. Não se criou qualquer solução criativa. O PT teve suas virtudes mantendo o tripé neoliberal de pé, a sagrada trindade, o que, se não é irritante, não deixa de ser admirável. Como fazer o país crescer e esvaziar, mas sem acabar, matar, com o dogma onipresente, que sopra quando e onde quer?


O que quis dizer tanto no “frente das esquerdas” quanto na “resposta ao xadrez do fim do mundo” é que Ciro é bem o antípoda de Lula, ainda que no “campo das esquerdas”. O Partido dos Trabalhadores, ainda o maior partido de massas no ocidente, é fundamental para a manutenção de nossa democracia. Comparar um candidato personalista com um dos principais líderes que criou essa frente de luta contra a Casa Grande, é algo que faz rir, se não gargalhar. Logo, uma associação Lula-Ciro, pelo menos para mim, é ridículo. Um não se compara ao outro, e caso formos reféns do segundo, como único candidato “viável”, mal para nossa “frente das esquerdas”, porém muito melhor, incomparavelmente melhor, do que sermos herdeiros do filho do Santo.

Segue a resposta que o leitor Gabriel me deu, junto com minha “tréplica”, com algumas colagens de respostas ao Nassif retiradas dos comentários de seu blog quando colocou em nível de igualdade Lula e Ciro. “Seria viável o Ciro Gomes?”, responde o leitor:

Talvez, vai depender da capacidade de articulação do Ciro e do PDT. Mas se faz necessária, pelos erros e principalmente pela falta de auto crítica do PT, que na narrativa do golpe parece tentar esconder que a recessão começou com a Dilma, no estelionato eleitoral, nomeou Levy e fez tudo que disse que não faria. O PT tem que acabar? Claro que não! Mas poderiam ser humildes, perceber que esse antagonismo que se levantou contra o Lula vai manter a instabilidade política no país enquanto ele e o PT continuar na “guerra” pela hegemonia (4 eleições seguidas, já deu neh?!). “Ciro crítica a esquerda e a direita, quer aparecer como independente” Parece que o Ciro é mais um oportunista ou “radical” que chegou pra surfar na onda da crise. Como sabem(espero), foi ministro da fazenda e ajudou a implantar o plano real no governo de Itamar Franco, depois vendo FHC jogar o projeto do PSDB no lixo em troca de poder, rompe e se coloca como candidato contra FHC no auge da sua popularidade, segue como candidato perde em 2002, apóia Lula no segundo turno, vira ministro um dos, se não o mais importante no projeto de transposição do SF, na crise do mensalão e sai do governo quando PT se alia ao PMDB. Enfim, se pegar entrevistas de 2006 até 2012(auge do PT), Ciro mesmo fora do jogo, em 2010 não consegue se colocar como candidato e depois é “passado pra trás” por Eduardo Campos, reconhecia os avanços sociais, mas sempre foi um crítico do ponto de vista da falta projeto nacional, estrutural, de longo prazo do PT. Tem muito mais legitimidade para disputar que Marina, Luciana, Jair…

Minha resposta: “Gabriel, sua última frase é irrefutável. É muito melhor, incomparavelmente melhor, ter um candidato como o Ciro do que esses que você citou. O Eduardo Campos deu uma rasteira em todos e deu no que deu. Parece que o plano era para Marina adquirir um verdadeiro protagonismo no cenário político, mas ela é uma falha em todos os sentidos, e não conseguiu atender aos seus patrocinadores. A crise econômico começa no segundo mandato da Dilma, sem dúvida. Tem o Levy, essa “anta”, como dizem, que colocaram lá, mas também tem que saber que os projetos do governo não eram votados; o que entrava em pauta eram as “bombas” do Eduardo Cunha. Além de ser incapaz por sua formação, o Levy se mostrou ineficaz pela conjuntura política. Esse debate do Levy é bom para mostrar a “verruga”, a “cicatriz”, a “parte maldita” (para lembrar o Bataille) de quem se quer criticar. Contudo, em 2014 começa a pleno vapor a Lava-Jato, com o poder de paralisar todo o sistema produtivo do país, o que o Clube de Engenharia chamou de “jurisprudência da destruição”. Isso (e que acho o principal), somado ao Cunha na Câmara, ao ambiente de “primavera árabe” promovido pela mídia e pelos “movimentos apartidários” (sabe-se lá financiados por quem), criou uma situação econômica terrível. E tem outros fatores externos, como a guerra econômica com a Rússia que fez baixar os preços do petróleo (medida que veio junto às sanções promovidas pela Europa e os EUA) e a queda no preço das commodities, associada ao estranhíssimo fenômeno da seca prolongada, as maiores registradas nos últimos anos. A Dilma perdeu a guerra econômica, isso é fato. Mas temos que saber quais foram os adversários enfrentados”. 
Um último ponto (retirado dos comentários do blog do Nassif): 

Algumas correções sobre o “petismo”

seg, 06/03/2017 – 13:45

O “petismo” não fracassou coisa nenhuma. Tem uma longa e detalhada história de sucessos que começou antes ainda da própria fundação do PT, com as greves feitas no final dos anos 70. O PT é o único partido de esquerda e de massas que existe no Brasil. Por isso apanha feito cachorro durante 24 horas por dia.
Não foi só o PSOL que nasceu do PT: foi o PSOL, o PSTU, a Rede, o PCO, etc. Na última eleição presidencial, por exemplo, tivemos 7 candidaturas presidenciais, das 11 existentes, com pessoas que fundaram o Partido dos Trabalhadores ou que militaram durante décadas no Partido dos Trabalhadores. O PT é a grande novidade da história política do Brasil, a ponto de ser capaz de ter sido a origem de quase 2/3 dos candidatos presidenciais de 2014.
Outro ponto é que tirando o PT a esquerda é microscópica – o que é um sério problema – e praticamente irrelevante. Partidos nascidos de erros estratégicos ou do ódio e do ressentimento (como PSTU e PSOL) não comandam coisa nenhuma.
Outro ponto é a respeito do tal de MPL, movimento que depois da idiotice completa e absoluta do junho de 2013 caiu no mais cavernoso ostracismo de que se tem noticia. E, ao contrário do que Nassif disse, o MPL contou desde o primeiro minuto com o apoio – a meu juízo equivocado – de Lula, de Dilma, do PT e da JPT. A ponto de serem chamados ao Palácio do Planalto para conversar e tudo mais. Absolutamente nenhum dirigente político do PT criticou o junho de 2013 quando o evento aconteceu. Todos exaltaram, de maneira ingênua até onde a vista alcança, aquela ‘autêntica manifestação popular’.
O junho de 2013, como alertamos aqui desde o seu miserável nascedouro, nada mais era do que o ponto de inflexão a partir do qual a direita se rearticularia a nível nacional. Tínhamos um país com inflação controlada, pleno emprego, investimentos públicos e privados em alta, grandes projetos de infraestrutura e se jogou tudo fora a partir da patética consigna dos ‘vinte centavos’ e da ainda mais patética consigna do ‘Não Vai Ter Copa’. Me admira que as pessoas ainda fiquem glorificando o MPL, que não representa coisa nenhuma e que apenas foi usado como mula da direita em 2013 para detonar uma ‘Revolução Colorida’ em Pindorama.
No mais, é evidente que a únida candidatura viável do campo democrático e popular é a de Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhuma outra tem densidade política capaz de fazer frente ao que aí está. De todos os modos é preciso dizer que soa até meio ridícula essa campanha risível de que o “PT está morto”, de que “com o PT não dá mais”, etc. A quem interessa essa lenga lenga contra o único partido de esquerda com real penetração social e enraizamento nacional que existe no Brasil?
O PT terá candidatura própria em 2018 – com Lula ou sem Lula. Isso é e será cada vez mais uma justa reivindicação da militância do Partido dos Trabalhadores. Se até o PSDB, que não vence uma eleição presidencial desde o século passado, sempre teve candidaturas próprias, é evidente que o PT – vencedor de todas as eleições presidenciais no século XXI – tem todo o direito do mundo de querer e de ter candidatura própria em 2018 para defender o seu imenso legado.
Quando se fala em “Frente de Esquerda” ou em “Frente Progressista” fico muito satisfeito. Mas não me iludo. Jamais existirá essa frente se colocarem como pré-condição que o PT abdique de sua história e da vontade hiper majoritária da sua militância. E de quaisquer modos, as nano agremiações do PSOL e do PSTU jamais farão uma “Frente Política” com o PT. Preferem ficar no 1% fingindo que comandam alguma coisa que ninguém nunca vê em lugar algum.
Que Ciro seja candidato e que a esquerda tente formar uma coalizão política. Mas Lula também será candidato e se não for o PT terá candidatura própria sem nenhuma sombra de dúvidas.
Por imposição, repito, da militância que já está se pintando para a guerra e não vai abrir mão de defender as suas cores, teses, bandeiras e legado em 2018.

Para completar, uma crítica irreverente e bem realista, escrito pelo heterônimo Boeotorum Brasiliensis, “O branding do Ciro está errado”: 

O problema com Ciro é a (des)construção de imagem. 

Você escuta o discurso dele por 20 minutos e faz sentido, mexe com sua ânsia de ver o país mudar e acabar as práticas de ataque às grandes possibilidades que Brasil oferece. Você ouve ele a segunda vez esperando o capítulo seguinte e assiste ao reprise do primeiro episódio.Dá uma certa frustração, mas, vá lá. Então você vai ouví-lo pela terceira vez e… Episódio 1, novamente. O discurso dele mostra um plano de voo de galinha. Das duas uma, ou é isso mesmo, um discurso decorado e oportunista ou ele é muito ruim, sendo que as hipóteses não são mutuamente excludentes. 

Além do mais, se você não tem um plano bom, pelo menos tem de ter empatia com o eleitor e uma postura que cative e atraia. No caso dele, nem uma coisa, nem outra. Ninguém, acho eu, compra aquela conversa de cabra-macho-do-sertão, um Virgolino do Bem. Também sabemos que o sotaque nordestino é forçado e que o inglês dele é ruim. Então deveria parar de falar “corno féa-da-puta” e esquecer a passagem pelo curso Wallita em Harvard ou Yale, sei lá. Todas as Ivy League têm programas de verão onde o cara paga uma baba para não estudar, fazer academic tour e ganhar credencial e endereço de e-mail no Alumni. Ficar anunciando mestrado fake nos USA a cada discurso é pedantismo e não credencia ninguém, nem em Sobral. 

Para completar, a estratégia de diferenciação na construção de marca não é feita batendo geral. Ele bate no governo golpista ao mesmo tempo quem que bate em Lula. Bater em golpista é necessidade óbvia e trend da próxima estação. Logo, isso não cria diferenciação. Bater no líder de pesquisa, outro trend visível, cria diferenciação sim, mas aumenta a rejeição. 

Ciro cria é a imagem do típico líder estudantil. Mete bronca em um discurso inflamado contra o sistema ligado no foda-se porque no fim a galera bate palma, as mina ficam ligada e vai ter cerveja a rodo com churrasquinho de gato na sequência. E amanhã? Amanhã, tem mais. 

Entre esse canabrava e o Xuxu do PT, o Haddad, fico com o segundo.

Uma última correção, se é que é possível. Fazer como ele algumas ilações primárias a respeito de supostas capacidades de Psóis e Pstús é praticamente uma irresponsabilidade. É igual ficar ouvindo palavras de Bernie Sandres chamando Trump de monstro e mentiroso. A candidata da guerra que ele apoiou, em termos de virtude, talvez fique muito aquém do bruto Trump, mas que não tem planos tão sutis, “democráticos”, para afirmar a supremacia do império, inclusive que passasse pela aniquilação de boa parte da humanidade. Essa é a esquerda alva das ilações, como não só do candidato que não passa do túnel Rebouças ou de Luciana Genro, mas também do patético Chico Alencar ou, quem se lembra?, de Heloísa Helena.
Um ponto a mais: na avaliação das “esquerdas” atuais, Luís Nassif entrevistou recentemente Guilherme Boulos, líder de fato, como Stédile, de frente de organizações, ao contrário de tantas outras “ilustradas”, que contribuem para a melhoria de nossa democracia. O curioso é que encontrei uma aporia do discurso do MTST, nada, contudo, pelo menos que eu veja, que o desmereça. A lei da não contradição só vale no sensualismo aristotélico e de seus sucessores. Boulos disse que nos governos petistas houve um aumento da democracia com a participação dos movimentos sociais nos diversos Conselhos criados, o que, por outro lado, acabou por dar um papel de coadjuvante a eles. No mais, não acha que um cargo institucional, um cargo eletivo, seria bom, pelo menos no momento para o MTST. Mas se eles queriam participar dos programas de governo isso não passaria de alguma forma pela via institucional? É só uma pergunta, para dizer para aqueles que dizem que só quero polemizar…
Se a recente carta de Dirceu não serve para apontar o que deve ser a nova “frente das esquerdas”, ficamos com a fala de Lula. Foi ele, mas também todo o movimento do qual participou, e acabo por sair como um de seus principais líderes, que fez as maiores mudanças no Brasil desde o pré-64. Desmerecer o PT com ilações a candidatos personalistas ou a supostas “esquerdas” não está à altura da fala durante seu último depoimento
-O que incomodou muita gente no mundo inteiro é este país, que tinha complexo de vira-lata, virar dono de seu próprio nariz.Nós fizemos a maior política de inclusão deste país. 36 milhões de pessoas saíram da pobreza. Eu saí da presidência e queria que a América Latina e a África adotassem as políticas públicas que adotamos aqui. Eu queria ensinar que o pobre no Brasil e no mundo seria a solução quando incluído no Orçamento. 
E foda-se a macro ou a micro economia e o Moro também! Ah!, e como o bom Boeotorum Brasiliensis, eu iria preferir não o Haddad, mas o Jacques Wagner. A Bahia hoje é um dos estados mais prósperos do país, junto com o Maranhão do Flávio Dino, e ao contrário do fake capixaba (tão elogiado pelos “liberais”. E foda-se as pretensas “novas esquerdas” também”