Ciro é um candidato viável? A “frente das esquerdas” de Luís Nassif

Escrevi uma resposta ao “Xadrez do fim do mundo”, do Luís Nassif, e apontei para o pessimismo do autor frente ao cenário terrível que vivenciamos. Hoje em seu blog, Nassif aponta muito bem para o costume das esquerda de atacarem a si próprio. Elas parecem não conhecer o seu inimigo e viverem de um narcisismo constante. Esse é o erro de Ciro Gomes, o erro tão natural dos “progressistas”. Critica a esquerda e a direita, quer aparecer como independente, e não agrega forças para além da admiração que se possa ter pelo seu suposto caráter. É lamentável, no mais, que personagens relativamente bem esclarecidas cultivem o caráter como Ciro, o que faz lembrar os ditadores, o que faz lembrar os atavismos mais funestos que ainda guardamos como espécie.

Se for para falar de personalidades fortes, como não lembrar de Jacques Wagner, muito poderoso em seu estado e que teve papel de liderança durante o governo de Dilma?
A questão é essa: o Lula é o líder maior de um grande movimento de massa, operário, das classes médias urbanas e de organizações campesinas e religiosas, que deu na fundação do Partido dos Trabalhadores. Lembrar dos protestantes dos “20 centavos” (aqueles que Nassif acha uma pena o governo petista não ter dado mais ouvido) pedido praticamente arrego para a CUT e o MST para controlar as manifestações é um fato que muito ajuda a explicar porque se deve peneirar ao máximo tudo o que hoje se chama de novos movimentos sociais. Ainda está para se investigar como a antiga bandeira do movimento estudantil foi cooptada e se tornou no Maidan brasileiro em 2013.
Quando ele fala que as melhorias no PT virão de fora para dentro não entende a capacidade de aglutinação social que ainda tem o partido. Continua sendo o maior partido popular do ocidente e constrói suas alianças com os movimentos minoritários mais ou menos tradicionais com grande força. Não é o PT que tem quizilas com o PSOL, por exemplo. Freixo, ano passado, culpou o PT por sua derrota. Como? Um candidato que não atravessa o túnel Rebouças, quanto menos a av. Brasil…
Nem num pesadelo o PSTU nasceu do PSOL: isso é só um erro básico que queria apontar no relato de Nassif. O PSOL nasceu – como não é difícil de saber – com a crescente insatisfação logo no início do primeiro mandato de Lula com a política conciliatória praticada por ele. Com o mensalão, correram assustados: não se sabe se por medo ou se por excesso de pudores. O PSOL se legitima com o mensalão, se legitima com algo que não existiu… Fica fácil de saber porque daí saíram Heloísa Helena, Luciana Genro e “bom moço” Freixo.
Isso é ponto pacífico e não é “guerra entre as esquerdas”. A união deve-se dar entre os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, principalmente. A CUT e o MST (e todas as outras siglas conexas) são fundamentais para a guerra que se travará com a votação da Reforma da Previdência e a Trabalhista, que vem no bojo. O movimento de mulheres que se uniram para defender Dilma e seu mandato, o movimento negro, o dos guetos: são milhares de composições que se podem formar, e que, historicamente, são mais ou menos próximos ao PT, ainda que existam afinidades com a pulverização das esquerdas que foi a criação do PSOL, Rede, etc., mas também o fim do PSB com a mudada de rumo de Eduardo Campos.
(em 2012 todo o campo da esquerda comemorava a vitória triunfal nos municípios enquanto a mídia tentava comemorar as condenações no mensalão. Parecia que com todo o esforço os donos do poder não conseguiriam muita coisa… aí vieram os movimentos de 2013, “atos de guerra irregular moderna”, como classificam a inteligência e os militares dos países asiáticos; veio a parceria do judiciário brasileiro com o DOJ americano, a falência do sistema financeiro transatlântico junto com a manipulação dos preços das commodities, em especial a guerra contra a Rússia com o preço do petróleo. Veio tudo, mas ali em 2012 uma aliança com Campos parecia inexorável, vista com muita alegria, e tudo foi-se agora, pelo menos por enquanto)
Ciro congrega quantos mil?
O ” conjunto de circunstâncias que ainda estão indefinidas”, segundo Nassif, são fáceis de explorar: 
1) pouco importa; os golpistas não tem candidato e é um ultraje à inteligência do povo brasileiro considerar Bolsonaro. No mais, seria muito divertido, e acho que bem ruim para ele, debater com um bom candidato de esquerda, seja com a história, a retórica e o carisma de Lula, seja com Ciro Gomes, ou, um candidato ainda provável se o PT, sem Lula, quiser sair sozinho, Jacques Wagner.
2) A tentativa de reforçar o estado de exceção somente parcialmente viável caso Moro consiga prender Lula e depois sair a condenação em segunda instância. Quais as probabilidades disso? O jogo não está tão fácil para eles atualmente. Abortar as eleições? Seria ainda mais improvável e degradante. Extinguir o PT? A esquerda continua. Fala-se muito de um possível recrudescimento do golpe, mas isso é somente a aprovação das reformas de Temer, ou seja, o genocídio – mais do que o mal suficiente. Quais os sonhos dos golpistas sem terem candidato? A única tática é a grosseria pura, mas será que para isso conseguirão abolir até a parte “formal” da nossa democracia, fundamentalmente as eleições? A próxima grosseria e escárnio é ver os políticos do PMDB fazendo malabarismo para manterem foros privilegiados e fugirem da justiça a todo momento. O PSDB está acabado faz tempo. Somente tem sobrevida num próximo governo que queira a generosa companhia. No universo paralelo da mídia serão sempre os heróis. Falta só cair o último bastião, São Paulo. Depois disso será preciso saber como vão se reorganizar as forças de direita e não as da esquerda…
3) Fala sério! Hoje, a dinâmica da Guerra Fria (que persiste) vai muito além do simples uso de armas e paus-de-arara.
A proposta do Conselho é bem engraçada. Por que uma organização tão formal? O conselho certo é a união popular contra os abusos, como visto no carnaval, como visto na união inédita que permitiu a vitória de Dilma em 2014, com as mobilizações que já ocorreram e tendem a aumentar com os descalabros dos golpistas. Para quê uma reunião de sábios?
Nassif, desculpe as críticas. Admiro muito o trabalho que você faz, desde os escritos dos anos 1990 até agora. Acho que o grande Conselho é esse, o debate franco e aberto. Arejar e melhorar as ideias. Gosto dessas palavras de Miguel do Rosário, que lembram a época do suor, das ruas, do corpo a corpo que realmente o PT perdeu. Esse é um grito de luta e de união:

Para sair desta crise, os partidos progressistas terão de eleger dirigentes que estejam dispostos a trabalhar, e isso inclui aparecer na mídia todos os dias. Fazer análises diárias e semanais em vídeo. Conversar ao vivo com a população. O PT, principal partido da esquerda, precisa sair do seu gueto, da sua “Agência PT”, e ter um presidente e um corpo de diretores comunicativos, extrovertidos, falantes, dispostos a fazer a luta política diária na comunicação, dando entrevistas a jornais alternativos, blogs, imprensa internacional, enfim, a todos os setores da comunicação não comprometidos com o golpe. Isso vale, naturalmente, para todos os parlamentares, prefeitos e governadores de legendas progressistas.

Para construir a resistência, será preciso lutar. E lutar, em política, significa vir à público e se manifestar, produzir inteligência, análise, informação e contrainformação!

Se continuar todo mundo embaixo da cama, será difícil mudar alguma coisa! 

Assino embaixo no que se refere ao teste do Manifesto. Fica com você as palavras finais.
Por ora, a única maneira de consolidar um arco de esquerdas – fundamental para alicerçar qualquer veleidade política não só de Lula, como de Ciro – é unir-se em torno de Lula. 
Daí a importância do teste do Manifesto. 
A petição pedindo a candidatura de Lula pode ser acessada clicando aqui.

Evandro Teixeira: a frente dos Cem Mil. “Fora temer! O povo no poder”.

Sobre o Xadrez do Fim do Mundo, de Luiz Nassif: um mal fim nos espera?

Mandela, JK, Lincoln, Lula: a capacidade de ação é o que os separa do resto da humanidade

 

O CASO DOS PROGNÓSTICOS

Luiz Nassif, com sua série de xadrez, aponta com facilidade, como é próprio em publicistas, para o niilismo. É o desespero de quem está no front de batalha. Talvez seja isso, porque se os investigadores de campo tem esse nível, será que seus diretores teriam? Personagens dostoievskianos já foram líderes mundiais? Mandela, JK, Lincoln, Lula: a capacidade de ação é o que os separa dos analistas de plantão – com a melhor qualidade que tenham.

Lyndon LaRouche consegue alertar para os resultados mais apocalípticos, mas sempre tem uma estratégia muito bem desenhada, deveras elaborada, cientificamente fundamentada, e pelo menos para mim, segue como exemplo de alguém que, trabalhando por décadas com a inteligência das forças armadas, com os serviços secretos, com uma rede de pesquisadores de alto nível mundo afora, consegue adequar as visões horripilantes que a elite global sempre tenta impor com a visão de um novo paradigma, de uma nova humanidade, de uma nova plataforma de desenvolvimento.

Podem procurar por publicações nesse blog sobre a Nova Rota da Seda, sobre os BRICS e as Américas, sobre as “Quatro Leis“, de LaRouche, e toda uma série de outros textos que, se não fundamentam em tua sua amplitude o que estou falando, deixa claro o que são os anseios comuns da humanidade e como lutar para realizá-los.

 O CASO NO BRASIL

Na outra ponta, não vemos Lula cair em pessimismos nem fantasiar cenários de fim de mundo. Fala sempre de um novo Brasil que surgiu – que está surgindo – depois dos anos de inclusão, de educação, de trabalho bem remunerado, de protagonismo mundial. São capacidades de lideranças que parcamente pode-se ver, infelizmente, em publicistas…

Haverá grande mobilização contra a Reforma da Previdência e Trabalhista. O governo Temer balança como nunca – nunca teve qualquer solidez por sinal. A hipótese de que caso aprovada a última maldita reforma o ilegítimo será inútil e poderá ser descartado diante do cenário de caos que o rodeia é válida. Igualmente, caso não aprovada a reforma ou não aprovada a contento para o mercado, inútil – e um traste – ele será.

Mas é por isso que veremos um nada no fim dessa estrada? Omito aqui conjecturas para não fazer trabalho de futurologia – pelo menos por enquanto. Quando tiver prognósticos mais acurados me expressarei.

 OS TENEBROSOS PROJETOS DE LONGO CURSO

Talvez seja um pouco apressado dizer que o golpe foi tramado antes de 2014. Como pontuou bem os comentaristas do Nassif, o que se apostava no PMDB era no enfraquecimento do governo federal e na ascensão da liderança de Cunha. Ainda havia a esperança de Aécio ganhar as eleições e, assim, o PMDB continuaria com um poder forte, seja lá qual o governo Seja quem for que ganhasse, o PMDB fortaleceria um personagem de grande peso para as eleições de 2018. Com a derrota tucana, muito amarga – Aécio disparou nas votações com a apuração do sul e do sudeste e teve uma queda abismal quando foram computados os votos das outras regiões. Quem não se lembra da cara do Merval, que sabia do passo-a-passo das votações, coisas que nós mortais não temos acesso? A vitória era certa, porém…

O PSDB partiu para o terceiro turno, fato que se estende até hoje com o julgamento da chapa vitoriosa. Por exemplo, com a falência do governo Temer, uma possível renúncia, como já falamos, não abriria espaço para o julgamento no STF dos recursos impetrados pela defesa de Dilma Rousseff? Como ficaria o clima político no país com a queda do Temer? Rodrigo Maia presidente? Como ficaria, nesse cenário, o julgamento no TSE? São muitas variáveis. Até a chamada para eleições podem ocorrer com as emendas que deputados agora na oposição estão colocando em pauta desde consumado o impeachment. O ventos podem mudar de uma maneira muito rápida, quiçá assustadora.

O que é inegável é que a classe média com seus pudores e seus racismo nato quer alguém do tipo “iluminado”, formado, universitário, que fala bonito, consume produtos gourmet, perfume importado: são todos cabeças-de-planilha, são todos Chicago Boys tupiniquins. E essa figura é inviável eleitoralmente, porque há uma massa ainda maior do que essa classe média supõe. Ma suas negação das raízes populares do nosso país serve de resistência para que uma campanha mais ampla possa surgir a favor de um governo popular. É o papel da classe média, como falo sempre aqui; o papel de esclarecimento, de difusão de conhecimento, por suas próprias conquistas intelectuais e também pelo acesso às tecnologias – mas, principalmente, pelos cargos que ocupam, como professores, advogados, homens de negócio, artistas, e toda a divisão social do trabalho que abriga a fauna e a flora dos pseudos-gênios.

O que ocorreu é que o projeto do PMDB de aumentar seu poder em Brasília se conjugou com a faina destrutiva dos tucanos. Se irmanaram no golpe: um para se perpetuar com ainda mais força nas posições que nunca largaram desde a ditadura; o outro para reconquistar seu lugar ao sol, no executivo. Temer corre para se blindar com Moraes, com Serráglio (aquele que chorou quando Cunha foi preso), com conspirações com seus “amigos de mais de 30 anos” do STF, etc. É uma corrida louca que não vai acabar bem para os atuais donos do poder.

A DECADÊNCIA ATUAL INDICA UM NOVO FUTURO

Como pensar em caos a partir daí? Está certo que é quase temerário depositar esperanças (algumas vai lá, mas nunca grandes esperanças) em figuras personalistas, narcisísticas, como a de Ciro Gomes. Com Lula fora o único partido que tem capacidade, ainda , de organizar a população é o PT. Não será a faci de Ciro Gomes que fará isso, muito menos os partidos utópicos que pipocaram para todos os cantos como “dissidência [esclarecida?] do PT”. O PMDB e o PSDB não tem base eleitoral para o governo executivo.

Na república dos militares, no princípio, foi tudo na base da bala e do pau-de-arara. Com todo “ato patriota”, direito penal do inimigo, etc., é difícil de criar as bases para um estado de exceção nesse nível no país, criando novas Guantánamos aqui dentro – o que seria um cenário de guerra não só interna, mas que poderia haver interferência externas. Seria um grau altíssimo de confronto num mundo ainda polarizado, quase numa extensão da Guerra Fria. Não existe suporte para isso. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é que os milicos se arvoraram na sua suposta decência e honestidade. Nesse governo, nem para PMDB nem PSDB sobra espaço para essa empáfia. O terceiro e mais simples é que o governo militar fez crescer a economia através de uma minúscula classe média com alto poder de consumo. A superexploração do trabalho foi a ordem do dia, mas o infames “indicadores macro-econômicos” estavam com bons sinais. Nunca isso irá acontecer até 2018 com a mesma camarilha no poder. E nem depois, caso o projeto golpista de alguma maneira continue, o cenário econômico tende a ser terrível. Não é só a aplicação das práticas genocidas do neoliberalismo. Saímos de um cenário social e econômico nunca visto antes. Qualquer queda tem uma proporção gigantesca na mentalidade das pessoas. O que é ruim (como foi horrível o FHC) dará a sensação e ser ainda pior. Depois dos milicos, do Collor – cenário de terra arrasada, depois da “década perdida”-, FHC com seu programa mirabolante de dolarização da economia conseguiu criar o factoide para se lançar no poder. Mas eles não tem mais condições de inventar nada desse tipo atualmente. O programa deles está falido em todos os sentidos e não há espaço para inovação.

Eles fecharam seu ciclo – esse é o ponto. Começou com o Mensalão. De acordo com as análises do GGN que linko abaixo, foi a retração do PT durante o processo que o fez ceder mais cargos no executivo, em especial na Petrobras. O que significa levantamento de recursos para o projeto de tomada de poder que apenas se iniciava. 2012-2014. Maidan brasileiro no meio do caminho: 2013.

Existe todo o debate econômico que vai da queda do preço das commodities e do petróleo, como as isenções fiscais, etc., que fragilizaram o governo Dilma. Mas o assassino econômico é Sérgio Moro e seus comandantes. A Lava-Jato paralisou a economia do país e, com a presidência de Cunha na Câmara, criou um cenário perfeito para o assalto ao poder. Não devemos esquecer da “revolução colorida” que foi realizada aqui no Brasil em 2013, e que surgiu com o mesmo padrão mundo afora, e que teve seu desfecho trágico no Maidan ucraniano, quando vitória Nuland teve a cara de pau de confessar que seu governo deu cerca de 5 bilhões de dólares para fomentar a “democracia” no país. E como esse padrão, interpretado pelos sistemas de segurança e pelas forças armadas dos países asiáticos como “guerra irregular moderna”, foi financiado e organizado por aqui? Falamos sobre isso, mas o assunto sugere ainda mais pesquisas.

Eles fecharam seu círculo: o que surge daí não é o fim do mundo. Será o novo mundo, com um país que irá tirar esses zumbis do poder e dar espaço a novas lideranças.. Como será? Podemos fazer uma publicação com as varias frentes que se abrem. Mas o momento é de otimismo. O governo corrupto cai por seus próprios erros e rapidamente. Não há condições, como explicitei acima, de se repetir um ciclo longo de atraso. A hora de se separar o joio do trigo está mais próxima do que se imagina.

O Xadrez do Nassif: http://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-delacao-do-fim-do-mundo-em-uma-4a-feira-cinza

A resposta de seu leitor: http://jornalggn.com.br/comment/1061985#comment-1061985

Comentário do colunista do GGN: http://jornalggn.com.br/noticia/sequencia-do-golpe-de-2016-tem-inicio-na-ap-470-por-claudio-freire

 

A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB

Dando sequência ao texto que publicamos sobre a Fundação Ford, e como comentamos na postagem, não dá para entender sua atuação no Brasil sem estudarmos sua atividade junto ao CEBRAP e no amparo a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso. Da cópula monstruosa, saiu a deturpação da teoria da dependência. Cardoso levou os louros, à época, por ser seu genial criador e propagador. Os “dependentistas”, strictu sensu, como Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos, ficaram relegados a um papel de segundo plano no Brasil. Trabalharam e construíram suas teses no exílio. Antes da ditadura, porém, trabalharam com Darcy Ribeiro e ajudaram na criação da UnB, projeto abortado em suas intenções iniciais pelo golpe.
Existe toda uma mitologia, muitas histórias, sobre a Teoria da Dependência e seus grupos, que procuraremos esclarecer com o tempo neste blog. Segue uma primeira publicação, já que FHC adotou na prática, em seu governo, tudo o que escrevera. Não é válido o que disse (entre tantas outras coisas): “esqueçam o que escrevi”. Ele nunca pensou ou agiu diferente. Sua teoria da dependência foi o que fez a associação de capitais da economia brasileira com o capital especulativo estrangeiro e quebrou o país três vezes, fora os descalabros para a sociedade brasileira tendo que enfrentar seu neoliberalismo ultra radical. Uma primeira parte dessa história é o que segue abaixo.

A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB

Assim se expressou Ruy Mauro Marini, em seu ensaio clássico intitulado “Dialética da Dependência”:
[…] o rancor de Fernando Henrique Cardoso e de José Serra em relação a minha análise econômica não os leva à atitude suicida de rejeitar a existência de contradições no modo de produção capitalista. Além disso, o reformismo em suas diversas variantes mostrou que é possível aceitá-las sem que isso implique assumir uma posição revolucionária. Não, o que Cardoso e Serra não podem aceitar é que se identifiquem contradições concretas na sociedade latino-americana e, em especial, na brasileira. Diante disso, clamam pela pureza do marxismo, querendo reduzi-las outra vez à contradição abstrata, ou não vacilam em lançar mão de analogias formais e por isto mesmo caricaturescas, para desqualificar a possibilidade de que essas contradições concretas sejam reconhecidas1.
Devemos lembrar que FHC, tal como Serra, está longe de ser o intelectual que procura aparentar. Serra, sem curso de graduação válido no Brasil, tampouco influenciou com suas obras quem quer que seja. Já o “príncipe da Sorbonne”, como costuma ser visto pelos seus asseclas no restrito universo acadêmico atual em nosso país, continua sendo estudado nas universidades. Mas podemos perguntar: o que se estuda de FHC? É um intelectual sem qualquer trabalho importante.
Por ter frequentado academias estrangeiras, só reflete nosso colonialismo incensar criaturas desse porte. Como disse Darcy Ribeironuma de suas últimas entrevistas, no programa Roda Viva, em 1995: FHC não tem obra, portanto não pode ser considerado um intelectual. Seu livro sobre a escravidão no sul do país parece uma troça, digna da tradição da literatura cômica e carnavalesca ou até pornográfica. Darcy, destacando esse fato, contrapõe outras regiões do Brasil que tiveram um relacionamento muito mais complexo com a escravidão. Por que o sul? Poderia, quem sabe, ser um ensaio de um trabalho mais importante. Porém esse trabalho nunca chegou a aparecer.
Como polemista, no entanto, a dupla em questão pode ser vista em toda sua pujança teórica. A “contradição abstrata” destacada por Marini é o sofisma da dupla para implantar a sua dialética da dependência. RMM entendia o Brasil como um sub-império, capaz de exportar inclusive aviões, mas sempre dependente do capital estrangeiro para dinamizar o mercado interno. Ora, é exatamente a fraqueza desse mercado que impede o desenvolvimento industrial nacional. Incentivamos determinadas indústrias no afã de que, a partir de cima, pudéssemos fazer girar nossa economia. Acabamos encontrando um organismo raquítico com uma cabeça desproporcional. A classe média nunca, por si, teve capacidade de liderar a modernização de nossa economia.
FHC e Serra, num artigo polêmico2, procuram reduzir à tese de Marini, deturpando-a a ponto de procurar fazer acreditar que o intelectual mineiro reduzia nossa economia a agro-exportação, comprometendo assim todo seu sistema teórico. Firmaram antes com Marini a certeza de que sua resposta estaria no mesmo caderno. Claro que não foi publicada.
A dupla, realmente, não tem nada no meio acadêmico que possa tornar claro suas teses, além do esvaziamento dos intelectuais engajados do período da ditadura, que fizeram escola fora do Brasil, como o próprio Ruy, Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e outros. Mas engana-se quem vê esse esvaziamento da corrente de pensamento crítico da “teoria da dependência” como simples difamação de intelectuais identificados com o liberalismo pós-moderno cujo centro é Washington. A realidade é que FHC e Serra ainda são identificados como “dependentistas”, como se de alguma forma fizessem parte dessa tradição. O erro, acredito, se encontra exatamente aí. Gunder Frank e outros, nenhuma relação guardam com nossa “era neoliberal” – o que é óbvio. Como podem ser estudados como críticos entre si numa mesma corrente é o que desafia a compreensão. O estudo da dependência de FHC só pode ser entendido como polêmica, pois nem validade teórica o “príncipe da Sorbonne” fez valer em seus panfletos. É um plágio, como o seu companheiro Serra e outros mimados pela mídia de plantão – lembremos novamente do “gênio” de Bill Gates”.
NOTAS 
1Marini, Ruy Mauro. “Dialética da Dependência”. In: (Org.) Sater, Emir e Santos, Theotonio dos. “A América Latina e os desafios da globalização”. Pág. 317.

2 Cardoso, Fernando Henrique e Serra, José. “As Desventuras da Dialética da Dependência”. Cadernos da Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), número 23.

Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Vista sobre a Baixada Fluminense

A produção de resíduos tóxicos provenientes dos lares, mais do que das indústrias (como a farmacêutica ou a metalúrgica, por exemplo) são um caso de estudo para se compreender como se deu a urbanização da região metropolitana do Rio de Janeiro. A exclusão das famílias mais pobres para as áreas periféricas, o incentivo à favelização dos morros (não é algo que, como a morte de Teori, se deu ao acaso), o tipo de urbanização com que se conformou as áreas consideradas nobres (o processo de “verticalização” das moradias junto à especulação imobiliária), mostra não só o caos urbanístico, porém revela as bases frágeis da economia da região.
De um lado, numa zona mais industrializada, o lixo abundante e de alta carga tóxica seria o problema ululante, e nem nos piores pesadelos seria sobreposto em gravidade pelo lixo doméstico. O que mostra, como no exemplo da proliferação dos táxis e ubers na cidade, assim como do tráfico de drogas (como componente do terceiro setor), uma cidade que tem boa parte de sua mão-de-obra relegada à informalidade, com salários baixos e expectativa de vida oscilante. Por outro lado, a questão do lixiviado demonstra o quão longe ainda estamos de ser a cidade bela que presumimos, devido ao grave problema social e ambiental que sua falta de tratamento produz (o saneamento básico, com certeza uma das maiores tarefas brasileiras). Vide a nunca impoluta, a bela sempre com alguma mácula, Baía de Guanabara.
Por isso resolvemos publicar nesse blog o texto belo e nem por isso menos objetivo de Lays Rodrigues, bióloga e mestre em engenharia ambiental, sobre nosso Rio e suas muitas Baixadas.



Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Os resíduos sólidos de origem doméstica não só em quantidade, mas em variedade, ultrapassam a produção de dejetos industriais ou de outras fontes, como o produzido pelos hospitais. É impossível mapear a origem dos componentes que são encontrados no lixiviado, ainda que uma averiguação acerca da cartografia que compõe este aglomerado tóxico não possa ser descartada completamente, pois os detritos domésticos e as estruturas familiares produtoras do que se tornará o material tóxico são certamente conhecidas. A questão da inclusão ou não destas categorias no planejamento urbano concernente à coleta e ao tratamento do lixo não exclui a necessidade de considerar, nem que com os conceitos mais básicos possíveis, a inclusão da produção realizada por estes contingentes humanos na escala dos agentes tóxicos encontrados nos aterros sanitários.
Transformações químicas ou biológicas ainda na fase sólida ou no lixiviado podem levar a formação de substâncias tóxicas a partir de componentes orgânicos relativamente inócuos. Exemplos disso são o 1,4 dioxano (uma substância controlada), tanto quanto o tetracloreto de carbono, princípio constituinte do PVC (Slack et al, 2004). Farmacêuticos ou resquícios de metais pesados como o mercúrio (de difícil tratamento) são encontrados nos lixiviados provenientes de grupos familiares, ainda que neste aspecto específico tenhamos que fazer uma distinção entre os aterros sanitários dos municípios de diferentes países. Contudo, tanto os componentes orgânicos quanto os industriais ou farmacológicos compõem a produção de resíduos sólidos das famílias, numa mescla difícil de ser descriminada por qualquer legislação. Seu tratamento impõe inúmeras dificuldades não catalogadas no conjunto do que meramente é chamado de “lixo familiar”.

Aterros sanitários construídos em Roma há mais de 2000 anos ainda produzem lixiviado, assim como os aterros sem revestimento num clima bastante úmido conterão perigosos elementos químicos, acima dos padrões aceitáveis para o consumo de água, por algumas centenas de anos. A intromissão nos aterros sanitários de componentes de alta toxicidade é acontecimento da história recente (falamos da Revolução Industrial). O fato de a Roma imperial continuar a exalar o gás de seus lixiviados é uma advertência ao que hoje temos como comum a partir da decomposição dos resíduos sólidos retirados de nossa mais cotidiana existência. Lá os produtos sintéticos ainda não existiam, enquanto para nós quase nada do que consumimos deixa de estar amarrado, embrulhado, envolvido em algum produto desta espécie.
Quando falamos dos resíduos sólidos produzidos dentro dos grupos familiares, a mera distinção entre “industrial”, “doméstico”, “farmacêutico”, não é suficiente para dar conta dos componentes tóxicos da degradação destes resíduos em sua forma líquida, o lixiviado. O fenômeno urbanístico caracterizado como “explosão demográfica da Baixada” (Abreu, 2011) resultou do crescimento no número de loteamentos desta região em taxas elevadíssimas, em muitos casos superiores a 140%, por mais de três décadas. A abertura da rodovia Presidente Dutra, os incentivos fiscais concedidos pelo antigo Estado do Rio com o objetivo de reverter a queda das receitas tributárias ocasionadas pela crise da citricultura e a eletrificação dos trens que seguiam até Queimados e Paracambi ou da Linha Auxiliar até Belford Roxo, contribuíram para a rápida propagação do povoamento da região metropolitana do Rio de Janeiro, para além dos limites estabelecidos das regiões da Pavuna e Anchieta.

Coevo do fenômeno de povoamento da Baixada Fluminense, a problemática caracterizada pela geografia urbana carioca de “verticalização da Zona Sul” foi a resposta da empresa imobiliária à Lei da Usura, da década de 1930, que “impedia o reajustamento de prestações e saldos devedores em contratos de financiamento”, e ao congelamento dos aluguéis também decretado pelo Governo, o que representou “um desestímulo a mais à compra de habitações para renda” (Abreu, 2011). A saída para o impasse não necessitou a extrapolação dos rígidos limites legais, pois a lei federal determinava o que um apartamento ou casa deveria ter, mas não previa áreas nem formas. O raciocínio econômico que levou à verticalização da Zona Sul carioca, baseada no modelo de apartamentos quarto-e-sala e conjugados, é simples: poderiam vender imóveis que atenderiam nos valores às determinações da legislação, enquanto majoravam os lucros do empreendimento com o incremento da oferta quantitativa de unidades à venda.
Ainda que não necessitemos nos deter neles, ainda há outros fenômenos urbanos correlatos aos dois acima expostos. A favelização da zona da Leopoldina e de suas proximidades, também reflexo da expansão demográfica e da questão de como os empregos eram criados à época (mais serviços e comércio, menos indústria), assim como o crescimento de importância de áreas suburbanas como Madureira, atendendo às demandas dos núcleos urbanos recém criados (na área metropolitana, distante do centro), são exemplos do que o pesquisador encontrará nos aterros sanitários cariocas, precisamente o que os distingue quando consideramos pesquisas em aterros sanitários primordialmente de países desenvolvidos ou com grau elevado de industrialização, como a China.

O processo de expansão urbana do Rio de Janeiro evidencia o aumento da densidade demográfica da região baseado na lógica da especulação imobiliária ou na necessidade do Estado de criar novas fontes de renda por meio do loteamento das terras próximas à nova Rodovia Rio-São Paulo. A divisão e cerceamento do território na Baixada Fluminense é simulado pela proliferação de apartamentos de pouca metragem na zona sul carioca. Os incentivos fiscais para o estabelecimento de indústrias ao longo da rodovia Presidente Dutra é um processo interrompido com a paulatina perda de importância do Rio de Janeiro no cenário nacional (construção de Brasília), assim como pelo estabelecimento do governo autoritário que preferencialmente abonava indústrias estrangeiras produtora de bens de consumo de alto valor agregado, em detrimento do subsídio à indústria nacional. Como resultado, temos altas percentagens da população vivendo em condições rurais ou semi-rurais, suburbanas no sentido em que não recebem as benesses das melhorias públicas implantadas pelo Estado, tampouco usufruem das elevadas remunerações dos trabalhadores mais qualificados do setor industrial, e que por isso possuem um perfil de consumo diametralmente oposto ao das zonas altamente industrializadas do planeta.

Os resíduos sólidos e o lixiviado do Aterro Controlado Metropolitano de Jardim Gramacho devem ser abordados em qualquer pesquisa a partir desta perspectiva. Portanto, a problemática dos desreguladores endócrinos aparece ainda mais evidenciada nestas condições devido ao perfil de consumo das famílias e, de um modo geral, ao tipo de expansão urbana carioca experimentada na metade do século passado. Caso nos debrucemos exclusivamente sobre os perigos dos resíduos sólidos domésticos, das contaminações encontradas nos lixiviados no aterro sanitário de Jardim Gramacho, o foco nos desreguladores endócrinos é ainda mais saliente. Ao contrário das análises dos aterros municipais realizadas em países com processos de industrialização mais complexos do que o nosso, os desreguladores em ambientes como o nosso são de vital importância, tendo em vista a gama de produtos sintéticos consumidos por todos os tipos de famílias, mas principalmente as de renda menos elevada.
O paralelo com a toxicidade dos aterros construídos na Antiguidade, na Roma imperial, em níveis considerados elevados até os dias de hoje, mostra apenas uma face dos desafios impostos por quem se ocupa da toxicidade produzida pelo lixiviado do aterro municipal de Gramacho. Não tanto pela ampla variedade de materiais novos produzidos pela sociedade com o advento da Revolução Industrial no que concerne ao uso de metais pesados e componentes químicos, mas pelo advento mais recente de produtos sintéticos, cuja capacidade de incorporação ao consumo doméstico em todos os extratos da sociedade é ainda mais forte. O aterro sanitário de Jardim Gramacho, com suas atividades encerradas no ano de 2012, experimentou em seu período de funcionamento pouco contato com a atual expansão de consumo das classes menos abastadas, ou seja, no que isso se reflete no descarte de aparelhos eletrodomésticos e eletroportáteis, assim como no incremento do consumo doméstico de produtos farmacológicos, resultado da expansão da rede farmacêutica ainda na década de 1990 e da proliferação das farmácias populares nos últimos dez anos. Portanto, o foco, tratando-se do aterro de Gramacho, é nos produtos sintéticos e químicos de ampla circulação entre a população, com resultados evidentes na problemática dos desreguladores endócrinos.

Fora da faixa de alto consumo da exígua classe abastada carioca, encontramos muitas Baixadas num Rio não tão caudaloso, pois não soube dar curso apropriado ao seu desenvolvimento industrial – único vetor para a mudança de sua paisagem urbana em amplo espectro, na produção de uma burguesia nacional consolidada e de elevado padrão de vida. Este, ao contrário, é o legado dos países cujo surto industrializante soube beneficiar sua população de um modo geral. Contudo, a questão do tratamento do lixiviado, da presença ou não de desreguladores endócrinos mesmo após a passagem pelas etapas de tratamento, tem a capacidade de reverter à população um tipo específico de malefício. É que nos limites do Rio encontra-se a Baía, receptora de todos os poluentes e tóxicos para a saúde humana resultantes de um tratamento não adequado durante sua estadia no aterro sanitário.


REFERÊNCIAS

ABREU, M. A., Evolução Urbana do Rio de Janeiro, Instituto Pereira Passos, pp.126- 129, Rio de Janeiro, 2011.
SLACK, R. J., GRONOW, J.R., VOULVOULIS, N., Household hazardous waste in municipal landfills: contaminants in leachate, Science of The Total Environment, v. 337, pp.119–137, 2005. 



OLIVEIRA, Lays Rodrigues Santos de. Avaliação da toxicidade aguda do lixiviado tratado pelos processos de wetland e nanofiltração. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Engenharia: 2014. 

Sobre a guerra que se aproxima 2 – Um Pearl Harbor cibernético

Os idiotas pensam que nazismo e guerra mundial é coisa de alemão…
A histeria que fez criar um novo tipo de macartismo, as perseguições a líderes progressistas na América do Sul e na Europa, a demonização da figura de Putin… São processos de longo curso, com muitas variáveis, mas que apontam para o perigo iminente de guerra. Eu pude escrever um texto relativamente longo sobre o assunto ainda no começo do ano passado (que pode ser acessado aqui). Com a eleição de Trump, por incrível que possa parecer à primeira vista, os rumores de guerra parecem ter diminuído. Sempre afirmou como algo positivo a reaproximação entre russos e americanos. O problema de você não ter nenhuma linha de diálogo entre os dois países é o que faz dizerem que podemos estar numa situação ainda pior do que durante a Crise dos Misses. Claro, a falta de diálogo associada a um aumento exponencial das tropas ocidentais na fronteira russa, mas também no Mar da China.
De um modo geral, não sabemos quais os limites da vontade de Trump de se aproximar dos Russos ou até que ponto pode resistir às pressões. O certo é que Obama mandou o U.S.S Carl Vinson, um submarino de alta capacidade nuclear, para o Pacífico. Chegará no Mar da China no dia da posse de Trump… Os neocons irão levar o mundo a esse precipício? Um nova guerra fria com certeza já está instalada, e “super quente”, até porque silenciosa – para quem nada quer ouvir. Como diz Giulietto Chiesa, “siamo in presenza di decisioni che la Nato sta prendendo nell’imminenza di un cambio di direzione politica degli Stati Uniti d’America: cioè, per dirla chiaramente, ci sono forze nella Nato e negli stessi Usa che tendono a predefinire le condizioni in cui dovrà agire il presidente Trump. E questo è molto, molto preoccupante”. A OTAN está por definir a política dos EUA e não o contrário. Os neocons, os ultras de todos os matizes, se utilizando do controle que detém sobre o aparato militar de maior envergadura no ocidente, podem prescindir de maiores controles sobre o poder executivo norte-americano e, por pressões, ou seja, por meios indiretos, e mesmo por ameaças diretas (como o destacamento de tropas e submarinos nucleares).
Chiesa ressalta que 2,5 mil tanques e outros transportes e materiais bélicos estão no que Stephen Cohen chama de Suwalki Gap, a fronteira milimétrica que separa os países dos Bálticos da fronteira russa. Só do lado americano, o grupo de brigada de tanques da quarta divisão do exército norte-americano conta com 3,5 mil efetivos, 87 tanques, 18 obuses autopropulsados Paladin, 144 veículos de combate de infantaria e mais de 400 veículos Humwee. E isso, claro, não deixa de ser estimativas conservadoras, por considerar apenas o que os EUA colocaram por si só – e isso apenas nos Bálticos.
No blog O Cafezinho, um panorama pouco digerível do tema: 

O fato é que essa situação pode levar a um confronto entre nações dotadas de um arsenal nuclear muito mais potente do que o usado pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki. As mensagens de militares ocidentais de que a Rússia está se preparando para a guerra, ao mesmo tempo que a OTAN envia tropas para os Países Bálticos, na fronteira russa, mostra o nível de nervosismo entre os dois blocos. Rússia, China e Irã continuam sendo constantemente provocadas pelos americanos e pela OTAN, seja na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na violação do espaço aéreo e marítimo iranianos.

O secretário de Defesa de Trump (o presidente imprevisível) é bem dúbio sobre o tema. Acusa Putin de tentar romper a OTAN. É uma afirmativa complicada para alguém que vai ocupar um cargo de tamanha importância. O que o presidente russo sempre destaca é que a OTAN não respeita a soberania dos países que não fazem parte da instituição. A multiplicação do aparato militar no oriente aponta para um nível de insegurança jurídica anterior aos do acordo de Ialta. Isso é muito grave, como se pode perceber. Mostra-se preocupado também com os supostos ataques cibernéticos russos contra os EUA. John Batchelor criou uma expressão bem interessante para a histeria coletiva criada com as acusações sem qualquer fundamento (não apresentam um mínimo de provas, somente a tosca afirmação de que Trump teria participado de uma orgia na Rússia e que os agentes desse país teriam fotos que usariam para chantagear o presidente eleito): a expressão é Cyber Pearl Harbor. Acho que por aí não temos mais nenhuma palavra a adicionar…
(vale a pena, nesse último link, ouvir o programa de John Batchelor com o professor Cohen)
Por incrível que pareça, seu coxinha ignorante, a segurança planetária, hoje, depende muito mais desses dois aí do que da camarilha no poder nos EUA e na UE.
É risível a acusação contra Trump. Se coisas como essa podem ter algum efeito, o que falar do Pizzagate?, algo completamente bizarro, ainda que não sem algum fundamento… Preocupante é o papel dos EUA, da Alemanha em dar apoio às tropas nos Bálticos, as mobilizações no Mar da China, a ridícula posição do ocidente pró-terrorismo (os chamados “rebeldes moderados”, fora a criação ocidental do ISIS). Preocupante é a questão econômica (logo, social) que atravessa todo o ocidente, o chamado setor transatlântico da economia mundial. Bancos insolventes por toda a Europa. Ah!, mas vão dizer: esse é o caso da Itália, onde querem implantar o ball-in de maneira ostensiva (o uso da poupança e de pequenos e médios investimentos do cidadão médio para cobrir os gastos do setor financeiro com derivativos). A Itália é o caso número um de próxima saída do sistema euro, com bancos insolventes e com a população (como no último referendo) literalmente de saco cheio de mais medidas de austeridade. Com o fracasso grego não se estabilizou de maneira alguma os planos da Troika. A queda agora, caso a Itália siga em frente em sua espiral de crise, promete uma derrubada ainda maior ao status do eurogrupo, praticamente um golpe de morte nesse paradigma, que tentou forçar uma união política via união monetária, promovendo uma nova colonização das economias periféricas. A morte do euro parece já decretada. Falta marcar a data de seu tribunal (não podemos esquecer, nesse caso, do sepultamento de Michel Jackson: quanto tempo pode durar da morte física até à descida do caixão?, são esses o momentos que aguardamos).

Ver, para quem tiver maior interesse, o texto que traduzi de Helga Zepp-LaRouche (há alguns bons posts sobre a sr. Rota da Seda, como é chamada na China), um réquiem para a política dos tecnocratas atlanticistas. Podem clicar aqui.

Ver também o artigo detalhado da situação italiana escrito por Claudio Celani na última edição da Executive Intelligence Review. Podem clicar aqui.

O projeto da Nova Rota da Seda (um vídeo completo, de quase 30 minutos, brevemente será lançado por mim nesse blog, com as legendas). Por enquanto, indico o curto vídeo que legendei, mas bom o suficiente para entender quais alternativas temos contra as armas da geopolítica e ao caos e à histeria do neomacartismo que hoje os ultras, os neocons, tucanos e demais degenerados de toda as espécies estão lançando no mundo. Esse vídeo mostra, sob determinada perspectiva, o porque a segurança planetária (como disse na legenda da foto acima) está mais nas mãos de Putin e do presidente Xi do que dos bárbaros ocidentais.

Enquanto isso, a CIA adverte Trump das dificuldades que terá de enfrentar dentro dos EUA para normalizar as relações com a Rússia, talvez mesmo de criar novamente um canal formal de comunicação, esfacelado depois da vitória síria-Russa contra o ISIS. Na TV russa, a guerra é iminente. Podem criticar os russos por estarem reeditando comportamentos atávicos de sua cultura, vindos da época da guerra fria oficial, mas essa guerra fria não oficial é cada vez mais quente do que a de décadas atrás. Por que não estaríamos nos aproximando, com a retórica dos ultras cada vez mais virulenta (como aqui no Brasil com os consortes de Sérgio Moro), de um inverno nuclear? Quem tenha a capacidade suficiente que responda.

Para não dizer que não falei das flores, da alegria – na verdade do trágico-cômico da situação atual – vemos o militante anti-impeachment e seu grupo fazendo propaganda para os ultras paneleiros daqui, os amantes de Moro, os verde-amarelistas. Coisa ridícula! É para rir de desprezo, para gargalhar com ódio. Coisa nefasta! Cidadãos que não conhecem o assassino das terças-feiras e acha que política é simplesmente coisa de “se colocar bom senso”. Vamos lembrar o Gilles Deleuze do Diferença e Repetição: os dois enganos da filosofia tradicional, kantiana, cartesiana, hegeliana e por aí vai: se mover sempre no circuito do bom senso e do sendo comum. E discutir se fulano é “hegeliano” de esquerda ou de direita (“hegeliano é o caralho!, como podemos falar no bom português). Pouco importa, em suma. Conheça seu inimigo: essas são as palavras para não se produzir toneladas de baboseira, mesmo que com as maiores das melhores intenções comerciais… Sem mais palavras:

Para quem quiser saber um pouco mais dessa tensa atmosfera internacional, pode ir até minha publicação sobre o Cabral. É de racismo sempre que se fala, e de genocídio, seu estúpido! Por isso a guerra, cada vez mais, se aproxima.

A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad

Quando se fala de um “estado jurídico do nazismo” este estado é o chamado “de exceção”, e seu teórico, Carl Smith. Como se sabe, o nazismo não foi só um movimento político, mas conjugou um projeto econômico, leis específicas, um regime médico e policial, além de ter seus parâmetros estéticos próprios. Contudo, o que não faltam são histórias do nazismo, porém não consta o que foi a sua geografia. O nazismo foi um movimento que precedeu a Hitler e continuou depois de falhar na Alemanha. O projeto econômico e político atrelado ao ativismo judiciário atual, com estreita vinculação ao Departamento de Justiça norte-americano, torna premente a necessidade de se conhecer a geografia nazi. Os arbítrios cometidos sob o que se chama “lawfare” nos remete não à uma suposta “pós-modernidade”, a um regime de “pós-verdade”, mas ao que se conhece por Operação Condor e, mais ainda, à colônia nazista La Dignidad.

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A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

A culpa não é do Cabral, seu racista nojento!

Está mais comum do que costuma ser culpar Cabral pelas desgraças do país. Segundo o doutor Mario Darius (1989, Ibdem), ele foi o pioneiro, o primeiro a corromper uma suposta brasilidade intocada, ameríndia, “jogando sífilis” nas índias. Mas não iremos começar essa publicação com mais palavras. Ah!, os ingleses podem roubar, mas não tão descaradamente – falam, por exemplo. Ora, por que não falar logo: ah!, os ingleses podem roubar, mas eles são ingleses! Podem ser “sujos”, mas por sua origem étnica, por pertencerem à civilização banhada pelo mar do norte, aquela, científica, que substituiu a civilização humanística, mediterrânica, da Renascença, são limpos. Agora, italianos, portugueses, espanhóis e todos mais povos que foram colonizados por esses países – ainda mais se se considera a mistura com africanos e ameríndios -, ferrou! A culpa não é do Cabral, seu racista nojento! O que aconteceu com sua prisão, sua morte política, é queima de arquivos, como os milicos faziam na ditadura. Logo, não vamos começar com mais palavras, mas com uma imagem sinônimo de democracia nesse dias de tantas intolerâncias.

Alepo antes da chegada das tropas democráticas

Os bárbaros libertaram Alepo. As ameaças de guerra, contudo, continuam. Obama agora fala que vai tomar todas as medidas necessárias para apurar a interferência russa nas eleições americanas. Os neocons de lá também querem terceiro turno! Lyndon LaRouche foi quem melhor expressou essa situação quando disse que “as palavras de Obama são uma ameça de morte“. Ele considera o histórico do presidente, conhecido como o “assassino das terças-feiras“, com uma de suas maiores vítimas via drone, Muamar Kadafi. Considera também a continuação da política de estrangulamento da Rússia, algo que, se não resolvido com a eleição de Trump (que de qualquer maneira gera dúvidas), pelo menos distendeu as tensões, abriu uma pequena brecha de ar no ambiente já sufocante. Não há provas alguma da interferência russa, até porque não se trata de trabalho de hackers que invadiram os arquivos de campanha dos democratas. Foi um vazamento, logo, alguém de dentro do EUA colocou isso no ventilador. Mas não!, deve-se culpar a Rússia e ponto. É a história das “notícias falsas”, como reportamos por aqui e que teve uma pormenorizada cronologia publicada no LPAC.

E olha quem fala de “notícias falsas”!

Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, inclusive a contestação do resultado do pleito eleitoral. Não importa se são de esquerda ou de direita, democratas, republicanos ou o que quer que seja. São ultras, ultra reacionários, ultra libertários, são os extremos que se tocam, como vemos nas siglas partidárias brasileiras “independentes” que para fazerem algo limpo passam a considerar sujo todo o espectro partidário, ou seja, não distinguem alhos de bugalhos e, caso necessário, elogiam deus e o diabo. Como na prática comum do bom senso e do senso comum de elogiar o plano real e o governo lula como progressos… Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, algumas passíveis de publicização e outras não… O que quis dizer com isso o Assassino das Terças-Feiras? Enquanto isso não foi só a Rússia que voltou à prática da Guerra Fria de simular ataques às suas cidades. A Suécia também está simulando situações de guerra em defesa contra possíveis ataques russos. É a paranoia da nova Guerra Fria, ainda, talvez, mais quente do que a considerada “oficial”…

PARANOIA, 1989, Ibdem

– Chegaram aqui de caravela e comeram logo as índias. Passaram a sífilis. Português chegou aqui e soltou logo sífilis. Tá lá o símbolo, as águias. Estão todas com AIDS [as águias do Palácio do Catete]. Aquela tá morrendo. Aquela lá ó.

– Artigo subversivo é o caralho, eu sou advogado.

– Aqui nunca teve crise. aqui sempre teve roubo. a crise é ética e a saída exige decência

– Pergunta se o mendigo consegue roubar alguma coisa.

– Patriotismo é o último refúgio do canalha.

O BRASILEIRO MÉDIO, PARANOIA, 1989, GUERRA FRIA, IBDEM

Todo mundo que tem o poder na mão é podre. São pérolas… O problema do brasileiro médio, mesmo que o suposto dr. Mario Darius não seja tão médio assim… É a linguagem da paranoia. O Brasil sempre foi corrupto. Não há nada de novo no front, etc. A incapacidade de crer é a mais absoluta falha do entendimento político. Não sem sair do contexto, podemos aludir ao cardeal Nicolau de Cusa, para quem, ainda no século XV, sem a Terra nem o sol estava no centro do universo. Sua capacidade de raciocinar, contudo, dizia respeito, quando falava sobre o “não visto”, que a fé auxiliava a razão onde esta não tinha forças suficientes, com o raciocínio sendo não a luz guia, mas o solo por onde se movia o homem em direção a mundos ainda não vistos. Isso quer dizer que muitos não creram nos avanços que os governos do Partido dos Trabalhadores promoveram no país. Não viram o óbvio, como a sólida rede de proteção social, por exemplo, criada no nordeste e que melhorou substancialmente as consequências das secas na região, mesmo no ano de 2015, quando enfrentamos a maior seca em 80 anos de história. Não houve migração, saques a supermercados, etc. E esse é o dado óbvio, mas mesmo assim não acreditam. Agora, quanto ao caminho de desenvolvimento que esse país passou a trilhar, nenhum desses conseguia ver, por exemplo, as consequências da Amazônia Azul para nosso futuro. A necessidade de engenheiros navais, e biólogos marinhos, etc., várias categorias profissionais que nossas universidades praticamente não dão a formação, E todas as outras profissões envolvidas de maneira direta e indireta no projeto, do engenheiro até o pequeníssimo empresário que vende almoços e lanches nas áreas em obra, nos novos campos criados, seja Comperj, Abreu e Lima, Angra 3 e tudo o mais. O desmonte do setor produtivo no Rio de Janeiro não tem outra causa.

(Não é culpa do Cabral, mermão! Mais fácil culpar o messianismo curitibano, os pontas-de-lança do Império por aqui e responsável pela empresa que chegou a ser responsável por 30% do PIB nacional. Se é isso para o Brasil, o que é o Rio de Janeiro sem a Petrobrás? Um prostíbulo onde os turistas vem se aliviar das tensões de se viver nas sociedades racionalistas e bem comportadas do Atlântico norte? O que é o Rio sem Moro? O estado mais rico do país, capaz até de sustentar sem quebrar uma corja como a de Cabral…)

(foi Cabral que começou a corrupção? E o que falar do impoluto governo militar e suas Estranhas Catedrais?)

A prisão do Almirante Othon Pinheiro, um crime de lesa-pátria, a comprometer a futura produção industrial de urânio enriquecido, e que nos levaria finalmente ao rol das nações desenvolvidas com a tecnologia mais avançada que existe, a do núcleo do átomo, é um exemplo claro na falta de fé em nosso futuro. Para os descrentes, o complexo de vira-latas. Numa entrevista recente, a presidenta Dilma disse ser o MT (como chamado nas planilhas da Odebrecht) nada mais do que um cidadão médio, ou seja, bem abaixo das aspirações do Brasil. Estaria, contudo, muito abaixo do brasileiro médio. Essa “entidade” seria aquela que crê no futuro do país. E nisso, pegando por esse lado, a presidenta está certa. Temos que levar em consideração num caso como esse que o brasileiro médio é exatamente essa ponte entre a descrença mais ordinária (com a aspiração máxima de conseguir, por exemplo, um apartamento de relativo luxo numa área de proteção ambiental – isso é o máximo de aspiração que esse pessoal tem) e a população mais pobre que, por tudo o que passa, nada resta a não ser alimentar uma esperança quase do tamanho da dos gênios e profetas que já visitaram nosso mundo. A chamada classe média, por seu poder de influência, seja porque são professores, médicos, advogados, que lidam numa situação de relativa superioridade social, tem um poder fundamental de influenciar muitas pessoas, num verdadeiro ativismo que podemos chamar, sem desprezar os teóricos, de micropolítica. Quando essa classe se homizia, pensa só em seus interesses mais imediatos, seja um apartamento qualquer, seja no problema causado pela inflação do tomate ou do preço da gasolina ou da “percepção de corrupção”, etc., e esquece a quantos pobres foram atendidos, em quanto o país está se desenvolvendo para além do que seus olhos podem ver, no nordeste, com a indústria naval, com o desenvolvimento da área de defesa, da energia nuclear, etc., com a criação do piso nacional dos professores, com a criação de centenas de escolas técnicas, a interiorização das universidades federais, a criação de novos cursos e de extensões universitárias, etc., quando se esquece tudo isso e só se pensa nesses interesses mais imediatos, a crença no futuro rui e não se é menos “crente” do que antes. Passa-se a idolatrar salvadores da pátria, em Power Points, a se admirar com a atuação do novo Maquiavel, do espertíssimo Eduardo Cunha, e etc. Acreditam, até, que foi a poucas semanas que a Globo descobriu o Cabral…

A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

Temos que manter os pés no chão, com certeza, ainda mais nos tempos excepcionais em que vivemos. A inteligência no planeta parece toda coberta de cinzas, de uma mediocridade retumbante, parecendo lembrar os Greys, os mal-fadados extra-terrestres, supostamente antropófagos, que apareciam nos filmes de ficção científica durante a Guerra Fria oficial. A de agora, oficiosa, não é menos perigosa, e não menos capaz de realizar o sonho dos “invernos nucleares”, e cobrir definitivamente de cinza nossa Terra.
O FBI espia a embaixada russa em Washington
A Globo convoca para manifestações, a Globo convoca para enterros, a Globo decreta a morte política. Os mortos no voo da Chapecoense são “oficializados”, amestrados. adocicados pela misericórdia global. Ora, como quando o ator global morreu no São Francisco, falamos a mesma coisa: o que isso significa frente aos milhares de jovens mortos todos os dias frente à atuação de nossa justiça e polícias “ineficientes”? E as famílias que perderam seu sustento por causa de Moro e seu grupo? E o país indo ralo a baixo com a paralisação de sua atividade econômica? Quantas mortes, quantas vidas destruídas, quantos sonhos enterrados daqueles mais pobres, mais carentes em nosso país? Chapecó que me perdoe, mas vocês viram mais uma joia da coroa ao se associarem, querendo ou não, aos faustos imperiais, como nas comemorações fúnebres das glórias do Império por Victor Meirelles.


Moro é o comandante do navio?
É somente sobre despojos que o império consegue mostrar seu brilho. A tragédia de Chapecó é um retrato disso, a parte visível, da aparição imperial frente aos corpos sem vida. A parte não vista é a batalha diária que deixa a cada dia mais mortos, mas que o império não mostra sua face, nem pode à luz do dia mostrar quem dirige, quem narra, quem comanda o cortejo fúnebre. Não mais notícias falsas. Fora o macartismo e o sistema de guerra imposto a nós, aqui ou em qualquer parte do mundo. Que o quadro cinza de Meirelles não continue a ser o retrato de nossa inteligência.
Como será apresentado o próximo rito fúnebre global?

“Não mais notícias falsas”: a volta do macartismo hoje

A matéria do Washington Post endossando um novo site, PropOrNot, que faz a denúncia de 200 sites que fazem campanha pró-Rússia mundo afora, com milhões de visualizações, engrossou o coro do neomacartismo no mundo, diante do posicionamento de Donald Trump quanto à Rússia e frente a suposta invasão dos arquivos de internet dos servidores da campanha de Hillary Clinton. Os EUA, fazendo dos Al-Nusra/Al-Qaeda transformarem-se de terroristas em “rebeldes”, a culpabilização de Bashar Al-Assad de crimes de guerra enquanto “rebeldes” se utilizam de escudos humanos, inclusive crianças, fazem ver a divergência de opiniões entre a imprensa ocidental e o que se pensa no resto do mundo, desde que, pelo menos, as “revoluções coloridas”, as “primaveras”, logo em seu princípio foram consideradas atos de guerra de Estados estrangeiros contra a soberania nacional dos países asiáticos…

Por que não dar voz a Assad ou a Putin? Em que medida, pelo contrário, esse clima de macartismo não é o clima de nosso próprio ambiente político com o espírito de cruzada dos concurseiros de Curitiba? Para contar essas histórias, para fazer Assad falar, etc., escrevi essa publicação.

A rede “pró-Rússia” internacional está fora de controle. Depois que o Washington Post publicou a lista dos 200 sites proscritos por uma suposta inteligência extrafísica, a rede, que de maneira muito rarefeita chega no Brasil, logo se mobilizou e levantou o estandarte: No More Fake News. O melhor material jornalístico, sem dúvida, foi a matéria de Gleen Greewald e Ben Norton no The Intercept. O The Nation também publicou um lúcido artigo sobre o tema, enquanto um oficial da Casa Branca, jornalista “da moda”, Patrick Buchanan, disse que o governo americano sempre foi a fonte das notícias falsas. Paul Craig Roberts perde um pouco a paciência para chamar pelo nome os imbecis que criaram, no site PropOrNot a ideia dos 200 condenados. Lembra das agências de propaganda de George Soros que fazem isso há décadas, para não cair nas garras do raciocínio que logo atribui tudo ao complô Illuminati que governa o planeta. Coisa de Hilarys e quê tais, desde a suposta invasão russa à sua campanha, que fez engrossar o coro do neomacartismo atual.

O problema todo é querer dividir o problema em partes falsas. Lá fora o neomacartismo, aqui somente Sérgio Moro. Sob a figura de um homem de negro, como os black-blocks, querem somente a destruição do alvo premeditadamente escolhido. Os EUA agora largaram a retórica da “luta contra o terrorismo” (realmente vivemos tempos excepcionais…) e escolheu apoiar os rebeldes, nem que estes sejam a própria Al-Qaeda. Ou seja, chegam mais próximo do que sempre foi sua posição, se não oficial, a real, de patrocinadora, de criadora, das redes terroristas mundo afora, com todo o 11 de setembro.
Outro dia, lendo na internet um comentário fascista qualquer, desses que proliferam nesses tempos com tanta facilidade, caiu a ficha. O mini-ditador falava que a ditadura estava certa ao prender Zé Dirceu, Lula e Dilma. Moro agora justifica a perseguição passada. Fora o caso excepcional de Eduardo Cunha, que colocou fogo nas próprias vestes, achando que fosse passar batido nesses tempos em que a história se move rápido, não há indício que qualquer cidadão de nossa elite venha a ser incomodado pela justiça. Pode ser que peguem um ou outro pmdebista, mas nada além de velhos coronéis, nada mais do que uma elite atrasada que faz tempo não controla nada de significativo no país. A “nata da nata”, sempre tucana para manter seus direitos de nascimento e suas afinidades seletivas, dificilmente será importunada se nada de mais substancial ocorrer.
O mini-ditador estava correto: prende-se agora quem lutou pela liberdade no passado; prende-se agora quem sempre a justiça prendeu, os pobres ou quem fala por eles. Como os pobres chegaram ao poder – essa a “variação musical”da época – a justiça, mesmo aí, chegou até eles. Para mostrar que o sistema de exceção continua exatamente vigente, intocável, como há 50 ou 100 anos atrás. Prova maior não pode ser os criminosos confessos livres – tão rápido – ou ainda confortavelmente, de maneira breve, aproveitando os milhões que lhes sobraram e curtindo uma temporada em suas casas. Mais uma pena duríssima imposta pelo juiz Moro. Que o Almirante Othon saiba ter compaixão e muita paciência.
Quem é o “homem de preto”?

Bashar Al-Assad dá entrevistas constantes aos jornalistas ocidentais. Algumas linhas ao menos deveriam ser publicadas para pelo menos conceder o famoso “direito de resposta”, supostamente um instrumento das democracias avançadas. Mas esse não é um caso somente do Brasil. Numa linha, no estrangeiro, dão voz aos proscritos por essa mesma mídia. Num outro lado, o envolvem com tantas calúnias que a voz contrária se torna novamente um murmúrio. Quando se fala em direito de resposta deve-se pelo menos compreender um destaque aproximado às manchetes tradicionais. O resto é demonstração de força e de poderio: “nós também entrevistamos o Satã. Veja, se quiser”. E se prepare para as consequências, prepare seu estômago, etc.
No vídeo que logo abaixo colocaremos, Assad concede entrevista ao canal NBC. É um digestivo antropológico para o povo estadunidense. Que não seja para nós. Nele, Assad diz muito bem que se não fosse o suporte dos EUA a guerra contra o Estado Islâmico não duraria alguns meses. O suporte em forma de dinheiro e de equipamentos, via Turquia, com o dinheiro também dos sauditas,s ão fundamentais para se manter o caos atual. Quando em 27 de novembro do ano passado a Turquia derrubou um avião russo, o que estava em jogo era o mesmo suporte: no caso, manter as rotas onde se levava o petróleo das áreas controladas pelo ISIS até a Europa. A Turquia mal se equilibra nessa balança. De um lado, a necessidade de continuar apoiando os sauditas, a aliança militar ocidental, e de outro a alternativa de crescimento real com a integração com a Ásia, com a Rússia primeiramente. O país, infelizmente, parece longe da “relação baseada em valores”, como descreve Assad, da Síria com a Rússia, longe do “indo junto para se dar bem” das parcerias entre as elites dos governos transatlânticos.
A Rússia tem a vontade política de acabar com o terrorismo, algo longe dos desejos norte-americanos. Sua aviação é ineficiente, contra-producente. Não são genuínos, não são verdadeiros, não fazem nenhuma aliança baseada em valores. Essas são as palavras de Assad no NBC Nightly News. Mas, pergunta o entrevistador, e se o atual presidente tiver que enfrentar no futuro uma corte internacional? Responde que tudo bem, “tenho que defender meu povo”. Logo, o entrevistador parte para a história de uma Marie Cohen, jornalista morta na guerra ao lado dos “rebeldes”. Assad é responsável por sua morte? Ela estava na Síria de maneira ilegal, se filiou aos rebeldes; ninguém sabe de onde saiu o míssil que destruiu o lugar onde estava a jornalista. Ela estava numa zona de conflito. Estando ilegal, como o governo a protegeria? Por tudo, muitos jornalistas a favor de Assad foram mortos na guerra. Foi a Síria que os matou? Silêncio de morte na sala.
Você já ouviu falar de guerra boa?, responde finalmente Assad. É porque ele não dá os dados, nem responde às perguntas para denunciar os crimes de guerra patrocinados pelo outro lado. Se a Síria e seu presidente cometem tais crimes, e Mossul, no Iraque, onde morreram muitos mais civis com os ataques estadunidenses? Foram simplesmente “efeitos colaterais”? Quanto a Síria mata, são “crimes de guerra”, quando os EUA, são “efeitos colaterais”. E o uso de civis como escudos humanos? Por que o ocidente não questiona os seus patrocinados? Por que não fazer essas questões ao Ocidente hegemônico, que parece ter “ganho a história” com a queda do muro de Berlim, mas que na verdade só fez aprofundá-la, levar-nos novamente para a beira do abismo de um possível “inverno nuclear” (quem quiser saber mais, tenho um artigo publicado aqui mesmo, bem detalhado, sobre a “nova guerra fria“).
Aí que entra Moro, como visto de maneira bem didática no documentário amador – e excelente – intitulado Destruição a jato. Não há razão para “se preservar a Lava-Jato”. Numa entrevista nem tão recente, mas bem esclarecedora, da presidenta Dilma para Luiz Nassif, na TV Brasil, (ela já tinha sido afastada), ela conta sobre as causas múltiplas que levaram ao fracasso da economia durante seu segundo mandato: seca prolongada (as maiores da história), baixa no preço das commodities (incluso petróleo), recessão nos países desenvolvidos, queda da atividade econômica chinesa, etc. É tudo muito compreensível. Se há algo a repreender na presidenta eleita, é o fato de não ter visto na altura suficiente o problema que nos encontramos enquanto civilização. Não é “recessão nos países desenvolvidos”, mas falência do sistema econômico transatlântico, como sempre reitera Lyndon LaRouche. A queda no preço das commodities, inclusive o petróleo, somente pode ser vista na ótica desses tempos excepcionais, ou seja, como forma de prolongar a guerra contra a Ásia principalmente e a Rússia em particular, para além das oficiais sanções econômicas. Sobre a seca incomparável, por que não levantar a hipótese das HAARPs? É um mecanismo de guerra disponível. Por que não pode estar sendo usado? Não é só a “embaixadora americana no Brasil”, que esteve no Paraguai, etc. É um contexto duro de guerra, já iniciada. Os acenos de Trump à Rússia soam mais do que insuficientes…
Não adianta buscar “causas múltiplas”. O dado concreto (expressão que Lula sempre usava em suas falas durante a presidência) é que a Lava-Jato é o inimigo número um do país. Atingiu a atividade econômica de maneira grave. São incontáveis empregos perdidos, recessão, empresas paradas, demonização da Petrobrás, responsável até então por 20 a 30 por cento do PIB nacional. Imagina se contabilizarmos as economias associadas direta e indiretamente? Chegaremos aos 50% do PIB? Só para ter uma ideia do que é um ataque tão frontal à Petrobrás, estreitamente vinculado ao DOJ e aos interesses dos oligarcas transatlânticos.

Não incluímos os dados que apontam que 63% do PIB se dá pelo consumo das famílias. Guardando os conservadores 20% relacionados à Petrobrás, e como o projeto de desenvolvimento nacional alicerçado na empresa ajuda num acréscimo substancial ao consumo: quanto do nosso desenvolvimento econômico real está diretamente ligado à empresa que os concurseiros de Curitiba querem destruir em seu conluio com o DOJ? Com o desmonte da rede de proteção social criado pelo PT (o mesmo programa da indústria naval foi construído por Dilma – mérito dela), e as PECs da morte – todas – que país sobrará? Não consigo crer que isso se efetivará nos próximos 5 ou 10 anos…

Não foi a Lava-Jato que oficializou o neomacartismo no Brasil, a sanha persecutória, a “sociedade punitiva” ressuscitada? O problema é exatamente não poder formar um discurso contra-hegemônico. Deve-se “salvar a Lava-Jato” a todo custo, e se ouve isso de políticos diretamente implicados no show midiático dos doutores da justiça. Deve-se manter os padrões civilizatórios, a boa educação, o bom senso e o senso comum. Não se pode nunca falar “contra a Lava-Jato”. Nas “jornadas de junho”, hoje relativamente digeridas pelo pensamento médio do “progressismo”, não se podia falar contra ela. Enquanto isso a Globo convocava para as manifestações, como hoje ainda faz, chegando ao disparate, agora, de convocar para enterros…

Para desfazer qualquer engano: esse blog nunca foi Fresco

“Será preciso dizer que o retorno a Nietzsche implica um certo estetismo, uma certa renúncia à política, um “individualismo” tão despolitizado quanto despersonalizado? Talvez não. A política também é questão de interpretação. O intempestivo, do qual falamos há pouco, jamais se reduz ao elemento político-histórico. Porém ocorre às vezes, em momentos grandiosos, que eles coincidam. Quando pessoas morrem de fome na Índia, esse desastre é histórico-político. Mas quando um povo luta por sua libertação, há sempre coincidência entre atos poéticos e acontecimentos históricos ou ações políticas, a encarnação gloriosa de algo sublime ou intempestivo. As grandes coincidências são, por exemplo, a gargalhada de Nasser nacionalizando o canal de Suez, ou sobretudo os gestos inspirados de Castro, e essa outra gargalhada, a de Giap entrevistado pela televisão. Ali, há algo que lembra as injunções de Rimbaud e de Nietzsche e vem duplicar Marx – uma alegria artista que coincide com a luta histórica”.

 Deleuze, A gargalhada de Nietzsche.

Para desfazer qualquer engano: não é porque falamos aqui de Hamlet e o conceito de parresía, Nova Rota da Seda e falência do modelo euro, Nietzsche, Foucault e a biopolítica, etc., que queremos uma “nova esquerda”, espécie de terceira via daquele que disse que se deve acabar com os princípios que embasaram a Paz de Wesfália, da soberania dos Estados nacionais, no caso, Tony Blair. Somos da “ixquerda”, como se fala em boa carioquês, mas não só na pronúncia, mas também no estilo; estilo cafajeste, que também é dos bons nordestinos, não dos elitistas de lá, e que sabem, com todo respeito, que “dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Em que sentido, contudo? Para começar nossa retórica…

Quero não falar do “dinheiro em si”, famosa categoria transespecífica, protometafísica, algo muito valorizado quando se fala – e com que paixão – de “esquerda caviar”. São lindas todas essas denominações! Gostei mais de não sei em qual lugar que ouvi o termo “esquerda udenista”, moralista, e também no voto brizolista em Crivella. Isso é lindo! Não a vitória do pastor, mas os tortuosos caminhos eleitorais. Em 2012, para os de memória curta, junto à aliança do PT com o PSB de Eduardo Campos, foi considerada a maior vitória eleitoral das esquerdas de toda história. Daí teve a bruxa malvada, a Marina, que deu o remedinho pro Eduardo, abduziu o cara, e toda a série de ataques cujo cúmulo é, sem dúvida, o moralista-mor Sérgio Moro. Quero só dizer como as coisas mudam. Como disse o Fernando Brito, o brizolista-mor, há pouco tempo elegia-se FHC numa cegueira louca com o incontestável Plano Real, que não trouxe um grão de feijão a mais na mesa do pobre nem fez uma obra sequer de cimento. As que se fazem com barro humano, contudo, foram múltiplas e advindas das mais profundas entranhas. O cheiro foi tão forte que até hoje ficam por aí desnorteados e acham que a fezes não fedeu e que o Plano foi um “passo necessário” (como o capitalismo para o socialismo?) para o sucesso do governo Lula. Muito fumo para cobrir a muita merda. E continuamos com os mesmos paradigmas do superávit, da âncora cambial, das metas inflacionárias, etc. 
Mas, isso tudo foi como que esquecido e veio o fenômeno tectônico que derrubou o Farol de Alexandria (como diz PHA), aquele que iluminava a Antiguidade e foi destruído por um terremoto chamado Lula. Certas realidades ficaram em suspensão, meio que flutuando nessa nuvem de fumo. O governo do PT por prática deliberada, consciente, não atacou os “grandes paradigmas”. Com coisas mínimas, foi fazendo suas revoluções, tirando o país do mapa da fome da ONU, tirando não sei quantos da misérias, outros tantos indo pra classe-média, para o ensino técnico e as universidades, e tudo o mais e a nuvem de fumo novamente porque o pobre foi culpado, pobre que virou evangélico, logo livre-mercadista, se embruteceu com a ascensão e todas as demais especulações metafísicas que nos remetem à Roberto Piva que falava sem nenhum udenismo:
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
             sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
            fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
Agora o pobre é de direita e todos os mais bodes expiatórios que se tem de arrumar para nos desculpar de nossa profunda indigência moral como nação. Cú-de-ferros, senhoras piedosas e amantes de Roberto Carlos, comerciantes preocupados com os rumos do Brasil e, ah!, perguntam… O que mesmo, Piva? Os comunistas vão lhe responder… Os freiscos por aí, os puros, a “esquerda udenista”, como se disse, e que não gostam de dinheiro, frise-se bem, mas de ideias. Não gostam de poder, nem de alianças programáticas. Nunca farão, portanto, um PAC, um Luz pra todos, um Programa de Compra de Alimentos, um Bolsa Família e nada nada nada mais. E no fim, como não gostam de dinheiro nem de nada sujo nunca poderão falar como o Lula que, com tudo o mais que aconteceu e ocorre, não há homem mais honesto do que ele no Brasil. E como não seria? Foi presidente, o Brasil movimentou recursos nunca antes visto e teve protagonismo internacional jamais sequer sonhado. E o que acham dele? Ah!, não me venha com essa! Até o estádio do Corinthians! É um safado mesmo.
A única resposta que esse humilíssimo blog pode dar ao Freixo e seus eleitores é o primeiro verso do gigantesco poeta Falcão do ceará – só o primeiro já é mais do que suficiente – e é o que diz o que Freixo nunca será:
Nessa, há uma definição quase kantiana da beleza; uma descrição do sublime e que só podemos entender, infelizmente para os psolistas, em termos de Lula e Brizola: aqueles que sempre fedem:
“É porque eu sou feio que sou lindo, imagina se eu não fosse”. Essa é a impossibilidade freixista, nunca serão lindos dessa maneira e preferirão morrer cheirosos do que escaparem fedendo. Só uma objeção sobre o óbvio: feder não significa fazer merda. A merda do plano real, com seu cheiro nauseabundo, até pelo efeito de estupor que a carga tóxica acarreta, tem o efeito contrário, ou seja, é o bonito, o sublime kantiano. Tem cheiros e cheiros e suas metamorfoses e quem faz a merda devemos saber, principalmente no olor de santidade que sem dúvida sairá do caixão do professor (eita categoria sofrida: com quais representantes, me digam!).
Uma outra consideração a respeito de um vídeo de um tal de “Mamãe”, contratado do MBL, que provocou eleitores freixistas no Rio de Janeiro, querendo mostrar seu desconhecimento das medidas do candidato, ou seja, querendo provar, de acordo com preconceitos básicos, que tudo o que recende a socialismo não se sustenta frente à triunfante ideologia liberal. Porcariada pura e que pegou de surpresa os eleitores desatentos e desinformados, até pela forma ostensiva com que ele aborda as pessoas, inclusive numa escola. Um amigo me falou que era falta de estudo dos entrevistados. Respondi que não podia ser. Não se precisa ser “doutor” para responder a meia dúzia de baboseiras. É falta de imaginação mesmo e até estupor por parte daqueles que foram abordados na rua. 

Respondendo ao meu amigo que ficou perplexo por não ter sido publicada a resposta dele no vídeo do youtube, onde com toda a educação que esse amigo tem ao pedir um legítimo direito de resposta frente àquelas arbitrariedades, foi olimpicamente ignorado pelo Mamãe do MBL. Respondi na hora um pouco assustado. A quantidade de besteiras é muito grande. Tive que evocar a gloriosa Janaína Paschoal para embasar minhas impressões: “Vi o negócio do Mamãe e me liguei menos no negócio do assédio do que no da palhaçada. Mas a tática dele é de intimidação mesmo. Tu viu a Janaína Paschoal falando de invasão russa pela Venezuela? Porra!, é só loucura. Nunca vi tanto maluco junto, tanta merda sendo falada”. Mas a questão não era essa somente e meu amigo, com toda aquela educação, me falou da necessidade por parte da juventude de ler “livros tipo códice”. Putz!, pensei. O que é isso? São as Críticas kantianas? Max Weber? Que porcariada mais? Aí peguei o fio da questão:

“Mais do que de erudição é falta de imaginação. Outro dia ouvi uma coisa muito legal sobre esse negócio de terem desenterrado o mito da primeira dama (outra idiotice que só pode aparecer nessas épocas – e isso nos meios “ilustrados”, nos colunistas da Folha, etc.). Falaram que finalmente não chamam mais a primeira-dama de “dona”. Mas é claro, a pessoa respondeu. A mulher do Tancredo era dona porque era uma senhora; a do Collor não era porque era nova. A do Temer não é “dona” pelo mesmo motivo, e idem, por motivos contrários, para a mulher do Lula. Aí a pessoa falou, e isso que achei genial, é que a história da Marcela Temer, fadada a ser no máximo uma miss de interior, é narrada pela música do Zé Ramalho, “Mistérios da meia-noite”. E porra, o cara fez a música pensando nela. Só pode”.

Quem quiser relembrar, segue a música. É impressionante a capacidade profética do Zé nesse caso:

O pior é a análise do PSOL no pós-eleição. Num dia Freixo culpou parte da derrota dele aos “erros do PT”, sendo que um pouco antes o presidente do PSOL falou que o partido estava ocupando os espaços do PT. Aonde? No imaginário dos ufanistas, dos verde-amarelistas do século XXI. “Esquerda udenista”, acho a melhor definição que ouvi. Udenista porque moralista. Esses cheirosos são foda, sem imaginação nenhuma e sem nenhum senso de humor. Muito aquém da Gargalhada Nietzsche, como interpretada pelo Deleuze. Isso é muito mais foda, inclusive a analogia com os “mistérios da meia-noite” (achado genial), do que qualquer “obra em formato códice”. Que também é uma definição bem engraçada, hilária. Guattari e Deleuze estavam certos no Anti-Édipo: o riso que importa não é o de superioridade, característico da ironia. O que importa é a gargalhada, é mexer com o baixo-ventre, o riso gargantuesco, pantagruélico, deformador da face e de destruidor de todos os fascismos, que, no fundo, nada mais é do que uma filosofia do bom-comportamento e para os bem comportados (do bom senso e do senso comum, para falar em termos deleuzianos). Com o resto a gente não se mistura e se puder mata.

O riso que forma as obras de arte, o Intempestivo, o momento em que a Arte encontra a Política: a gargalhada de Castro e não a superioridade algo irônica dos doutores que analisam as “revoluções”, os “fenômenos sociais”. O Intempestivo é momento de festa. Sem qualquer capacidade de mobilização popular, sendo um partido elitista num dos piores sentidos, seus eleitores e partidários nunca irão compreender o sentido do humor – e o da vitória.

A ESQUERDA UDENISTA NÃO REPRESENTA ESSE BLOG, MUITO MENOS SEU ESCRITOR, APESAR DESSE AMAR ENLOUQUECIDAMENTE MUITOS AMIGOS QUE, POR PURITANISMO E/OU FALTA DE IMAGINAÇÃO, VOTAM NO CANDIDATO DA UTOPIA, NAQUELES QUE OPTAM PELA UTOPIA E NEGAM A PRÁTICA DA MUDANÇA.
Réquiem para o psol – finis – que nada mais foi do que os ecos dos escandalizados pelo suposto mensalão – ainda por se provar.

CARNIVORE ou Facebook: da CIA às Revoluções Coloridas

 

Segundo episódio da série dedicada nesse blog sobre as manipulações midiáticas (para ler o primeiro episódio CLIQUE AQUI), porém agora recobrindo as mídias eletrônicas, a gênese dentro dos serviços secretos, das mídias sociais, e seu papel na criação das “revoluções coloridas”, conhecida no Brasil pelas manifestações de junho de 2013. As forças armadas dos países asiáticos, em especial Rússia e China, consideram as “revoluções de cor” como guerras irregulares modernas – guerra entre Estados, diga-se – como foi o caso na Ucrânia e da ascensão lá do governo neofascista dos apoiadores de Stephan Bandera e o passo atrás que se deu, consequentemente, na chance de criar relações pacíficas do bloco transatlântico com o continente asiático. A ascensão aqui no Brasil da ultra-direita e do conservadorismo de um modo geral não podem estar desvinculados dessa nova forma de guerra, uma das frentes do Império contra o desenvolvimento de um novo modelo econômico internacional, fundamentalmente o que acontece em torno dos países BRICS.

Quando falamos em engenharia social e mineração de dados; quando nos perguntamos sobre o que possibilitou as manifestações de 2013 como movimento declaradamente anti-político; quando vemos a evasão da vida e do debate políticos tão bem refletida nos últimos dois ou três anos, não podemos evitar a pesquisa sobre Octopus, ou do caso de mineração de dados ocorrido nos EUA durante a década de 1980 chamado de Inslaw Affair. Essa investigação só veio a público anos depois através do trabalho do jornalista independente Danny Casolaro, meses depois encontrado morto em condições suspeitas num hotel de beira de estrada nos EUA. O ex-agente da KGB e best-seller internacional, Daniel Estulin, retomou a história, num caso romanceado e que pode nos esclarecer na escrita desta publicação.

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