Olavo e os dois fatores que dois conheço

Por que o monopólio das “teorias da conspiração” viraram monopólio bolsolavismo e não tem mais a irreverência e a agudez da época de um Glauber Rocha? O que antes era apanágio da esquerda dita radical, se tornou o “lugar de fala” de setores reacionários. A incapacidade de quem se chama progressista, hoje, de denunciar os movimentos de capitais transnacionais adquire feições mais do que preocupantes. No mundo dominado pelo Vale do Silício, nunca antes a esquerda se fez tão dócil ao discurso da mídia, braço de comunicação do aparelho de guerra das potências estrangeiras.

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Sob violento abalo: a tese X e o pacto nazi-soviético

Diz-se que Walter Benjamin esteve sob violento abalo quando soube que os embaixadores da União Soviética e da Alemanha nazista assinaram um tratado em conjunto, o Ribbentrop-Molotov. Teria recorrido a remédios ao ver que a única esperança de luta contra o fascismo cedeu ao firmar um pacto de não agressão… Essa interpretação serve para um duplo fim: criticar a ação soviética como capitulação diante de Hitler, sem considerar que este foi o último dos tratados que potências europeias e outros países periféricos assinaram com os nazistas o fim de contê-los diplomaticamente. Por outro lado não se atentam que, mais do que em qualquer outro trabalho, a tarefa específica no campo político dos Conceitos sobre a História, de Benjamin, é o de crítica as esquerdas, seja ela de caráter socialdemocrata ou comunista.

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Como anda a loucura militar americana: os preparativos para a guerra com China

À primeira vista pode ser difícil de acreditar, mas pelo menos desde Bush pai, Donald Trump é o primeiro presidente americano que não iniciou uma guerra no exterior. Ele traz isso, talvez, como seu único fator positivo, o que o faz manter sua promessa de campanha de 2016. E se de fato continuar assim será uma imensa vantagem. Contudo, Mike Pompeo não dorme um dia sequer sem pensar em como recolocar a máquina bélica em pleno funcionamento…

Do outro lado, os democratas trazem todo o Partido da Guerra com eles (consenso bipartidário) e nenhuma boa proposta para a economia. É até curioso: recentemente, a OTAN virou ambientalista e finalmente promoveu o tão esperado encontro da máquina política da guerra com a da destruição econômica, ou seja, o Green New Deal.

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A posição de Trump diante do complexo industrial-militar

O atual debate de teor acadêmico transplantado para as redes sociais, um suposto embate entre stalinismo e liberalismo, só pode ser considerado um debate político de segundo ou terceiro grau, porque ajuda mais para confundir do que para entender o casamento singular nos dias de hoje entre o modelo da soberania e o da biopolítica. Tanto Stálin quanto Vargas, Mussolini, Hitler e Perón (entre outros) são exemplos de poder soberano de tipo autocrático, e que não sem um delicado debate podem se tornar ou não comparáveis.

O lado positivo do desentendimento que vemos foi o escancarar dos crimes dos liberais, tanto em sua vertente clássica quanto na que se estabeleceu no pós-guerra. Contudo, o debate de teor acadêmico acaba caindo no ridículo: Domenico Losurdo e Hannah Arendt aparecem como polos opostos, quase como se fossem rivais intelectuais, enquanto Churchill e Stálin se engalfinham para ver quem foi melhor ou “menos pior”.

O pequeno texto que segue é um breve estudo de caso, cujo intuito é mais esclarecer o debate político atual e mostrar, a partir de articulações já bem estabelecidas, as ambiguidades, limitações e perigos do singular casamento no séc. XXI entre soberania e biopoder.

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A democracia distópica da intelectualidade bem-pensante

Em meio ao caos da guerra civil vivida nos EUA, chama a atenção como comentaristas brasileiros tratam com complacência (para dizer o mínimo) os bons tempos da presidência do Partido Democrata. Em 2016, último ano de governo de Obama, os EUA jogou 26171 bombas sobre suas vítimas, em maioria pessoas alheias aos seus combates. É um aumento de dez vezes o que seu predecessor, George W. Bush, fez durante sua guerra ao terror. Ainda em 2016, também sob Obama foram feitas guerras encobertas a cerca de 70% das nações do mundo, isto é, 138 países – um salto assombroso de 130% em relação ao seu predecessor do Partido Republicano.

Não só analistas brasileiros, mas astros estadunidenses como LeBron James ou Brad Pitt fazem a campanha dos meios de comunicação tradicionais, os mesmos que inventaram as bombas nucleares no Iraque e que levou ao ciclo de destruição do Oriente Médio, ainda em curso. O que se espera, pelo menos dessa chamada “intelectualidade bem pensante” é que se consiga pesar algumas diferenças significativas entre a atual presidência e a anterior. Não é por acaso que republicanos como Bush e ultrabelicistas como Hillary Clinton se alinhem em favor da candidatura de Joe Biden. Isso é só vira-latismo por parte dos brasileiros ou remete a uma incompreensão ainda mais profunda das grandes transformações que o mundo vem passando atualmente?

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Novilíngua em Belarus

As discussões a respeito das chamadas “fake news” dizem respeito bem mais aos meios pelas quais elas são reproduzidas do que por seu conteúdo. Caso algum giro antropológico fosse de fato detectado, ou seja, algo que tivesse alterado em ampla escala a capacidade de se proliferar notícias falsas, o caso de estudo número 1 deveria ser a campanha dos grandes jornais corroborando a suposta existência de armas nucleares no Iraque, logo no início do século.

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A guerra da CIA contra a NSA e os golpes na América do Sul

Um povo degradado e sua elite mentirosa

Os americanos são tão mentirosos que conseguiram, como que por uma metáfora, transformar o grande corpo objetivável da Terra em camada de ozônio. Tudo isso parecia ter entrado num breve ocaso ou passado a operar de forma menos intensa na virada do século: ascensão da China e recuperação da Rússia (rearticulação do eixo eurasiático), e a recuperação do sonho de desenvolvimento dos países do antigo 3º mundo, com seu centro de poder a partir da América do Sul (integração sul-americana + eurásia = BRICS).

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