Equipe que dirige o golpe contra Trump também dirige a tropa de choque da Lava-Jato para destruir o Brasil e o Cone Sul

A demonização do inimigo

Poderia até pedir desculpas pela afirmativa contundente, mas a questão é que o mesmo grupo político nos EUA que tentam derrubar Trump pela balela do chamado “Russiangate”, derrubaram Dilma e estão umbilicalmente ligados ao Ministério Público brasileiro. O promotor Robert Muller, encarregado de investigar as “conexões russas” de Trump e a suposta influência dos antigos soviéticos nas eleições americanas, dirige Andrew Weissman, especialmente designado por Muller para compor sua tropa de choque após este ter ocupado a chefia da Seção de Fraudes do DOJ (Departamento de Justiça americano). Como já é sabido, Weissman foi retirado da equipe de caça às bruxas porque deixou muito claro sua parcialidade a favor de Clinton e seu servilismo diante da procuradora geral de Obama. Agora cada vez que se menciona Weissman na imprensa estadunidense, é para fazer referência à profunda corrupção que inunda o Departamento de Justiça e o FBI.

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Previsão do tempo para o signo de Touro

Toura

Miriam Leitão consegue juntar duas coisas constitutivamente inúteis que pintar a cor do neoconservadorismo (o liberalismo com cores progressistas) daqui e dos EUA. Como Hillary Clinton, ama o livre-mercado e sofre de uma piedade não menos utópica pelos pobres. Assim, da união de duas inutilidades profundamente populares, nasceu a “previsão do tempo para o signo de…”, em homenagem à colunista e comentarista global, depois de suas comoventes declarações contra o trabalho escravo.

Consultamos o astrólogo João Bidu e uma entidade desconhecida, além de Rogério Skylab e MC Gorila. Veja o que eles falaram para nossa coluna.
O Abertinho foi obrigado a consultar seu oráculo na madrugada de ontem para hoje, numa encruzilhada carioca que prefiro não revelar o nome, para que ele nos desse a indicação para o signo de Touro, de acordo com a entidade consultada, responsável pelos avanços escabrosos saídos da pena da colunista.
E as previsões não parecem ser muito boas, ainda mais para os que sofrem de amores perdidos, de sofrências sentimentais das mais variadas. Veja só, num mesmo dia alude-se a um virtual afastamento de Michel Temer na segunda ou, pelo menos na terceira votação na Câmara. O fato é que o antigo amor está morto, sobrevive só por convenções. No mesmo dia, a mesma toada sobre os supostos viagras que irão ser ministrados na candidatura de Bolsonaro, o que iria arrasar a esquerda e já estaria, via apoio do MBL, arrasando os corações da direitalha, ainda mais depois de sua turnê por churrascarias no EUA. Ah!, quão longe estão do candidato ideal… Como se resume isso em termos de horóscopo? Falta de macho?
Como não podemos revelar a identidade do profeta que consultamos, chamamos dois especialistas para dar a previsão do tempo atual para o signo de touro. O que se passa na mente dos que estão sobre a ascendência desse signo agora. Por isso a homenagem a Miriam e a sua tourada, sua chifrada nos seus amigos de tendências reacionárias ao se indignar – veja só! – com o trabalho escravo sob o governo ilegítimo.

Antes já fizemos uma homenagem – poética – à futurologia de Miriam e a de seus companheiros. Clique aqui.

Veja no vídeo o que os dois especialistas tem a falar sobre as supostas tendências “ocultas” da momentânea ascendência taurina em Miriam.
Miriam é do signo de Áries, o que vem logo antes de Touro no horóscopo. João Bidu, astrólogo profissional, não  nos deixa mentir em sua previsão para o dia 17/10/17.

TER – Além de trabalhar duro, também é hora de prestar atenção em seu bem-estar. Abra espaço para mudanças e novos caminhos. Palavras picantes esquentam o clima no sexo: experimente! Palpites: 47, 11 e 83. Cor: prata.

Miriam já as está praticando, trabalhando duro e o clima já ferveu: com muita pimenta. Veja só, direto do DCM.

Miriam Leitão está indignada. Parem as rotativas.

Em sua coluna no Globo de segunda, dia 17, ela denuncia “mais uma medida de retrocesso social do país” (mais uma? Houve outras, então? Ué).
Ela se referia à portaria do governo que dificultou a divulgação da lista do trabalho escravo e sua fiscalização.
“Foi mais um pedido da bancada ruralista que o presidente aceita dentro do seu esforço para barrar a segunda denúncia”, escreveu.
“Os auditores do trabalho perderam autonomia; um flagrante só poderá ser realizado com a presença da polícia. Se não for flagrada, a empresa não entra para a ‘lista suja’. É bom lembrar que, pelas regras até agora vigentes, quem não cometer o mesmo crime por dois anos sai da lista.”
Miriam quer que o leitor dela acredite que a agenda de retrocessos do governo Temer é uma surpresa.
Ela dá de barato que o sujeito que a lê, ouve e assiste não se lembre da força que ela deu ao salafrário e ao entulho que vinha com ele.
Monomaníaca com a “herança do lulodilmismo”, Miriam chegou a defender Temer no episódio do vexame da abertura da Paralimpíada.
Segundo ela, as “críticas ao presidente são por insatisfação com decisões tomadas antes de sua posse”.
A população “ainda vive com inflação e desemprego, o que são os motivos das vaias. Medidas que serão tomadas pelo novo governo terão solução em longo prazo”.
Miriam é tão preocupada com o trabalho escravo que entrevistou o dono da Riachuelo, porta voz empresarial do impeachment, e não tocou no assunto da condenação da companhia, ocorrida meses antes, a pagar pensão mensal a uma costureira que colocava elástico em 500 calças por hora.
O salário da funcionária era de 550 reais. Um supervisor ficava de olho para evitar que bebesse água ou fosse muito ao banheiro. O caso teve ampla repercussão e gera polêmica até hoje.
Nada disso interessou a Miriam. Seu negócio era sustentar a tese de Flávio Rocha de que o Brasil ia dar um salto com Michel Temer.
“Não está havendo uma troca de governo apenas, mas o fim de um ciclo que apostou no aumento do tamanho do Estado e elevou impostos. A recuperação será rápida, será em ‘V’”, garantiu, triunfante, sem ser incomodado pela entrevistadora.
De acordo com Rocha, “a reforma trabalhista tem que ter apenas um princípio: o de que o negociado entre trabalhador e empresa se sobrepõe ao legislado”.
Retrocesso social?
Miriam Leitão precisa parar de fingir que está indignada com a tragédia temerista porque ela é parte do grande acordo.
Ivan Lessa dizia que, a cada 15 anos, o Brasil se esquece do que ocorreu nos últimos 15 anos. Miriam se beneficia do fato de que, entre seus seguidores, isso acontece a cada 15 minutos.

Didico, um daqueles que rejeitaram o Golpe

Ao contrário do retrato do Golpe que coloquei em outra postagem, com o texto do Rogério Skylab superposto à bizarra narração de Galvão Bueno quando a noiva global jogava seu buquê de flores na festa das celebridades, coloco aqui o retrato de quem não participou da festa que uniu as duas faces do assalto ao poder, ou seja, o alto capital e a mídia. É o retrato daquele que recusou ambos e por isso foi massacrado. Como flamenguista, queria tê-lo visto jogar mais pelo meu time depois do título de 2009. Contudo, muito melhor é ver seu exemplo, ainda com todos os problemas que enfrentou, do que sequer imaginar participar da festa daqueles que ainda imaginam governar o Brasil. Deu-se uma sobrevida a esse tipo de gente com o golpe. Porém não passa do estrebuchar de um corpo quase morto. Esse foi o sentido de ter citado por inteiro o conto do Skylab. Agora o outro lado, não menos bonito – e chocante – que a ficção. 
“Frequentemente, Adriano é tachado como uma potencial superestrela que fracassou. Repete-se a máxima de que, se quisesse, poderia ter sido muito maior no futebol. Mas o êxito do Imperador talvez seja muito maior e verdadeiro que o de grande parte dos craques que se deixam deslumbrar pelo brilho efêmero dos gramados. Ele tem o respeito e a admiração do reduto pobre que não lhe nega guarida nos momentos mais difíceis. Essa, sim, deveria ser a principal medida de sucesso do ser humano, que, independentemente de qualquer ofício, vai muito além do reducionismo imposto pelas necessidades de uma carreira profissional”.
A seguir, a excelente reportagem do El País.

Adriano Imperador, a sobriedade de um craque que trocou o futebol pela favela



Existe um trajeto de mão única idealizado por milhares de garotos pobres no Brasil. Sair da favela para se tornar uma estrela do futebol. O caminho inverso é uma escolha rara. Dificilmente o jogador que alcança status de popstar conserva laços genuínos com sua comunidade, com sua quebrada, com os campos de várzea que viram seu talento brotar. Por isso, Adriano Imperador, que há mais de cinco anos não disputa uma temporada completa e está sem jogar desde o primeiro semestre de 2016, quando se aventurou numa liga amadora dos Estados Unidos, segue chamando tanta atenção. Em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da Globo, o ex-atacante, ídolo do Flamengo e Inter de Milão, consagrado por uma notável passagem pela seleção brasileira, voltou a mostrar que o ser humano tantas vezes oprimido por trás do uniforme de atleta se sobrepõe à figura do ídolo infalível.


Didico, como é conhecido por ex-companheiros de seleção, foi bastante criticado ao longo do processo de ascensão e queda na carreira. A Pedro Bial, ele reconhece que cometeu um “mar de erros”. Várias críticas merecidas quando se tratavam de seu desleixo com o profissionalismo exigido pelo futebol de alto rendimento. Algo que se transformou em depressão após a morte do pai, em 2004. Adriano, sempre apegado à família, se rendeu à bebida. Forçou a saída da Inter de Milão, onde conquistara a honrosa distinção de Imperador, para poder ficar perto dos amigos de infância e familiares na favela da Vila Cruzeiro, uma das mais violentas do Rio de Janeiro. Opção que a maioria de seus críticos nunca perdoou.


As recorrentes aparições na comunidade geravam manchetes sensacionalistas e insinuações sobre seu suposto envolvimento com traficantes. Adriano era pintado como criminoso por quem preferia escarnecer o fato de que ele se sentia melhor cercado de amigos na favela que do glamour da alta sociedade da bola. Na entrevista, o ex-jogador explicou o que o motivou a buscar refúgio no lugar do qual muitos colegas preferem manter distância, embora tenham origens semelhantes. A favela faz com que Adriano seja visto como uma pessoa comum, e não o astro que arrebatou a Europa e colheu fortunas nos gramados. “Chego lá [na Vila Cruzeiro] e ando descalço, sem camisa, jogo bola, faço churrasco. Isso não tem preço.” Ainda disse que, apesar de não dispensar uma farra entre amigos, consegue agora lidar de uma forma diferente com o álcool. “Eu bebo igual aos meus amigos num churrasco. Ninguém bebe só uma cerveja. Mas hoje tenho controle.”
Adriano também não rechaçou a proximidade com antigos vizinhos ligados ao tráfico de drogas, como Rogério 157, que recentemente rendeu capa irônica do jornal Meia Hora com uma foto em que aparecem juntos, e Paulo Rogério de Souza, o Mica, a quem presenteou com uma moto em 2008. “Não dei arma, e sim uma moto. Ele é meu amigo de infância.” Para uma figura pública como Adriano, teria sido mais conveniente se afastar dos amigos que descambaram para o crime a ter de dar explicações a cada visita à Vila Cruzeiro. Preferiu ser leal às amizades e enfrentar a avalanche de julgamentos, mesmo sempre tendo negado participação em atividades ilícitas. Assim foi a trajetória do Imperador. Um sujeito que, por causa dos laços com suas raízes humildes e a depressão, prejudicou somente a própria carreira. É extremamente querido por ex-colegas de profissão e, sobretudo, pela comunidade que nunca abandonou.
Frequentemente, Adriano é tachado como uma potencial superestrela que fracassou. Repete-se a máxima de que, se quisesse, poderia ter sido muito maior no futebol. Mas o êxito do Imperador talvez seja muito maior e verdadeiro que o de grande parte dos craques que se deixam deslumbrar pelo brilho efêmero dos gramados. Ele tem o respeito e a admiração do reduto pobre que não lhe nega guarida nos momentos mais difíceis. Essa, sim, deveria ser a principal medida de sucesso do ser humano, que, independentemente de qualquer ofício, vai muito além do reducionismo imposto pelas necessidades de uma carreira profissional.
O dinheiro proporcionou a Adriano a oportunidade de comprar uma casa confortável fora da favela e afastar seus familiares do contexto de violência social que assola os morros do Rio de Janeiro. Porém, não lhe tirou o desejo de retomar sua essência e buscar a felicidade ao lado de quem ama. Isso vale – ou deveria valer – muito. Seguro de suas escolhas, ele parece, enfim, aos 35 anos, ter alcançado a plenitude que lhe permite desfrutar dos bons momentos acompanhado da família e dos amigos. Viva Didico! E que ele siga vivendo como bem entender, sem a obrigação de voltar a jogar para saciar o desejo de críticos que jamais compreenderão que o boteco de esquina da Vila Cruzeiro pode ser um lugar muito melhor que as vitrines badaladas – e frívolas – de Milão.
Adriano diz ter aprendido a simples lição com o pai, de que “o mal não se trata com o mal, se trata com o bem”. De fato, até que se prove o contrário, ele não faz mal a ninguém. Outra de suas frases célebres serve bem como resposta a quem o julga e o discrimina por ter preferido a favela ao futebol: “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”.

Vantagens do modelo venezuelano para o Brasil

Muitas vezes achei a situação da Venezuela um pouco mais complicada do que a nossa. Talvez a aparência de normalidade, algo característico do país que, dizem, não é afeito a guerras ou a confrontos mais violentos, não me fez radicalizar na comparação. Hoje fica mais evidente a hipótese que levantava desde muito tempo. O que era uma hipótese se tornou uma convicção.
Para além do que se chama de “falta de politização” da população durante os governos do PT, algo mais efetivo deveria ser proposto ao invés dessa crítica generalista. É interessante, por exemplo, o debate mais ideológico do que científico que Jesse Souza coloca no seu último livro, mas esses debates, até ganharem mais maturidade, demandam tempo. Esse tipo de “politização intelectual” que, de cima, diziam que deveria ser a tarefa do PT só teve de consequência prática, ou seja, como proposição concreta, a regulação da mídia.
O modelo de realização constante de plebiscitos na Venezuela, desde Chávez, parece ser uma forma muito mais eficaz de mobilizar a população e ao mesmo tempo politizá-la, ou seja, fazê-la refletir sobre os caminhos reais que quer dar ao país, e ao mesmo tempo dar legitimidade a qualquer movimento do governo federal. Aqui fica-se debatendo se o Supremo irá intervir de maneira satisfatória ou não, se haverá intervenção militar ou não (e se isso seria bom ou não), etc. Como mostra o interessante texto de Almir Fellite no Justificando, a convocação da constituinte por Maduro – e seu sucesso – conseguiu calar a oposição interna e as vozes críticas da mídia internacional.
Achei um texto interessante para colocar aqui para quem acompanha o blog.

Por que a Venezuela sumiu dos noticiários?

Durante quase todo o ano de 2017, a Venezuela ocupou boa parte da grade do jornalismo no Brasil e no mundo. Desde a eleição para a Assembleia Constituinte, porém, a mídia pouco tem abordado o que se passa no país. Vários fatos envolvendo tanto o cenário político venezuelano quanto o contexto mundial explicam isso.
O principal motivo, talvez, para a mudança no comportamento jornalístico é o fato de que os protestos da oposição de direita na Venezuela esfriaram e praticamente não ocorrem mais.
Logo depois do pleito que escolheu os novos Constituintes do país, houve uma tentativa frustrada de convocar um protesto por parte da principal força de oposição, a MUD. A adesão foi muito pequena e acabou inaugurando um período de calmaria nas ruas venezuelanas.
Vários fatores levaram à baixa adesão popular aos novos protestos da direita. Embora contestada pela mídia internacional, a eleição para a Assembleia Constituinte, de fato, teve uma grande participação popular, uma das maiores já conquistadas pelo chavismo, o que mostrou que boa parte do povo venezuelano realmente aposta na Constituinte como um caminho para a pacificação do país.
Do outro lado, boa parte do povo que não apoia o bolivarianismo passou a se sentir traída pela MUD e por outros organismos políticos da direita venezuelana.
Primeiro porque os chamados a protestos feitos por lideranças que se manifestavam no conforto de Miami já eram vistos como pura hipocrisia pelos revoltosos. Segundo porque a MUD, que dias antes contestava a legitimidade de qualquer processo eleitoral feito pelo Estado, logo se apressou a dizer que concorreria nas eleições regionais convocadas pela Constituinte.
Assim, se ao lado da oposição houve uma grande desilusão popular em relação a classe política que a representava, do lado bolivariano, o apoio massivo à Constituinte rendeu novas forças ao governo de Maduro.
Com as ruas mais calmas e com a Constituinte baseada em apoio popular, a oposição passou a voltar seus olhos para a comunidade internacional. Nesse momento, sumiram as notícias sobre fatos internos do país, que passaram a ceder espaço à pressão internacional sobre a Venezuela.
A narrativa parecia que ganharia força, inclusive, quando a ex-Procuradora Geral do país, Luisa Ortega, foi destituída e se refugiou na Colômbia. Mas suas ameaças de revelar os podres do Governo parecem ainda não ter prosperado e, inclusive, geraram desconfianças sobre ela, que ocupou o cargo por anos sem se manifestar nesse sentido.
E nem mesmo a narrativa de rechaço mundial ao regime chavista rendeu muitos frutos. Pelo contrário, acabou expondo a incoerência dos grandes grupos de mídia, que, no conturbado cenário político atual, mostram dois pesos e duas medidas para fatos semelhantes.
Como a mídia mundial poderia, por exemplo, manter a narrativa de que a falta de rotatividade no poder venezuelano é uma ditadura, ao mesmo tempo em que apoia que Angela Merkel permaneça no poder da Alemanha (e da Europa) por um período maior do que o próprio Chávez? E nem se diga que não há repressão no governo alemão, ou todos já esqueceram as horríveis cenas de violência policial durante a reunião do G-20 em Hamburgo? Ou a pressão escandalosamente imperialista e antiética que exerceu sobre países em crise como Grécia, Portugal e Espanha?
A narrativa de pressão da comunidade internacional também acabou esbarrando nos atos dos próprios governos que a exerciam. Enrique PeñaNieto, presidente mexicano, acusava Maduro de ditador sob a tutela de seu partido, o PRI, que governou o México por mais de 70 anos, e sem ainda ter explicado o massacre de 43 estudantes em Ayotzinapa. Juan Manuel Santos, presidente colombiano, por sua vez, passou todo o ano de 2017 condenando o regime chavista, sendo que, nesse mesmo período (entre janeiro e agosto), 101 líderes de movimentos sociais haviam sido assassinados em seu país.
A mesma incoerência atingiu o governo espanhol, recentemente, quando, após reconhecer o governo venezuelano como uma ditadura, chocou o mundo ao reprimir com uma violência completamente desproporcional o movimento separatista catalão.
Repressão que boa parte da mídia espanhola, como o El País, se apressou em encontrar justificativas. Aliás, este diário espanhol, meses antes, confiou cegamente no plebiscito realizado pela oposição na Venezuela, ainda que a MUD tenha queimado todas as cédulas e atas para que nenhum órgão pudesse auditá-las. Mas não mostrou a mesma confiança a respeito do plebiscito catalão, que tem seus resultados contestados em suas páginas diariamente.
Mas a narrativa de pressão internacional já tinha perdido sua força antes disso, quando Trump afirmou que os EUA consideravam uma opção de intervenção militar na Venezuela. Nem mesmo os governos subordinados aos interesses americanos, como o de Colômbia, México, Brasil e Argentina, apoiaram a declaração.
Declaração esta que acabou sendo um tiro no pé para a própria oposição venezuelana, que passou a ser acusada por parte da população de estar participando de uma conspiração internacional contra o povo venezuelano.
Mas, talvez, em nenhum outro país essas incongruências saltaram tanto aos olhos quanto no Brasil. Soava falso demais para a imprensa brasileira continuar uma campanha anti-chavismo ao mesmo tempo em que empregava todos os seus esforços em apoiar as medidas impopulares de um governo golpista, como a reforma trabalhista e da Previdência.
Soava falso, também, que militantes da direita condenassem a violência na Venezuela ao mesmo tempo em que comemoravam o massacre de manifestantes na Esplanada em Brasília. Assim, aqui, como no resto do mundo, a imprensa achou por bem baixar o tom nas notícias a respeito da Venezuela.
Enquanto isso, o povo venezuelano mostra sua força ao tentar reerguer o país após a grande divisão política que sofreu. Como já defendi neste mesmo espaço em uma ocasião anterior, o bolivarianismo, que apresenta dados incontestáveis entre 1999 e 2014, segue sendo o caminho escolhido pelo povo Venezuelano em busca de seu desenvolvimento.
Com a pacificação do país e uma possível alta do petróleo, abre-se a porta para que a Constituinte corrija as falhas do chavismo, como ela já propôs ao apresentar um plano de diversificação da economia e de apoio aos produtores rurais. E é desse modo que segue o povo venezuelano, exercendo sua auto-determinação e soberania, em um pedaço da América Latina que ao menos ousa se dizer livre.
Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Wadih Damous expõe a lógica da prostituta

Segundo Barbara Cassin, ouvir os sofistas é a mesma tarefa da que destacava Benjamin, ou seja, ouvir as prostitutas para se conhecer os seus clientes. Isso também é o que Sade fazia antes de ter sido levado à Bastilha por ter querido fugir com a sobrinha de uma mulher poderosa. São esses os saberes perversos que hoje estão em circulação. Nada expõe melhor a lógica da “burguesia”, do neomacartismo que tomou, como uma histeria coletiva, bem mais as classes-médias que as populares, e levou – todos juntos – ao caótico quadro social atual. Não por acaso, não lembro se no Le Monde ou outra publicação importante, se disse que a desigualdade econômica no Brasil atual é idêntica à França do séc. XIX, a França estudada por Walter Benjamin. Tempos de perversão.

DESENVOLVIMENTO, ENVOLVIMENTO, EVOLVER-SE

Em que ponto a crítica histórica é capaz de produzir “muçulmanos”?. Reflexões sobre o Bertleby, de Mandeville.
O papel de toda crítica histórica não é o de mostrar o determinado desenvolvimento, como se, ao se utilizar de uma regra cujo fim é medir apenas o passado, ou seja, de acordo com um presente genérico ou um futuro abstrato – teleologias – se pudesse medir em termos gerais, como se faz com os signos monetários – ainda mais caso se referencie uma moeda única, singular ou universal – os envolvidos, com a precisão inútil da máquina de calcular, estão contentes com a operação de uma máquina de se fazer fofocas.
(não por outro motivo, Barbara Cassin diz que Aristóteles é o último e o mais preparado dos sofistas. Na verdade, ele é o modelo frente às cópias, de Górgias, Melisso ou Xenofonte. Heidegger, o leitor insaciável de Aristóteles, indica a exclusão daqueles que condenam a “tagarelice”, como se todo seu saber não fosse baseado no sóphos, nos comentários sobre comentários, e numa prosa insípida que, por essa mesma característica, foi alçada ao patamar de filosofia. Fora desse reino que busca sempre o bom senso e o senso comum, a palavra senão fácil pelo menos de consenso, como Habermas, exclui-se as vozes do murmúrio. No contexto da sociedade civil ideal, rígida em seus parâmetros como só um alemão pós-Kant sabe fazer, somos todos aquém dos judeus. Somos os “muçulmanos” dos campos de concentração nazistas)
“I would prefer not to”
Nem os envolvidos, como se o fato de se estar em alguma coisa, por si, pudesse dizer sobre a real participação num crime ou num acontecimento memorável. Assim, vê-se povos de um modo geral, caracterizando todos os tipos de racismo. Eis a face que aparece novamente. Ano zero: rostidade. E ainda não se pode dizer, hoje, que os revolucionários não foram cristãos…
(Aqui entraríamos no terreno das mitologias personalistas, imperiais. Mas passemos adiante)
Deve-se ver o papel dos evolvidos, dotados de vida própria, cuja alma ignora as regras da tabula rasa do empirismo britânico, e compartilham diferentes tipos mentais entre si, num ambiente somente genericamente a eles assemelhado. Somente assim se pode compreender porque a parresía socrática, ao contrário da de Péricles, não pode ser política. Há um descompasso enorme entre as palavras e todas as coisas. E é isso que a crítica histórica continuará a ignorar.
Não pode ser política: Xi Jiping, ainda mais do que Putin ou até mesmo Trump, o mais vil dos muçulmanos. Novamente os demagogos que se chamam de democratas querem uma nova guerra de auto-destruição. E não faltam os seus Tucídides para narrar com pompa e glória o holocausto, a guerra fratricida, como a do Peloponeso.
(1989: ilusão de um estado de guerra que ainda não terminou e que mais e mais se agrava. A guerra é total, nos termos precisos que Deleuze e Guattari definiram no Mil Platôs, na “Máquina de guerra nômade”. 1989: o aprofundamento do estado de exceção – Agamben; 1989: a inauguração da pós-democracia para Rancière; 1989: o primeiro ato de guerra total para além de qualquer parâmetro de “guerra fria”)
“I would prefer not to” não é uma parresía política, como a de Sócrates? Talvez não por não ter a “precisão”, a capacidade de “persuasão” da velha e da nova sofística, imperial e “democrática”, ou seja, demagógica. Barack Obama.
Eu poderia me explicar melhor? “I would prefer not to”. Bartleby.

O trem das sete, o próximo da estação

O sonho futurista do Skylab em 23 de julho de 2017. Vale a pena o belíssimo e curto conto. Logo embaixo, as cenas dos que ainda não entraram no trem. O Brasil infernal com narração de Galvão Bueno. A Globo e o Golpe unidos no baile da Ilha Fiscal.
“A plataforma estava tomada de pessoas de toda espécie: recém-nascidos, anciões, mulheres e homens de meia-idade, adolescentes, grupos de crianças sírias, japoneses com smartphones de última geração, turistas, travestis operados, feminazis, cracudos, a dupla sertaneja Dória e Amaury, o ex jogador Neymar com suas duas pernas mecânicas, Caetano Henrique Cardoso, o Drácula, o louro José, Galvão Bueno e soldados fortemente armados. Algumas pessoas bem vestidas; outras, maltrapilhas. Permaneci arredado ao meu lugar. Impossível entender aquela algaravia, as lágrimas misturadas às gargalhadas. Mas num dado momento aumentou a tensão. E o barulho do trem, que se aproximava, me chegou aos ouvidos. Os soldados gritavam diante da multidão. Era um dia cinzento e frio. Assim que o trem parou, abriu suas portas e as pessoas entraram. Paulatinamente, a plataforma foi se esvaziando. Permaneceram apenas os empregados da estação, checando se todos haviam embarcado. Então, uma sirene soou forte e as portas se fecharam. Assim que o trem partiu, os empregados voltaram aos seus escritórios, e novamente o silêncio se estendeu ao redor. Pude então ouvir a última sirene do trem, já bem longe, como um canto que desaparece na distância”.

O olhar da prostituta

Segundo Benjamin, deve-se entender a lógica da burguesia pelo olhar da prostituta. Por isso, escutamos Sérgio Moro. Sua frase é lapidar, e por um bom tempo alimentou esperanças nos becos e esquinas do país.
Quem, nessa entrega de prêmio, é o cafetão?

Nazismo e liberalismo como doenças autoimunes: a biopolítica de Roberto Esposito

Roberto Esposito associa o nazismo e o liberalismo às doenças auto-imunes (a diabete é o tipo dessa doença mais famoso). Seria assim o argumento: toda comunidade exige um “munus”, ou um dom, o que gera, naquele que o recebe, o dever da troca. Cria-se em toda comunidade uma espécie de “sistema da dívida”. Os “imunes” são os que não estão no jogo do “munus”, do bônus e da dívida. Para o autor, é o excesso de vida, de imunidade, que provoca essa grande doença auto-imune no corpo social, como o nazismo ou o liberalismo. O liberalismo, por exemplo, para se alcançar a força e liberdade individual para cada um de seus membros, acaba produzindo uma força homicida, onde muitos devem morrer para, também, os melhores sobreviverem. Nesse caso, como Foucault acertou no Nascimento da biopolítica, não se escolhe mais quem vive e quem morre como no Absolutismo ou no diagrama da “razão de Estado”. Existem os que vivem e os que se deixam morrer.
Descobri que a editora da UFMG estava editando pela primeira vez o livro do filósofo italiano Roberto Esposito. Por se chamar “Bios: biopolítica e filosofia”, achei interessante e fui dar uma olhada sobre o que ele trata. Lendo aqui e ali sobre o livro, não encontrei nenhuma surpresa, ou seja, eu imaginava algo próximo a Foucault e Agamben, os “dois pensadores do biopoder” – pelo menos os mais conhecidos.
O que me pareceu diferente é o modo como o Esposito aprofunda a reflexão biológica. Ele associa o nazismo e o liberalismo às doenças auto-imunes (a diabete é o tipo dessa doença mais famoso). Seria assim o argumento: toda comunidade exige um “munus”, ou um dom, o que gera, naquele que o recebe, o dever da troca. Cria-se em toda comunidade uma espécie de “sistema da dívida” (isso tem relação com a terceira dissertação da Genealogia da moral, a dívida infinita, a questão do padre, do ascetismo, etc., mas Nietzsche não ignora a ciência quando fala que Galileu fez os antigos sacerdotes se tornarem anãos não só porque fez ver que a Terra era algo minúsculo no universo, mas porque transformou os homens também nesse algo minúsculo, ou seja, ao se apoderar de um saber “de cima”, universal, os novos ideólogos dos ideais ascéticos conseguiram ser mais perversos do que os sacerdotes da Idade Média – quero dizer, toda a ciência econômica e, hoje se vê com maior clareza, jurídica, guarda todo esse sistema da crueldade que é o estabelecimento de um débito infinito, de uma culpa metafísica, etc., que está muito distante do que sempre se chama de “razão de Estado” – desculpe, não dá para me alongar mais, é o máximo que consigo em um parêntese). Os “imunes” são os que não estão no jogo do “munus”, do bônus e da dívida.
A partir daí Esposito se afasta de Agamben e Foucault. Não há mais contraposição entre a capacidade de decidir entre a vida e a morte dada ao poder soberano, quem vive e quem morre no Absolutismo, quem vive e quem deve-se deixar morrer, como atualmente (medidas de “contenção de gastos” e priorização do pagamento do déficit público em detrimento da promoção do bem-estar geral, das políticas de geração de emprego, aumento de direitos e renda, e investimento em ciência e tecnologia na economia física – não em “vale do silício” e uma suposta “quarta revolução industrial), ou como Agamben, a contraposição básica entre vida nua e vida soberana, zoé e bíos. Para Esposito, é o excesso de vida, de imunidade, que provoca essa grande doença auto-imune no corpo social, como o nazismo ou o liberalismo. O primeiro, baseado num conceito de nação em suas características mais arcaicas (e que não estavam fora da carta dos direitos humanos da Revolução Francesa), ou seja, nos conceitos de raça e degeneração e não no que se entende a partir do conceito às vezes muito amplo de cidadania, escolhia quem deveria morrer (o suicídio, por exemplo, não era permitido, além do caso dos “muçulmanos” nos campos de concentração, que de tão desumanizados por sua condição eram preteridos na hora de levar os prisioneiros às câmaras de gás). O liberalismo, para se alcançar a força e liberdade individual para cada um de seus membros, acaba produzindo uma força homicida, onde muitos devem morrer para, também, os melhores sobreviverem. Nesse caso, como Foucault acertou no Nascimento da biopolítica, não se escolhe mais quem vive e quem morre como no Absolutismo ou no diagrama da “razão de Estado”. Existem os que vivem e os que se deixa morrer.
SINOPSE: O horizonte político contemporâneo está, cada vez mais, marcado por decisões biopolíticas que, com base em saberes e tecnologias avançadas, definem e conformam formas de vidas, tanto em escala individual como social. Diante desse cenário, Roberto Esposito propõe que a categoria de imunidade articula as dimensões do bíos e do nómos no poder de conservação e proteção da vida. O paradigma imunitário combina os dois vetores da biopolítica – o negativo e o positivo, o destruidor e o conservador –, submetendo a vida a um estado que reduz a sua otência vital, materializada nas relações de doação recíproca da comunidade. O nazismo representa a faceta autoimune da lógica imunitária, porque a manutenção da vida passa a significar a morte mesma do corpo político.
Aqui o link para um artigo sobre o filósofo: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/18190/12602

RESUMO: Este artigo explora o paradigma imunitário introduzido por Roberto Esposito no estudo da filosofia política. São explicados os seus pressupostos científicos, a sua análise da experiência biopolítica nazista, a sua preocupação com uma atual crise autoimune global e a sua proposta de superação do paradigma imunitário através de uma biopolítica afirmativa. O texto final é resultado de uma abordagem qualitativa, executada através de revisões bibliográficas (com ênfase no seu livro Bios: biopolítica e filosofia), e com um arranjo exploratória e explanatória.
Uma resenha do livro em Espanhol:

Roberto Esposito’s Bios. Biopolítica y filosofía

MARIO VALERO | COLUMBIA UNIVERSITY
Para Roberto Esposito la biopolítica ofrece una posibilidad hermenéutica cuando las categorías políticas modernas, la soberanía, la democracia o el derecho, se prueban incapaces de explicar fenómenos sociopolíticos directamente relacionados con la preservación de la vida humana. En Bios. Biopolítica y filosofía, Esposito intenta una exégesis de éste término alrededor de la aparente contradicción originaria que lo constituye: “¿Por qué, se pregunta el autor, al menos hasta hoy, una política de la vida amenaza siempre con volverse acción de muerte?” (16). Esta pregunta lo lleva a un análisis que parte del etymon, no para dar cuenta del significado original del término a partir de sus dos partes constitutivas, biología y política, sino para establecer conexiones significativas entre éstas y explicar sus derivaciones históricas. La etimología como instrumento de análisis le permite establecer una genealogía de la biopolítica que relaciona dialécticamente su perspectiva analítica a la de Federico Nietzsche y la de Michel Foucault. Como respuesta a la sugerencia de Foucault que la soberanía del estado absolutista fue sucedida por la ideología liberal de las sociedades disciplinarias, Esposito argumenta que estos no son sistemas discontinuos de control social, sino que coexisten integrados el uno al otro. Ambos reproducen los presupuestos fundamentales de la doctrina política moderna: la idea, sostenida por Hobbes y Nietzsche, de la guerra permanente de todos contra todos como única garantía de paz, y el presupuesto de Locke de la propiedad privada como condición previa para la organización social y la preservación de la vida.
Esposito entiende la vida humana a través de la disyunción griega que la presenta simultáneamente en su acepción política, la “Bios”, y natural, la “Zoe”, ensayando una interpretación genealógica de la biopolítica por medio de dos términos que condicionan la vida: la comunidad y la inmunidad. En sus dos libros previos, Comunitas (1998) e Inmunitas (2002), Esposito ofrece un análisis exhaustivo del etymon “munus,” meollo de estos dos términos, y concluye que el eje conceptual entre ellos solamente puede resolverse en una aporía. Es impensable la existencia de una comunidad sin un presupuesto inmunitario, lo que para el sujeto moderno se traduce en “una protección negativa de la vida. Ella salva, asegura, preserva al organismo, individual o colectivo […] sometiéndolo a una condición que a la vez niega, o reduce, su potencia expansiva” (75) La soberanía, la propiedad o la libertad, calificadas por el autor como “envolturas inmunitarias”, se constituyen a partir de dicha relación aporística entre principios antinómicos. Contradicciones y aporía sirven para delimitar el espacio conceptual que despliega la biopolítica, aunque no se traducen en este caso en un impasse epistemológico sino en el comienzo fructífero de un análisis inclusivo. Por ejemplo, el soberano interpela al indivíduo, mientras éste simultáneamente engendra al soberano. La propiedad privada sólo puede serlo en función de la esfera del bien común que la funda negándola. En cada caso la inmunización se ofrece como un privilegio y una sanción: se goza de inmunidad biológica o jurídica a través de la exclusión, situándose fuera de la comunidad de los no inmunes.
Siguiendo a Nietzsche, Esposito propone que la biología y la historia encarnan en lo somático, constituyéndolo. La clave de la biopolítica está en la respuesta que se le dé al significado del gobierno político de la vida: “O se trata de una política de la vida o sobre la vida” (53). La diferencia en este caso es crucial, porque un gobierno de o para la vida debe presuponer un límite; es decir, como señala Foucault, el mismo ejercicio del poder debe generar la resistencia a su propia emanación: “Sí somos libres por el poder podemos serlo también en su contra” (62). Si por el contrario es un poder sobre la vida, nos encontramos en el camino allanado por todos los totalitarismos del siglo XX. Esposito dedica los dos últimos capítulos del libro a examinar la puesta en práctica de estas dos formas de biopolítica. Por una parte, la “zoopolítica” nazi presentó la inmunización como una forma de higiene radical y como el medio imprescindible y definitivo para asegurar la vida del pueblo alemán, aunque este proceso implicara, en última instancia, la destrucción misma del cuerpo social que pretendía proteger como la consecuencia lógica de su racionalidad tanatopolítica (186). ¿Es posible, por otra parte, hablar de un gobierno político que preserve la vida después de los programas de exterminio? Para Esposito, Nietzsche nos dio la clave inicial de una nueva biopolítica afirmativa que reivindique al “animal humano” y le exija una responsabilidad política concreta, fincada en el presente, hacia la preservación de la vida individual y comunitaria.

Mario Valero é estudante em PhD no Departmento de Espanhol e Português da Columbia University. Atualmente escreve sua dissertação intitulada “A Familiar Monster: Race in the Latin American Scientific Imagination of Modernization, 1900–1930” (Uma Família Monstro: Raça na Imaginação da Modernização Científica Latino-Americana). Seu interesse acadêmico tem como enfoque a produção cultural latino-americana dos séculos XIX e XX e, em particular, sobre a relação entre a literatura, as ciências sociais e as artes visuais.