O pântano britânico: as armadilhas do império e a guerra mundial



31 de julho de 2017 (EIRNS) — Lyndon LaRouche, em declarações concisas sobre as implicações emanando de um Memorando lançado semana passada pela associação Veteranos Profissionais da Inteligência para a Sanidade (VIPS, em sua sigla em inglês), e as sanções contra a Rússia promulgadas pelo Congresso dos EUA quase que simultaneamente, exigiu uma resposta imediata do povo americano para impedir o plano britânico existente que visa uma guerra com a Rússia e a China, e ao qual o Congresso dos EUA capitulou.


“O povo americano deve exigir que o famigerado golpe britânico, em curso, contra a Presidência e a Nação em si, seja impedido e seus perpetradores processados e colocados atrás das grades” – disse LaRouche. O sistema britânico que vem controlando os EUA “deve ser cancelado e o Presidente deve se esforçar da melhor forma possível para salvar o povo deste país, e o resto da humanidade, de maiores depredações dirigidas pelos britânicos contra suas próprias vidas. Parem com o sistema britânico, salvem o povo,” – assim disse LaRouche.
Na semana passada, o mito dirigido pelos britânicos de um escândalo “Russiagate” na eleição americana implodiu quando a VIPS provou que se tratava apenas de uma mentira bem elaborada. O Comitê Nacional Democrático (DNC) não foi invadido pelos russos. Ao invés disso, o que houve foi que materiais foram vazados por um individuo dentro do DNC e encaminhados para o site Wikileaks. Dados chave foram alterados para que parecesse mesmo com que os russos houvessem invadido o Comitê.
Ao mesmo tempo, o Congresso dos EUA – lavado de cérebro, comprado, ou motivado por interesses escusos – votou quase unanimemente a favor da imposição de novas sanções sobre a Rússia firmando-se nesta grande mentira. Houve dois votos contra no Senado americano, três na Câmara. As sanções, sendo elaboradas desde as eleições Novembro de 2016, foram feitas explicitamente para danificar e/ou acabar com qualquer capacidade do presidente Trump para encerrar a marcha em direção à guerra termonuclear instituída por Barack Obama e seus chefetes britânicos.
Neste fim de semana, a resposta oferecida pela Rússia e China foi imediata. O presidente Xi Jinping apareceu em vestes militares, revendo tropas e armamento chineses; o presidente Putin também conduziu revisões militares similares. Eles claramente reconhecem que a máquina de guerra anglo americana está em alvoroço, e estão se preparando de forma adequada. O relógio mais uma vez dispara, em contagem regressiva, em direção a uma 3aGuerra Mundial.
Em discussões mantidas com seus colegas hoje, Helga Zepp LaRouche enfatizou que os britânicos estão desesperadamente tentando atrair os EUA para uma guerra contra a Rússia e a China de uma posição de fraqueza, e não de força. Seu império financeiro está em vias de um grande colapso financeiro, bem pior que o de 2008. O presidente deve receber apoio popular e institucional para instituir um Promotor Especial para investigar a farsa do “Russiagate”, e assim processar seus conspiradores responsáveis. O presidente também deve imediatamente impor a separação bancária do Glass Steagall e proceder com a implementação do resto das Quatro Leis de LaRouche para a recuperação econômica, tudo de forma simultânea, visando primariamente a proteção do povo, os homens e mulheres esquecidos dos quais ele jurou cuidar na última eleição.
O Comitê de Ação Política de Lyndon LaRouche (LaRouche PAC) exibiu, de forma prominente, o memorando VIPS no nosso site da web, em nossas ações de rua pelos EUA, e nas mídias sociais. Estamos numa campanha concisa para divulgar o mais amplamente possível essa história, e para dar coragem suficiente ao Presidente para que ele possa, novamente, desafiar o pântano britânico em Washington assim como ele fez ao forjar relacionamentos próximos com o presidente chinês Xi Jiping, e em Hamburgo, com o presidente russo Putin. Agora nós devemos, imperativamente, encerrar o “Russiagate” e processar os conspiradores por detrás dele. Devemos expandir nossa campanha de forma dramática, e precisamos que você se junte a nós. Literalmente, todas as nossas vidas dependem do sucesso deste processo.
O contexto para a insurreição contra Trump não poderia ser mais claro. Os britânicos e seus lacaios de Wall Street almejam, a todo o custo, preservar o seu Império. Rússia e China são potências econômicas em ascensão, plenamente devotadas aos tipos de políticas econômicas que um dia foram a chave da grandeza dos EUA: infraestrutura de grande porte, fábricas, pesquisa científica avançada e exploração do espaço. Elas exigiram aos EUA que se juntem a elas num grande projeto para construir a infraestrutura moderna do mundo nos próximos 50 anos. O Presidente originalmente assinalou sua intenção de concordar com isso, e ainda pode fazê-lo, trazendo milhares de novos empregos produtivos para os EUA. Mas, isto não pode acontecer se o regime imperial hoje presente na City de Londres e em Wall Street e seu consenso de política externa dentro de Washington DC não sejam decisivamente destruídos primeiro. O pântano britânico é o que deve ser drenado.

O Grande Tribunal do Mundo, hoje




O Grande Tribunal do Mundo, hoje
É só uma breve passagem, eu sei, do livro velho e surrado por tantos usos e desusos, Vigiar e Punir, mas vale a pena como mote para começarmos a refletir (p. 196 da edição da editora Vozes, de 1997):

Na realidade, qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada quanto uma penitenciária, poderá sem dificuldade ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público; qualquer membro da sociedade terá direito de vir constatar com seus olhos como funcionam as escolas, os hospitais, as fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento do poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania; o dispositivo disciplinar será democraticamente controlado, pois será acessível “ao grande comitê do tribunal do mundo”. Esse panóptico, sutilmente arranjado para que um vigia possa observar, com uma olhadela, tantos indivíduos diferentes, permite também  a qualquer pessoa vigiar o menor vigia. A máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira.

Talvez não precisemos falar qual trecho ultra-selecionado que deve ser desprendido do texto, que pode nos fazer olhá-lo não só no contexto que indica. Como falamos, o que é o “grande tribunal do mundo”? O que se chama esse “grande tribunal”? Não é a própria democracia, esse grande olho? E a quem interessa o sistema de vigília constante, o suposto crivo de um público que, afinal, ninguém vê? O que falamos, se assim vemos, da última frase do trecho citado? Como se transforma, no século XXI, esse “edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira”? Que espécie de “edifício transparente” é esse? Qual crivo pedem, portanto, da sociedade? O caso exemplar, como não pode ser diferente, é o do vazamento dos arquivos de e-mail da campanha de Hilary Clinton. Quando se sabe, depois de Snowden, que a NSA vigia até câmeras de televisão e notebooks, webcams que se acreditam estarem desligadas, celulares que estão jogados ao canto, mais imperceptíveis no momento do que uma caneta que inutilmente procuramos: o crivo pedido é que se corrobore a tese de que Putin participou, que foi o fator determinante, das eleições americanas; que sem ele Clinton teria ganho sem nenhum problema. Afinal, Trump é um selvagem para os democratas, liberais que são, fascistas na mesma medida, portanto, nazistas, muito orgulhosos do saber quase, eu diria, iniciático, que acreditam possuir. Mas, quais consequências da mineração massiva de dados? Não a Rússia, alvo sempre privilegiado, mas a China pode ter acesso a inúmeros dados. Por que não usá-los a seu favor? Como isso pode alterar a ordem das coisas, já que uma é a intenção chinesa para o mundo e outra a do império? Na circunstância atual, o que é a favor da China, quase que “indutivamente” é contra o império.
Vejo a China como o novo paradigma, como o novo salto tecnológico, já que seus projetos, como o de chegar ao lado distante da Lua, de colonizá-la a partir de seu polo, de fazer atravessar continentes com trens de alta velocidade, corredores de desenvolvimento, dessalinização das águas marítimas por usinas nucleares, ionização da atmosfera para tornar úmida as áreas desérticas, assim como inúmeros outros projetos. Ver o novo paradigma da “cooperação ganha-ganha” é se distanciar, em direção ao futuro, do presente estado de coisas, o que nos ancora igualmente no passado, pois o projeto da Nova Rota da Seda é para retomar, também, a antigo cooperação leste-oeste a partir de bases completamente diferentes – tecnologias, de fato, do século XXI, muito além do mundo virtual dos novos ricos do Vale do Silício ou da riqueza obviamente virtual, também, da primazia completa, hoje, dos mercados financeiros. Trens Maglev, planos ambiciosos para a construção de novas cidades, inclusive em áreas desérticas, o próximo passo do programa espacial, estranhamente interrompido após o Projeto Apolo, o desenvolvimento da tocha de fusão, não mais a fissão nuclear, mas a fusão dos núcleos do deutério com o hélio-3, partícula rica na Lua, e olimpicamente ignorado pelo governo que detinha, desde os anos 1960-70 condições de desenvolvê-la. Ignorância deliberada em relação aos projetos espaciais, em relação ao desenvolvimento de novas forma de produção energéticas capazes de sustentar com energia barata – que deve-se tornar barata – de 10 a 20 bilhões de pessoas, ou mais, vivendo no planeta, fora suas consequências para a mineração no planeta, o fornecimento de matérias-primas, e no aproveitamento de todo e qualquer tipo de resíduo, do doméstico ao nuclear, numa fase de incremento da noosfera que nenhum ambientalista pode sequer imaginar.
O afastamento necessário para se compreender o ” grande comitê do tribunal do mundo” passa pela conjuntura do confronto leste-oeste com as eleições americanas de 2016, o chamado Pearl Harbor cibernético (a segunda parte das minhas reflexões “sobre a guerra que se aproxima”), e tem um ponto de inflexão importante no relato criado por Daniel Estulin em seu livro Conspiración Octopus. É o segredo dos trilionários, da família Krupp que detinha 112 trilhões de dólares em apenas um dos extratos bancários revelados por Estulin. Já falamos sobre o assunto uma vez, já que a questão do roubo do ouro de Yamashita, o caso “lírio dourado”, ou seja, o saque do sudoeste asiático pelo imperador japonês durante a Segunda Guerra, foi o que, depois, se liga numa trama bem mais complexa do que mera ficção científica, com o Inslaw Affair (um escândalo judiciário onde se criou um sistema de informática para a justiça americana com a capacidade de acesso por parte de um programador a todos os computadores que instalassem seu programa; palavra-chave: PROMIS). Michael Riconosciuto, o programador, ficou preso por longos anos (foi solto em abril de 2017) após estourar o escândalo. Foi chamado às pressas, convocado quando ainda na prisão, em meio aos dias turbulentos que sucederam a crise de 2007-8, para tentar fazer com que o City Bank tivesse novamente acesso aos fundos infinitos do “lírio dourado”, único meio até então de se dar liquidez ao sistema financeiro, entropico por natureza, e que por muito menos já teria se auto-destruído. O problema apontado por Estulin é que ninguém, nem Riconosciuto, consegue ter acesso à senha. O que no princípio parecia ser um erro de sistema, comuns na informática, se revelou uma atitude deliberada de quem detinha essas quantidades imensas de fundos para provocar a crise de liquidez no setor bancário. Seguiu-se daí as políticas na Europa e nos EUA de Quantitative Easing, passando agora pelo Estado para dar a liquidez ao sistema moribundo, ou seja, promovendo de maneira nunca antes vista uma fuga massiva de capitais para o mercado financeiro, ou seja, uma transferência de recursos da economia física (a que emprega, a que cria desenvolvimento) para a economia parasitária, ou uma transferência de renda para se falar em termos gerais.
Um dos extratos bancários da família Krupp. Pode dar zoom para contar o número de zeros que possuem em uma só conta. E ainda falam em “geopolítica” e em ambições movidas meramente por cobiça, por dinheiro…
Esse sistema com uma caixa preta por detrás foi vendido para muitos países formarem seu sistema de segurança, o que deu às agências americanas amplo acesso a dados secretos de governos de diversos países. Danny Casolaro foi o jornalista que foi suicidado quando iam avançadas suas investigações. Tornou-se uma espécie de mito até o caso cair rapidamente no esquecimento, não reverberado por Hollywood ou outras agências de propaganda do “deep state” americano, como seus veículos jornalísticos de grande repercussão. Até mesmo os vírus assustadores que invadiram milhões de computadores no mundo todo podem ter, de acordo com os relatos da mídia tradicional, marca russa em sua origem. O grande Estado terrorista que aparece subliminarmente nas narrativas é a ameaça russa, o neomacartismo em pleno vigor, ainda que as evidências apontem para a própria NSA como produtora dos malwares, em parceria com Israel, em sua guerra perene contra o Irã. O grupo de oficiais da reserva dos serviços de inteligência americanos, como a CIA e a NSA, publicou um estudo e endereçou uma carta ao presidente Trump onde diz ser impossível um hacker ter acessado os arquivos do partido democrata. Os arquivos foram copiados por alguém que posteriormente vazou para a Wikileaks, como era de entendimento dos mais avisados, dos não entregues à russofobia que tomou conta dos EUA. Os que acusam Trump devem provar que se trata de um trabalho de hacker e não de um vazamento. Mas, como disse John Brennan, ex-diretor da CIA, em audiência ao senado, sob juramento, ele não produz evidências, mas inteligência.

O que está em jogo agora é a capacidade de Trump resistir aos ataques do “deep state” e permanecer no cargo até o final. 2018 será um ano delicado, com a perda total do apoio dos parlamentares, como visto no caso da votação do Obamacare e de novas sanções econômicas à Rússia. Trump não é o presidente dos sonhos. É um republicano não da tradição de Lincoln. Passa longe. Como Reagan, é extremamente conservador e sem a sutileza do antigo astro de Hollywood. Alguém grosseiro que, para padrões brasileiros, parece uma espécie de mistura entre Bolsomito e João Dollar. Xenófobo e livre-mercadista, em um plano geral. Seu projeto de reforma fiscal, por exemplo, tem apoio dos irmãos Koch, os mesmos que jorraram dinheiro nas manifestações de 2013 e no “não vai ter Copa”, no ano seguinte. Sua campanha atual de dar publicidade aos novos empregos criados em sua administração está relacionado aos incetivos fiscais concedidos aos grandes empresários. Campanha com um capítulo interessante, já que o Twitter simplesmente censurou as postagens do presidente onde comemora a criação dos novos empregos. Uma pergunta, portanto: que espécie de incentivos fiscais foram esses? Nas palavras do presidente, algo parecido com o que Dilma Rousseff tentou fazer aqui, porém com resultado na criação de novos postos de trabalho e não em transferência de renda pública para as aplicações financeiras dos empresários brasileiros – o que de fato ocorreu aqui. Como pano de fundo, a sombra do projeto de incentivo aos bilionários, a campanha estritamente republicana. Como uma coisa pode favorecer a outra só pode ser entendida dentro das configurações do sistema econômico norte-americano. Uma parte de ricos que investem na economia física e outra parte atrelada ao capital financeiro que também se beneficia. Limites estreitos de um país que não consegue voltar aos níveis de produtividade da era anterior a Kennedy.

Fora a questão das afinidades, o projeto visa a diminuição de impostos para os mais ricos, quase uma emulação de medidas tomadas por Reagan, ou seja, uma plataforma republicana como estamos acostumados. Os democratas, por sua vez, são os neoliberais mais tradicionais, de discurso mais arrojado. Mesclam sua fala com a defesa de políticas de minorias; praticam, como nos Q.E., o keynesianismo econômico para fartar o sistema financeiro de dinheiro; defendem um mundo unipolar enquanto elegem um negro para a presidência, fato supostamente progressista, digno de uma “nova ordem”. Quando se trata de império as datações, as temporalidades, parecem se desvanecer. Estamos dentro de um mesmo espaço-tempo, de um mesmo contínuo histórico, aquele das oligarquias. Ou seja, “nada mais parecido com um saquarema do que um luzia”.

E um contraponto, porém: o presidente bruto, o cara sem papas na língua, que fala coisas absurdas, sem o politicamente correto do partido da guerra fundado principalmente no Partido Democrata, dos neocons, dos atlantes, firmemente enraizados nesse partido supostamente mais progressista. O que se deve ver, como fato concreto, é que ver um presidente americano fazer logo como um de seus primeiros atos o boicote ao projeto de livre-mercado de Obama, a Parceria Transpacífica, uma ALCA com vistas à China, é algo que não deixa de causar estupefação. Um presidente americano, por conta própria, acabar com um acordo de livre-comércio, é algo digno de nota. Nem poderíamos vislumbrar isso nas épocas de Clinton e Bush, muito menos na era “nova” de Barack Obama.

O que não significa, de modo algum, a indistinção completa. John MacCain, o republicano da mais pura cepa, aliado até os dentes com Clinton e Obama, com blindagem total da mídia, significaria o fracasso para as tentativas de uma ordem mundial multipolar. A política defendida por Hillary durante a campanha de criar uma “zona de exclusão aérea” na Síria não é perturbadora para MacCain nem para os russofóbicos de um modo geral. A “no-fly zone” iria obrigar as forças aéreas da OTAN a abater qualquer avião sírio voando em territória sírio: isso é evidente. Porém, a “zona de exclusão” tem algumas particularidades a mais além de só deixar voar aviões da OTAN no espaço aéreo de nações soberanas, de países que não assinaram qualquer acordo nesse sentido com os atlanticistas. Segundo a política de Clinton, todos os aviões da força aérea síria, mesmo em solo, deveriam ser abatidos. Isso se estende para todos os aviões que estivessem lhe dando apoio, seja estacionado na mesma base aérea ou voando no país. Russofobia! Como se explicariam tais republicanos e democratas frente a tal desastre diplomático tão friamente calculado?

O presidente Trump foi claro quando ratificou a decisão do congresso em estender as sanções à Rússia. Foi um ato legislativo que afronta a prerrogativa constitucional do executivo de conduzir a política externa do país. Logo depois, gritarias na Europa, forte protesto na Alemanha, que recebe prejuízos incalculáveis por, indiretamente, limitar ou extinguir muitos de seus projetos com os russos de interesses estratégico para o país. Um congresso resolve unilateralmente criar as sanções, depois expandi-las, à revelia da constituição de seu país, à revelia da soberania de outros países, incluindo fortes interesses como os da Alemanha, país com secular relação com os russos que beira a dependência.

Quem é esse Tribunal do Mundo, hoje? As agências de inteligência se movimentam para transformar Trump em um agente russo e inviabilizar seu governo. Espionagem maciça dentro dos EUA. Não mais com Merkel ou Dilma como revelado anos atrás. O presidente de lá alvo de grampos e chantagens. Tudo em nome do partido da guerra, das políticas econômicas dos neocons frustradas pelo proto-nacionalismo defendido pela plataforma de governo de Donal Trump. Proto por ser algo rudimentar, como rudimentar é boa parte do entendimento desse governante que, contudo, desmente muitas das acusações de xenofobia, de ataques às minorias quando se volta aos gigantes do Oriente e procura a formação de uma Détente, de uma ligação que não permita que a expansão da OTAN nas fronteiras da Rússia, no Mar da China, não se transforme em algo desequilibrado e acabe por gerar um conflito sem volta, um conflito termonuclear, cada vez mais perto quanto mais a russofobia, o neomacartismo avança por aquele país.

Como ele disse em seu Twitter depois de praticamente obrigado a sancionar a lei do Congresso:

Our relationship with Russia is at an all-time & very dangerous low. You can thank Congress, the same people that can’t even give us HCare!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 3 de agosto de 2017

Perguntar quem é o Tribunal do Mundo hoje é saber quem consegue mandar nos bastidores. Com a derrota de Hillary, aquela que abertamente defende a política de confronto, o aparato de vigilância teve de ser intensificado para aumentar as denúncias e os vazamentos contra seus inimigos. São forças sempre na sombra, com Obama também eram, e utilizavam de sua imagem para aprofundar a política não da “American first”, que não quer dizer só a América e dane-se os outros, mas da América única, do mundo unipolar. A família Krupp, a manipulação dos fundos bancários para se provocar a crise enquanto as tropas se posicionam para qualquer guerra, na coreia, na China, Ucrânia, nos Bálticos ou a partir da Síria. A movimentação para a guerra militar e a guerra financeira. Hoje, uma crise ainda maior se avizinha, devido à liquidez absurda adquirida pelos grandes fundos internacionais depois do Q.E. Crise próxima de estourar; movimentações de confronto militar em partes sensíveis do planeta. O Grande Tribunal se move e usa suas ferramentas para derrubar quem, da forma que for, se opõe à sua ortodoxia. Seja Trump, seja a política da Nova Rota da Seda, seja os governos nacionalistas do cone sul – todos ignominiosamente atacados – tudo conduzindo para o que é uma nova guerra fria, talvez ainda mais e mais quente a cada dia que passa, apesar de esforços para se apararem algumas arestas, o que resta saber é se daremos ou não o crédito necessário para que O Grande Tribunal decida pela política de confronto direto, deflagrando novamente uma grande crise financeira, provocando até o absurdo seus adversários no oriente, e conduzindo os golpes de Estado no Oriente Médio e na América do Sul.

Por quanto tempo ainda viveremo nessa guerra que, se não ainda nuclear, espalhou a guerra civil, o medo do perigo vermelho, as perseguições físicas e judiciárias, os grampos, vigilância e vazamentos em massa, quase num ato desesperado para manter controle sobre um mundo que não mais se adequada à lógica de uma única potência como celebrado depois de 1989? O Grande Tribunal, esse grande olho que procura o escrutínio de nossas almas e que com tanta dificuldade pode-se gerar o mínimo de consenso público a respeito de seu modo de atuação e suas intenções imediatas e as de médio e longo prazo. Culpar Trump é muito fácil, ou Putin, ou Maduro, Dilma, Lula, o Irã. Quem estará à altura desses tempos de exceção? Quem se posicionará frente ao tribunal das bestas, com seus analistas politicamente corretos, suas falas sensatas (o bom senso e o senso comum), e poderá acusar, frente ao olho do poder, sua existência nefasta? “A máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira”. Mani Pulite.

Os bichos estranhos que tocamos na Casa dos Insetos

Dr. Strangelove: ou como parei de me preocupar e passei a amar a bomba.


Existe claramente um partido da guerra nos Estados Unidos. Hillary Clinton, ao defender a “zona de exclusão aérea” na Síria (o que significa abater não apenas os aviões que não são da OTAN e que sobrevoam o espaço aéreo do país, mas também todos os aviões estacionados, ou seja, toda a frota russa que dá apoio a Assad), foi a candidata desse partido. Perdida eleição, uma questão interna do Partido Democrata, o vazamento de informações a respeito das sabotagens que o comitê de Hillary promoveu contra Sanders, passou a ser uma arma de guerra contra o presidente eleito, Trump, no caso conhecido como Russian-gate. John Brennan, diretor da CIA, testemunhou no senado sobre as alegações de influência russa nas eleições americanas e disse ao ser perguntado sobre se tinha evidências a apresentar sobre a acusação: “Eu não produzo evidências, eu faço inteligência”. E assim, como no caso do triplex do Guarujá, vai se armando “provas tênues” para se incriminar o inimigo. A morte ou o impeachment é o que ameaça Trump nos próximos meses. Ano que vem ainda haverá eleições na Rússia e será o ano decisivo para saber se o presidente esquisitão dos EUA sucumbirá ou não às chantagens do partido da guerra, amparado em todo o aparato dos serviços de inteligência americanos e britânicos (os mesmos que produziram as “evidências” das armas nucleares no Iraque e, baseados nisso, começaram a guerra infame que logo se espalhou por toda a região, depois inflada pelas “revoluções de cor”). 

Quem são esses bichos estranhos da Casa Branca e o que pensam, o que planejam, frente à evidência incontornável que não há mais espaço para um mundo unipolar, como este que se configurou depois da suposta vitória da “democracia” com a queda do muro de Berlim?

NOTA METODOLÓGICA: Falam que as teorias da conspiração são bizarras porque sempre pressupõe um conjunto de seres tenebrosos reunidos numa sala escura em torno de uma mesa oval discutindo quais serão os passos para se manipular e se influir na política do mundo. Logo, caricaturizamos a caricatura para dar, vamos dizer, um pouco mais de “efeito de realidade” à verdade que devemos contar. E só se pode fazer isso ficcionalmente.


Os bichos estranhos que se tocam na Casa dos Insetos


C., meu amor e minha vida. Você é meu céu e meu inferno. Só poderia ser ambos. Você é minha felicidade, minha vida inteira, embora também o encontro violento entre duas linguagens. Porque a linguagem, inclusive a mais brilhante língua, é uma espécie de injustiça, o gemido ao que aspira a mais perfeita felicidade.
Não porque nossa felicidade esteja condenada, ou porque o destino seja injusto, mas sim porque a felicidade é inteligível só sob ameaça; tão inteligível quanto sua própria ameaça”.

Daniel Estulin, Os segredos do Clube Bilderberg. Minha homenagem à vida de espia.



Narrar? Mais que artifício despudorado! Mandaram-me aqui, coisa horrível. É uma reunião nas trevas. Não, parece um porão escuro com uma grande mesa no centro. Pouco vejo o contorno dos integrantes do que parece ser um grande concílio. Acaso os padres trevosos em meio à barbárie medieval também assim se reuniam? Será um encontro de refugiados de um mundo longínquo que foram se esconder nas entranhas da Terra? Estranho… Continuo me sentindo mais vivo do que nunca, mas os homens da superfície mais e mais me parecem serem felizes. E ingênuos… Sim, irei escrever!
Mas que droga! Irão acreditar em mim? Será que as sombras que agora vejo irão cobrir o brilho que reflete em meus olhos, patrimônio de uma alma insaciável, sempre curiosa? Caso me cale, as brumas nunca irão se desfazer. Caso vejam sombras em meus olhos, espuma em minha boca, como na orla a cobrir o mar profundo: como ser claro ao máximo? Nunca deixei de ser, na verdade. O que conto é negro, pesado, pegajoso. Sou como um lixeiro fazendo a varredura. O lixo? Quem não conheceu sua realidade são as madames bem nascidas, acreditando que o mundo nasceu por si só. As madames… Sejam elas homens ou mulheres: lixo doméstico se comparado ao que vejo agora. Portanto, não me confundam com o material com o qual trabalho.
O porão: não foi a lugar tão sórdido que me designaram quando vim trabalhar. Seria uma festa, uma espécie de reunião entre madames e gentis cavalheiros… Por outro lado, conheço meu patrão, sei que lixo pouco não o satisfaz. Enfim, quando entrei porta adentro do suntuoso hotel, encontrei aquela escuridão, somente interrompida por uma meia-luz vinda do fundo do ambiente. Divisei silhuetas e a mesa grande que ficava ao centro. Um mordomo veio me dar boas vindas. Contatos feitos pelo meu patrão. Faço parte de uma comitiva de pessoas comuns encarregadas de levar à luz do sol as diretrizes ali debatidas. Não seria outro meu proceder. Só não atentariam para o modo como realizaria a tarefa.
O mordomo se aproximou. De frente era como qualquer segurança de shopping, bordel ou coisa semelhante que queira aspirar à mínima ordem. Mas o que parecia ser um simples leão-de-chácara tinha um penteado arrumado, brilhando na goma, apesar da escuridão. Quando chegou mais perto pude perceber seu peculiar monolho, bem no centro da testa (nada de olho indiano ou coisa que o valha; era um olho só mesmo, e nada mais). Cena inesquecível! Só para quem não viu e ouviu o que eu tive de ouvir e ver.
Na ponta da mesa, o homem que talvez fosse um dos líderes daquele grupo, era tão magro que parecia ter sido divido ao meio por uma faca ou enxada. Era, de fato, uma pessoa pela metade, embora não lhe faltasse nenhum membro. Era pela metade, sim. Mas pela metade de uma maneira vertical, e não horizontal. Era um anão por ter sido prensado pelos lados, e não de cima para baixo.
Todos naquele ambiente não discutiam assuntos comuns. Todas as siluetas, as quais eu cada vez queria menos conhecer de perto, discutiam assuntos insólitos. Dominar? A quem? Como, se acaso saíssem pelas ruas facilmente amedrontariam a qualquer um? Poderiam ter poderes ainda mais misteriosos ou eram loucos de fato, terrivelmente loucos, como são insanos todos os que veem coisas extramundanas. Mas, com o tempo fui entendendo o porquê da minha presença naquele concilio. Ao meu lado, sentados em grandes poltronas acolchoadas, todo um grupo se reunia. Faziam anotações como eu. Algumas demonstravam grande intimidade com os seres do porão. Depois descobri: todos nós éramos de alguma forma seus porta-vozes.
Posso descrever mais alguns monstros, todos os que consegui discernir, controlando o asco e o medo. Porém, aqueles outros seres, humanos como qualquer um que agora me lê, são absolutamente indescritíveis. Asco? Nenhum. Somente medo? Não só. Descrever monstros é fácil, a mentalidade popular rapidamente os aceita, cabendo sem muito esforço em algum recanto de seu imaginário. Descrever seres reais, que muita gente conheceu ou pensa conhecer, afundados no mais profundo colóquio com seres imaginários – e terríveis –, para muitos não é crível.
Políticos? Eram só uma parte. Atores, jornalistas, membros de organizações internacionais aparentemente voltadas para fins pacíficos: platéia dos monstros, estudantes e defensores de suas causas? E eu? Jornalista, detetive, agente secreto? Vocês escolhem. Platéia dos monstros? Graças a Deus tive a oportunidade. Estudante de suas causas? Com certeza. Advogado deles e promotor de suas deliberações? Mesmo que voltemos a viver numa nova Idade Média, não! O correto de dizer é que para cada um daqueles seres havia outro, mas humano, que lhe corresponderia as idéias e as traria para o mundo dos vivos – o mundo em que as conspirações acordam e são propagandeadas com belas palavras por pessoas sempre muito bem colocadas socialmente. Os seres daquele outro mundo querem fazer desse a imagem e semelhança do seu. Como numa nova Idade Média, de fome e genocídio. Com a autorização de uma figura ilibada, como a do Papa, ontem – e hoje?
Alguns seres místicos dão o nome de Umbral à paisagem cinza que supostamente é o tabernáculo das graças divinas. Darei o nome de Gargalo. É porque me lembra coisa boa… De vinho, de cerveja – sei lá. Pouco me importa. Todas as garrafas tem um. Matam a sede! Ah! E que coisa melhor, mais notória, do que estar falando com seres se não extraterrestres, pelo menos muito extravagantes? Ah, uma senhorinha de boa família, kardecista talvez, disse que falo com desencarnados. Que coisa horrível! Me lembra também seres cinzas, cadáveres sem pele e com carne ainda aparente. Já sem sangue, mas ainda resistentes, penduradas nos ossos. Assim fica melhor nos filmes de terror, mas também nos filmes de ficção de científica. Qual cor do ET? Por que essa cor? Será que na imensa galáxia somente seres descolorados como cadáveres não de todo decompostos? Ah, tudo cinza como um belo Gargalo! Gargalho de cachaça, gargalo de cerveja. Não, mas as senhoras pedem vinho. Algumas gostam daquele doce… O bom é que nessas ocasiões deixa algo um pouco mais barato. Hum! Mas o chique é o que dá travo na garganta, o que a deixa embolada, que desce bem quente, o que assusta as senhoras kardecistas e as madames de pendor anti-comunista. Nada como a velha-guarda! Não, não vivemos mais na Guerra Fria.
E por que, para entrar em contato com nosso humílimo planeta, tem que estar “fora do corpo”? Por que não alguém de carne e osso de verdade, mesmo sendo cinza – vai lá – (não sei também se fede, se é gosmento – esses filmes de ficção são terríveis, mais assustadores do que o Jack das sextas) não pode vir falar conosco? Mas tudo o que eles falam são fantasias verdes, floridas como um entardecer num campo daqueles bem bucólicos – fantasia romântica, estética pós-moderna, suave como um filme para casais endomingados, música de fundo do roteiro da aposentadoria. Falavam assim, os seres terríveis, tranquilos como num piquenique ou num funeral:
– O importante é se achar uma fonte perene de energia. Para que novas descobertas científicas? Nós somos Prometeu. Nós ensinamos tudo aos seres brutais desse planeta. São sete ou oito bilhões de seres. Nunca imaginamos isso! Como vamos controlar algo assim? E se resolverem habitar a lua, os planetas próximos? Irão por acaso nos igualar? Para quê? O importante é colocar tudo num ritmo bem lento, bem marcado como no relógio de Newton, esse nosso grande representante, nosso mordomo-mor. A única tecnologia aceitável é o enriquecimento dos minérios, fazerem trabalhar como um carregador de areia que coloca todo o peso por cima de um caminhão que, logo cheio, despeja tudo novamente na praia. Trabalho horrível, próprio aos seres desse lugar. Cogumelos atômicos para todos os gostos. Mini-bombas nucleares ou de médio alcance, de precisão irrepreensível. Eles têm de estar prontos para destruírem nossa criação caso ela saia do controle. Tecnologias perenes com a bomba como limite. E espalhar a confusão – esse é o negócio mais importante.
– É genial. Nosso mago, preto como a luz que não existe nesse céu, não poderia falar palavras mais sábias. Tecnologias perenes com a bomba como limite… Não se pode desenvolver o nuclear porque o nuclear supostamente é o que destruirá a fonte de toda energia, ou seja, a capacidade de criação de novas fontes, como exemplificado nas descobertas que fizeram os humanoides se multiplicarem. Densidade de fluxo energético! Coisa horrenda. Calma: antes de complicar, gostaria de esclarecer um ponto. Se dependessem dos fósseis, os terráqueos não teriam chegado nem no espaço deserto que ainda é do satélite natural de seu planeta. Mesmo assim, não foram capazes de habitá-lo… A capacidade de transformar os desertos em áreas verdes exige um valor agregado de investimento, o emprego de alta densidade de fluxo energético, que um planejamento econômico razoável pode mostrar que a possibilidade de fazer reviver os desertos do planeta não consome menos trabalho do que a colonização da lua, ou seja, da habitação do pequeno satélite natural. Esses dois planejamentos fazem parte de uma mesma plataforma econômica, porque baseados no mesmo modelo energético. Ionização do ar em larga escala, dessalinização das águas marinhas, trens de altíssima velocidade para integrar espaços remotos: depois falam que chegar à lua é algo trabalhoso! E terão de ir até lá para buscar, minerar mesmo em suas pedras o componente chamado hélio-3 para fabricarem sua tocha de fusão. Mais que disparate! Voltemos à era dos dinossauros, à época anterior ainda a dos combustíveis fósseis. Fontes perenes de energia, esse nosso lema. A humanidade de movendo com a energia do sol e dos ventos. E nada mais – veja lá.
– Nunca a humanidade cantar como um Dante em pleno século XX!

Oh strange beautiful grass of green
with your majestic silken scenes
Your mysterious mountains
I wish to see closer
May I land my kinky machine1

– Não falaremos de máquinas engenhosas – bizarras – capazes de explorar novos mundos, conquistar o espaço, ultrapassar as barreiras do relógio newtoniano. Falaremos de armas táticas, nome tecnocrático para dar conta da precisão com que cumprimos nossas responsabilidades, da padronização de nossas condutas, do respeito à Terra que ainda temos. Micro e médio bombas termonucleares. Ah, grande descoberta da ciência! O grande perigo asiático: esse também outra descoberta fundamental de nossos teóricos, de nossos conhecedores do Oriente, sejam os povos semíticos cujas mulheres vestem burca ou os de pele da cor da terra, mais antigos do que qualquer outro na civilização, passando pelos estranhíssimos povos de cor amarela e olhos puxados. Nossos inimigos porque o planeta tem de estar dividido ao meio, rachado, um “arco de crises”, como na excelente expressão cunhada por um de nossos maiores ideólogos. Um arco de crises que na verdade é o fio de nossa espada no peito daquele que pretende ultrapassar a linha imaginária por nós traçada. Isso sim é ser reacionário. Não deixar o outro avançar. E cada vez que encontramos fraqueza em nossos oponentes, os colocamos mais e mais para trás até caírem no abismo que cuidadosamente criamos para eles logo ali atrás, no lugar sem fundo, no fora do mundo para onde vamos lançar todas as raças ingratas, as que não reconhecem e não se submetem à nossa superioridade.
– Mas como nós controlaríamos uma guerra de aniquilação total?
O ser arrumou seu longo vestido negro cujas extremidades se arrastavam pelo chão, agarrou um bom punhado de pano, cruzou as pernas e deixou o tecido suavemente arrastar por sua pele. Ritual marcado como daquele fumante que, para responder uma questão mais difícil feita a ele, tem sua maneira própria de dar uma tragada em seu cigarro ou charuto. Tecido grosseiro, e ninguém se atreveria a saber da maleabilidade de sua pele, provavelmente descarnada, tendo em vista a condição de geral dos seres humanos que se encontravam naquele ambiente.
– Bem, já estamos bem avançados nesse sentido e até me surpreende sua pergunta. Sei que o desafio não é pequeno, nos chamam de utópicos – na verdade, nossa doutrina é utópica. Alegam que um ataque total, termonuclear, seria respondido imediatamente pelos povos asiáticos, o que resultaria numa guerra de aniquilação geral. Não digo que nosso objetivo não seja matar muitos, mas duvido da capacidade dos seres inferiores, orientais, nos fazerem frente. Temos fronts de guerra em todos os lugares; nos mares, em terra. Sempre muito próximo ao nosso alvo. Falamos em defender a segurança planetária, em garantir as liberdades democráticas, etc. Ora, o que estamos fazendo aqui? Agimos na escuridão, somos da escuridão, não temos medo de nada que possa vir dela. Nossos inimigos se mobilizam com rapidez, mas ainda mais rápido construímos uma enorme fortificação capaz ao mesmo tempo de defender e atacar. Não haverá “segundo ataque simultâneo”. Queremos a redução populacional, mas não precisamos da aniquilação desse planeta. Pelo menos por ora. Já que não escutam nossa doutrinação, tão bem travestida em argumentos esteticamente arranjados – um mundo livre, paz, meio ambiente – teremos, devido ao atual momento, de utilizarmos da força para fazer valer nossos planos. Não é o que queríamos… Ah, que pena!
– Malthus, Malthus, Malthus! Ouço o som em todos os lugares. Também nos chamam MAD! Ah, belas lembranças de nosso nobilíssimo trabalhador, sir Bertrand Russell. Mutual Assurance Destruction. Não deu certo àquele tempo. Agora somente um lado irá sentir nossas garras…
– Mais da metade da humanidade!
– E quanto às perdas em nosso lado? Alguém tem que fazer minimamente essa conta.
– Escudos antimísseis na Europa, a Alemanha novamente de nosso lado, uma frota imensa no Pacífico com aproximadamente oitenta por cento de nossa capacidade nuclear, mísseis nucleares táticos, de tamanho médio a pequeno, de altíssima precisão. Ah, se quiserem se livrar da destruição que iremos provocar terão que novamente ressuscitar o deus Vulcano! Fazer revolver as entranhas da Terra, criar um milagre com seres que provavelmente não encontrarão nesse pequeno planeta.
– A China que mudar a moeda! A China quer mudar a moeda!
– Pensam ser a força hegemônica. Querem fazer reviver o império. Pelo menos é essa ideia que devemos passar. São os responsáveis pela queda da economia mundial, são os especuladores. O PIB mundial está em baixa porque são incapazes – sozinhos – de manter um alto crescimento econômico. Quanta audácia!
– Calma! Calma!, interrompeu o ser medonho, coberto de vestes, cuja forma corporal ou identidade não se podia divisar. São incompetentes, não temos dúvidas. Mas o império não é deles. Sempre será nosso. E que nossas garras se estendam a todo planeta. Pouco povoamento – mas antes, o caos. Crise em todos os países. Fome, desemprego, altas taxas de morte violenta… Não importa. Não teremos mais um mundo bipolar: desenvolvido – subdesenvolvido, primeiro e terceiro mundo, estado de bem estar social contra ditaduras. Tudo será um! Uma morte lenta de um lado. Morte veloz de outro. Uma se alimenta da outra. Sim, Malthus, voltaremos aos níveis sonhados por você. Um bilhão, um e meio – não mais. Um mundo com dez, quinze bilhões é praticamente impossível de ser controlado. Grandes projetos de reconstrução econômica e projetos espaciais, crédito público abundante e assistência às populações que passam fome: o mundo tem que ser um lugar inabitável para nele habitar apenas aqueles que merecem. Nós, os mais fortes. Habitar desertos, fazê-los novamente verdes, habitáveis. Fazer viagens interplanetárias e construir colônias no espaço. Estranhas especulações, principalmente se levarmos em conta que boa parte dessa área desértica no planeta fomos nós que com nossas bombas assim a tornaram. Efeitos perenes, como perenes são as fontes de energia utilizadas pelos escravos humanos. Como nos geradores elétricos movidos a força humana, como sonhados por Bentham. Força do ar e força do sol, força dos moinhos de vento. O sonho dos que querem o mundo bem politizado, mas sempre correto. A utopia: esse nosso nome.
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – falou como que com medo um ser grotesco que para cada sílaba pronunciada fazia gestos com cada um de seus três dedos erguidos de forma sucessiva em respeito ao ordenamento da palavra. Preparação! E se eles atacarem primeiro?
– Mas não ousam. Não tem nem capacidade para isso. Vamos colocar muito medo, muito mesmo. Vamos sufocar economicamente, politicamente. Utilizar as mídias que só muito timidamente nos anuncia. Não falam nosso nome, a Super Quente Nova Guerra Fria. Mas nos preparemos para atacar. Ninguém pode sequer ameaçar nossa superioridade, nosso papel de liderança mundo afora. Quando o círculo estiver fechado, BUM! E será apenas um ataque, e uma nuvem de fumo monstruosa irá se erguer, o pânico chegará a todos os lares. Faremos nossa festa, por que não?
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – voltou novamente a falar o Três-Dedos.
– Agora são vocês que estão com medo ou estou enganado? Não é esse pelo menos nosso objetivo primário, quero dizer, preocupação, ansiedade e crise econômica generalizada? Não é esse o objetivo primário para manter a população sobressaltada, fazer reviver o moralismo, reviver a caça às bruxas – tudo pelo sistema de justiça, por calúnias, acusações infundadas repetidas até a náusea pela mídia. Neomacartismo! Como me soa bem essa palavra…
– Estamos focados em sonhos utópicos de Wunderwaffen, “ataques cegos”, teleguiados por sistemas imunes a falhas baseados em sistemas de inteligência artificial com mísseis antibalísticos não-tripulados. Ataques cibernéticos também estão em nosso arsenal. O antigo presidente chegou a ameaçar os asiáticos com isso. Falha no sistema bancário deles, em seu sistema militar… Provocações com notícias falsas (e são nossos jornalistas que querem dizer o que são ou não notícias falsas – hipocrisia grossa, a que soa bem a nossos ouvidos). Gás sarim. Pura mentira. Abatemos aviões  dele com nos utilizando da Turquia. Abatemos agora aviões sírios com nossos próprios aviões. Enchemos de bomba suas instalações militares depois que o presidente sucumbiu aos nossos informes mentirosos. Mas aquela cabeleira do presidente grotesco… Ela parece que se deixa levar por um vento que vem da esquerda… Achei que poderia ser um dos nossos. É quase tão grosseiro como nós. O que o faz ainda não sucumbir? Continuaremos os ataques, muitos e muitos mais ataques. Acoar o inimigo até a confrontação se tornar inevitável. Ufa! Me deu até cansaço.
– Mas ela, a Rússia, se prepara! E a China com certeza irá junto. Hitler, Napoleão – todos os nazistas nossos irmãos e que perderam suas batalhas no oriente. Eles se utilizam de ataques surpresa – sempre. Nunca saem de suas fronteiras, mas sempre nos surpreendem… Tenho que concordar com meu amigo gago.
– Somos os reis da utopia!
– E o que sobrará?
– Pouco importa. Vamos em frente.
E todos gritam vivas e abavam os roucos protestos vistos até agora. Utopia.

1 Jimmy Hendrix. Third Stone From The Sun.

Sombra Projetada: experimentações na modernidade



No grupo de estudos que mantenho no Facebook, sobre estudos “pós-foucaultianos“, a colaboração de um de seus membros, Edmílson Jr., numa pesquisa que fez junto a um professor, se não me engano da UFC, aponta para o que Foucault alertou, num texto bem tardio, de 1984, chamado “O que são as Luzes” (não confundir com o outro, o de 1983, “O que é o Iluminismo” – coloco os links para os textos no final da postagem) para a necessidade de se buscar certa homogeneidade na identificação dos processos modernos da constituição de si mesmo, de uma ontologia crítica de si mesmo, ou, mais brevemente, na identificação do que é o éthos moderno. Ele se expressa dessa maneira:

“Homogeneidade. Conduz ao estudo do que poderíamos chamar de ‘conjuntos práticos’. Trata-se de tomar como domínio homogêneo de referência não as representações que os homens se dão deles mesmos, não as condições que os determinam sem que eles o saibam, mas o que eles fazem e a maneira pela qual o fazem. Ou seja, as formas de racionalidade que organizam as maneiras de fazer (o que poderíamos chamar de seu aspecto tecnológico), e a liberdade com a qual eles agem nesses sistemas práticos, reagindo ao que os outros fazem, modificando até certo ponto as regras do jogo (é o que poderíamos chamar de versão estratégica dessas práticas). A homogeneidade dessas análises histórico-críticas é assegurada, portanto, por esse domínio das práticas, com sua versão tecnológica e sua versão estratégica”. (FOUCAULT, “O que são Luzes”)

É exatamente essa homogeneidade que é buscada através da utilização do software gráfico Isadora e a vídeo-instalação Sombra Projetada, ou seja, a capacidade de, a partir do uso desse dispositivo, criar um jogo que crie ao mesmo tempo uma espécie de contraponto e metalinguagem ao jogo jogado “do lado de fora”, e assim poder, como um artista, modificar as regras desse próprio jogo. Como ele diz com o co-escritor de seu artigo:

“Em vez de um software de acordo com usas possibilidades – ou, segundo Flusser, de acordo com a programação que me é dada -, eu poderia procurar uma forma de criar um uso. Poderia criar uma proposta artística que gerasse a discussão sobre o próprio aparelho, alimentando o diálogo cósmico e subvertendo o programa. Seria uma pista para a subversão do status quo, uma proposta de mudança partindo de uma variação de perspectiva. Seria necessário que, tomando a distância necessária, observássemos de fora. E, com isso, mudar.

“Essa nova perspectiva abriria as percepções justamente pela potência dialógica que ganha das imagens técnicas. Nessa possibilidade de reinterpretação, os próprios aparelhos, o gadgets, seriam a matéria-prima para uma produção de diálogos com uma riqueza criadora inimaginável. ‘Seríamos, de repente, ‘todos artistas’ (aqui o termo ‘arte’ engloba ciência política e filosofia)’. É então nos gadgets, de acordo com Flusser, que o engajamento revolucionário deve se concentrar. Devemos assumir uma postura crítica perante eles e invertê-los na direção de nossa liberdade”.

Diria mais, talvez. Esse objetivo de “subverter o gadget”, de reinterpretá-lo criativamente, criticamente, é o objetivo da criação do grupo de estudos Pós-Foucaultianos e, de um modo geral, da recente criação de meu blog. Feito essa ponderação, queria voltar à questão dos dois textos de Foucault (o de 1983 e o de 84) e como isso se relaciona com essa postura ou atitude moderna exemplificado pela vídeo-instalação Sombra Projetada. A diferença entre os dois textos é que, talvez, o mais antigo quase parece ser descartável frente à descontinuidade que Foucault acaba por introduzir, por exemplo, quando coloca Baudelaire ao lado de Kant. Diz ele que não é uma questão metafísica, uma questão sobre as origens, uma questão histórica num sentido tradicional que se coloca quando se pretende pesquisar o que é o ser moderno. Na verdade, se pretende entender o “modo de ser” moderno, e isso não passa por uma metafísica, por uma “questão última”, mas pela atitude de ser (ou “do” ser) moderno. Por isso que é introduzido Baudelaire.
Não se trata de saber o que é pré ou pós-moderno em contraposição ao que se chama de “período moderno”. Creio que seria melhor procurar entender a atitude de modernidade, desde que se formou, pôs em luta com as atitudes de ‘contramodernidade'”. Então, um caso de “atitude” e não de postura meramente intelectual como no caso de se “compreender” o que são as Luzes. “A modernidade não é um fato de sensibilidade frente ao presente fugidio; é uma vontade de ‘heroificar’ o presente”. Daí, a meu ver, a distinção fundamental entre Kant e Baudelaire.
Do mesmo modo, existiram muitos “humanismos” (como, de outra forma, “interpretações” do Iluminismo). Um humanismo socialista, marxista, mas também um nacional-socialista e um stalinista. São denominações genéricas, não capazes de compreender esse momento de atitude, de coragem (lembrar da “coragem da verdade” e sua vinculações com a alétheia), que caracteriza o éthos moderno. O texto do Edmílson, a narrativa apresentada ali, respeita bem esse princípio, segundo o qual “para a atitude de modernidade, o alto valor do presente é indissociável da obstinação de imaginar, imaginá-lo de modo diferente do que ele não é, e transformá-lo não o destruindo, mas captando-o no que ele é. A modernidade baudelairiana é um exercício em que a extrema atenção para com o real é confrontada com a prática de uma liberdade que, simultaneamente, respeita esse real e o vila”.
Sem mais palavras sobre todos esses assuntos terminamos com a frase, não mais de Foucault, mas de Baudelaire: “Vocês não tem o direito de menosprezar o presente”. Seguimos em frente!
LINK PARA O TRAABLHO DE EDMÍLSON, ONDE É DESCRITO EM TODOS OS DETALHES E COM A APRESENTAÇÃO DOS VÍDEOS: https://vejaoqueeufiz.wordpress.com/2013/08/13/sombra-projetada/

LINKS DAS REFERÊNCIAS FOUCAULTIANAS:

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