A paz entre Trump e Putin: lição importante para o mundo

 

Da Executive Intelligence Review

Por Helga Zepp-LaRouche, fundadora e presidenta do Instituto Schiller

Deveria ser óbvio para qualquer pessoa esclarecida que melhorar as relações entre EUA e Rússia, a relação entre as nações que detém cerca de 90% das armas nucleares do mundo, cujo uso poderia varrer a humanidade, é uma coisa boa. Assim, os presidentes Trump e Putin merecem todo o crédito por abrirem esse caminho no Encontro de Helsinque, ao superarem a atual crise entre os dois países através do diálogo e da cooperação. Contudo, dado a histeria sem precedentes do establishment neoliberal e da grande mídia dos dois lados do Atlântico em resposta a esse encontro, também fica claro que essa poderosa elite prefere a destruição da civilização humana do que aceitar cooperar com a Rússia.

Essa realidade precisa de uma reavaliação da situação estratégica – não apenas, mas especialmente nas nações europeias como a Alemanha, onde a população tem uma imagem de Trump moldada, por exemplo, pelo canal ADR, em que 98% das manchetes lhe são negativas e a demonização de Putin é parte de um “pensamento de grupo” do establishment  local.

O fato é que cerca da metade dos eleitores americanos votaram em Trump para presidente, não em menor escala, porque ele prometeu durante a campanha fazer com que as relações entre EUA e Rússia voltassem a serem feitas com os pés no chão, depois de terem sido levadas a um nível histórico muito baixo, sem precedentes, pelos governos de George W. Bush e, acima de tudo, Barack Obama. Trump comentou sobre essa situação dizendo que isso aconteceu principalmente por causa da estupidez americana, declaração detalhadamente analisada em seus argumentos pelo pseudônimo Publius Tacitus no Sic Semper Tyrannis, blog do renomado analista de segurança Pat Lang. A respeito da “interferência” russa nas eleições de 2016, Publius Tacitus escreveu que os EUA tem uma longa e sangrenta história de intervenção em outros países e na derrubada de governos eleitos. Sobre a alegação de hackeamento russo nos servidores americanos, disse que os EUA com a CIA, a NSA e mesmo o Pentágono, tem as maiores e mais poderosas redes de computadores e habilidades de hackear no mundo. Então, os que fazem essas acusações têm o telhado de vidro.

Um dos mais interessantes efeitos da reação histérica do establishment americano frente a tentativa de Trump de normalizar as relações com a Rússia, é que as estruturas do chamado “Estado profundo” se tornaram transparentes. Quando John Brennan, diretor da CIA durante o governo Obama, acusa Trump de alta traição por causa de Helsinque, claramente emerge a questão de o que ou quem supostamente foi traído. O povo americano? A Constituição americana? Desde quando é alta traição o presidente tentar assegurar a sobrevivência física de seu próprio povo através do diálogo e da diplomacia?

O que faz o establishment e essa mídia pornográfica (“presstitute”, como chamado pelo analista Paul Craig Roberts) perderem a linha é que a vitória eleitoral de Trump sacudiu os fundamentos do neoliberalismo do Império Anglo-Americano. Trump prometeu durante sua campanha melhorar as relações com a Rússia e acabar com as intervenções militares. Com os dois encontros históricos em Helsinki e Singapura, ele demonstrou, apesar da enorme resistência do establishment, que continua cumprindo suas promessas.

O editor do blog antiwar.com, Justin Raimondi, comentou sob o título: “A ‘traição’ de Trump desafia o Império” que “a malignidade total de nossa classe política foi dramatizada em toda sua obscuridade por sua reação ao encontro em Helsinque”. Os americanos comuns não pensam como as elites americanas, disse, que veem a si mesmas como guardiãs da ordem internacional, papel herdado dos britânicos. “A missão da política externa de Trump (se ele sabe ou não) é eviscerar as estruturas antiquadas – e prejudiciais – da era da Guerra Fria e inaugurar uma nova era de nossas relações com o resto do planeta”.

A resposta internacional ao Encontro de Helsinque é que a maioria dos países vê nele a manifestação de uma nova ordem. A porta-voz do Ministerio de Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, deu boas-vindas ao evento. A China, ela disse, está satisfeita por ver uma melhora nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos, que é um conduto para a paz mundial e ajuda a comunidade internacional a encarar juntos seus desafios comuns. O Primeiro-Ministro israelense, Netanyahu, também deu boas-vindas ao encontro, assim como a chanceler Angela Merkel, que enfatizou que esses encontros devem se tornar normais e que foi “bom para todos” que o próximo encontro já esteja marcado. O Ministro do Interior italiano, Salvini, saudou a reconciliação e a descreveu como boa para a Itália e para a Europa.

A  esperança de superação da mentalidade de Guerra Fria (que pode rapidamente levar a uma guerra quente) e o estabelecimento de uma nova e melhor ordem mundial dependem criticamente das consequências da guerra entre o establishmentamericano e Trump. Os últimos episódios dessa batalha incluem a acusação do Departamento de Justiça estadunidense de doze membros da inteligência militar russa, acusados, literalmente na véspera de Helsinque, de interferir nas eleições dos EUA, num atentado óbvio de envenenar o clima do encontro. Alan Dershowitz, famoso jurista de Harvard, condenou como um terrível erro do Departamento de Justiça, que supostamente não pode influenciar na política externa.

Durante a conferência de imprensa em Helsinque, Putin demonstrou que ele é um mestre do princípio de flanquear. Ele convidou para uma visita a Rússia o Conselheiro Especial Robert Mueller, centroavante do establishment americano, para que sua equipe possa interrogar os doze oficiais da inteligência russa como contrapartida para que a Rússia possa usar seu direito de interrogar o ex-embaixador americano Michael McFaul, e Bill Browder, condenado à revelia por evasão fiscal na Rússia – grande contribuidor da campanha eleitoral de Hillary Clinton e responsável pela elaboração do Magnitsky Act (uma lei que penaliza individuos russos acusados de violar direitos civis). A Rússia também quer interrogar o “ex” agente do MI6, Christopher Steele, parceiro de negócios de Browder e autor do infame dossiê que serviu de base para toda a encenação da tentativa de golpe contra Trump.

Esse tipo inquérito colaborativo deveria ser o único caminho para se sair do domínio das acusações mútuas e um exercício inteligente no esclarecimento da verdade, já que se deve passar inevitavelmente pelo papel exercido pela inteligência britânica na tentativa de golpe contra Trump – o memorando secreto do aparato de espionagem do GCHQ britânico para Obama com o pedido de monitorar a Trump Tower, assim como a operação extremamente profissional e meticulosa de Christopher Steele para manipular a campanha eleitoral de 2016. Haverão então de ser encontradas as evidências de conluio dos chefes de inteligência do governo Obama com o MI6 numa tentativa de golpe contra o presidente eleito dos Estados Unidos.

Apenas quatro dias após a proposta de Putin, em meio a histeria sobre alegada traição de Trump, o senado votou com um placar acachapante de 98 a 0 a proibição de tais investigações recíprocas. O embaixador McFaul, que não apenas é visto por ter relações muito próximas a Browder, mas também pelo envolvimento ativo numa política de mudança de regime contra Putin, apresentou-se a si mesmo como um mártir frente aos ataques russos, a partir do qual os 98 senadores numa exibição doentia do chamado patriotismo, o protegeu. Mas esse não é o final da história. O papel da inteligência britânica e de quadros do FBI e do Departamento de Justiça continua a ser alvo de investigações no Congresso, pelos advogados de Trump e pelos russos que foram acusados. Alguns juízes já reclamaram sentenças de prisão contra alguns desses indivíduos.

Há então a mais importante questão americana: “Como isso será visto em Peoria?” – “Peoria” é a metáfora para a grande região centro-oeste do país, que é composta de um espectro político bastante diferente do que a das duas costas ou Washington D.C. A maioria dos cidadãos desses estados escolheu Trump porque têm sido vítimas da política do establishment americano, e não em menor escala por quererem um melhor relacionamento com a Rússia. As eleições legislativas do Congresso em novembro trarão isso à luz.

O debate político interno dos Estados Unidos tem as implicações mais diretas para todo o mundo. Caso Trump prevaleça, então, apesar das atuais tensões com a China por causa do déficit comercial americano, existe a chance para uma política internacional completamente nova entre as nações do mundo, baseada no reconhecimento da soberania e da não intervenção nos assuntos internos um dos outros, no diálogo e no benefício mútuo. Se os oponentes de Trump prevalecerem, provavelmente estaremos não muito distantes da III Guerra Mundial. Assim, é tempo para que os “progressistas”, “esquerdistas” e políticos “liberais”, que tem estado no mesmo barco da CIA, do FBI e do MI6 desde a eleição de Trump, refletirem se os principais meios de comunicação não os colocaram no lugar errado.