Nomi Prins: o sistema financeiro está pior agora do que em 2007

Um dos livros de Prins: “Isso leva à pilhagem: os bastidores dos resgates e bônus aos bancos, e os acordos secretos de Washington a Wall Street”. (tradução livre)



O texto que segue é uma transcrição não literal da entrevista de Nomi Prins, analista financeira, autora, e ex-diretora da Goldman Sachs ao editor da Executive Intelligence Review, Paul Gallagher. Não “transcrevi” toda a entrevista, mas escolhi alguns pontos que considerei mais importantes. Na verdade, são anotações minhas nas quais tentei quase ser um “médium” das palavras da entrevistada: ser o mais fiel possível mas utilizando minhas palavras.

Como diz um amigo de longa data: Toda vez que ouço de um “liberal” a frase: “Auto-regulação do mercado sem intervenção do Estado.” Eu lembro da palavra: Cartel.

A SITUAÇÃO ATUAL DA ECONOMIA: Para sanar a escassez de liquidez do sistema bancário, os países desenvolvidos colocaram taxas de juros 0% ou próximas a isso. A injeção de dinheiro no sistema financeiro, não acompanhado de crescimento econômico e do aumento das taxas de lucro, pode nos levar brevemente a uma nova crise, ainda pior. O esperado aumento das taxas de juros já vem ameaçando a solvência dos bancos, empresas e países (como nos casos mais graves da Grécia e da Itália), e a situação futura, a continuar o programa de priorizar a financeirização da economia ao invés do investimento na economia física, poderá levar a uma crise que implodirá os dois, ou seja, a um colapso completo da economia transatlântica.

A REINSTAURAÇÃO DA LEI GLASS-STEAGALL: Ao contrário da lei Dodd-Frank, de 2013, que regulamenta a atividade financeira de maneira bem frágil, quase uma meia culpa diante das atrocidades do setor não produtivo, especulativo, que causou a crise de 2007-8, a lei Glass-Steagall, cancelada definitivamente em 1999 sob a presidência e Bill Clinton, foi criada no governo de Franklin Roosevelt, e tinha como dispositivo básico a separação bancária. De um lado os bancos de crédito, de outro os que quisessem mexer com apostas. Wall Street permitiu a orgia financeira, Glass-Steagall não. As soluções criadas para sanar a crise estão criando as condições para que se caia de uma altura ainda maior. Existem trilhões de dólares flutuando do FED para os grandes bancos (os chamados por Obama too big to fail)., por causa das políticas de taxas zero, de resgates e do Quantitative Easing, não só nos EUA, como também na Europa e no Japão. Nada disso vai para a economia física, somente para aumentar aind amais as especulações financeiras. Somente a lei Glass-Steagall pode restaurar a estabilidade do setor bancário, voltar os recursos para o crédito público e o investimento na geração de empregos, no incremento da economia física.

OS BANCOS E A REGULAÇÃO ECONÔMICA: Os seis maiores bancos dos EUA (os too big to fail) tem seus ativos 21 ou 22 maiores do que antes da crise. Esta, pelo contrário, não os fez diminuir. Seus depósitos são de 30% a 40% maiores agora. Deste modo, seria difícil constatar que essas instituições passam por problemas. A lei Dodd-Frank, um mero truque para dar aparência de novas regras para os bancos (tanto que dispõe da possibilidade de se fazer os famigerados “resgates internos” – bail-in -, ou seja, tirar dinheiro dos correntistas, das poupanças, para pagar as dívidas em derivativos dos bancos, como no caso do Bankia espanhol e como aconteceu no Chipre), em sua segunda cláusula, impõe que os bancos apresentem regras e métodos com um projeto factível para saírem de uma possível nova crise. Somente o City Group apresentou um plano, mesmo repleto de problemas com empréstimos e que, apesar de seu tamanho gigantesco hoje, seria muito difícil que se livrasse de uma nova crise. Nomi Prins chama a cláusula da lei Dodd-Frank de “teste de imaginação”, o que é bem longe de uma tentativa mortal de regulação, como alegam os bancos contra a lei. No mais, é impossível manter taxas de juros a 0% infinitamente, o que, por si só, com a mudança dessa política, traria e já traz problemas diversos aos bancos.

A lei Glass-Steagall foi aprovada na década de 1930 com um consenso bipartidário. Ficou entendido que com ela os bancos teriam mais fundos, poderiam assim fornecer mais créditos. Os que querem fazer investimentos que façam por sua conta e risco. Não há razão para temer a regulação do setor bancário, porque esta trará solvência aos bancos de crédito, limites para os que vivem de apostas, e injetará dinheiro na economia física, que é o único meio de retorno que os bancos podem ter sem correrem os riscos das rodas financeiras.

COMO CONSEGUIR? O que aconteceu quando a lei foi originalmente criada, é que houve um consenso que sanar os problemas do setor financeiros era melhor do que continuar com a desregulação que levou ao crash de 1929. Nomi Prins diz que os bancos não devem temer uma lei eficaz como a Glass-Steagall (e olha que ela trabalhou anos na Goldman Sachs!). Esse tipo de regulação foi bem sucedida no passado. Não se deve se ater a detalhes irrisórios, como fazem os bancos, a respeito de alguns dispositivos legais para tentar barrar a intenção da reimplementação da lei, que é trazer de volta segurança à economia, a criação de crédito público e a volta dos investimentos e da criação de empregos. Ninguém deseja uma implosão – talvez ainda maior – do sistema financeiro!

Ao contrário da década de 1930, em 1999 usaram do voto bipartidário para repelir a lei Glass-Steagall, por acreditarem que tiveram muitos anos seguidos de prosperidade e as regulações somente atrapalhariam, e não estimulariam, a economia. O setor bancário argumenta, contudo, que a regulação irá acabar com a competição entre os bancos (competição entre 6 gigantes?! Isso é briga de cartéis, como na Colômbia e na Itália?), mas a última década mostra a insegurança expressa em inúmeras pequenas crises financeiras, sucessivas, até chegar à falência generalizada de 2007-8. Isso não deve ser uma questão partidária, adverte Nomi. Tanto democratas quanto republicanos devem procurar evitar uma nova crise, com certeza bem pior do que a da última década.

O FATOR TRUMP E A ASCENSÃO DA CHINA: Em maio deste ano se espera o encontro de Trump com o presidente Xi Jiping, com Putin, todos na China para a apresentação ao líder estadunidense do projeto da Nova Rota da Seda. Trump se move entre o isolacionismo e a possibilidade de integrar o novo eixo econômico liderado pela China. Seus assessores na parte econômica são mercadistas de fio a pavio, mas uma das virtudes desse presidente é não tratar os povos asiáticos – e os russos – como raças degeneradas e perigosas. Sua falta de medo em relação à Ásia é um bom sinal de que uma era de crescimento econômico baseado em grandes investimentos na economia física, na integração de continentes e na criação de novas plataformas de desenvolvimentos possam ser levadas a cabo. Mas Trump continua sendo um grande coringa. No plano internacional ele é melhor, contudo, do que sua oponente Hillary, adepta da expansão ainda maior da OTAN nas fronteiras com a Rússia e das provocações no Mar da China, assim como – o que talvez fosse implementado imediatamente após sua posse, caso fosse eleita – da zona de exclusão aérea na Síria. Este procedimento por parte da OTAN não impediria apenas que aviões sírios voassem pelos ares de seu próprio país, como estes mesmo aviões teriam de ser abatidos no solo, inclusive o de seus aliados, na terra ou no ar, ou seja, um ato de guerra declarado, ainda que através da Síria, contra a Rússia. A eleição de Trump amenizou as tensões provocadas pela política externa estadunidense, ainda o clima de guerra civil dentro de seu país é declarado. Tem mais uma visrtude, dentro de tantas críticas: já se imaginou alguns anos atrás um presidente americano revogar um tratado de livre-comércio? Imagina Bill Clinton sendo o patrocinador do fim da ALCA? Vivemos tempos muito estranhos…

A implantação da lei Glass-Steagall contou a liderança forte, pacífica e popular de FDR. Não foi só a lei de separação bancária que colocou os EUA de volta aos trilhos do desenvolvimento. Teve o projeto TVA – coloco como marco de projeto em infra-estrutura – além de outros para assegurar o emprego e a renda dos trabalhadores de seu país. Só que teve um fator a mais: FDR instalou a Comissão Pecora, para julgar criminalmente as atrocidades cometidas pelo sistema financeiro. Alguém com coragem para se tocar no assunto atualmente? Trump está à altura de Roosevelt e do momento histórico que este ensejou? FDR ganhou o jogo contra os bancos: quem será capaz disso atualmente antes de uma nova quebra generalizada?

Segue abaixo o vídeo, disponível apenas em inglês.

Para quem quiser saber mais sobre a nova Rota da Seda e o novo paradigma econômico mundial, disponibilizamos abiaxo três links de publicações deste blog, traduções minhas para a revista Executive Intelligence Review.


>>> A Nova Rota da Seda se torna a Ponte Terrestre Mundial: um Tour (vídeo expositivo, traduzido ao português, sobre os impactos globais do projeto chinês)

>>> Metade da Humanidade Ingressa (?) numa Nova Ordem Econômica Mundial

>>> A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América

>>>  A Nova Rota da Seda nos mostra a visão para o futuro da humanidade



Nomi Prins: Financial System Worse Now Than 2007