Nota da república dos Bruzundangas a respeito da atual situação dos luzias

Na foto, parte da capa do belo livro de Nicolau Sevcenko, “Literatura como missão”. Nele se encontram os projetos literários de Lima Barreto e Euclides da Cunha, em contraposição à modernização conservadora que quis fazer do Rio de Janeiro uma Paris tropical…

Leia a nota abaixo:

“Um certo governador de uma das províncias da Bruzundanga, grande plantador de café, verificando a baixa de preço que o produto ia tendo, de modo a não lhe dar lucros fabulosos, proibiu o plantio de mais um pé que fosse da ‘preciosa rubiácea’.

“Era uma lei colonial, uma verdadeira disposição da carta régia. Houve então um cidadão que pediu habeas corpus para plantar café. A Suprema Corte, à vista do tal artigo citado, não o concedeu, visto ferir os interesses do presidente da província, que pertencia à ‘situação’.

“Como todo mundo não podia pertencer à ‘situação’, os que ficaram fora dela, vendo seus direitos postergados, começavam a berrar, a pedir justiça, a falar em princípios, e organizavam , desta ou daquela maneira, masorcas.

“Se eram vitoriosos, formavam a sua ‘situação’ e começavam a fazer o mesmo que os outros.

“Havia apelo para a ‘Chicana’, mas a Suprema Corte, considerando bem o tal artigo já citado, decidia de acordo com a ‘situação’. Era tudo a ‘situação’.

“Todos os partidos que não pertenciam a ela pregavam a reforma da Constituição, mas, logo que a ela aderiam, repeliam a reforma como um sacrilégio”

Esse trecho de Os Bruzundangas, de Lima Barreto, do capítulo VIII, a respeito da Constituição do exótico país, faz lembrar o velho mote das elites durante o Segundo Reinado: “nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder”.

Quando se fala atualmente da posição da oposição ao governo conservador, se vê que ela é bastante tímida: medo de se igualar a Aecio Neves (!!!) caso se opte pelo #forabolsonaro; prática conservadora para manter o status de políticos eleitos, como no caso da oposição tímida contra o Fim da Previdência e nas votações que interessam ao governo de Bolsonaro, etc.

No conchavo já exposto por inúmeros sites de esquerda e bastante esmiuçado por Luís Nassif a respeito da “oposição” que só pensa em 2022, enquanto o governo atual destrói o país, podemos ver como os liberais se igualam aos conservadores num “pacto das elites”, os esquerdistas aos da extrema-direita, luzias e saquaremas. A atual situação de nossos luzias, seja no Império ou em nossa Bruzundanga (da República Velha e da Nova República), é que nunca foram tão iguais aos saquaremas quando no poder, ou seja, a sua situação é ser situação. E que o país aguente até 2022!