Por trás da Guerra anglo-norte-americana contra a Rússia

Para compreender a extensão da leviandade geoestratégica dos EUA, é útil uma rápida passada de olhos pela doutrina geopolítica anglo-norte-americana. Aqui, é essencial discutir a visão de mundo do padrinho da geopolítica, o geógrafo britânico Sir Halford Mackinder. Em 1904, em discurso perante a Royal Geographical Society em Londres, Mackinder, firme defensor do Império, apresentou o que, para muitos é um dos documentos mais influentes na política exterior mundial, dos passados 200 últimos anos, desde a Batalha de Waterloo. A palestra, bem curta, foi intitulada “O pivô geográfico da história”.

Desde aquela conferência profética de Mackinder, em 1904, em Londres, o mundo conheceu duas guerras mundiais, dirigidas basicamente ao objetivo de quebrar a nação alemã e a ameaça geopolítica que representaria contra a dominação anglo-norte-americana global; e dirigidas também à meta de destruir qualquer possibilidade de algum dia vir a surgir, por via pacífica, uma Eurásia russa-alemã que, na visão de Mackinder e de estrategistas geopolíticos britânicos, passaria a buscar o “império mundial”.

Por F. William Engdahl, New Eastern Outlook (colagem do blog do Paulino Cardoso)
Tradução da Vila Vodu

Talvez os EUA até tenham tido uma chance durante os tempos Obama, quando a secretária de Estado Hillary Clinton propôs aquele divertido “Reset” nas relações EUA-Rússia ao então novo governo de Medvedev, depois que Medvedev trocou de lugar com Putin no cargo de primeiro-ministro em março de 2009. Se Washington tivesse sido um pouco mais sensível e tivesse oferecido alternativas sérias a serem negociadas, é concebível que Washington estivesse hoje blindada, em termos geopolíticos, contra o segundo maior problema que enfrenta no Continente Eurasiano, a saber, a República Popular da China.Recentemente, o secretário de Estado assistente dos EUA para Europa e Eurásia, Wess Mitchell, em depoimento no Senado revelou tolamente as verdadeiras razões das atuais campanhas e sanções de Washington e Londres contra a Rússia. Nada tiveram a ver com alegações fake [forjadas] de suposta intervenção em eleições nos EUA; nada tiveram a ver tampouco com o envenenamento fake [forjado] dos russos Skripals. As causas são mais fundamentais e nos levam a um momento antes da 1ª Guerra Mundial, há mais de um século.Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores do Senado, dia 21 de agosto, Wess Mitchell – sucessor de Victoria Nuland, apresentou relato extraordinariamente claro e verificável da estratégia geopolítica dos EUA para a Rússia. Parece que foi um pouco claro DEMAIS, além do que ‘o poder’ nos EUA aprecia, porque o depoimento original foi rapidamente substituído, no website do Departamento de Estado, por versão devidamente ‘desinfetada’.

Censurado!

Na fala de abertura diante dos membros da Comissão do Senado, Mitchell declarou:
“O ponto de partida da Estratégia de Segurança Nacional é o reconhecimento de que os EUA entraram em período de competição entre grandes potências, e que as antigas políticas dos EUA nem dão conta satisfatoriamente do escopo dessa tendência emergente, nem estão adequadamente equipadas para terem sucesso na competição.
E continuou com a seguinte extraordinária confissão:
“Ao contrário dos pressupostos otimistas de governos anteriores, Rússia e China são concorrentes sérios que estão construindo o equipamento material e ideológico com o qual contestar a primazia e a liderança dos EUA no século 21. Permanece entre os mais altos interesses da segurança nacional dos EUA impedir que potências hostis dominem a massa terrestre eurasiana. O objetivo central da política exterior do governo é preparar nossa nação para confrontar esse desafio mediante o fortalecimento dos fundamentos militares, econômicos e políticos do poder norte-americano.”

Na versão depois desinfetada pelo Departamento de Estado, o trecho original “Permanece entre os mais altos interesses da segurança nacional dos EUA impedir que potências hostis dominem a massa terrestre eurasiana”; e a frase “O objetivo central da política exterior do governo é preparar nossa nação para confrontar esse desafio mediante o fortalecimento dos fundamentos militares, econômicos e políticos do poder norte-americano” foram misteriosamente apagados.Mas, porque foi depoimento formal ao Senado, a versão no Senado permaneceu inalterada (ou, pelo menos, lá estava, inalterada, dia 7/9/2018). O Departamento de Estado deixou-se apanhar com a mão na cumbuca.

Se paramos para refletir sobre o significado por trás das palavras de Wess Mitchell, é nu e cru totalmente ilegal pelos termos da Carta da ONU, embora, sim, Washington atualmente pareça ter esquecido completamente aquele documento solene. Mitchell diz que a prioridade da segurança nacional dos EUA é “impedir que potências hostis dominem a massa terrestre eurasiana.” Está falando, bem claramente, de potências hostis aos esforços de Washington e da OTAN para dominar a Eurásia, incansáveis desde o colapso da União Soviética, há mais de um quarto de século.

Mas, calma! Antes, Mitchell cita duas potências dominantes que, combinadas, diz ele, são o atual principal inimigo do controle global pelos EUA. Mitchell diz claramente que “Rússia e China são concorrentes sérios que estão construindo o equipamento material e ideológico com o qual contestar a primazia e a liderança dos EUA”. Mas… os EUA controlarem a Eurásia significa então os EUA controlarem Rússia, China e arredores. “Eurásia” é a terra deles.

A fala de Wess Mitchell no Senado é uma espécie de reformatação obscena da Doutrina Monroe do Século 19 norte-americano: a Eurásia é nossa; e “potências hostis” como China ou Rússia que tentem interferir dentro do espaço soberano delas tornam-se, por isso, o “inimigo” de facto. Daí a formulação “Rússia e China são concorrentes sérios que estão construindo o equipamento material e ideológico”. Deve-se talvez ver aí uma suposta justificativa para a política de Washington, de preparar resposta militar? As duas nações estão em movimento cheio de energia, apesar da incansável guerra econômica que o ocidente faz contra ambas, na direção de construírem a própria infraestrutura econômica independente de qualquer controle pela OTAN. É compreensível. Mas Mitchell confessou, pode-se dizer, que haveria aí, aos olhos de Washington, um Casus Belli [motivo para guerra].

Para compreender a extensão da leviandade geoestratégica que o secretário de Estado assistente para Europa e Eurásia dos EUA cometeu, com sua sentença tola e descuidada, e por que o Departamento de Estado teve de correr para apagar aquelas frases, é útil uma rápida passada de olhos pela doutrina geopolítica anglo-norte-americana. Aqui, é essencial discutir a visão de mundo do padrinho da geopolítica, o geógrafo britânico Sir Halford Mackinder. Em 1904, em discurso perante a Royal Geographical Society em Londres, Mackinder, firme defensor do Império, apresentou o que, para muitos é um dos documentos mais influentes na política exterior mundial, dos passados 200 últimos anos, desde a Batalha de Waterloo. A palestra, bem curta, foi intitulada “O pivô geográfico da história” [ing.“The Geographical Pivot of History”].

Rússia e pivô eurasiano

Mackinder dividiu o mundo entre duas potências geográficas primárias: uma potência do Mar e uma potência da Terra. Do lado dominante estava o que chamou de “anel de bases” unindo as potências marítimas Grã-Bretanha, EUA, Canadá, África do Sul, Austrália e Japão, dominando os mares do mundo e o poder comercial. Esse anel de potências dominantes sobre os mares era inalcançável por qualquer ameaça que viesse das potências terrestres da Eurásia, ou “Euro-Ásia” como foi denominado o vasto continente. Adiante, Mackinder observou que, se o Império Russo conseguisse expandir-se sobre as terras da Eurásia e novamente obter acesso aos vastos recursos daquela área, para construir uma frota (naval), “o império do mundo apareceria à vista [para os russos]”. Mackinder acrescentou que “Pode acontecer, se a Alemanha vier a se aliar à Rússia.”Desde aquela conferência profética de Mackinder, em 1904, em Londres, o mundo conheceu duas guerras mundiais, dirigidas basicamente ao objetivo de quebrar a nação alemã e a ameaça geopolítica que representaria contra a dominação anglo-norte-americana global; e dirigidas também à meta de destruir qualquer possibilidade de algum dia vir a surgir, por via pacífica, uma Eurásia russa-alemã que, na visão de Mackinder e de estrategistas geopolíticos britânicos, passaria a buscar o “império mundial”.

As duas guerras mundiais conseguiram efetivamente sabotar o projeto de “cobrir toda a Eurásia com ferrovias”. Até, claro, 2013, quando (1) a China pela primeira vez falou de cobrir a Eurásia com uma rede de ferrovias para trens de alta velocidade e correspondente infraestrutura, incluindo oleogasodutos para transporte de energia e portos de águas profundas; e (2) a Rússia uniu-se ao esforço dos chineses.

O golpe de estado orquestrado por Washington na Ucrânia, em fevereiro de 2014 teve o objetivo explícito de cavar uma fenda profunda e sangrenta entre Rússia e Alemanha. Naquele momento, a Ucrânia era o principal gasoduto de abastecimento que ligava o parque industrial alemão e o gás russo. As exportações alemãs, todas, de ferramentas a automóveis, ajudavam a construir a economia russa então em rápida recuperação, e estavam alterando o equilíbrio geoestratégico de poder – a favor de uma Eurásia centrada em Alemanha-Rússia, e em detrimento de Washington.

Numa entrevista em janeiro de 2015 depois do que se considera “o mais escandaloso golpe na história” – o golpe dos EUA na Ucrânia –, o fundador de Stratfor, George Friedman, estudioso das ideias de Mackinder, declarou que “a aliança potencialmente mais perigosa, da perspectiva dos EUA, seria uma aliança entre Rússia e Alemanha. Seria uma aliança da tecnologia e do capital alemães, com os recursos humanos e naturais da Rússia.”

Medidas desesperadas

Nessa altura, Washington está bastante desesperada e tenta por todos os modos meter novamente dentro da garrafa o gênio que o tresloucado golpe de estado na Ucrânia, em 2014, deixou que escapasse. Aquele golpe forçou a Rússia a tratar ainda mais seriamente suas alianças estratégicas potenciais na Eurásia; catalisou a cooperação Rússia-China hoje florescente; e também catalisou o engajamento dos russos com seus estados vizinhos eurasianos chaves, já reunidos na Organização de Cooperação de Xangai.A antecessora de Wess Mitchell no cargo, Victoria Nuland, imortalizada pela húbris e pela arrogância, foi gravada ‘informando’ ao embaixador dos EUA em Kiev que, para os EUA, “Foda-se a União Europeia”, com o que fez sua fama na Eurásia. Com isso, Nuland expôs, no sentido de “entregou”, todo o jogo de Washington. Não se trata de parceria diplomática inspirada em princípios. Tudo só tem a ver com o império e o poder.

Agora, é a vez de Wess Mitchell admitir que a política estratégica dos EUA é “impedir que a Eurásia seja dominada por potências hostis”. Foi como ‘informar’ a Rússia e China – se ainda lhes restasse qualquer dúvida – que a guerra só tem a ver com uma disputa geopolítica de vida e morte, para resolver quem dominará a Eurásia: se seus cidadãos legítimos que lá habitam, girando em torno de China e Rússia; ou de algum eixo imperialista anglo-norte-americano que já esteve ativo por trás de duas guerras mundiais durante todo o século 20.

Tudo isso, porque Obama & Hillary erraram a mão no tal “reset” russo, concebido para arrastar a Rússia para a rede da OTAN. Por causa desses erros, Washington autocondenou-se a uma guerra em dois fronts – contra China e contra Rússia – que os EUA não estão preparados para vencer.