Realismo fervido na revolta

 

Obra do escritor João Antônio ainda é um retrato preciso da marginalidade nas metrópoles. O foco de sua literatura ilumina aqueles que vivem à margem de uma sociedade abocanhada pela pretensão de uma sofisticação burguesa, contra a qual ele vociferava. Prostitutas, jogadores de sinuca, vagabundos, meninos de rua, traficantes. Pessoas pobres e esquecidas, que se equilibram numa fronteira entre a malandragem e a vida criminosa. A literatura marginal brasileira não pode ser estudada se o nome de João Antônio não estiver no meio.

Do site da revista Pesquisa Fapesp

Obra do escritor João Antônio ainda é um retrato preciso da marginalidade nas metrópoles

Virados do avesso, maços de cigarro tiveram uma importância peculiar na vida do escritor paulista João Antônio (1937-1996). Ele os usava como marcadores de livro e também para rabiscar comentários, preservando-os entre uma e outra página de suas leituras. Ou ainda, para citar um último emprego interessante, João escrevia recados nos pequenos papéis e os enviava como correspondência, das inúmeras que trocou com seus amigos mais próximos.

O volumoso acervo que desde o ano posterior a sua morte está sob a tutela do Departamento de Literatura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revela este e outros hábitos de um autor que, sim, fumava muito, sim, bebia muito, e, sim, dedicou-se convicto à boemia, não só dos bares, mas também dos bordéis. João morreu aos 59 anos, em um apartamento no Rio de Janeiro, por conta de um derrame. Morava sozinho, e seu corpo foi encontrado 15 dias depois.

Ana Maria Domingues de Oliveira, que hoje coordena a catalogação do acervo de João Antônio, identifica na história dos maços o ponto de uma contradição. João não era exatamente organizado. Mas, embora ainda seja conhecido por sua proximidade com boêmios e marginais, “ou mesmo como alguém que se vestia mal”, ela sublinha, havia em seu caráter essa inclinação. “Ele era uma espécie de arquivista, sistemático, sempre preocupado com a posteridade. Era o médico e era o monstro.”

O acervo é recheado pelas correspondências que o escritor trocou com seus amigos e por curiosas coleções, como a lista de gírias cariocas, marcadas em uma agenda pessoal. É uma obra à parte. Ou uma extensão da coletânea de contos que foram reunidos em 15 livros publicados por ele, cinco deles relançados pela editora Cosac Naify. João orientava seus amigos a guardar essas cartas e papéis, conta Ana Maria. “Ele sabia que aquilo tinha uma importância, ou teria mais importância. Por isso arquivava tudo.”

Também há no acervo uma biblioteca com 7 mil livros. Mil deles são autografados ou têm dedicatórias assinadas por Clarice Lispector, Jorge Amado, Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, entre outros autores.

O uso do cigarro e do álcool também é mencionado diversas vezes em uma obra literária que, de início, vasculhou o cotidiano do subúrbio da cidade de São Paulo e, mais tarde, adquiriu cunhos autobiográficos, com ricas passagens pelas ruas do Rio de Janeiro, onde João decidiu viver boa parte da vida.

Dicionário de gírias cariocas

“Você trinca nos dentes o celofane e vai abrir um novo maço. Fumo. Não deveria e fumo”, escreveu em Abraçado ao meu rancor, um de seus textos mais memoráveis, sobre um retorno melancólico à cidade de São Paulo, em que amarga o fato de não reconhecer a cidade de sua infância.

O estranhamento espelha o fato de ele não reconhecer-se também a si próprio. “Mudei, sou outra pessoa; terei tirado de onde estas importâncias e lisuras?”, escreve em primeira pessoa. O narrador ilustra o conto com suas passagens por coquetéis e recrimina uma carga excessiva de propagandas sobre a própria capital: “Compre em São Paulo o que o mundo tem de melhor”.

João Antônio nasceu em Osasco, filho de comerciantes pobres. Trabalhou como office-boy, consultor contábil de um frigorífero e bancário. Publicou seu primeiro livro de contos em 1963, Malagueta, Perus e Bacanaço, pelo qual recebeu dois prêmios Jabuti (melhor autor revelação e melhor livro de contos). Paralelamente à sua carreira literária, exerceu a profissão de jornalista. Escreveu para a revista Realidade o “conto-reportagem” (uma invenção sua) Um dia no cais, cujo título depois foi reduzido apenas para Cais. Trata-se de uma criação literária com olhar para tipos de uma cidade portuária, escrita após a experiência de viver um mês na cidade de Santos. João trabalhou ainda na revista Manchete, no periódico O Pasquim e em outras publicações.

O foco da literatura de João ilumina aqueles que vivem à margem de uma sociedade abocanhada pela pretensão de uma sofisticação burguesa, contra a qual ele vociferava. Prostitutas, jogadores de sinuca, vagabundos, meninos de rua, traficantes. Pessoas pobres e esquecidas, que se equilibram numa fronteira entre a malandragem e a vida criminosa. A literatura marginal brasileira não pode ser estudada se o nome de João Antônio não estiver no meio.

Abandono

Em O conto na obra de João Antônio: uma poética da exclusão (Editora Linear B), a pesquisadora Clara Ávila Ornellas, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), analisa essa produção sob o vértice da denúncia social. Há no livro um trecho específico sobre o olhar do autor para questões relacionadas ao abandono de crianças, como em um de seus textos mais conhecidos, Frio (1963), cujo protagonista, um menino de rua, anda pela cidade encarregado de levar consigo um saquinho repleto de um pó branco. Clara acaba de encerrar seu segundo pós-doutorado sobre João Antônio, “Da escrita do leitor à voz do escritor: estudo sobre a marginália de João Antônio”, que dá prosseguimento ao seu estudo do romancista feito antes em “João Antônio, leitor de Lima Barreto”, ambos apoiados pela FAPESP.

A narração em terceira pessoa se subjetiva sob o olhar do personagem, de alma ainda pura –ou melhor, ainda ingênua –, identificando em seu trajeto pelas ruas da cidade, do centro em direção ao bairro de Perdizes, zonas escuras em contraste com pedaços mais iluminados das vias públicas. Será, para ele, mais pertinente permanecer no escuro ou andar sob a luz?

A infância volta a ser tema de Mariazinha tiro a esmo (1975) e Paulinho Perna Torta (1976), e o amadurecimento estilístico de João durante o período de uma década, diz Clara em sua tese, o conduz para uma linguagem em que o narrador acaba apresentando “uma consciência mais reflexiva”.

A pesquisadora fala ainda de uma preocupação que foi se tornando mais bem delineada com o passar do tempo: “Apontar as consequências, para a sociedade, da ausência de condições de uma vida digna (criminalidade e violência) e, igualmente, construir uma personagem [no caso de Mariazinha] com elementos que mostram a total ausência de referências básicas, como casa e família, e a degradação humana manifestada no fato de Mariazinha comer alimento estragado e dormir em soleiras de porta como um animal qualquer”.

Ao desdobrar esse universo também pelo mundo dos adultos, ou de comunidades inteiras até, o autor embarca em uma zona que faz intersecção com o jornalismo, resultando em um estilo de essência realista. “Ele era um observador. O contato com a realidade é a sua grande inspiração”, defende Clara.

O estilo conciso e objetivo mantém as tensões decalcadas na pele de sujeitos que estão na iminência da perda do sentimento de civismo. “São muito ágeis as narrativas. Frases curtas e muito densas”, diz Clara.

A apropriação do discurso e da linguagem das ruas, e também a proximidade com o jornalismo, levaram o nome de João Antônio ao rótulo de neonaturalista. A crítica literária Flora Sussekind, por exemplo, usou o termo para referir-se à obra do escritor. Mas Antonio Candido, por sua vez, defendeu que a proximidade com o factual é, para o autor, apenas uma espécie de matéria-prima, difundida em um campo estilístico pluralista e mais amplo, no qual se destaca o chamado conto-ficcional, caso de Leão de Chácara (1975).

Pela temática e pela elaboração formal, é possível compreender na obra de João Antônio a influência de dois grandes autores, que ele próprio enaltecia. Parte de sua obra foi dedicada a Lima Barreto (1881-1922), em boa dose pelo fato de este autor abordar também a exclusão social como fenômeno de um sistema de produção gerenciado pela força do capital. O Rio é um cenário comum, sobre o qual ambos os autores se debruçaram.

A comparação com a concisão de Graciliano Ramos (1892-1953) acaba sendo também algo inevitável. “A edição de São Bernardo que pertenceu a João Antônio tinha 110 marcas para trabalhar”, conta Clara, que analisou as marginálias do escritor em seu estudo recente.

O reconhecimento ainda em vida levou João Antônio a uma espécie de crise, conforme relata a professora da Universidade de São Paulo (USP) Tania Celestino de Macedo, pesquisadora com quem o autor se correspondeu a partir dos anos 1980 e que, no ano de sua morte, foi a responsável por iniciar o trabalho de catalogação de seu acervo.

“Ele falava contra as obras que se adequavam ao mundo institucionalizado das editoras, ou contra uma literatura que considerava ‘muito escovadinha’; detestava lançamentos de livros, mas ao mesmo tempo sabia que dependia do mercado para lançar suas obras”, explica a pesquisadora.

O assunto foi retomado por Alfredo Bosi no prefácio escrito para o relançamento de Abraçado a meu rancor (Cosac Naify): “Sei que o termo ‘marginal’ é fonte de equívocos; sei que na sociedade capitalista avançada não há nenhuma obra que, publicada, se possa dizer inteiramente marginal”, defende o escritor. Depois, para encerrar o assunto, ele sentencia: “Ora, realismo fervido na revolta pende mais para a margem que para o centro da sociedade”.