Texto na Folha de São Paulo pede guerra na Venezuela. Por que a Revolução Bolivariana incomoda tanto?

Por que a obsessão midiática com a Venezuela, a ponto de se defender uma intervenção militar no país como fez a Folha de São Paulo? 

Roberto Santana, responde por meio de uma rápida análise de alguns indicadores sociais venezuelanos melhores que os do Brasil e pelo grau de participação política nos dois países.

 

 “Não nos surpreende que a Folha de São Paulo, que apoiou golpes, ditadura e estado de exceção no Brasil, se coloque a publicar um artigo dessa natureza (nos referimos aqui ao conteúdo e não à qualidade da escrita, apesar de ambos serem sofríveis). A tal imprensa “livre”, aqui e no exterior, é na verdade a imprensa dos ricos, os proprietários dos meios de comunicação, e seguem publicando o que for de interesse destes, o que nunca é o interesse da maioria. O que nos surpreendeu foi a identidade do autor do texto. Ricardo Hausmann foi Ministro do Desenvolvimento da Venezuela entre 1992-1993, o que significa que ele fez parte do ministério de Carlos Andrés Perez (1989-1993) responsável por centenas de mortes no Caracazo – revolta social espontânea ocorrida em 1989. As medidas neoliberais do governo Perez encareceram o custo de vida e desataram a fúria popular que se tornou um divisor de águas na história venezuelana. A repressão bárbara às manifestações naquele ano (e que prosseguiram nos anos seguintes) somada à política neoliberal que agravou as já debilitadas condições de vida dos venezuelanos foi o que colocou o sistema político do país em xeque e permitiu a ascensão do chavismo como força de renovação social. As palavras de Hausmann e sua alegoria fantasiosa de uma Venezuela imergida no caos são de um cinismo sem tamanho. É incrível a desfaçatez com que verdadeiros sociopatas engravatados como Hausmann, responsável direto por uma política econômica que jogou a população de seu próprio país na miséria; se coloca agora com grande preocupação sobre o bem-estar dos seus compatriotas. Obviamente que sua participação na desastrosa política econômica quando do seu tempo de ministro de Estado não aparece no texto, tampouco o fato de que, muito preocupado com a Venezuela, Hausmann more … nos Estados Unidos”.

 

Texto na Folha de São Paulo pede guerra na Venezuela. Por que a Revolução Bolivariana incomoda tanto?

 

No Brasil em 5

por Roberto Santana Santos*

No último dia 03 de janeiro, a Folha de São Paulo publicou um artigo na sua sessão “Opinião”. O título se apresenta de maneira bem direta: “Intervenção militar estrangeira na Venezuela deve ser considerada”.1 Discorre o texto sobre uma “crise humanitária” com uma enxurrada de informações calamitosas sobre o país, nunca comprovada pelos dados. São as mesmas acusações aplicadas para qualquer país que ouse não ficar de joelhos frente aos representantes do capitalismo mundial: uma ditadura selvagem que faz seu povo passar fome e lhe negam os direitos mais fundamentais.

Não nos surpreende que a Folha de São Paulo, que apoiou golpes, ditadura e estado de exceção no Brasil, se coloque a publicar um artigo dessa natureza (nos referimos aqui ao conteúdo e não à qualidade da escrita, apesar de ambos serem sofríveis). A tal imprensa “livre”, aqui e no exterior, é na verdade a imprensa dos ricos, os proprietários dos meios de comunicação, e seguem publicando o que for de interesse destes, o que nunca é o interesse da maioria. O que nos surpreendeu foi a identidade do autor do texto. Ricardo Hausmann foi Ministro do Desenvolvimento da Venezuela entre 1992-1993, o que significa que ele fez parte do ministério de Carlos Andrés Perez (1989-1993) responsável por centenas de mortes no Caracazo – revolta social espontânea ocorrida em 1989. As medidas neoliberais do governo Perez encareceram o custo de vida e desataram a fúria popular que se tornou um divisor de águas na história venezuelana. A repressão bárbara às manifestações naquele ano (e que prosseguiram nos anos seguintes) somada à política neoliberal que agravou as já debilitadas condições de vida dos venezuelanos foi o que colocou o sistema político do país em xeque e permitiu a ascensão do chavismo como força de renovação social.

As palavras de Hausmann e sua alegoria fantasiosa de uma Venezuela imergida no caos são de um cinismo sem tamanho. É incrível a desfaçatez com que verdadeiros sociopatas engravatados como Hausmann, responsável direto por uma política econômica que jogou a população de seu próprio país na miséria; se coloca agora com grande preocupação sobre o bem-estar dos seus compatriotas. Obviamente que sua participação na desastrosa política econômica quando do seu tempo de ministro de Estado não aparece no texto, tampouco o fato de que, muito preocupado com a Venezuela, Hausmann more … nos Estados Unidos.

Um pedido de invasão ao seu próprio país, sem mencionar em uma linha sequer a dor e o sofrimento que um conflito armado de altas proporções ocasionaria, demonstra o grau de insanidade e soberba com que pensam as elites latino-americanas. Não importa que a maioria da população há quase duas décadas apoie o processo revolucionário, não importa que a oposição ao chavismo quase nunca consiga apoio popular ou vitórias eleitorais. Os poderosos da América Latina se colocam na posição arrogante de passar por cima da vontade da maioria, pois, em suas cabeças colonizadas e preconceituosas, se acham superiores ao povo e, portanto, teriam o direito de “corrigir” o percurso caso a maioria teime em seguir por outro caminho.

Constituyente
Em julho de 2017, manifestação gigantesca em Caracas a favor da Constituinte convocada por Maduro. A mídia internacional dizia que o governo estava prestes a cair.

Mas por que a Venezuela incomoda tanto, afinal? A grande mídia tem o discurso pronto, já apontado nas linhas acima: ditadura, miséria forçada à sua própria população, desrespeito às mais elementares liberdades humanas. Esse discurso é falso, claro. O passado e o presente de figuras como Ricardo Hausmann representam bem como os filhos da Casa Grande moldam as palavras e seletivizam suas indignações de acordo com os interesses de suas contas bancárias. É claro que existe uma crise econômica na Venezuela, mas ela é fruto do conflito político, entre um governo que representa os interesses das maiores sociais, e uma oposição apoiada pelo capital internacional, principalmente os Estados Unidos, que vê seu acesso bloqueado às riquezas minerais venezuelanas, principalmente o petróleo.

A Venezuela incomoda porque o governo bolivariano fez reformas estruturais que garantiram que os recursos públicos realmente sejam investidos na melhoria de vida das pessoas. Junto a isso, vem revolucionando o sistema político do país de modo a que seja cada vez mais participativo. Façamos uma rápida comparação Brasil x Venezuela. O país presidido por Maduro, mesmo com toda a crise econômica, sabotagem interna do empresariado e cerco financeiro internacional promovido por Donald Trump, apresentou em 2017, segundo dados da OIT,2 uma taxa de desemprego de 7,3%, enquanto o Brasil sob o “governo” Temer teve 13,4%. Mesmo assim, é o último que a mídia empresarial classifica como “política econômica responsável”. Com todos os problemas, a economia venezuelana não apresenta uma escalada de desemprego, graças a ações políticas do governo bolivariano.

O “caos humanitário” venezuelano ao que parece não existe para o PNUD, levantamento anual da ONU sobre o desenvolvimento das condições de vida. Isso porque a Venezuela, no último levantamento de 2015, apresenta um índice de 0,767, melhor do que o Brasil, que é de 0,754.3 Devemos lembrar também que a Venezuela é um país livre de analfabetismo…desde 2005. Já o Brasil, bem, continuamos tentando. Será que, ao ver esses resultados, Ricardo Hausmann e seus amigos de Miami gritariam por uma intervenção militar no Brasil? Será que a Folha publicaria na primeira página?

O quesito “democracia” não é medido por números, mas uma comparação é possível. Frente aos ataques terroristas promovidos pela direita e patrocinados pelos dólares norte-americanos em meados de 2017, o presidente Nicolás Maduro tomou a decisão mais importante da sua vida: para discutir o país e trazer o conflito de volta para a arena política convocou uma Assembleia Nacional Constituinte. A grande novidade foram as eleições de deputados constituintes por setores sociais, com representações de indígenas, camponeses, pessoas com necessidades especiais, estudantes, aposentados e trabalhadores dos mais diversos setores, além de representantes municipais. Uma aula de inovação na participação política em um mundo onde a desbotada “democracia” representativa se encontra em total descrédito.

Na Venezuela, graças à iniciativa do então Presidente Chávez, existe o mecanismo do referendo revogatório, onde a população pode retirar um representante eleito caso não esteja cumprindo suas promessas de campanha ou faltando com os deveres do seu cargo. Ao contrário do caso brasileiro, não existe a figura do “impeachment”. A compreensão é de que um mandatário eleito por voto popular somente pode ser retirado do cargo também pelo voto popular. Diversos prefeitos e governadores, tanto chavistas, quanto da oposição, já sofreram com o revogatório. Jamais o Congresso brasileiro aprovaria tal controle da população sobre eles mesmos. Preferem manter o povo longe e articular tudo a portas fechadas, levando a cenas constrangedoras como a votação do impedimento de Dilma Rousseff na Câmara Federal em 2016, algo que envergonhou até os que eram favoráveis a saída da então presidenta.

Porém, a maior prova da revolução democrática promovida por Chávez e seus seguidores é justamente o grau de politização do venezuelano, seja ele pró ou contra o governo. A política se tornou um ato comum à população, como trabalhar, estudar, ir ao mercado. É o verdadeiro empoderamento, coletivo, de sentir que se faz parte de uma sociedade e que sua participação é importante para os rumos do país. A política faz parte da vida. Enquanto isso, na “democracia” brasileira, o desencanto é tamanho que a maior reivindicação da população é NÃO votar. O fim do voto obrigatório, para o senso comum, cria a sensação de que o cidadão não poderia ser responsabilizado pelo show de horrores que é a política nacional.

Esse é o perigo da Venezuela e sua Revolução Bolivariana. O de trazer as massas para o centro do debate, para não só votar, mas para participar e governar. Essa é uma ameaça que os poderosos da América Latina não podem tolerar, pois ferem os alicerces de sua dominação sobre o povo. Por isso os editorias raivosos e as manipulações midiáticas. Mas ao final, a verdade sempre prevalecerá e a continuidade do apoio popular à Revolução Bolivariana na Venezuela mostra o quanto poderoso é um povo organizado, capaz de superar os maiores desafios e vencer os inimigos mais poderosos.

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal” (Multifoco, 2014).

1 “Intervenção militar estrangeira na Venezuela deve ser considerada”. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/01/1947693-intervencao-militar-estrangeira-na-venezuela-deve-ser-considerada.shtml> Acesso em 08 de janeiro de 2018.

2 Conferir a base de dados do Banco Mundial em: <https://data.worldbank.org/indicator/SL.UEM.TOTL.ZS?locations=BR-VE> Acesso em 08 de janeiro de 2018.

3 Dados disponíveis em: <http://hdr.undp.org/en/data> Acesso em 08 de janeiro de 2018.