Solilóquio et urbe



Por Rogério Mattos


Pode ser acessado, completo, no Academia.edu




Solilóquio et urbe

Des Geist in der Natur, Camille Flammarion
Um garçom, que talvez tivesse acabado de sair de sua hora de almoço, estava muito sério a pensar na mesa em que ainda se demorava. Era um bar ou um restaurante de pessoas relativamente abastadas da região onde moro. Um dos frequentadores, membro assíduo daquelas reuniões em que homens barrigudos e de barbas feitas sentavam-se para proferir suas sonoras gargalhadas servidos a gordos pedaços de carne no pão acompanhada de cerveja, acabava, como o garçom, seu almoço. Estava sozinho por ser pleno dia. Fazia – o gordo – sua hora extra no bar. Ao ver o trabalhador tão absorto em seus pensamentos, retrucou:
– Não se pensa sério nessa vida, meu rapaz! Caso esteja blasfemando contra as mil pragas que te perseguem, ainda assim não tem razão. Haverá um dia em que tudo isso acabará e nós nunca, por fim, teremos razão.
No que o rapaz fez cara de pouco entendimento, em parte tentando dar razão ao interlocutor através de um olhar de ignorância que era ressaltado pelo susto tomado pela bravata do cliente, que nem o cumprimentou; de outro lado, reforçando seu papel de completo abestalhado, não entendia absolutamente nada do que lhe falavam, talvez por não ter encontrado dentro de si o mínimo eco daquelas palavras.
Observando o aparente despreparo intelectual do jovem, completou o senhor de meia-idade, aumentando a ironia, sempre algo apertado em seu traje que dificilmente cabia no corpo, devido ao excesso de gordura, e inteiramente desconfortável em seu terno em meio ao forte calor dentro do ambiente que só tinha alguns poucos ventiladores para refrescar sua clientela faminta:
– Caso pense tão gravemente no Holocausto, basta apenas quando tiver sentado colocar as mãos sob o traseiro até que elas fiquem completamente dormentes. Depois tente escrever tudo o que lhe tiver passado na cabeça nesse meio tempo. Verás que existe um meio muito mais confortável de se sentar e que se cansas as mãos permanecendo com elas demasiado tempo em posição incômoda, imagine seu cérebro procurando engendrar conceitos por demais complexos. Tenho dito o que me passa e falei até o que não devia. Boa tarde – completou limpando a boca brilhante de gordura antes de ir-se embora como se nada houvesse acontecido.


Depois de assistir a tão interessante e jocoso diálogo, gostaria de expor minhas impressões, já que carrego há tempo as ideias que suscitaram essas linhas escritas após participar anonimamente daquele colóquio.
Nenhuma força, venho pensando, cá eu, têm o inimigo sombrio. Entre a força e a matéria existe uma distinção tão clara quanto a das noites que sucedem os dias. A força organiza a matéria, sem o que esta se tornaria tão somente as partículas elementares que os cientistas estudam, e a vida se esvaziaria de beleza e significado. Nem a mínima célula poderia se organizar caso dispensasse a força que a preestabelece. A beleza do estudo do mundo microscópico não existiria, pois as células não são somente carbono, hidrogênio ou o que seja. A conjugação dos elementos dentro de uma ordem que se sucede em todos os reinos, guardando cada uma suas particularidades relativas ao grau de desenvolvimento alcançado nos incontáveis milênios desde a criação do planeta são produtores de mistérios infindos. E tanto é o poder dessa força que a tudo molda conforme sua vontade que é muito provável que no dia em que a humanidade conseguir recriar a espécie humana em laboratório, com toda perfectibilidade possível, nada nos garante que esta roupagem esplendorosa terá vida própria. Já que não somos simplesmente um simples aglomerado de matéria – como se os mais variados tipos de pó pudessem, por si só, se organizarem e refletir toda a vida, por exemplo, de uma obra de arte –, a força molda e anima a matéria. Dentro desse paradigma, a recriação do corpo humano sem vida é como a arte sem alma, sem significado: apenas uma cópia mais ou menos perfeita de um modelo antecedente; seria nada mais do que um manequim.


A conjugação das moléculas até a formação de células e destas aos mais variados corpos terrestres, em todos os reinos, se repete incontavelmente no universo, já que não podemos concebê-lo sem vida. Caso pensarmos que existam as mais variadas conjugações elementares e vibrações da matéria no espaço que nossos sentidos não captam, mas que alguns são pesados e medidos em laboratório, como as ondas de rádio e elétricas, podemos concluir não só que o universo é vivo, mas entrever as inúmeras possibilidades de vidas no mesmo. Como são feitas de composições diferentes e vibram em campos distintos do nosso, podem estar tão próximos de nós que caso as vermos é bem provável que nos assustem.
Imaginando a quantidade de vidas no universo a fora e a quantidade de formas que as mesmas podem assumir, às vezes chegando a resultados bem distantes aos que estamos cotidianamente acostumados a assistir, podemos conceber mundos tão diversos do nosso que, quem sabe, até a felicidade plena poderíamos encontrar em um deles. De nossa pequena condição humana, a qual veleja por mares tão tenebrosos para às vezes encontrar os portos mais duvidosos, até se chegar a esse ideal que a História ainda não registrou em seus anais, quantas graduações devem existir, ou seja, quantos níveis de felicidade relativa devem ter alcançado outros mundos mais civilizados que o nosso?
Não precisamos ser astrônomos, nem físicos ou químicos para compreender que as propriedades da matéria se estendem por todo o espaço, numa ordem tal e com tal senso harmônico que dificilmente atribuiríamos ao azoto ou ao potássio inteligência própria capaz de congregar tamanhas maravilhas. O universo e seu bailado infinito e toda multiplicidade, todas as cores, toda beleza do mundo microscópico e toda sua organização cuja síntese pode ser sinalizada no conceito de evolução, são frutos de uma inteligência que é a própria modeladora da matéria. A força rege à matéria e, caso levarmos em consideração que seu produto final é a harmonia perfeita, tal qual o espelho do universo, como também o papel determinante da matéria em todo seu conjunto – quero dizer em todas suas uniões mais ou menos perfeitas do elemento mais simples até chegar à espantosa força solar –, diremos, tal qual na lei da evolução, que ela tende a se tornar, em suas formas múltiplas, cada vez mais incompreensível ou inapreensível para nós e, portanto, invisível. Não é por outro motivo que a conquista do reino microscópico por parte dos cientistas caminha lado a lado com as descobertas no universo, e ao que tudo indica ainda estamos longe de encontrar o estágio fundamental da matéria.
Comparando-nos ao esplendor celeste e levando em conta a lei de evolução que hoje é vista com naturalidade por boa parte dos seres humanos podemos, outrossim, concluir de nossa situação passageira enquanto humanidade. Outras belezas, como nos atesta a História em seus dramas e superações incontáveis, um dia nos serão facultadas. Portanto, entender a o Inimigo sombrio como uma força, seguindo todo nosso raciocínio até aqui, é uma contradição em termos, já que esta submete a matéria e a leva à perfeição. O inimigo, antes, procura a destruição da matéria para se apossar de uma força que em absoluto o pertence. Como ele procura a corrupção e a força a criação, não, nos esforçamos em conceder à esta a primazia, já que o universo inteiro é um ato criador constante. Se não observamos nas alturas a corrupção que a olhos nus nos assalta, tendo em vista nossa realidade particular e limitada dentro de um todo completamente coeso e que nos transcende por inteiro, concebemos que o domínio da matéria em seus estados corruptos também é uma realidade que tende a ser superada.


Falamos do Absoluto diversas vezes, porém não o definimos por entendermos ser tal tentativa inútil. O que nos transcende de pronto nos escapa. Não é por outro motivo que toda ciência se faz por comparações, criando hipóteses que restrinjam ao máximo a abrangência do fenômeno, porém sem descaracterizá-lo, para assim podermos controlá-los através dos pressupostos por nós estabelecidos. Portanto, Deus, em sua inteireza, é a nós completamente desconhecido. Não podemos idolatrá-lo, porque ídolos são feitos de homens, animais ou objetos, e a mais tímida comparação – quer seja do reino hominal – com o Todo, descaracteriza por completo sua presença.
O Amor talvez seja a categoria mais compreensível para fazermos nossa analogia, já que o mesmo não é feito de ídolos, e sim de uma imagem celeste que é a nós totalmente subjetiva. O amor é a própria imaginação celeste, o pensamento criador, já que nele não há corrupção. Logo, igualmente, temos uma grandeza que nos escapa em sua integralidade. No entanto, como a Natureza viva, o amor se manifesta para nós na mais ridícula e por vezes rara banalidade, como a asa da borboleta, que é a polifonia de formas do pensamento feminino.
O que é o amor se não o que é igual, vivente, e até mesmo inferior em suas expressões diminutas e graciosas, e é ao mesmo tempo sempre algo superior a nós? Olhamos a criação ou o criador, o ser amado ou o amor? A personificação da vida é a criação em si mesma; o amor, a maravilha que podemos tocar, mas nunca compreender por si mesma.