Como se regalar no Inferno: O Corpo Presente de J. P. Cuenca

A literatura brasileira deu mostras de vigor no início do século. Não o vigor físico do corredor de maratonas, mas de vigor intelectual mesmo, de criatividade, impulsionada pela aquisição da classe-média dos serviços de internet. Quantos podemos nomear dessa geração, dependendo do gosto, das escolhas, de cada um? São bem diversificados os nomes e os estilos de muitos dos ainda jovens escritores. Foi uma espécie de “revolução por cima”, mas que dinamizou nossa produção artística a partir de portais literários como o Paralelos, Bestiário, Cronópios, e tantos outros. Foi uma forma de democratização da literatura que produz resultados consistentes até hoje. Logo, também é necessário uma crítica.

Ao comparar a literatura de João Paulo Cuenca com a de Ricardo Lísias, podemos ver duas formas de se entrar no inferno. O segundo parece transitar entre sub-paradoxos, entre pseudo questões que compõem um inferno não só pessoal, mas solipsista. É um pequeno eu escandalizado com mínimos escândalos mundanos. Cuenca, pelo contrário, parece se regalar no Inferno, numa atitude que, se não tem relação direta com a chamada “carnavalização” na literatura, como estudada por Bakhtin, passa pelas estações infernais tanto de Dante, quanto de Henry Miller ou Roberto Piva. Assim, a comparação que se propõe forma uma boa métrica para um caso de estudo da literatura brasileira mais contemporânea.

O texto abaixo é uma continuação do artigo O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea, onde o caso do romance de Ricardo Lísias, O Divórcio, é analisado de maneira mais pormenorizada a partir de determinadas categorias teóricas retiradas do livro Anti-Édipo, de Félix Guattari e Gilles Deleuze.

A ruína de Ulisses

O autor, Ricardo Lísias, transita entre sub-paradoxos. A sub-paradoxia, assim podemos chamar as questões levantadas em sua obra. Pouco importa se foi ou não drogado, se sua mulher foi ou não a Cannes, se tem ou não uma cicatriz próxima ao mamilo. Enfim. Analisamos a obra, se é que podemos chamá-la assim. Se bem que “obra” é chamado até o que se faz de origem sólida no vaso sanitário. A mulher me largou. O que faço? É uma questão. Portanto, corro a São Silvestre, entro com um processo judicial e escrevo um romance (o protagonista está escrevendo um romance, não?). Paris, Buenos Aires, Dublin. Sempre pelo olhar sub-paradoxal. Nenhuma descoberta fundamental, nada que possamos chamar de literatura, de beleza, de Essências, de riso verdadeiro, ou lágrimas… É como o Ulisses mediterrânico. A humanidade e seu destino como macaco que não deu certo. Qual viagem de Lísias? Qual amor? Qual o questionamento, para quais paradoxos aponta? O inferno? Mas para isso existem melhores exemplos, ainda que não se precise recorrer a Dante ou outra literatura mais antiga. Recorremos a Dante por apenas um momento. Nenhuma fixação especial pelo poeta, mas para fazer um paralelo com a viagem de Ulisses. A viagem de Lísias é como a segunda viagem de Ulisses como aparece na Comédia. Um simulacro, algo para remeter única e exclusivamente ao inferno que o Ulisses de Dante se encontra, quando se atirou novamente ao mar sem as limitações do amor de Penélope, com “um só lenho e pequena campanha”, até que “nossa alegria logo volveu-se em pranto, / que um remoinho dela levantou, / e feriu o lenho num fronteiro canto”.  A ruína do Ulisses de Dante, como se o navegante fosse alguma vez tão imprevidente assim. A sub-paradoxia é correlata da segunda viagem de Ulisses. Age por simulacros e finda por si mesma, “até que o mar foi sobre nós fechado[1]”. Lísias daqui a cinquenta anos? Só se for eleito o são Tomás de Aquino de uma nova Idade Média.

Como se regalar no Inferno

Por uma viagem ao Inferno entendemos a realizada por João Paulo Cuenca em Corpo Presente. Travestis, prostitutas, toda a flora e fauna de uma Copacabana noturna. Cuenca começa a contar: “as putas, o cafetão, o desenhista rabiscando um retrato, o fotógrafo com máquina automática e o mulato da freguesia que sabe falar sueco[2]”. Enquanto conversa com Alberto entre chopes, “no banco de concreto ao lado do restaurante, espreitam os gringos: o traficante barato, os malandros e o assaltante[3]”. E tudo isso num único parágrafo que ocupa pouco mais de trinta por cento de um livro de pequenas dimensões. O mulato da Freguesia que sabe falar sueco fala sueco e o cafetão, um crioulo velho, nada diz. O desenhista rabisca tudo muito mal. As putas acham seu portunhol língua universal. Até na Suécia acham que irão entender essa língua. Mas ninguém se entende. “Uma mesa de gringos num restaurante à beira-mar em Copacabana pode converter-se num ecossistema completo em questão de minutos[4]”. Uma puta está com a coxa por cima da coxa de um gringo que “como se espera, tem mais dinheiro do que eu. (…) Alberto fala sobre os peitos, os suecos falam sobre os peitos, o mulato da Freguesia ex-lavador de pratos que sabe falar sueco fala sobre peitos em sueco e até Carmen fala sobre peitos, mas dentro de mim[5]”. Falam sobre os peitos grandes da puta, sobre peitos, e sobre os próprios peitos, interminavelmente. Alberto brinda com um clichê: “Às mulheres, essas pequenas eternidades[6]”, e começa a cagar regras:

 

Quando Alberto começa a falar o que devo pensar, levanto, esbarro em cadeiras, nos suecos, nos peitos, passo pelo desenhista rabiscando um retrato, pelo fotógrafo com máquina automática e pelo mulato da Freguesia falando sueco, me equilibro até o banheiro apertado e inundo o bar. O bauru desce inteiro entre meus dentes.

Carmen sempre disse para eu não comer ovo frito[7].

 

Assim se completa a travessia de um dos ciclos do Inferno. Cuenca não busca Beatriz, mas uma Carmen bem carnal, sensual, que não está em lugar nenhum e, não obstante, é onipresente. É uma das formas literárias mais complexas utilizadas para lidar com o problema do puro espírito, pois ao mesmo tempo se desdenha totalmente da existência de uma entidade dessa natureza. Carmen é buscada, procurada em todos os cantos, e, ainda que apareça por todos os poros, todas as esquinas, sobre quaisquer brumas, etílicas ou não, ela nunca se revela por inteira. Carmen é um ato de descobrimento, de paulatina revelação, às vezes de súbita iluminação: “Carmen sempre disse para não comer ovo frito”.

Na busca por Carmen, o autor se revela:

 

Gostaria de escrever algo como “as grandes cabeças da minha geração”, mas essa é toda uma linhagem de chatos queixosos. Encaro seus olhos e só vejo o reflexo vazio em cada um de nós, entre óculos de aro grosso, orelhas amassadas, sob cabelos pintados de loiro, em diários na rede, programas de auditório e sessões sofisticadas de cinema, é tudo a mesma grande coisa, só a repetição de padrões regurgitados e atitudes velhacas, como se nada mais houvesse ou fosse possível fora dessa nostalgia vazia.

Minha máquina de digerir só não consegue desintegrar Carmen. É a única que sobrevive sem pudor, andando nua por essa necrópole sem fim, pisando seus pés pequenos sobre os mortos, esmigalhando pedaços de carne e tropeçando em ossos. Esbarrando nos corpos sem vida, eu sigo descobrindo Carmen pelas ruas, em cada janela fechada, por trás de esquinas, entre cada espelho quebrado, cada noite perdida[8].

 

Cuenca apareceu na cena literária nacional através de um tipo de boom literário do início desse século, ancorado principalmente na publicação de textos pela internet em sites como Paralelos, Cronópios, e tantos outros, e foi, junto a outros autores, responsável por uma renovação da literatura nacional. É difícil comparar um momento que não está de todo encerrado (o próprio Ricardo Lísias é reflexo disso) com outros booms, como o famoso ocorrido na América Latina entorno do realismo mágico ou o brasileiro nem tanto com a Semana de Arte Moderna, mas tanto mais com o regionalismo, de Jorge Amado até o sumamente admirado Guimarães Rosa. Digo que o boom não está terminado por não entendê-lo como um ciclo de curto prazo, o que apontaria para uma fraqueza da sociedade brasileira como um todo, e este não é ocaso. O boom da primeira década de nosso século ocorreu às voltas da aquisição por parte de determinado setor das classes abastadas dos serviços de internet – então algo de difícil acesso –, o que permitiu a essa camada letrada, muitas vezes de uma burguesia mais tradicional, o intercâmbio necessário para formar um movimento literário que chegou a incluir escritores de norte a sul do Brasil.

O anseio por renovação é premente no primeiro romance de João Paulo Cuenca, a partir de uma geração baseada fundamentalmente nos pólos urbanos e com determinado resguardo financeiro para recorrer a aventuras do tipo das literárias. Ricardo Lísias, como apontado acima, é um subproduto desta vaga, compreendido no sentido em que apareça com a consolidação de um modelo econômico no país de estabilidade e bem-estar social, o que demanda determinados anseios de um público letrado que quer ver-se refletido na arte literária de seu país (simplesmente isso, um ato de auto-emulação). É o momento de produção do ócio, quando não mais se procura prioritariamente pular um muro, atravessar uma parede nem que seja a socos ou pontapés, mas desfrutar da literatura como passatempo ou mesmo como fonte de informações para fazer circular nos meios sociais ordinários. Quando autor vislumbra um céu para os suicidas, ficamos cientes que, talvez como as câmaras de gás, os quartos incensados a ópio são produzidos pelo capital financeiro que se apoia tão só e simplesmente na mais legítima riqueza nacional.

O que nos faz lembrar essa literatura fundamentalmente urbana é o processo descrito por Ángel Rama como “realismo crítico urbano”, na qual os autores se defrontam “explicitamente com o problema de uma geração de homens céticos e sem fé que nasceram nas rudes cidades latino-americanas[9]”. É o caso de Roberto Piva, talvez com alguma elasticidade o caso de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues, e o caso, sem dúvida, do auxiliar de Golbery, Rubem Fonseca[10]. O escrivão de Golbery no IPES (acredita-se que por ser uma relíquia dessa época esse autor seja tão discreto) pode, sem nada que contradiga, descrever a cultura Pop. A questão do corpo, a questão “o quê ou quem está certo”, quem matou a viúva, quem matou a prostituta, e coisas do tipo, é o tipo de questionamento das bestas propostos a nós pela cultura pop (sobre essa questão da bestialidade, magia negra e cultura pop, existe uma publicação ainda em andamento).

Piva, Miller e as variações infernais

Uma passagem ao léu. Paranoia:

 

Meus pés sonham suspensos no Abismo

minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina

eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou órfão

havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios

eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa

na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as galerias do

meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos

 

Mas a gente não consegue parar. Genial.

 

colégios e carros fúnebres estão desertos

pelas calçadas crescem longos delírios

punhados de esqueletos são atirados no lixo

eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente

os luminosos cantam nos telhados

eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens

mas o céu roxo é uma visão suprema

minha face empalidece com o álcool

eu sou uma solidão nua amarrada a um poste

fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago

nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo

meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota

minha alma desconjuntada passa rodando

 

No Boletim do Mundo Mágico, eu também sou “uma alucinação na ponta dos teus olhos”. Bruegel, Jorge Lima – Panfletário do Caos, Garcia Lorca e os poemas noturnos de Mário de Andrade. “Maldoror em taças de maré alta”. No Diário Cotidiano de Lísias somente a piedade, o “homem que quer superar a si próprio”, ser abstratamente melhor. Tudo é regido pelo calendário e pelo relógio. A corrida de São Sebastião, os eventos globais de ampla aceitação.

 

as senhoras católicas são piedosas

os comunistas são piedosos

os comerciantes são piedosos

só eu não sou piedoso

seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos

sábados à noite

eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me

fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

 

Se há algum platonismo no mundo das Essências vislumbrado por Deleuze nos romances de Proust, é o mundo das aporias, do poeta que sabe e absolutamente desconhece o que vai falar. É algo como: “há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo / a lua não se apóia em nada / eu não me apóio em nada / sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas”. Uma ponte qualquer em qualquer paranoia, em qualquer surto verdadeiramente criativo. Como Miller escrevia? Como saber de antemão o que se vai saber só depois de experimentar a escrita? As passagens de Paranóia selecionadas poderiam ser substituídas por outras ainda melhores. Talvez. Como o que é escrito agora poderia ser totalmente refeito e, talvez ficasse melhor. O importante é o prazer da escrita. Rir e sempre rir. O cúmulo da ironia, o cúmulo do mais ralo humor. O resto é literatura piedosa, bizarra, pós-moderna ou que quer que seja. Só se escreve se somos capazes de conceber alguma ideia. Mas só visualizaremos a Ideia de passarmos pela experiência de sua comunicação. Enquanto ela ainda frequenta os “crânios sem janela” (expressão paranoica de Roberto Piva), nenhuma ideia há. Talvez só aja a piedade de se escrever um livro novo e belo. Pura paranoia. A dureza das palavras desafia qualquer beleza apriorística. É melhor não escrever e só imaginar. Masturbar-se ou erguer o sexo aos sábados a noite.

E como Miller escreve? Ele é Henry, como Lísias é Ricardo. Na verdade, pouco importa como ele escreve. Fazer uma análise linguística, crítica, gramatical ou qualquer coisa do gênero. Escolhemos também uma passagem ao léu, mas uma passagem que haja alguma mulher. Já que falamos das toscas descrições de cenas sexuais em Lísias, acreditamos ter encontrado uma boa passagem de Miller que em absoluto tem alguma descrição de sexo. Mas, se não há amor (por Mara, Maude ou outra qualquer) ou se não há sexo, há a figura da mulher ou pelo menos de seu corpo, fato não encontrado em todo o romance de Ricardo Lísias.

 

Meus pensamentos corriam como um caranguejo. A imagem de Melanie emergiu subitamente. Estava sempre ali, como um tumor carnudo. Havia nela algo bestial e angélico. Sempre manquejando, arrastando as palavras, a fala monótona e disparatada, seus enormes olhos melancólicos engastados como brasas nas órbitas. Era como uma daquelas belas hipocondríacas que, tornando-se assexuadas, assumem as misteriosas qualidades sexuais das criaturas que superlotam o zoológico apocalíptico de William Blake. Era extremamente distraída, não com relação às trivialidades da vida de rotina, mas com relação ao seu corpo. Não era coisa fora do comum vê-la perambulando pela casa em suas intermináveis tarefas com as tetas inteiramente expostas, brancas como o leite. Maude estava sempre repreendendo-a, sempre furiosa com as indecências de Melanie, como as chamava. Mas Melanie era tão inocente como uma lontra louca. E se a palavra lontra parece esquisita é porque era a mais adequada. Com Melanie, todo tipo de imagens absurdas me vinham à mente. Ela era apenas “ligeiramente” alienada, por assim dizer. Quanto mais suas faculdades mentais lhe escapavam, mais obsessivo tornava-se seu corpo. Sua mente tinha-se dispersado pela carne e, se era desajeitada e lenta em seus movimentos, é porque pensava com esse corpo carnudo e não com o cérebro. O sexo que nela existia parecia ter-se distribuído pelo corpo; não era mais localizado, nem no meio das pernas nem em qualquer outra parte. Não tinha nenhum senso de vergonha. Os pelos da buceta, se por acaso os expunha enquanto nos servia na mesa o café da manhã, não se diferenciavam das unhas do pé ou do umbigo. Estou certo que se algum dia eu tocasse distraidamente em sua buceta, ao estender a mão ao bule de café, ela teria reagido da mesma maneira que se eu tivesse tocado o braço (…) Onde quer que vivêssemos, o quarto de Melanie era exatamente o mesmo. Era um quarto onde se enjaulava e aprisionava a Demência. E sempre o papagaio, sempre o cãozinho sarnento, sempre os mesmos daguerreótipos, sempre a máquina de costura, sempre a cama de latão e o baú antiquado. Um quarto em desordem que para Melanie era o Paraíso. Um quarto cheio de latidos esganiçados, de estrilos pontilhados por murmúrios acariciantes, adulações, arrulhos, frases truncadas, guinchos de afeição. Às vezes, passando pela porta aberta, eu a via sentada na cama, coberta apenas pela camisola, o papagaio empoleirado em sua mão retorcida, o cachorro mordiscando a isca no meio de suas pernas. – Alô – dizia ela, erguendo a vista para mim com uma inocência franca e suave. – Que belo dia faz hoje, heim?… E talvez afastasse o cão, não devido a vergonha ou ao embaraço, mas porque lhe fazia cócegas com a língua úmida, diabolicamente esperta[11].

 

Transitamos agora do sexo total, do cão com a língua diabolicamente esperta, das fronteiras movediças que separam o Paraíso da Demência, para chegar no polo norte. Não o polo norte dos antigos colonizadores, mas o do gelo, da solidão, do lugar onde não é possível realizar qualquer contato. Voltamos ao inferno de Lísias…

 

Assim que fechamos a porta do quarto no 13º arrondissement, minha ex-mulher mostrou o creme lubrificante que tinha acabado de comprar. Recusei-me a lambuzar os dedos. Ela não ouviu, abaixou a bermuda e a calcinha e ficou de quatro na ponta da cama. Coloca um dedo de cada vez. Você vai ver que eu aguento a mão inteira. Aguento mais que essa vagabunda. Recusei de novo e ela disse que então nosso namoro estava acabado.

E para onde vou agora, aqui em Paris?

Quando eu tinha colocado o terceiro dedo, ela arranhou meu peito. Em momento algum pediu para parar. No quarto, minha ex-mulher cravou a unha e retirou-me uns três centímetros de pele, ao lado do mamilo direito. Até hoje ele é sensível. O sangue começou a escorrer volumoso e manchou o lençol. Ela riu: você é que não aguenta nada. Vou comprar alguma coisa para fazer o curativo[12].

 

Lindo. A mulher ficou com ciúme de outra e resolver dar a bunda para se auto-afirmar. Isso na imaginação do escritor. Ainda ficam fazendo fantasia sobre o que é ou não verdade em tudo o que escreve. Para quê? Só se for para rir e lamentar ao mesmo tempo. Mas para isso basta a programação midiática, em rádio, tv ou internet. Só gargalhando dos absurdos como a “inflação da pedra”, fenômeno mapeado pela Folha de São Paulo depois do programa do prefeito Haddad de reabilitação para os usuários se crack. Como fazem serviço de limpeza urbana, recebem 120 reais por semana pelo trabalho. A Folha exclama: “a pedra chegou a custar 20 reais!”. O preço geralmente é de 10, mas como aumentou o fluxo de dinheiro, a mercadoria ficou mais valorizada. A inflação da pedra do crack em São Paulo em plena campanha de 2014: sempre a mesma pregação. Nada pode ser feito para melhor a vida do trabalhador, pois se não ele ganha mais, consome mais, e daí a inflação. Chegar ao extremo de transportar o modelo para as pedras de crack com certeza tem que figurar nos estudos dos autores que se debruçam sobre o tema do pós-modernismo. Só rindo e ao mesmo tempo lamentar profundamente: quantos, como Reich apontou, irão idolatrar o nazismo?

 

NOTAS

[1] Dante, Alighieri. Divina Comédia. São Paulo: Editora 34, canto XXVI.

[2] Cuenca, João Paulo. Corpo Presente. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003, p. 59.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] p, 60.

[6] Idem.

[7] p. 61.

[8] p. 22.

[9] Rama, Ángel. Meio século de narrativa latino-americana. Em: Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001, p. 164.

[10] Referimo-nos aqui ao trabalho do professor de ciência política da UFMG, o uruguaio René Armand Dreifuss, cujo título é “1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe”, publicado pela editora Vozes em 1981 e não mais editado.

[11] Miller, Henry. Sexus. Rio de Janeiro: Record, 1967, p. 206-7.

[12] Lísias, p. 30-1.