O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea

O Mao de Salvador Dali (na verdade, a Marilyn Monroe “vestida” de Mao): isso não é arte, mas publicidade


Ricardo Lísias escreveu um romance com o título de “Divórcio”. Prêmio Granta, escritor consagrado, passível de uma crítica forte, já que contemporâneo. Na sua tentativa de romance, consegue mostrar a idade do cinismo que vivemos, dos fluxos abstratos de capitais, do “capitalismo financeiro” e toda sua cultura refinada – ainda a psicanálise, ainda determinado cultivo do ego, ainda o pior do que as classes-médias podem apresentar. Numa época de golpes e austeridades financeiras mundo afora, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda. Mostra “como ainda somos piedosos” – e cínicos -, na leitura de Nietzsche feita por Guattari e Deleuze.

O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea

 

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Deleuze e Guattari narram um deus das máquinas, Máquina Abstrata, Máquina Celibatária, Máquina de Guerra Nômade, Máquina Despótica Bárbara, todas sendo subordinadas a um regime dos fluxos e dos cortes – a produção desejante –, onde não há ausência ou a famosa “falta”, conceito motriz do tripé edipiano. O corpo pleno sem órgãos é onde se inscrevem os diferentes devires dos corpos movidos por estas máquinas, sobre-determinados pela paranoia ou a esquizofrenia: “o seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma máquina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar (crise de asma)”. O conceito de máquinas é um dos mais ambivalentes jamais criados. Falaremos disto mais adiante. Vejamos o presidente Schreber sob este ângulo: “O presidente Schreber tem os raios de céu no cú. Ânus solar. E estejam certos de que isso funciona. O presidente Schreber sente algo, produz algo, e é capaz de fazer teoria disso. Algo se produz: efeitos de máquina e não metáforas[1]”. Schreber, dementado, tem delírios fascistas, megalomaníacos – está grávido de Deus. Os órgãos do presidente são regenerados pelos raios de Deus que seu corpo atrai. Seu cú atrai os raios de Deus e ele sente prazer nisso. Caso não sinta prazer, volúpia mesmo, será castigado. Schreber devém mulher, quer dar nascimento a uma nova humanidade: “isto é tão verdadeiro quanto dizer que o esquizofrênico faz economia política, e que a sexualidade é questão de economia[2]”. Schreber vira grão-mongol ao ultrapassar as barreiras que o faziam se identificar com a raça ariana: tudo reduzido à lei do pai, segundo a mitologia uniformizante baseada apenas em um argumento de ordem sexual, a panaceia universal utilizada por Freud, e “palavra alguma é retida do enorme conteúdo político, social e histórico do delírio de Schreber[3]”. Hitler dava tesão nos fascistas, assim como as bandeiras e símbolos do regime. E não importa “ser possuído por ele[s] tanto quanto possuí-lo[s]”, o que ocorre é “maquinar os grupos sujeitados dos quais se é peças e engrenagens, introduzir a si próprio na máquina para, finalmente, conhecer o gozo dos mecanismos que esmagam o desejo[4]”.

 

Acontece que as Memórias de Schreber estão tomadas por uma teoria dos povos eleitos por Deus e dos perigos que corre o povo atualmente eleito, o alemão, ameaçado pelos judeus, pelos católicos, pelos eslavos. Nas suas metamorfoses e passagens intensas, Schreber devém aluno dos jesuítas, burgomestre de uma cidade onde os alemães se batem contra os eslavos, a moça que defende a Alsácia contra os franceses; por fim, atravessa o gradiente ou o limiar ariano para devir um príncipe mongol. Que significa esse devir aluno, burgomestre, moça, mongol? Não há delírio paranóico que não revolva tais massas históricas, geográficas e raciais. O erro seria concluir disso, por exemplo, que os fascistas são simples paranóicos; isto seria um erro, precisamente, porque no estado atual das coisas seria reconduzir o conteúdo histórico e político do delírio a um determinação familiar interna. E o que nos parece mais perturbador é que todo este enorme conteúdo desapareça completamente na análise feita por Freud: nela não subsiste traço algum de tudo isso; tudo é esmagado, moído, triangulado no Édipo, tudo é apoiado no pai, de maneira a revelar o mais cruamente a insuficiência de uma psicanálise edipiana[5].

 

Julia Kristeva escreveu um livro que se tornaria um clássico acadêmico, Sol negro: depressão e melancolia, onde encontramos teorizada uma estrutura subjacente a Édipo, na verdade um de seus mais refinados produtos: a psicanálise enquanto obra de arte. Édipo como artista contemporâneo está na idade do cinismo, a fase da acumulação de capital, quando ele faz “do próprio luxo um meio de investimento, e assenta todos os fluxos descodificados sobre a produção, num ‘produzir por produzir’[6]”. Mas podem perguntar sobre o por quê do luxo, o por quê do cinismo, já que o artista Édipo tem a “necessidade” da produção: a idade do cinismo está vinculada à era do capital financeiro, do capital enquanto estoque de receitas livres, auto-reprodutor (desagregado da produção física), também das “crises” existenciais e financeiras que sacudiram a era pós-Nixon[7] e deram o tom da filosofia e do gosto estético do período da Guerra Fria. Nada de Oscar Wilde ou romantismo. Tenho estoque livre de capital: vou extorquir sobretrabalho – essa a conjunção pressuposta na “teoria da dependência” de Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra. Tenho um capital relativo, acima da média: vou apostar na bolsa ou até nos fundos de renda fixa, no “capital-Deus de onde parecem emanar todas as forças do trabalho[8]” – as duas opções do escritor que tem a possibilidade de almejar o mercado editorial (claro que não falamos aqui de dinheiro somente – quantos escritores surgiriam se esse fosse o caso…). Os métodos psicanalíticos alternativos experimentados por Félix Guattari nos conduzem através de um embate freqüente travado durante todo o anti-Édipo: quem vai pagar a conta da análise? Se muitas vezes são as situações mais cotidianas que induzem uma pessoa a procurar o tratamento psicoterapêutico, por que nunca se toca no assunto do dinheiro? Quem pagará pelo sistema de dívida infinita que se torna a psicoterapia, pois, onde a cura? Quando há, em quantas prestações será paga? E a cura efetiva, qual é? A submissão final ao ídolo, à “representação antropomórfica do sexo”? O regresso à “lei do pai”? A psicanálise proposta por Kristeva é uma alternativa aos meios comuns de terapêutica. O paciente capaz de extorquir sobretrabalho (reconhecimento, nome, carisma) ou o que tem meios suficientes para fazer uma aposta, não precisam mais se preocupar com a questão da dívida. Rendem-se o culto a Édipo da forma mais sofisticada, através da fabricação do que posteriormente será vendido como obra de arte. Recebe-se dinheiro por isso e o culto a obra de arte é também a forma mais sofisticada de cura, de massagem do ego, de retomar a posse da vontade de poder. Afinal, a cura se deu através de um meio superior – a criatividade artística – e não pela análise tradicional, cujos resultados nem sempre são tão visíveis ou eficientes.

No romance de Ricardo Lísias, Divórcio, que usaremos aqui como caso de estudo da sub-literatura brasileira contemporânea, encontramos todos os traços de Chéri-Bibi, herói de romance homônimo escrito no início do século XX, do autor francês Gaston Leroux. É a história de um condenado por um crime que não cometeu e que faz uma cirurgia plástica que acaba fazendo-o ficar com a face do verdadeiro assassino. Com o novo rosto Chéri-Bibi casa e é feliz com Cécily, irmã do sujeito assassinado pelo portador do rosto original. Mas este desenrolar posterior da trama talvez seja muito sofisticado para o autor em questão, Ricardo Lísias. Não existe nada que nos remeta a um enredo novelesco deste jaez, nada dostoievskiano ou alguma hipótese do tipo, por mais remota que seja. É simplesmente a história de alguém condenado por um crime que acha que não cometeu. Acha, pois a história toda é um desenrolar dos desencontros amorosos de um casal recém-desquitado, mas cujo casamento não ultrapassou os quatro meses de duração. O máximo que acontece é o narrador-autor usar de meias desculpas enquanto narra sua auto-superação através de uma analogia bem original, a da superação dos quilômetros da corrida de São Silvestre… Verdade ou mentira? Não importa. O que está em jogo é como o autor se expressa através da arte (ou da tentativa de arte), e os detalhes sobre o que de fato aconteceu com a pessoa física, pelo menos na análise estética, são minúcias secundárias. No mais, uma obra vulgar nada mais expressa do que uma vida similar, pois

 

A terra está morta, o deserto cresce: o velho pai está morto, o pai territorial, e também o filho, o Édipo déspota. Estamos sós com nossa má consciência e com nosso tédio, com nossa vida em que nada acontece; nada mais do que imagens a girar na representação subjetiva infinita. Porém, reencontramos a força de acreditar nessas imagens, força que nos vem do fundo de uma estrutura que regula nossas relações com elas e nossas identificações como tantos outros efeitos de um significante simbólico. A “boa identificação”. Somos todos Chéri-Bibi no teatro, gritando diante de Édipo: eis um tipo como eu, eis um tipo como eu! Tudo é retomado, o mito da terra, a tragédia do déspota, como sombras projetadas num teatro. As grandes territorialidades desmoronam-se, mas a estrutura procede a todas as reterritorializações subjetivas e privadas. Que operação mais perversa é a psicanálise: culmina-se nela esse neoidealismo, esse culto restaurado da castração, essa ideologia da falta que é a representação antropomórfica do sexo[9]!

 

Sempre a procura pela “boa identificação”, pela “bela imagem”, por algum espelho que nos console, alguma desculpa, alguma bengala ou meia culpa. Que belo encontrar no final do romance uma singela auto-crítica como essa: “o livro tem ainda outros problemas. Alguns trechos são confusos e a oscilação, obviamente proposital, entre o discurso no passado e em menor quantidade outro no presente pode prejudicar a leitura[10]”. Ainda bem que Vossa Excelência viestes nos esclarecer! Com certeza, fará toda a diferença depois de páginas e mais páginas de uma São Silvestre no deserto, num deserto de idéias. “Também não consegui esclarecer os diálogos onde deveria colocar aspas”. Aí, sim! Agora, se há problemas, nós teremos uma ferramenta a mais para ampliarmos nossa compreensão numa futura leitura a ser feita caso tivermos acesso ao Inferno. Existem outros trechos ainda mais profundos, mais comovedores. Ah, a “boa identificação”!

 

Para quem precisa completar vinte e um quilômetros, dar atenção a uma dor ameaçadora, no final do dezenove, seria autoindulgência demais. É melhor trocá-la pela concentração e procurar ânimo no esforço de quem está por perto. Todo mundo se empurra um pouco para alcançar a linha de chegada. Ontem, li as vinte páginas finais de três livros de Samuel Beckett. Pode parecer estranho, mas eles têm muita ligação com Divórcio. Não vou discuti-la. Seria um recurso evidente para esconder que estou buscando fôlego lá no fundo[11].

 

É comum durante todo o livro esta postura escapista do autor. Como se palavras breves não pudessem ser nada mais do que são, poucas palavras que nada explicam. O oráculo chinês, o sábio de poucas palavras. Não: o cinismo. Procura-se, na verdade, percorrer superfícies planas para superar limites imaginários. A São Silvestre como analogia da superação íntima não é uma metáfora criativa porque nada mais é do que um ato de força, de tentativa de penetrar os domínios da arte através da violência, de violação da mais essencial qualidade poética, a sinceridade. O que significa ler as últimas vinte páginas de três livros, seja de quem for? Beckett entra na história para quê? Ele tem muita ligação… Sim. Toda. Afinal, “a sensação de força é maior do que qualquer dor”, pois o livro vai chegando ao fim e “mesmo sem ter conseguido contornar todos os defeitos que enxergo nele, sinto-me forte”. E o leitor tem que engolir tudo se possuir estômago para chegar até o final, se possuir “aquele estranho vigor que toma conta do corpo inteiro com tanta intensidade que os incômodos desaparecem”, como o da vítima de estupro que não mais sente dor e se resigna em meio ao choro abundante – aquele estranho vigor, vigor das lágrimas incessantes que como que cobre, que faz desaguar a dor fundamental, a dor moral. O fim do incômodo do estuprador que agora está de frente a uma vítima passiva, no ponto determinado em que ela não tem mais forças para se defender. O vigor, o vigor físico, as vigorosas lágrimas que inundam o corpo: este trabalho de física elementar é como o princípio do Panóptico de Jeremy Bentham, sua máquina nazista que funciona com o princípio do prazer e da dor com o fim de escravizar suas vítimas às sensações corporais e que, tal como o princípio econômico de seu amigo Adam Smith (o egoísmo, o interesse pessoal como propulsor da riqueza das nações), procura transformar os seres humanos em puros animais, em homens primordiais, os macacos que viviam no paraíso perdido pela oligarquia britânica, financeira e transnacional, o paraíso de Tróia arrasada ou da guerra termonuclear mais e mais adiada. Afinal, Ricardo Lísias (autor ou personagem?) escreveu para a Granta, é amigo do editor da Piauí, diz sem vergonha que o leitor de seu romance costuma procurar pelos outros: “Se meu objetivo inicial era deixar para trás todo o mal-estar que senti ao ler o diário, Divórcio é um romance bem-sucedido[12]”.

Depois de espalhar calúnias sobre a tarefa do escritor, depois de posar de campeão na cena ridícula (sempre a boa identificação: “Voltei de metrô. No vagão, vi que um garoto apontava para mim e comentava algo com a mãe. Eu não tinha tirado o número de peito da camiseta. Fiz um sinal de positivo, mas ele olhou para o outro lado. Deve ser tímido[13]”), Ricardo Lísias consagra sua pantomima capitalista-edipiana com um singelo tratado: “Uma resposta ao caos: sobre o amor”. Que delicado! Que delicado se não sentíssemos vontade de vomitar com o simples cheiro dos excrementos, do que foi deixado para trás, “todo mal-estar que senti ao ler o diário”. E seu início também é bem delicado – e pegajoso: “Oi”. Que bonitinho!… Olha aqui minha queridinha, meu amorzinho (palavras minhas), “vou usar a primeira pessoa para retirar a distância jurídica que você resolveu adotar” (grifo meu). Enfim, não vemos a mulher no tratado, tampouco a enxergamos no livro inteiro. Vemos somente o autor-personagem com seu sofrimento, sua superação, pois “você [a mulher] procura é manter um vínculo comigo. Você não compreende o amor e o torna sinônimo de caos. Vou tentar ser claro: suma da minha vida![14]”. Poderíamos resumir o livro todo nessa passagem. Ou numa outra ainda mais singela: “Deixe-me em paz. Suma[15]”. Poderíamos resumi-lo todo a partir dessa passagem, e só dela, porém ele não é só isso. Pelo contrário, é um excelente caso de estudo, nessa fase em que

 

Reencontramos, então, a produção de produções,a produção de registros, a produção de consumos – mas, precisamente, reencontramos isso tudo nesta conjunção de fluxos descodificados que fez do capital o novo corpo pleno social, ao passo que o capitalismo comercial e financeiro, nas suas formas primitivas, se instalava somente nos poros do antigo socius, cujo modo de produção anterior ele não modificava[16].

 

É a idade do cinismo, que vem acompanhada de uma estranha piedade, junto a um frenético “produzir por produzir”. Produzir para “jogar fora”, produzir para falar que você não presta (e a quem interessa esse “você”?), produzir para fazer auto-análise e ganhar dinheiro e status com isso. Esta é uma das modalidades do “teatro da crueldade” que Deleuze e Guattari colocam como o início da produção no socius, mas que na verdade o perpassa de ponta a ponta, potencializando-se com a difusão do princípio oligárquico[17]. Sem a crueldade, sem o instinto de crueldade não se chega a grau tão elevado de sofisticação produtiva, de cinismo, da estranha piedade aprendida no culto ainda que velado a Zeus, ao deus barbudo, ao Panóptico – não importa. “Reúnem-se, retomam-se todas as crenças em nome da estrutura do inconsciente: somos ainda piedosos. Por toda parte o grande jogo do significante simbólico que se encarna nos significados do imaginário – Édipo como metáfora universal[18]”. Os autores da França parafraseiam Marx ao afirmarem que o capitalismo só sobrevive na medida em que pode criticar a si próprio, em que a história universal passa a ser contingente, “singular, irônica, crítica[19]”. “Codificar o desejo – e o medo, a angústia dos fluxos descodificados – é próprio do socius. Como veremos, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda[20]”.

Os autores seguem em linhas gerais a crença de Marx de que a história moderna, fundada sobre o capitalismo, é capaz de fornecer a chave explicativa para todos os fenômenos da história universal. É claro que o capitalismo de Deleuze e Guattari é bem outro, tanto que não anima a economistas, historiadores ou cientistas sociais a estudá-lo[21]. O que não deixa de ser um erro, relegando toda uma crítica subjacente ao existencialismo e, consequentemente, ao hegelianismo, fora de questão. Assim, é mal aproveitado pelos filósofos, pelos literatos, enquanto profissionais como os arquitetos conseguem tirar excelentes conclusões para suas visões de cidade a partir dos conceitos destes autores. Inclusive, é implícito no Anti-Édipo uma Anti-Mímeses, o clássico de Auerbach profundamente influenciado pela filosofia da história de Hegel, assim como pelo conteúdo estético das obras de Aristóteles. A verdade é que a história antiga é que fornece a chave explicativa para muitas das questões modernas, inclusive as financeiras ou monetárias. O Oráculo de Delfos era o centro da cunhagem de moedas e o tipo de Banco Central do mundo antigo, onde as pitonisas, enlouquecidas pelo gás etílico que emanava nas fendas no chão do templo, eram as possuídas por Apolo, enquanto os sacerdotes, seus eunucos, cobravam para interpretar as mensagens, como a que destruiu o tirano da Lídia, Croesus[22]. Os fluxos de dinheiros que passavam pelo Oráculo e por suas filiais nas diversas cidade-Estado financiavam dentro da Grécia o partido oligarca comandado pela Babilônia com seu culto a Marduk. Uma das mais importantes contribuições de Lyndon LaRouche para a ciência econômica é o seu conceito transtemporal, o “princípio oligárquico”, desenvolvido na Europa com seu marco inaugural na Guerra de Tróia, se espalhando pelas facções ligadas a Marduk e a Aristóteles (seu representante grego ao tempo de Platão) até o assassinato de Alexandre o Grande, e cujo apogeu na Antiguidade se deu com o advento do Império Romano. “O método de Delfos, nas suas características essenciais, moldou a forma dos futuros Impérios: Roma, Bizâncio, Veneza, e a Nova Veneza/Império Britânico de hoje[23]”. Para sermos claros, por império britânico entenda-se império anglo-americano. O modelo é britânico, mas aperfeiçoado in extremis pelos estadunidenses. Oxalá não fosse tão difícil para esse povo uma auto-crítica que nós brasileiros fazemos sem nos importar (e com a competência que nossos pensadores sempre fizeram), mas que também, por outro lado, pode ser traduzido no “complexo de vira-lata”, como o que vemos expresso nos modelos mais modernos de comunicação midiática em nosso país. contudo, quando LaRouche e seus associados apontam para o mal encarnado na City de Londres e em Wall Street, dão uma volta por detrás deste empecilho e tocam novamente a universalidade das idéias. O Brutish Empire é um conceito universal, assim como seu antídoto, o “sistema de crédito hamiltoniano”.

Voltando ao nosso “caso de estudo”, estamos, qual Édipo, frente a uma triangulação: o cinismo, a piedade e a crueldade. O pobre-coitado que vemos no autor personagem de Ricardo Lísias que se transforma em herói com a corrida da virada do ano. O herói solitário que venceu o enigma lançado por Édipo, mesmo colocando no meio do “romance” fotos suas com o avô, a mãe, etc. O pai não aparece (são mínimas as linhas dedicadas ao pai do autor-personagem que aparecem como meias-desculpas – mais algumas delas). Talvez esta seja uma literatura bastarda, um Édipo sem pai. Mas não vamos nos apressar na análise. Julia Kristeva é tão popular quanto o que conhecemos hoje por Bail-In e Bail-Out, dois totens modernos. Essa analogia a princípio esdrúxula é eficaz porque liga esses princípios discordantes a partir da compreensão da fase de ultra-sofisticação capitalista vivida atualmente. A estranha piedade… Quando Barack Obama inaugurou internacionalmente o regime de resgate bancário (bail-out), todo o espectro político viu nele o porque da Paz, o porque de seu prêmio. Os mais reacionários o saldavam por estar tirando da bancarrota o que nunca foi saudável, ou seja, o sistema financeiro monetarista-especulativo. Os progressistas saldavam suas “medidas keynesianas” de intervenção estatal. E não achem que o autor que escreve estas palavras não tenha lado, que seja um “espectador imparcial” como os protestantes de junho ou a mídia hegemônica. Não é porque reprova o engano de uns que aprova o erro, a maldade, de outros. Obama, através do resgate bancário, deu início a sua política de “flexibilização quantitativa”, imprimindo papel moeda até a saturação, até o ponto em que pudesse espalhar uma onda hiper-inflacionária mundo afora. E ainda acreditam que fenômenos como a “bolha imobiliária carioca” seja o problema de uma cidade, que ela não está ocorrendo mundo afora e com diferentes características. E ainda acham que o problema do preço dos alimentos é culpa dos tomates que Ana Maria Braga colocou no pescoço. A estranha piedade de Obama, suas medidas keynesianas, seu amor aos bancos e ao sistema financeiro… Agora tudo isso vira, muda de lado. O que se fala agora é de “resgate interno” (bail-in), e o presidente do Banco Central brasileiro corre para fazer igual. Gente, é o seguinte: não é justo o Estado se endividar para pagar as dívidas dos bancos. Logo, quem tem que pagar suas dívidas é quem as contratou. Corretíssimo! Daí, com a política do “resgate interno” quem paga a dívida dos acionistas, dos controladores do banco e agentes do sistema financeiro, são os correntistas, quem tem poupança, aplicação ou simplesmente aqueles que têm contas-salários nos bancos. É o modelo cipriota. É o caso do Bankia, da Espanha. É o tipo de legislação que procuram implantar tanto no Brasil, como nos EUA, como em todos os lugares. Quem contrata é quem paga. Mas quem é o quem? Ah, o cinismo! Ah, essa estranha piedade!… Resgatar os bancos, salvar o sistema financeiro, quem se endividou é quem paga. Sim… Julia Kristeva fala como o Oráculo de Delfos. Ao lado do famoso “conheça a ti mesmo” o que transforma essa sentença em algo realmente infame, “pense como um mortal”. “Para um grego do quinto século visitando o templo, passaria a idéia de que ‘você não é um deus, você nunca alcançará tamanho poder – você é apenas uma besta’. O velho Olimpo agora foi transformado num sistema de oráculos e o centro de influência dessa rede foi colocado no picadeiro de Delfos[24]”. Encima do picadeiro das paradas de sucesso encontramos o Divórcio. Sem duplo sentido, por favor. Se transforme numa besta, mostre a besta que você é em público, assuma sua intimidade para todo mundo. Afinal, você nada mais é do que um humano, ou seja, um ser qualquer, um ser submetido a Édipo, uma escrava sexual de Apolo, um idólatra do mercado livre e do deus invisível, um cidadão consciente e um protestante de junho devidamente conectado às redes sociais. Um keynesiano? Um capitalista ultra-sofisticado? A verdade bárbara, o deus despótico ainda presente. A crueldade.

A calúnia à tarefa do escritor, o teatro da crueldade, a tatuagem, a tortura, o estupro. A inscrição como ferramenta da máquina territorial primitiva, a máquina que marca os corpos, a “essência do socius registrador, inscritor” – essa a crueldade moderna, essa nossa nova religião. O trabalho da memória, da catalogação, do que se entende por “voltar para si”. A numerologia dos analistas econômicos, a matemágica do livre mercado, o genocídio como filosofia verde, a Idade Média estetizada num mundo de cataventos eletrogeradores, consiste nisso: “tatuar, excisar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar”. Você também é como eu, imagem e semelhança de Édipo. “Fluxo de mulheres e crianças, fluxo de rebanhos e sementes, fluxo de merda, de esperma e de menstruações, nada deve escapar (…) o corpo pleno da deusa Terra reúne sobre si as espécies cultiváveis, os instrumentos aratórios e os órgãos humanos[25]”. Não a tarefa do escritor, mas do inscritor, do tatuador, da maquina territorial primitiva, cada vez mais cruel quanto menos primitiva e mais sofisticada se acredita a sociedade.

 

A máquina territorial primitiva codifica os fluxos, investe os órgãos, marca os corpos. Até que ponto circular, trocar, é uma atividade secundária em relação a esta tarefa que resume todas as outras: marcar os corpos, que são da terra. A essência do socius registrador, inscritor, enquanto atribui a si próprio as forças produtivas e distribui os agentes de produção, consiste nisto: tatuar, excisar, incisar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar. Nietzsche definia “a moralidade dos costumes como o verdadeiro trabalho do homem sobre si mesmo durante o mais longo período da espécie humana, todo seu trabalho pré-histórico”: um sistema de avaliações que tem por força de direito em relação aos diversos membros e partes do corpo (…) Diz Nietzsche: trata-se de dar uma memória ao homem; e o homem, que se constituiu por uma faculdade ativa de esquecimento, por um recalcamento da memória biológica, deve arranjar uma outra memória, que seja coletiva, uma memória de palavras e já não de coisas, uma memória de signos e não mais de efeitos. Sistema da crueldade, terrível alfabeto, esta organização que traça signos no próprio corpo: “Talvez nada exista de mais terrível e inquietante na pré-história do homem do que sua mnemotécnica… Isto nunca ocorria sem suplícios, sem martírios, sacrifícios sangrentos, quando o homem julgava ser necessário criar uma memória para si; os mais apavorantes holocaustos, os mais hediondos comprometimentos, as mutilações repugnantes, os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos… Isso nos leva a compreender o quão difícil é erigir na terra um povo de pensadores!”. A crueldade nada tem a ver com uma violência qualquer ou com uma violência natural, com que se explicaria a história do homem; ele é o movimento da cultura que se opera nos corpos e neles se inscreve, cultivando-os. É isto que significa crueldade. Esta cultura não é o movimento da ideologia: ao contrário, é à força que ela põe a produção no desejo e, inversamente, é à força que ela insere o desejo na produção e reprodução sociais. Com efeito, até a morte, o castigo e os suplícios são desejados, e são produções. Faz dos homens e dos órgãos peças e engrenagens da máquina social. O signo é posição de desejo; mas os primeiros signos são signos territoriais que fincam suas bandeiras nos corpos. E se quisermos chamar “escrita” a esta inscrição em plena carne, então é preciso, com efeito, que a palavra falada supõe a escrita, e que esta é este sistema cruel de signos inscritos que leva o homem a ser capaz de linguagem, e lhe dá uma memória de palavras[26].

 

Ah, uma “longa citação”! Não: um parágrafo longo demais! A verborragia, o tom de voz elevado, a irreverência, o sarcasmo. Uma ironia que não siga o modelo do bem comportado Machadinho (do modelo de “homem cordial”, como escrito no Raízes do Brasil) é suficiente para causar espanto, indignação, raiva, e até rancor. O suficiente para fazer funcionar o aparelho de troca. Afinal, como sugere Deleuze, quem disse que o sofrimento infligido ao criminoso é capaz de sanar sua culpa? O teatro da crueldade, a visão aterradora de quem mira o olhar de todos aqueles que se comprazem ao admirar os sofrimentos de quem paga a dívida. É por isso que as máquinas e os fluxos esquizofrênicos de Deleuze e Guattari são ambivalentes. Não só o velho olhar do senhor que se compraz ao ver seus escravos sendo chibatados; não só o regozijo do velho burguês que troça os que não tiveram a mesma sorte, da incapacidade dos que não conseguiram tornarem-se senhores e não mais escravos de um mundo livre, global. No atual sistema da dívida o que se assiste é uma rebelião escrava às avessas. Todos têm que entrar no coro, “eu também sou Édipo”. E quem chega nessa pura estetização da figura do senhor, através da literatura ou até daqueles tipos (muitas vezes literários) que “venceram na vida”, são facilmente reconhecíveis pelas inscrições que voluntariamente, explicitamente, marcam em seus corpos, em seus discursos, em suas obras. São facilmente reconhecíveis para servirem testemunhas de Édipo, de sua promessa, de seu sistema de troca e de dívida. São as testemunhas de Édipo as figuras do teatro fantasmático, do teatro de pura extensão e imanência, de meras imagens – show de pirotecnia, espetáculo global, fumo de Delfos por meio do qual se manifesta o deus invisível que faz multiplicar “toda a estupidez e a arbitrariedade das leis, toda a dor das iniciações, todo o aparelho perverso da representação e da educação, os ferros em brasa e os procedimentos atrozes” que “têm precisamente este sentido: adestrar o homem, marcá-lo em sua carne, torná-lo capaz de alianças, constituí-lo na relação credor-devedor que é por ambos os lados uma questão de memória[27]”.

O ser marcado aparece assim no livro de Ricardo Lísias. Depois de ficar quatro dias sem dormir:

 

Senti que tinha caído no chão. Não me lembro do impacto. Não faz diferença. Estendi o braço direito e ele se chocou com a cama. Ardeu porque meu corpo estava sem pele. O caixão continuava ali. De alguma fora, meu queixo acertou o joelho esquerdo. A carne viva latejou e ardeu. Como o choque foi leve, não durou muito. A sensação de queimadura também passou logo. Mesmo assim, meus olhos reviravam. Alguns movimentos são claros para mim. Estão em câmera lenta na minha cabeça[28].

 

E o livro também poderia acabar por aqui. A metáfora do diário, da corrida e do corpo sem pele é tudo o que o autor tem a oferecer. O protagonista resolve pedir divórcio quando descobre o diário de sua mulher com algumas observações que o surpreendem. Ele não dá atenção a Broadway, vive trancado num quarto lendo e não vive, não sabe dirigir, não tem e não quer ter casa própria, a mulher é quem paga as contas nos restaurantes chiques porque ele não tem e não quer ter poupança, acorda todo dia na mesma hora para escrever e não se arrisca em aventuras, e assim por diante. Tudo o que deixaria qualquer ser humano numa profunda crise existencial. O autor-protagonista ouve sem querer (acha o diário) algumas palavras diretas (com se diz, “uma real”), e “treme nas bases”. Daí descama. Fica à flor da pele. Aí, o que ele faz? Vai escrever um livro, ora. Ganhar dinheiro e contar história é uma modalidade ainda não estudada pelos especialistas no fenômeno da “nova classe-média”, talvez por estarem muito aficionados com a classe C.

Continua na publicação Como se regalar no Inferno: O Corpo Presente de J. P. Cuenca

NOTAS

[1] Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 11.

[2] Idem, p. 24.

[3] Idem, p. 81. Grifos no original.

[4] Idem, p. 484.

[5] Idem, p. 124. É importante destacar que os autores falam de uma “psicanálise edipiana”, ou seja, em momento algum reduzem sua crítica a psicanálise freudiana somente.

[6] Idem, p. 298.

[7] Para não nos acusarmos de estarmos utilizando alguma espécie de “signo oculto” com a expressão “era pós-Nixon”, afirmamos que isto significa simplesmente a era que se seguiu ao desmantelamento do sistema de Bretton Woods, ou seja, do regime de trocas fixas entre as nações, era que anunciou o surgimento dos petrodólares e da desregulamentação financeira desbragada, cujo fim foi o “sistema da dívida” preconizado pelo Consenso de Washington e o Plano Brady, assim como o sepultamente da lei Glass-Steagall dentro dos EUA.

[8] Idem, p. 300.

[9] Idem, p. 406.

[10] Lísias, Ricardo. Divórcio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, p. 207.

[11] Idem, p. 211-2.

[12] Todas as citações deste parágrafo são do livro idêntico, na p. 212.

[13] Idem, p. 231.

[14] Idem, p. 232.

[15] Idem, p. 235.

[16] Deleuze; Guattari, 2010, p. 300-1.

[17] Como se o império não fosse tal pelo fato de ser selvagem. O império não é forma superior do capitalismo, pois é ele quem funda a crueldade, a “razão bárbara”. O capitalismo frente à oligarquia comandante do império é simples jogo de palavras, é uma abstração a mais como encontramos abundantemente na teoria monetária. Não por outro motivo, Lyndon LaRouche tem o O Capital como um cansativo livro de contabilidade e não de economia real: LaRouche, Lyndon. What your accountant never understood: The Secret Economy. Executive Intelligence Review, 17 de abril de 2010.

[18] Idem, p. 404.

[19] Idem, p 186.

[20] Idem, p. 185.

[21] Existe aqui uma excelente proposta de estudo para esses profissionais: “As nossas sociedades modernas procederam a uma vasta privatização dos órgãos, o que corresponde à descodificação dos fluxos tornados abstratos. O primeiro órgão a ser privatizado, colocado fora do campo social, foi o ânus. O ânus foi quem deu seu modelo à privatização, ao mesmo tempo em que o dinheiro exprimia o novo estado de abstração dos fluxos. Donde a verdade relativa das observações psicanalíticas sobre o caráter anal da economia monetária”. Pág. 189 do Anti-Édipo.

[22] Ele perguntou ao oráculo se deveria fazer guerra ao império persa, e assim foi respondido: “se ele fizer guerra contra os persas, ele iria destruir um grande Império”. Croesus perde a batalha e ao interpelar novamente o oráculo, este responde que deveria ter perguntado de novo, agora para saber qual império sairia destruído.

[23] Havely, Aaron. Idem.

[24] Havely, Aaron. Idem.

[25] Deleuze; Guattari, p. 188.

[26] Idem, p. 191-3.

[27] Idem, p. 252.

[28] Lísias, Idem, p. 7.