A guerra total

Nota crítica ao conceito de “guerra híbrida” seguindo as diretrizes do platô Nomadologia, de Deleuze e Guattari.

O ano de 2016 foi um ano terrível. Ano de golpe no Brasil, a América do Sul sacudida de cima a baixo, expansão da OTAN para o leste na esteira da propagação das primaveras árabes, dos múltiplos golpes de Estado, entre tantos outros fatores. Foi uma guerra total, que tem diversas características, e que foi meticulosamente conceituada décadas atrás por dois filósofos “menores”. Sempre considerei como muito importante para toda a teoria política moderna o capítulo sobre a Nomadologia, do livro chamado Mil Platôs, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Dizem eles que “a guerra total não é somente uma guerra de aniquilação, mas surge quando a aniquilação leva para ‘centro’ não só o exército inimigo ou o Estado inimigo, mas a população inteira e sua economia”. Isso é uma situação de fato desde a crise de 2008, que compõe um amplo repertório, desde a manipulação do preço do petróleo para atingir (primeiramente) a Rússia, a questão das sanções econômicas (guerra irregular moderna), fora talvez o que seja mais central, o amplo projeto de vigilância e mineração de dados (como exposto pelo Snowden) e as primaveras coloridas que lhe são contemporâneas – quero dizer, estas não existiriam sem aquelas. Por si só esses fatos – e se poderia citar mais uns tantos – já caracterizam o que seria uma “guerra total”.

Entre outras coisas, no mesmo “platô”, os autores consideram que o fascismo não é nada mais do que um esboço da guerra total, já que o objetivo da guerra total é a paz, ou seja, a paz do Terror ou a da Sobrevivência. De um modo geral, essa é a situação atual, principalmente nos últimos anos, e em largas partes do mundo, inclusive no chamado “setor avançado”. A guerra nuclear entra em jogo se ela for necessária para manter esse “estado de paz”. Daqui entra o questionamento proposto pela apresentação feita por Putin, em março deste ano, do novo e moderno arsenal militar russo, fundamental para o debate a respeito do possível embate termonuclear entre superpotências  (porque esta é uma de múltiplas modalidades de embates entre os diferentes blocos políticos). Mas não só isso: a doutrina do “first strike”, chamada também de “doutrina utópica do OTAN”, é defendida pela facção mais belicista que existe (doutrina que acredita que, devido ao desenvolvimento do arsenal nuclear no ocidente, um único ataque surpresa seria capaz de imobilizar a defesa do oponente e aniquilá-lo de uma vez por todas). A eleição de Trump acabou por botar água nela, já que, neste quesito, Hillary é a representante do partido da guerra. Existe também o Brexit (caso se considere a UE como um projeto de livre-mercado que tira dos países o poder de controlar a própria moeda – e a emissão de crédito nacional) e todo um refluxo que tende a se acentuar, na América do Sul, contra as consequências das guerras iniciadas por aqui de 2013 para cá, em diversas frentes. Esta última, em especial, tende a ganhar força com a consolidação da Venezuela como pátria soberana e, por motivos opostos e complementares, caso o mesmo ocorra no Brasil a partir do que será decidido nos próximos meses.

Por outro lado, o fortalecimento das propostas dos chineses de “cooperação ganha-ganha” com a Nova Rota da Seda (terrestre e marítima – com implicações diretas para toda a América Latina), tende a colocar mais água nessa história. Mesmo se for considerada correta a hipótese de Trump estar agora seguindo os conselhos de Kissinger, ou seja, apertar contra a China para dilatar com os russos (uma guerra comercial seria mais vantajoso que uma guerra militar), todas as sanções e guerras econômicas estão indo diretamente contra o próprio EUA e a União Europeia.

O que seria a burrice do Trump, indiretamente, favorece boa parte do mundo. Seria melhor se os EUA usassem a imensa dívida que tem com os chineses para reverter esse débito em crédito para projetos de longo prazo em infraestrutura, lançando os americanos para dentro do projeto Um Cinturão, Uma Rota (essa a verdadeira utopia atual devido as condicionantes “geopolíticas”). Do mesmo modo, a Europa deve se relacionar diretamente com a Rússia e poder alcançar a integração eurasiática, sonho do século XIX, e que a doutrina de “choque de civilizações” de Brzezinski (reelaboração no contexto americano das ideias de sir Halford Mackinder e da Royal Society) e toda a maluquice da Guerra Fria fez só por adiar. Isso estava implícito, inclusive, no projeto de descolonização e de luta contra o império britânico que Roosevelt somente ensaiou no pós-guerra, já que morreu logo em seguida.

Como se vê, o fator populacional, como apontado por Deleuze e Guattari, é central para compreendermos uma situação onde a população como um todo e sua economia poderá ou está sendo comprometida, ou se vislumbramos algum projeto de paz verdadeira, para além das falsas ideologias imperialistas. O conceito de “guerra híbrida” não comporta esta visão de conjunto. Antes, valoriza de maneira algo genérica diferentes modalidades de enfrentamento que não passam pelas vias militares. Ora, no chamado “estado de direito”, qualquer um sabe a guerra que se pode mover através de processos judiciais e mesmo ouve ou imagina a respeito de guerras cibernéticas, por exemplo… Nada disso, por si, contempla a guerra como meio de promover o genocídio de populações inteiras (onde o fascismo foi apenas um esboço e um plano econômico de austeridade, com toda a legitimação social que possa conseguir, pode ser ainda mais assassino), tampouco tem em conta que, nesse contexto, a guerra nuclear é apenas mais um capítulo de uma guerra total que, de maneiras variadas, pode não se utilizar desse expediente, e mesmo procurar evitá-lo para manter seu suposto “estado de paz”.