O Anti-Édipo e a Contracultura

“A origem do mundo”, de Gustave Courbet, devidamente trajada para o Facebook

O Anti-Édipo, chamado na época de seu lançamento de “livro-acontecimento”, tamanho o impacto que causou na França no momento, teve a ousadia de dizer não ao “sexo-rei” e mesmo assim continuou a ser considerado um livro subversivo. Lançado logo depois de maio de 1968, da revolução sexual, fruto da contracultura, mas também do lançamento dos anticoncepcionais, da revolução cosmética e do cinema colorido de Hollywood, ainda é um ponto de controvérsia sua afirmação do desejo junto ao escárnio frente ao que chamou de um neoidealismo, “a representação antropomórfica do sexo”.

Como entender, portanto, o sexo no Anti-Édipo em meio ao contexto da Contracultura?

A revolução cultural de 1968 não deve ser encarada num sentido unívoco, ou seja, como simples apologia da maturidade dos movimentos estudantis. Existe um contexto mais amplo que, sem analisá-lo, não se compreende os desdobramentos dessa mesma revolução e como, poucos anos depois, surge o “livro-acontecimento”, o Anti-Édipo.

Daniel Estulin narra o caso da psicologia do povo estadunidense depois do assassinato de Kennedy:

O que deveria estar muito claro para todo aquele que estuda a psicologia das massas é o quase imediato declive que sofreu o povo estadunidense como resultado desse surpreendente assassinato transmitido pela televisão. Há muitos indicadores de tal transformação. No prazo de um ano, os estadunidenses deixaram de usar roupas de algodão, tingidas de cores naturais e tons suaves, e começaram a colocar roupa de fibra artificial e cores chamativas. A música popular se tornou mais estridente, mais rápida e mais cacofônica. As drogas saíram pela primeira vez dos guetos boêmios da sub-cultura e apareceram entre a gente comum. Entraram na moda todas as classes de extremismos. Começaram a ser vistas no horizonte revoluções nas ideias e no comportamento, desde os Beatles até Charles Manson, desde o amor livre ao LSD[.

Estulin, Daniel. El Instituto Tavistock. Barcelona: Ediciones B, 2011, p, 99-100.

A chamada “geração de 68” sofreu diretamente o impacto da política subversiva dos altos escalões do poder. No caso da França, são visíveis os amplos debates a respeito da participação juvenil e dos intelectuais num movimento de renovação de ideias. Foucault e Deleuze, por exemplo, ao contrário de Sartre, que talvez gostaria de ser o mestre-cuca da juventude, pegaram um tema bastante específico para criarem seu engajamento político, o Grupo de Informações sobre as Prisões. Dentro da confusão que se tornou a sociedade francesa com os mais variados protestos genéricos aos estilo “jornadas de junho de 2013” no Brasil, focalizaram um campo de lutas e ajudaram a dar corpo ao importante debate sobre a situação carcerária francesa. A bandeira de Mao não teria razão para ficar levantada.

Mao na França, Mao na China

Nos EUA, como descrito na citação acima, uma nuvem de pessimismo tomou conta da população, influenciando seu modo de vestir e seu gosto musical, o que levou diretamente a contracultura. Esse é outro debate que se pode travar em separado. Contudo, a alusão de Estulin ao correr do livro citado sobre as cartas entre Theodor Adorno e John Lennon, dão conta de como foi fabricado no escopo do Radio Research Project dirigido pelo filósofo, a contracultura. No caso, Lucy in the Skie with Diamonds teria sido escrito pelo própria Adorno, com clara intenção subliminar para animar as festas da época. Eu não vou falar mal de Jimmy Hendrix, no caso, apesar de lamentar a sua morte e a maneira como aconteceu… Porém foram usadas as pestes do pessimismo cultural para alimentar a cultura das drogas nos grandes festivais de rock, inclusive com agentes da CIA (como o infame “Coiote”), que eram os responsáveis pelo fornecimento das novas drogas sintéticas cantadas nas letras dos Beatles.

(pode ser lido a respeito interessante artigo no Cinegnose)

Os lamentáveis episódios que deram vazão a movimentos variados, dos hippies aos ambientalistas, criaram um caldo cultural diante do qual as grandiosas promessas das décadas ´passadas, de Luther King a Kennedy, não puderam mais ser ouvidas. A ação política foi substituída pelo seu fantasma, a revolução cultural de Mao, ou por drogas de outras origens. Os grandes projetos em conjunto passaram a sofrer assédios constantes frente ao crescimento exponencial da máfia ambientalista. Esse nunca foi um “movimento de esquerda” como os olavetes falam, mas um movimento elitista de cabo a rabo, com um de seus inícios no aristocrático Clube de Roma, e procurou capturar a juventude em marcha sendo, por suas próprias características, mais um dos tipos de narcóticos produzidos em escala industrial, sintéticos ou não, durante aqueles anos.

Se de um lado houve a liberação generalizada das drogas, algo que foi devidamente acompanhado e até dirigido pela CIA e pelo Projeto de Pesquisa em Rádio, de Adorno, houve o que se entende por “revolução sexual”. Uma luta legítima, de uma parte, contra costumes patriarcais, impulsionado pelo lançamentos dos contraceptivos orais. O que não se deve esquecer é que esse evento foi contemporâneo de uma revolução da indústria cosmética, impulsionada pelo cinema colorido e por Hollywood. A liberdade de poder fazer sexo sem engravidar, junto não necessariamente ao aumento da beleza das mulheres, mas a sua maior produção estética, fizeram Eros estar em alta como nunca antes visto. A revolução cosmética talvez seja um dado negligenciado pelos historiadores nesse contexto de libertação sexual.

A revolução dos cosméticos da década de 1960

O “livro-acontecimento”, o Anti-Édipo, está nesse contexto, lançado em meio da década de 1970. Porém não era diretamente contra a “revolução sexual”, mas contra a hegemonia de determinado tipo de psicanálise. Como é bem lembrado pelos especialistas, não era exatamente “anti-psiquiatria” (apesar de que se insere no movimento da anti-psiquiatria, junto a História da loucura e uma série de outros livros e movimentos), mas contra certo tipo de psiquiatria. Por exemplo, numa das entrevistas sobre o livro, Guattari lembra que na França os recém-nascidos tinham que passar por psiquiatras antes de sair da maternidade. É contra a hegemonia desse tipo de prática e de um determinado tipo de discurso que o livro se tornou um máquina de guerra (como no conceito que o próprio Guattari e Deleuze criaram).

Não por acaso, Lacan pediu silêncio total de seus discípulos sobre o livro. Logo ele, Lacan, responsável por trazer Freud para a França e tornar a psicanálise popular no país. Será que o “livro-acontecimento” foi algum tipo de máquina de guerra contra o psiquiatra que tudo reduzia ao nível do simbólico e da família, ou seja, que criou uma teoria bastante elaborada que de um modo geral girava ao redor do “Nome do Pai”? Não é por acaso que o relato do presidente Schreber, aquele que tem o “ânus solar”, é retomado no Anti-Édipo para mostrar um caso que ultrapassa em muito os círculos familiares e religiosos:

Acontece que as Memórias de Schreber estão tomadas por uma teoria dos povos eleitos por Deus e dos perigos que corre o povo atualmente eleito, o alemão, ameaçado pelos judeus, pelos católicos, pelos eslavos. Nas suas metamorfoses e passagens intensas, Schreber devém aluno dos jesuítas, burgomestre de uma cidade onde os alemães se batem contra os eslavos, a moça que defende a Alsácia contra os franceses; por fim, atravessa o gradiente ou o limiar ariano para devir um príncipe mongol. Que significa esse devir aluno, burgomestre, moça, mongol? Não há delírio paranóico que não revolva tais massas históricas, geográficas e raciais. O erro seria concluir disso, por exemplo, que os fascistas são simples paranóicos; isto seria um erro, precisamente, porque no estado atual das coisas seria reconduzir o conteúdo histórico e político do delírio a um determinação familiar interna. E o que nos parece mais perturbador é que todo este enorme conteúdo desapareça completamente na análise feita por Freud: nela não subsiste traço algum de tudo isso; tudo é esmagado, moído, triangulado no Édipo, tudo é apoiado no pai, de maneira a revelar o mais cruamente a insuficiência de uma psicanálise edipiana

Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 124.

Os autores sempre se referem a Freud, porém sempre em termos de “psicanálise edipiana” e não “freudiana”. Posteriormente, nas entrevistas, procuram deixar claro que não escreveram o livro contra Freud. Porém seria seu nome usado como um símbolo, como um meio de atacar de um modo geral a psiquiatria francesa, hegemonizada à época por Jaques Lacan? Na descrição acima, um delírio que revolve massas geográficas, históricas e raciais. Não existe “Nome do Pai”, não existe esse neoidealismo de uma religião nova, laica e científica, restaurada. O bebê não deve ser abençoado pelo padre, mas passar pela avaliação psiquiátrica antes de poder levar a vida comum dos seres humanos…

Se deve ser resumido o problema do Anti-Édipo de um modo geral, e tem uma relação direta com a questão sexual, acredito que seja o seguinte: numa época que, por causa do discurso psicanalítico, boa parte dos problemas humanos era remontados a questões sexuais, onde o tema do sexo adquiriu uma predominância talvez nunca antes vista, Deleuze e Guattari simplesmente procuraram mudar o foco de como as pessoas estavam encarando seus problemas existenciais. O sexo é um problema pessoal de cada um, não tem nada a ver com escolhas existenciais mais profundas. Que cada um leve o sexo da maneira que quiser. O problema é sublimar isso, transformar isso no discurso predominante, o chamado “sexo-rei”. Não é pela supervalorização de questões pessoais que a sociedade poderá encarar seus mais difíceis dilemas existenciais.

Esse texto faz parte de um seção, corrigida e ampliada, de publicação anterior, “Há cinquenta anos foi feita uma grande promessa para a humanidade”.