A CNNização das esquerdas

A cegueira branca causada pelos holofotes do poder

Com a coronacrise, todas as teorias da conspiração foram imediatamente canceladas. Não foi pela falta de esforços de alguns, com a contribuição notável de Gorgio Agamben, inesperadamente protagonista das discussões desde o início do que chamou de “invenção de um pandemia”.

Diante dos gráficos expostos diariamente pela mídia, não pode existir razão argumentativa. E o pior disso tudo é que, logo após o Imperial College soltar seus gráficos apocalípticos, Michael Levitt, químico laureado com o prêmio Nobel, lançou sua série de dados que mostraram uma realidade alternativa, não menos consistente (e agora mais acertada depois da consolidação dos dados em muitos países) que a versão londrina no uso de algoritmos.

Tão antigo quanto o Império Britânico, a tradição whig e tory se atualizou durante a nova crise. Para quem se diverte com gráficos, games ou com demais variações da teoria da informação de Norbert Wiener, me parece ser um bom jogo confrontar os dois modelos matemágicos diametralmente opostos. Contudo, apesar de pessoalmente não ser contra nenhuma crença em particular, nesse caso há parcialidade flagrante entre os adeptos da nova euforia estatística.

Para quem gosta mais de informação do que teoria, é só buscar o recente recuo de Neil Ferguson (o “professor lockdown” do Imperial College). Recentemente, disse que, pelos dados atuais, tanto o modelo sueco quanto o britânico são igualmente válidos, sem impactos maiores para a saúde pública. Talvez tenha se pronunciado dessa maneira tanto pela recente distensão dos organismos internacionais sobre o covid-19, ou por ter sido pego – logo ele! – furando a sagrada quarentena para encontrar com sua amante.

Nos mesmos dias, a OMS dava a declaração polêmica de que era bem menor do que se imaginava a transmissão do novo vírus através de pessoas assintomáticas. A entidade teve que correr contra o tempo para “minimizar os danos”. Porém, na mesma semana, soltou vídeo onde dizia que o uso de máscaras de proteção eram adequadas somente em quem convivia ou tratava paciente positivos para covid.

Num caso, o dos assintomáticos, caso levado adiante, faria ruir toda e qualquer justificativa da OMS para a chamada quarentena vertical. No outro, a gente poderia logo abandonar o uso de máscaras, o que, na atual situação, daria uma sensação de quase normalidade a uma ameaça pandêmica que insistem que voltará. Não uma farsa que seguirá à tragédia, mas farsa sobre farsas, mundo das cópias e dos simulacros.

Porque a questão nunca foi seguir a OMS ou a ciência. Bem no início da quarentena, Amílcar Tanure, virologista da UFRJ disse o seguinte: como se trata de uma doença respiratória, quando os países europeus tiverem saindo da quarentena, estaremos experimentando o pico dos contágios, porque aqui será o período frio. Bingo!

Além disso, na atual crise sanitária, não há qualquer análise mais aprofundada a respeito das mortes totais ou sequer comparativos possíveis com anos anteriores. Como nunca se testou para corona, os números que aparecem agora são absolutos. Se for olhado ainda por cima para como se faz o corona-teste, dificilmente saberemos se há, no Brasil ou em qualquer outro lugar, sobrenotificação ou subnotificação. (em próxima publicação destacarei o assunto)

Muito menos se mede o impacto sanitário mais geral causado por um sistema de saúde (seria pedir demais!), voltado quase exclusivamente para o combate de apenas uma doença, deixando na fila de espera milhares (milhões?) de casos graves sem acesso a cirurgia e mesmo a bolsas de sangue e transplante de órgãos (doações que caíram abruptamente nos últimos meses). Ainda tem o caso dos efeitos de uma quarentena prolongada, situação de fato nos países do hemisfério sul, mas é objeto de aguda preocupação no norte global. Com a suposta 2ª fase no hemisfério norte (quando lá estiver frio novamente e aqui a pandemia estiver relativamente controlada), seremos obrigados definitivamente, nós do sul, a uma quarentena perpétua.

O vírus da informação

Mas, ao contrário de todas as previsões, caso a coronacrise seja tratada como a de um vírus informacional (uma das interpretações possíveis), a primeira conclusão é que ele pode desaparecer de uma hora para outra assim que mudar a pauta do noticiário. O gráfico que utilizam para alardear o aumento do números de mortos e infectados é o mesmo que os economistas e analistas da Globo News usam diariamente para suas sábias considerações, cujo objetivo é, no mínimo, pelo menos fazer voltar o Brasil para a época de FHC, com cerca de um terço da população vivendo na fome e na miséria, enquanto se comemorava a vitória da “dependência associada”, das amarras fiscais e do Real com poder de compra no estrangeiro…

O coronavírus como vírus informacional se mostrou com toda sua exuberância quando a banca liberal-financista deslanchou a primavera das “vidas negras importam”. De uma hora para outra, aglomerações não foram só permitidas mas comemoradas. Houve só um lamentável efeito colateral: o ostracismo do astro da ocasião, o promoter do Imperial College no Brasil ou a Tábata científica, Atila Iamarindo. Tal como Felipe Neto, sua carreira política parece ter se encerrado depois de uma retumbante entrevista no Roda Viva.

Depois da exposição desses dois tipos de vírus informacionais, fica mais fácil analisar a cnnização das esquerdas, ou sua vida entre dois paraísos artificiais. Chama a atenção a desconfiança da esquerda quando a rede americana se instalou por aqui em meio a entusiasmos bolsonáricos, mas rapidamente a chave virou. Modelo de imparcialidade, lugar onde se pode debater livremente, fora o melancólico caso da pobre loura aviltada pela mediocridade de seus pares. Drama perfeito para (por favor, desculpe a expressão) a pequena e média burguesia.

Antes de qualquer conclusão, entretanto, uma palavra de ordem tem que ser levantada. Desde o início da quarentena alertei para a necessidade de se criar uma solução brasileira para a crise, singular, tal como a China, por motivos de sobrevivência, criou através de seu teatro de Wuhan [aqui].

Por mais que se critique Bolsonaro, conseguimos aqui uma solução à americana como gostam os novos economistas da MMT, isto é, os entusiastas da flexibilização quantitativa: dinheiro para os ricos e pauperização generalizada da população. Nunca houve quarentena nem vertical nem horizontal no Brasil, mas um simulacro de quarentena onde a pequena e média burguesia podia falar candidamente (e ainda continuam) #fiqueemcasa. Afinal, em que medida seria viável uma quarentena, ou seja, uma supressão consentida (em termos) do direito de ir e vir, num país com ampla massa de desempregados e empregos precarizados ou informais? E o SUS? Ora! Acedamos uma vela ao Mandetta, esse grande e visionário empresário!

Retomando: o vírus como praga informacional causou esse curto circuito onde do #fiqueemcasa absoluto até a euforia com manifestações à americana poderiam ocorrer sem causar nenhum escândalo. Vê-se com clareza o modelo CNN: dois lados em disputa em ambiente devidamente controlado e que, no final, não leva a nada. O que conta é a linha editorial do jornal que se traduz, sem nenhuma surpresa, por pau nos pobres.

No atual estado de demência global, não é que alguma voz divergente possa surgir. Apesar da convivência habitual com neoliberais, olavistas e fascistas anti-fascistas (a antiga direita civilizada e científica), divergência ou até extravagância já tivemos em demasia com a criação de uma incrível esquerda pandêmica. Guardadas as devidas proporções, ou seja, respeitando o clima de terror, deve-se ter em mente, pelo menos, que a atual pandemia, tal como o 11/09, demora tempo para ser minimamente digerida, ou seja, vista de forma mais crítica. Vamos demorar dez anos para parar de aplaudir o Jornal Nacional e chorar junto com o William Bonner?

Com a atual guerra de facções no Ocidente, isto é, elite financista contra neofascismo [aqui], covid-19 contra #blacklivesmatter, a pauta da mídia de esquerda se tornou completamente binária, para não dizer esquizofrênica. E o que vale no final é a pauta dos donos do jornal, no caso, a produção de propaganda para embrutecer a todos e qualquer um. Enquanto isso, a direita se realinha com argumentos de tipo social (um dos inúmeros casos, Andre Lara Resende e seus alunos tão falantes nas lives dos antigos e novos blogs sujos) e o neofascismo ameaça o mundo com quarentenas constantes.

Desculpe, mas tenho que perguntar de novo, como fiz em artigo recente: onde o mundo, hoje, experimenta racionalidade? [aqui]