A Condor judiciária e a integração regional

Por que agora quando se fala em Lava-Jato se esquece o nome Petrobras e só se fala em Odebrecht? Será por nacionalismo? Por que “corrupção” agora tem como sinônimo Odebrecht e não Petrobras como anteriormente?

No meio de tudo, imagens idílicas passam a despontar na grande mídia, que passa a mostrar os campos do pré-sal como um Eldorado. Quando não interessa mais ao desenvolvimento nacional, mas como propaganda para justificar a rapina em curso, ou seja, mais de uma década depois dos investimentos cruciais que levaram ao domínio técnico, único no mundo, que nos fizeram extrair petróleo de alta qualidade do fundo do mar, finalmente desponta como “algo bom” os recursos naturais que até então serviriam para financiar a educação e a saúde, garantir o conteúdo nacional, e trazer o retorno dos vultuosos investimentos realizados por nossa maior empresa nacional. Quando se muda o modo de exploração desses recursos, quando a lógica colonial entra novamente em jogo, o Brasil aparece novamente como o Eldorado dos recursos naturais abundantes.

No Brasil, querendo ou não, o nome Petrobras está sempre no centro da questão, mesmo quando se prendem engenheiros peruanos, ou seja, quando se mudam as prioridades nacionais em favor dos interesses do Atlântico norte e não daqueles que vêm do Pacífico. O ataque da Condor judiciária na América do Sul – agora sob o signo Odebrecht – vem para desmantelar os projetos de integração regional e desfazer parcerias estratégicas com o governo chinês, dentro do contexto da Nova Rota da Seda, a mesma que financiou e construiu o Canal da Nicarágua, para ultrapassar de vez a dependência dos contato entre o Pacífico e o Atlântico através do Panamá, ou seja, dos EUA.

 

Um dos projetos da Nova Rota da Seda na América do Sul, a integração do oceano Pacífico com o Atlântico via trilhos, sofreu um revés significativo com a prisão de engenheiros peruanos nos últimos dias. Se o mundo não pode mais conviver com a ideia de um centro econômico único, seja a partir da City de Londres ou de Wall Street, tampouco podemos encarar o desenvolvimento nacional a partir do eixo Rio-São Paulo. A ferrovia que atravessaria o Brasil, com uma provável e bem-vinda parada na Bolívia, em direção ao Peru, continua sendo um projeto chave para a integração regional, ainda que não contemple como um de seus eixos alguma cidade do sudeste.

(deve-se distinguir o acordo entre particulares, entre o governo e empresários chineses, dos projetos de cooperação econômica na América do Sul. a China não pode ser vista, em bloco, como um mal ou como uma simples reedição de imperialismos anteriores. com isso, não se compreende nem a organização atual do sistema imperial e muito menos a complexidade do modelo chinês de desenvolvimento econômico)

O problema atual não é mais repisar no que está gasto: a Lava-Jato já mostrou o que deveria mostrar. Não há espaço mais para sua expansão. Seguindo os critérios de Moro e do MP aliado, não precisaríamos de um Tacla Duran para mandar prendê-lo. Ou seja, caso se usasse as mesmas medidas do juiz, ou mesmo por causa das medidas arbitrárias tomadas por ele, um “prisão preventiva”, no mínimo, não seria surpresa para os justiceiros curitibanos.

Contudo, o que se deve observar (e como somos tolos por não ver com mais antecedência) é que a Petrobras saiu dos noticiários. O preço da gasolina pode ser aumentado diariamente, os campos do pré-sal vendidos como relógios de marca no mercado paralelo, fabricar cascos de navio em Singapura (como no caso famosos da Vale): qualquer escândalo não tem qualquer relevância. Desde a orgia no hotel em Brasília entre os procuradores e os executivos da Odebrecht, com o golpe, o que se fala é em Odebrecht. A Petrobras deixou de ser a jurisdição universal de Sérgio Moro: agora, sob nova direção, está como que purificada. E o MP faz propaganda de si mesmo ao revelar os valores devolvidos à empresa em depois da rapina promovida via sanha persecutória, via guerra judiciária. Como se tais valores não fossem irrisórios se comparados à capacidade de investimentos da empresa, fato que se torna inquestionável caso a gente preste atenção na situação atual do estado do Rio de Janeiro, em particular.

No momento em que a Petrobras é poupada para atender as exigências do interesse privado, Sérgio Moro encara questionamentos não menos pungentes do que os que enfrenta seu presidente, o Temer. A Petrobras tem que sair dos noticiários (e só aparece agora para mostrar a pujança de seus campos petrolíferos que serão devidamente – até o referendo revogatório ou as armas – sugados pelas multinacionais), logo, quem irá repor, como empresa, o seu lugar no contexto do brand Lava-Jato? Moro deu mais um passo e caiu na armadilha como todo criminoso não consegue realizar o crime perfeito.

 

(nunca foi dito que o Dupin, de Allan Poe, conseguiu colocar na cadeia o bandido que descobriu em meio ao encobrimento midiático-judicial nos EUA. o que não quer dizer que, com seu personagem, a justiça tenha sido feita apesar do sistema judiciário. o que não falta em ambos os casos são elementos para se fazer justiça pelo judiciário. mas isso é só mais uma curva da História)

O golpe, em diversos aspectos, parece um crime vulgar, com batom na cueca. Ficamos muito assustados com sua selvageria, o que não ocorreu num momento ainda pior, com o verdadeiro cavalo de Troia que foi o Plano Real, que atrelou nossa economia (via uma suposta queda da inflação – muito parecida com a atual – que não se refletiu em diminuição da carestia, ou seja, no custo entre o que se ganha e o que se deseja, entre o que se ganha hoje com salários via empregos irregulares ou formalmente caducos, ou emprego algum, e o que se necessita consumir) à dogmática macroeconômica até hoje. O golpe parece um crime vulgar porque não desperta entusiasmo em quase ninguém, ao contrário do início do principado daquele que frequentou a Sorbonne. Caso o príncipe da privataria tivesse sido devidamente desmascarado, não haveria golpe algum. É porque vivemos sob a égide de uma suposta “direita mais civilizada” e uma esquerda “com seus erros e seus avanços” (sem apontar seus deslizes reais) que se chegou ao bom senso e ao senso comum que levaram ao golpe. Sem essa ridicularização sobre o que é um projeto de desenvolvimento nacional não teríamos chegado até aqui. A classe-média só é interessante na medida em que influencia as outras classes, e nisso ela falhou terrivelmente. Lula, por mais que o critiquem (e a classe-média tem sempre que arrumar uma crítica para “se diferenciar”) seu suposto espírito de “concordância”, de coalizão, é o candidato sem frescura alguma, sem calvinismo, sem pseudo-puritanismo. Sem a frescura de ver “a direita com a esquerda” ou vice-versa, não importa quem mais, ele é o único candidato atual (e, para repetir, não falo aqui de direita e esquerda).

Por isso, pode eleger um presidente, ainda que ele mesmo, no máximo, possa ser um vice. Seria o que a idade pede e a Bahia não iria lhe negar.

(deixo aqui de propósito um hiato a ser preenchido pela imaginação de quem a tem. 2018 ainda são só conjecturas. podemos apenas desenhar cenários. esboço um que, em contraste com a linha oficial adotada, me parece ser o mais factível caso algumas mudanças venham a ocorrer. no mais, não tão inesperadas)

Para quem queria um governo de “mão forte”, castrista (não conciliador, o suposto inferno de se aliar com o PMDB, com políticos variados, que causa náuseas a tantos politicamente furiosos na mesma medida em que são emocionalmente suscetíveis), dificilmente agora ou um pouco mais adiante, haverá outra solução. Será o desconsolo de todo purista, calvinista, de esquerda ou de direita, por os fazerem olharem o espelho. A pena é sempre muito mais complicada do que imagina qualquer juiz – por mais honesto que seja. A pena já sente uma parte considerável dos negadores da política, dos apoiadores mais ou os menos entusiasmados com o golpe, com a vingança exercida através do direito, da justiça utilizada como meio de se fazer a guerra. Condenados foram todos os brasileiros que não estão entre os 1 a 5 % mais ricos. São penas variadas, assim como variados serão os questionamentos ao reinado efêmero de Curitiba, cada vez mais intensos.

Todo esse texto seria um comentário, bem de ponta a cabeça, dessa matéria. Quem quiser vá ler.  Mais uma página policial:: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/04/internacional/1512425885_059704.html

Pode-se colocar ao lado a manchete ainda mais nova vinda da argentina: “Me quieren callada y con la espada de Damocles sobre mi cuello”. A Condor judiciária pornograficamente exposta.

Mais um episódio exposto n’O Cafezinho: https://www.ocafezinho.com/2017/12/13/justica-condena-seis-anos-de-prisao-o-vice-presidente-progressista-do-equador/