A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

A culpa não é do Cabral, seu racista nojento!

Está mais comum do que costuma ser culpar Cabral pelas desgraças do país. Segundo o doutor Mario Darius (1989, Ibdem), ele foi o pioneiro, o primeiro a corromper uma suposta brasilidade intocada, ameríndia, “jogando sífilis” nas índias. Mas não iremos começar essa publicação com mais palavras. Ah!, os ingleses podem roubar, mas não tão descaradamente – falam, por exemplo. Ora, por que não falar logo: ah!, os ingleses podem roubar, mas eles são ingleses! Podem ser “sujos”, mas por sua origem étnica, por pertencerem à civilização banhada pelo mar do norte, aquela, científica, que substituiu a civilização humanística, mediterrânica, da Renascença, são limpos. Agora, italianos, portugueses, espanhóis e todos mais povos que foram colonizados por esses países – ainda mais se se considera a mistura com africanos e ameríndios -, ferrou! A culpa não é do Cabral, seu racista nojento! O que aconteceu com sua prisão, sua morte política, é queima de arquivos, como os milicos faziam na ditadura. Logo, não vamos começar com mais palavras, mas com uma imagem sinônimo de democracia nesse dias de tantas intolerâncias.

Alepo antes da chegada das tropas democráticas

Os bárbaros libertaram Alepo. As ameaças de guerra, contudo, continuam. Obama agora fala que vai tomar todas as medidas necessárias para apurar a interferência russa nas eleições americanas. Os neocons de lá também querem terceiro turno! Lyndon LaRouche foi quem melhor expressou essa situação quando disse que “as palavras de Obama são uma ameça de morte“. Ele considera o histórico do presidente, conhecido como o “assassino das terças-feiras“, com uma de suas maiores vítimas via drone, Muamar Kadafi. Considera também a continuação da política de estrangulamento da Rússia, algo que, se não resolvido com a eleição de Trump (que de qualquer maneira gera dúvidas), pelo menos distendeu as tensões, abriu uma pequena brecha de ar no ambiente já sufocante. Não há provas alguma da interferência russa, até porque não se trata de trabalho de hackers que invadiram os arquivos de campanha dos democratas. Foi um vazamento, logo, alguém de dentro do EUA colocou isso no ventilador. Mas não!, deve-se culpar a Rússia e ponto. É a história das “notícias falsas”, como reportamos por aqui e que teve uma pormenorizada cronologia publicada no LPAC.

E olha quem fala de “notícias falsas”!

Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, inclusive a contestação do resultado do pleito eleitoral. Não importa se são de esquerda ou de direita, democratas, republicanos ou o que quer que seja. São ultras, ultra reacionários, ultra libertários, são os extremos que se tocam, como vemos nas siglas partidárias brasileiras “independentes” que para fazerem algo limpo passam a considerar sujo todo o espectro partidário, ou seja, não distinguem alhos de bugalhos e, caso necessário, elogiam deus e o diabo. Como na prática comum do bom senso e do senso comum de elogiar o plano real e o governo lula como progressos… Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, algumas passíveis de publicização e outras não… O que quis dizer com isso o Assassino das Terças-Feiras? Enquanto isso não foi só a Rússia que voltou à prática da Guerra Fria de simular ataques às suas cidades. A Suécia também está simulando situações de guerra em defesa contra possíveis ataques russos. É a paranoia da nova Guerra Fria, ainda, talvez, mais quente do que a considerada “oficial”…

PARANOIA, 1989, Ibdem

– Chegaram aqui de caravela e comeram logo as índias. Passaram a sífilis. Português chegou aqui e soltou logo sífilis. Tá lá o símbolo, as águias. Estão todas com AIDS [as águias do Palácio do Catete]. Aquela tá morrendo. Aquela lá ó.

– Artigo subversivo é o caralho, eu sou advogado.

– Aqui nunca teve crise. aqui sempre teve roubo. a crise é ética e a saída exige decência

– Pergunta se o mendigo consegue roubar alguma coisa.

– Patriotismo é o último refúgio do canalha.

O BRASILEIRO MÉDIO, PARANOIA, 1989, GUERRA FRIA, IBDEM

Todo mundo que tem o poder na mão é podre. São pérolas… O problema do brasileiro médio, mesmo que o suposto dr. Mario Darius não seja tão médio assim… É a linguagem da paranoia. O Brasil sempre foi corrupto. Não há nada de novo no front, etc. A incapacidade de crer é a mais absoluta falha do entendimento político. Não sem sair do contexto, podemos aludir ao cardeal Nicolau de Cusa, para quem, ainda no século XV, sem a Terra nem o sol estava no centro do universo. Sua capacidade de raciocinar, contudo, dizia respeito, quando falava sobre o “não visto”, que a fé auxiliava a razão onde esta não tinha forças suficientes, com o raciocínio sendo não a luz guia, mas o solo por onde se movia o homem em direção a mundos ainda não vistos. Isso quer dizer que muitos não creram nos avanços que os governos do Partido dos Trabalhadores promoveram no país. Não viram o óbvio, como a sólida rede de proteção social, por exemplo, criada no nordeste e que melhorou substancialmente as consequências das secas na região, mesmo no ano de 2015, quando enfrentamos a maior seca em 80 anos de história. Não houve migração, saques a supermercados, etc. E esse é o dado óbvio, mas mesmo assim não acreditam. Agora, quanto ao caminho de desenvolvimento que esse país passou a trilhar, nenhum desses conseguia ver, por exemplo, as consequências da Amazônia Azul para nosso futuro. A necessidade de engenheiros navais, e biólogos marinhos, etc., várias categorias profissionais que nossas universidades praticamente não dão a formação, E todas as outras profissões envolvidas de maneira direta e indireta no projeto, do engenheiro até o pequeníssimo empresário que vende almoços e lanches nas áreas em obra, nos novos campos criados, seja Comperj, Abreu e Lima, Angra 3 e tudo o mais. O desmonte do setor produtivo no Rio de Janeiro não tem outra causa.

(Não é culpa do Cabral, mermão! Mais fácil culpar o messianismo curitibano, os pontas-de-lança do Império por aqui e responsável pela empresa que chegou a ser responsável por 30% do PIB nacional. Se é isso para o Brasil, o que é o Rio de Janeiro sem a Petrobrás? Um prostíbulo onde os turistas vem se aliviar das tensões de se viver nas sociedades racionalistas e bem comportadas do Atlântico norte? O que é o Rio sem Moro? O estado mais rico do país, capaz até de sustentar sem quebrar uma corja como a de Cabral…)

(foi Cabral que começou a corrupção? E o que falar do impoluto governo militar e suas Estranhas Catedrais?)

A prisão do Almirante Othon Pinheiro, um crime de lesa-pátria, a comprometer a futura produção industrial de urânio enriquecido, e que nos levaria finalmente ao rol das nações desenvolvidas com a tecnologia mais avançada que existe, a do núcleo do átomo, é um exemplo claro na falta de fé em nosso futuro. Para os descrentes, o complexo de vira-latas. Numa entrevista recente, a presidenta Dilma disse ser o MT (como chamado nas planilhas da Odebrecht) nada mais do que um cidadão médio, ou seja, bem abaixo das aspirações do Brasil. Estaria, contudo, muito abaixo do brasileiro médio. Essa “entidade” seria aquela que crê no futuro do país. E nisso, pegando por esse lado, a presidenta está certa. Temos que levar em consideração num caso como esse que o brasileiro médio é exatamente essa ponte entre a descrença mais ordinária (com a aspiração máxima de conseguir, por exemplo, um apartamento de relativo luxo numa área de proteção ambiental – isso é o máximo de aspiração que esse pessoal tem) e a população mais pobre que, por tudo o que passa, nada resta a não ser alimentar uma esperança quase do tamanho da dos gênios e profetas que já visitaram nosso mundo. A chamada classe média, por seu poder de influência, seja porque são professores, médicos, advogados, que lidam numa situação de relativa superioridade social, tem um poder fundamental de influenciar muitas pessoas, num verdadeiro ativismo que podemos chamar, sem desprezar os teóricos, de micropolítica. Quando essa classe se homizia, pensa só em seus interesses mais imediatos, seja um apartamento qualquer, seja no problema causado pela inflação do tomate ou do preço da gasolina ou da “percepção de corrupção”, etc., e esquece a quantos pobres foram atendidos, em quanto o país está se desenvolvendo para além do que seus olhos podem ver, no nordeste, com a indústria naval, com o desenvolvimento da área de defesa, da energia nuclear, etc., com a criação do piso nacional dos professores, com a criação de centenas de escolas técnicas, a interiorização das universidades federais, a criação de novos cursos e de extensões universitárias, etc., quando se esquece tudo isso e só se pensa nesses interesses mais imediatos, a crença no futuro rui e não se é menos “crente” do que antes. Passa-se a idolatrar salvadores da pátria, em Power Points, a se admirar com a atuação do novo Maquiavel, do espertíssimo Eduardo Cunha, e etc. Acreditam, até, que foi a poucas semanas que a Globo descobriu o Cabral…

A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

Temos que manter os pés no chão, com certeza, ainda mais nos tempos excepcionais em que vivemos. A inteligência no planeta parece toda coberta de cinzas, de uma mediocridade retumbante, parecendo lembrar os Greys, os mal-fadados extra-terrestres, supostamente antropófagos, que apareciam nos filmes de ficção científica durante a Guerra Fria oficial. A de agora, oficiosa, não é menos perigosa, e não menos capaz de realizar o sonho dos “invernos nucleares”, e cobrir definitivamente de cinza nossa Terra.
O FBI espia a embaixada russa em Washington
A Globo convoca para manifestações, a Globo convoca para enterros, a Globo decreta a morte política. Os mortos no voo da Chapecoense são “oficializados”, amestrados. adocicados pela misericórdia global. Ora, como quando o ator global morreu no São Francisco, falamos a mesma coisa: o que isso significa frente aos milhares de jovens mortos todos os dias frente à atuação de nossa justiça e polícias “ineficientes”? E as famílias que perderam seu sustento por causa de Moro e seu grupo? E o país indo ralo a baixo com a paralisação de sua atividade econômica? Quantas mortes, quantas vidas destruídas, quantos sonhos enterrados daqueles mais pobres, mais carentes em nosso país? Chapecó que me perdoe, mas vocês viram mais uma joia da coroa ao se associarem, querendo ou não, aos faustos imperiais, como nas comemorações fúnebres das glórias do Império por Victor Meirelles.


Moro é o comandante do navio?
É somente sobre despojos que o império consegue mostrar seu brilho. A tragédia de Chapecó é um retrato disso, a parte visível, da aparição imperial frente aos corpos sem vida. A parte não vista é a batalha diária que deixa a cada dia mais mortos, mas que o império não mostra sua face, nem pode à luz do dia mostrar quem dirige, quem narra, quem comanda o cortejo fúnebre. Não mais notícias falsas. Fora o macartismo e o sistema de guerra imposto a nós, aqui ou em qualquer parte do mundo. Que o quadro cinza de Meirelles não continue a ser o retrato de nossa inteligência.
Como será apresentado o próximo rito fúnebre global?