A guerra da CIA contra a NSA e os golpes na América do Sul

Um povo degradado e sua elite mentirosa

Os americanos são tão mentirosos que conseguiram, como que por uma metáfora, transformar o grande corpo objetivável da Terra em camada de ozônio. Tudo isso parecia ter entrado num breve ocaso ou passado a operar de forma menos intensa na virada do século: ascensão da China e recuperação da Rússia (rearticulação do eixo eurasiático), e a recuperação do sonho de desenvolvimento dos países do antigo 3º mundo, com seu centro de poder a partir da América do Sul (integração sul-americana + eurásia = BRICS).

Não por acaso, a crítica mais difundida contra o ambientalismo ainda na década de 1990 é que ele não fornecia qualquer alternativa minimamente viável para o progresso e o desenvolvimento das nações subdesenvolvidas. Através de seus críticos mais esclarecidos, era denunciado como falsificação cientifica para impedir o surgimento de novos atores globais, uma economia mais diversificada e um balanço de poder mais harmônico no mundo.

Cada vez mais os que diziam que existem limites para o crescimento, que a espécie humana é uma praga que degrada o planeta, e que somente políticas de baixa industrialização e uso não intensivo de energia poderia salvar o suposto corpo pleno da Terra, estes acabavam por ser ridicularizados pela mera entrada em cena de novos atores globais. Estes não só propunham uma nova política da natureza que não limitasse o crescimento e a inovação industrial, assim como, pelo próprio foco que davam na economia física ao invés do cassino financeiro, faziam, indiretamente, os delírios de carbono zero parecerem uma moda passageira dos anos 1990.

O trilionário mercado de carbonos que enriqueceu o vice-presidente dos EUA, Al Gore, e o catapultou à disputa presidencial contra Bush Jr., foi exposto, e sua figura hoje, tal como a do imperialista humanitário Tony Blair e seu congênere no Brasil, FHC, gozam do devido ostracismo. Continuam, contudo, a defender como causas humanitárias a preservação de florestas (no Brasil tão somente), a liberação das drogas e o neoliberalismo de corte mais tradicional ao estilo das políticas pós-Perestroika.

Enquanto isso, no chamado “setor avançado”, desde a época de lançamento da Missão Apolo, são descontinuados os investimentos em fusão nuclear que, dentre inúmeros benefícios que trará futuramente para a humanidade, não apenas é “carbono zero”, como tem potencial de reutilizar, reciclar, toda e qualquer espécie de lixo (dos produzidos pela indústria médico-farmacêutica aos resíduos das usinas nucleares de fissão) por ter a capacidade de transformar em plasma todo e qualquer material que entre em contato com um foco de energia que simula as explosões solares.

Como defendia o economista de Marina Itaú Silva em sua campanha presidencial em plena alvorada trabalhista, Eduardo Gianotti, deveria se acabar com essa história de pobre comer carne. As vacas peidam e cultivá-las em excesso produziriam um rombo na camada de ozônio. Não pode deixar de ser assinalado a moderação dos argumentos do doutor, porque ele não contabilizou a flatulência humana, ainda mais em estômagos bem fornidos de comida e carne. Muitos seres humanos comendo, e bem, são um verdadeiro atentado à saúde do suposto corpo objetivável da Terra. A boa alimentação ainda parece ser o perigo termonuclear dos ambientalistas.

A pré-história da máfia verde remonta às décadas de 1960-70 com a criação do World Wide Fund for Nature (WWF), em conexão com os círculos aristocráticos europeus, a partir dos quais se criaram os primeiros relatórios a respeitos dos “limites do crescimento” econômico e desenvolvimento social no planeta. Com a consolidação do modelo econômico único mundial depois da queda do muro de Berlim, a influência de Washington e da ideologia do New American Century, as altas finanças, o chamado “dinheiro novo” (América), começaram cada vez mais a se aliar com a pauta ambiental.

Esta última movimentação pode ser chamada de a história do novo ambientalismo, enquanto a outra, associada especialmente aos círculos britânicos é a sua pré-história. A pós-história da indústria da alta finança ambiental é a que vivemos agora. Ela se ancora basicamente a partir de dois pressupostos: as políticas da nova esquerda estadunidense e sua proposta do Green New Deal e seu veículo de financiamento, isto é, os fundos para a energia renovável administrada pela maior empresa de ativos globais, a BlackRock.

Ela hoje praticamente controla o Fed e suas imensas quantidades de emissão monetária (através de “mecanismos especiais” criadas pela autoridade monetária [aqui]), reiniciadas pouco antes do “planet lockdown” e exponenciada com a crise biopolítica. Através de inúmeras postagens recentes em meu blog cobri de maneira algo extensa essa movimentação [aqui], mas que teve início no encontro, em agosto de 2019, em Jackson Hole, dos presidentes de Bancos Centrais com fundos de investimento. Ali, Mark Carney, diretor do Banco da Inglaterra, ecoando as propostas já vigentes de “reset” da economia global, propôs uma “mudança de regime” monetário, algo que passou a ser efetivo com o estado de exceção provocado pela emergência sanitária [aqui].

A ascensão do “sul global” na primeira década do século XXI interrompeu por um breve período a antiga agenda, assim como abriu um flanco de guerra agressivo contra o assim chamado neoliberalismo. Durante esse curto espaço de tempo, nunca antes na história as mentiras americanas tiveram tão em baixa. Com a guerra total lançada contra esse movimento já a partir da eleição de Obama, especialmente em seu 2º mandato, a América, um pouco depois, quis se fazer “grande de novo”…

Hackers ou vazadores? O fundo falso da caixa-preta dos serviços de inteligência

A moda atual das ditas “fake news” é tão simplória que mesmo sua data de origem pode ser facilmente detectada [aqui]. Trata-se nada mais do que uma lenda de encobrimento das políticas que continuam em plena operação nos círculos de inteligência, especialmente a partir de Londres e Washington. Enquanto o mundo discute as “notícias falsas”, se amplia o sistema de vigilância massiva e mineração de dados coetânea ao acima mencionado 2º mandato de Barack Obama.

O “novo normal” que vivemos, do qual a coronacrise é apenas mais um capítulo, tem sua estréia com a operação relativamente bem sucedida que resultou no 11/09. Mas essa é uma história de mais de mil páginas a que pode se fazer uma alusão, porém não ser resumida em tão poucos parágrafos. O importante a ressaltar é que com a queda das duas torres (e o derretimento ainda inexplicável do prédio menor, o WTC 4), em Nova Iorque, se inicia a contraofensiva atlanticista contra um cenário internacional que, ainda vagamente, ameaçava acabar com a hegemonia unipolar.

O Ato Patriota, portanto, que se seguiu ao fato acima mencionado, talvez seja a ação mais infame do novo século. Suspendeu garantias individuais, multiplicou as agências de espionagem, deu garantias para a prisão, morte, suborno e assassinatos de reputação de inimigos políticos. No bojo da anulação de qualquer veleidade de estado democrático de direito, a NSA, com amplos recursos de inteligência informacional e ramificações com o Vale do Silício, supostamente teria tomado a dianteira frente a antiga agência de guerra encoberta, a CIA.

Edward Snowden , ex-contratado da CIA no Special Collection Service, em Genebra, trabalhou como oficial disfarçado na missão dos EUA na ONU em Misawa, Japão, com o patrocínio não oficial da fabricantes de computadores Dell e de Booz Allen Hamilton. Foi ele o escolhido como o personagem capaz de sequestrar os documentos da NSA e vazá-los aos meios de comunicação. Enquanto a nova agência de inteligência era difamada a nível internacional por suas ações que em nada diferem dos métodos usuais da própria CIA ou de grandes empresas como Microsoft e Apple, a Central de Inteligência Americana pôde redirecionar seu foco de atuação, isto é, interferir de maneira ostensiva nas eleições presidenciais de diversos países que, segundo a WikiLeaks, começou ainda em 2012. O procedimento é o mesmo do caso que posteriormente foi chamado de Russiangate:

Por exemplo, o sistema UMBRAGE do CCI [em português, Centro de Inteligência Cibernética] permite a CIA utilizar malwares roubados de outros países, incluindo a Rússia, em operações de ciberguerra para atacar sistemas informáticos pré-determinados. As ferramentas UMBRAGE para atacar e cobrir o rastro incluem keyloggers, coleções de contra-senhas, capturas de webcams, técnicas de destruição de dados, programas de persistência, escalada de privilégios, opções de ocultamento, anulação de anti-vírus (PSP) e técnicas de avaliação online. A tecnologia CCI é totalmente capaz de atacar sistemas de computadores e redes nacionais nos Estados Unidos e deixar as pistas necessárias para que os investigadores persigam pessoas sem implicações com o caso¹“.

Essa foi a técnica utilizada no Russiangate, segundo o qual teria existido um hackeamento dos sistemas informáticos do Partido Democrata por parte do governo russo. Dentre uma série quase interminável de intrigas, o dado básico levantado desde o início pelo VIPS (Veteran Intelligence Professionals for Sanity) e que atinge o centro dos argumentos do partido da guerra contra a política de détente com a Rússia realizada por Trump, é a de que não houve um hackeamento, mas um vazamento de informações. Isso foi reiterado na intervenção mais recente de William Binney [aqui], ex-NSA, que participou das pesquisas desde seu início, enquanto o personagem mais visível até então tinha sido Ray McGovern (ex-CIA) com suas publicações no Consortium News.

O argumento mais elementar entre o amplo trabalho de pesquisa realizado por esses ex-profissionais da área de inteligência é de que é impossível que os arquivos do Partido Democrata tenham sido hackeados devido à velocidade com que os arquivos foram baixados. Houve transferência de dados para um disco rígido e o vazamento desses dados para o WikiLeaks. Como a história do hackeamento foi insistentemente bombardeado na mídia, aliada diretamente aos atlanticistas, o outro lado do problema, a utilização do sistema UMBRAGE para se deixar uma marca falsa em operações de sabotagem clássicas, logo se começaram a criar listas e mais listas de supostos hackers russos, suas vinculações com Putin, Trump e todo um conjunto de pessoas que os assessora.

Lembre-se: os documentos revelados pela Wikileaks mostraram como Hillary Clinton (Partido da Guerra) fez para sabotar a candidatura de Bernie Sanders. Com o vazamento às vésperas das eleições, o beneficiário direto foi Donald Trump. Logo se levantou a bandeira da “interferência russa” nas eleições americanas e a caças às bruxas de três anos e meio com o Russiangate. Com a possibilidade de governos estrangeiros estarem invadindo sistemas de informação, redes sociais, etc., foi criado o termo “fake news” e se colocou completamente para debaixo do tapete os dois fatos mais escandalosos: a infame ação de Hillary contra Sanders, e sua proposta, também às vésperas das eleições, de decretar uma zona de exclusão aérea na Síria. Isto implicaria a necessidade por parte da OTAN de abater todos os aviões que não fossem da OTAN, no ar ou estacionados em solo sírio. Como a Rússia ajudava os sírios através de sua aviação, era uma ordem direta de guerra contra os russos, porque seriam mortos diretamente, por ordem do executivo federal, militares sob o comando de Vladimir Putin.

Sobre verdades e mentiras

A filosofia clássica costumava distinguir dois polos do ser, um o representativo e o outro o de sua modificação. Em um caso, nos remetemos às essências, enquanto no outro às aparências. Se não se puder subtrair da essência as aparências, cai-se no mundo das imagens ou o que, com Platão e o a escola eleática, se chamava de não-ser. Por isso são barrocos os filósofos clássicos, de Descartes a Leibniz,. Reconhecendo o ser humano como atingido por um sem número de paixões, somente com muita dificuldade conseguiriam distinguir o verdadeiro do falso. Os clássicos nunca foram tranquilos. Sua relação com Deus se dá na angústia ou no desespero.

Espinosa encontra sua singularidade nessa mesma quadra histórica por desvalorizar o aspecto moral das coisas, isto é, por preferir ver as escolhas não em termos do bem e do mal, mas do bom e do mau. Peço desculpas pela citação:

‘Não comerás o fruto…’: Adão, o angustiado, o ignorante, entende estas palavras como a expressão de um interdito. Entretanto, de que se trata? Trata-se de um fruto, que, como tal, envenenará Adão se este o comer. É o caso do encontro entre dois corpos cujas relações características não se compõe: o fruto agirá como um veneno, ou seja, determinará as partes do corpo de Adão (e paralelamente a ideia do fruto determinará as partes de sua alma) ao iniciar novas relações que não correspondem mais à sua própria essência. Todavia, porque Adão ignora as causas, acredita que Deus o proíbe moralmente de algo, enquanto Deus lhe revela apenas as consequências naturais da ingestão do fruto. Espinosa lembra com obstinação: todos os fenômenos que agrupamos sob a categoria do Mal, doenças, morte, são deste tipo: mau encontro, indigestão, envenenamento, intoxicação, decomposição de relação²”.

Se Deus é Natureza, não há maldade alguma na vida, mas encontros que podem aumentar ou diminuir a nossa potência de agir, nossa potência de ser capaz de alegria. Assim, tal como Nietzsche ou Artaud séculos depois, Espinosa irá desarticular o sistema do julgamento de Deus. Você escolhe um modo de existência bom ou mau, ao invés de, por um mero ato intelectivo, saber distinguir o bem do mal. Como se bastasse um simples ato de conhecimento para poder moralizar: talvez este seja um dos maiores lapsos da ética kantiana, que não pressupõe que toda e qualquer escolha é escolha de um modo de existência, ou seja, de algo que nos implicará diretamente talvez mais do que a alma, nosso corpo.

Por outro lado, a ética espinosista casa perfeitamente com o sentido extra-moral nietzschiano. O ponto de vista moral ou o do julgamento de Deus aponta para forças transcendentes, como o da dívida infinita. Pouco importa se a dívida nos vem por causa de Adão ou por causa da irresponsabilidade fiscal de algum governo. Ambas estão de alguma maneira no início dos tempos, antes de nossa existência, e a herdamos porque o corpo que nós temos, nossas paixões, nunca dará conta da dívida moral com a divindade, seja esta o Vaticano ou a City de Londres. Assim, temos que expiar das formas mais perversas a sentença divina.

Nietzsche coloca o problema em outros termos: o “bom” e o “mau” espinosista é visto a partir da figura do alto e do baixo. O mau é o escravo, refém do ressentimento e da má consciência. O bom é o irresponsável na medida em que este termo exerce o imperativo oposto ao kantiano. Regras morais gerais, ou seja, o compromisso do bom senso com o senso comum, servem para produzir funcionários padrão, ou seja, Eickmanns em série. Ele não fez nada que seus concidadãos poderiam dizer que ele estava errado. Seguia ordens e tinha orgulho disso. Assim, o mundo pertence aos fracos, aos escravos, aos maus: por isso a sentença irreverente de Nietzsche em a Vontade de Potência: “É preciso salvar os fortes dos fracos”.

Assim, devem ser consideradas as verdades altas, nobres e fortes, em contraposição às verdades fracas, baixas, escravas. Todo o enunciado tem um componente de verdade. O que se deve estar atento é ao valor de verdade que cada um deles contém. Por exemplo, o caso da medicina é ilustrativo de maus fabulistas. Assim como o “vírus de Wuhan” tem origem asiática, de uma mutação após se hospedar no organismo de um morcego e se espalhar num fedorento e barulhento mercado público de um povo ainda não civilizado, outras verdades médicas apontam para a mesma direção.

Faço uma análise aqui apenas da forma da verdade, sem entrar no pântano tenebroso do conteúdo das verdades médicas, cuja história mais recente não indica nenhuma mudança ética ou política fundamental após sua colaboração de boa fé com a política nazista, com a eugenia e o darwinismo social, além das teorias derivadas da frenologia e da noção de degeneração fisiológica e moral ainda no século XIX. Não é porque Hitler perdeu a guerra que isso mudou, tampouco a ciência e a política deixaram de ser menos racistas depois do papel de Mandela na África do Sul. Apesar dos comentários sobre fatos recentes e conhecidos, meu objetivo é analisar essas verdades apenas em seu componente fabular.

O caso da AIDS, então. Inicialmente, antes de se espalhar paulatinamente pelo mundo, era uma mal gay, predominantemente masculino, associado a uma cultura que se desenvolveu nos EUA nos desdobramentos dos movimentos contestatórios das décadas de 1960-1970. Em seu segundo momento, através de uma busca pelas origens, levantou-se a hipótese de sua origem na África através de mutações vindas do macaco. Novamente, uma doença que aparece num país não civilizado a partir de transformações em animais característicos da região e culturalmente presentes para esse povos. Muda muito pouco se recuarmos um pouco no tempo, para a virada do século XIX para o XX.

Um caso bem estudado no Brasil foi o da doença de Chagas. No livro academicamente impecável da professora Simone Kropf, Doença de Chagas, Doença do Brasil, pode ser visto como o entendimento da doença pelos médicos muda substancialmente ao longo de pouco mais de cinquenta anos. Para se visualizar o início da doença, melhor do que o livro são os vídeos feitos por Carlos Chagas em suas incursões pelos interiores do país. Ela era chamada de a “doença dos degenerados do Brasil”, algo muito próximo ao que a medicina europeia tinha em consideração, na mesma época, sobre o problema médico-biológico da degeneração físico-moral.

Ao ver os vídeos, contemplamos populações desassistidas, padecendo dos mais variados males, da fome à convivência com graves problemas sanitários. Uma multiplicidade de doenças das mais variadas era agrupada sobre o imenso guarda-chuva chamado Doença de Chagas. Somente na década de 1950 se conseguiu delimitar melhor a questão, remetendo a doença a um problema que afeta o coração através da intrusão de um parasita através de um inseto, o barbeiro. Até esse momento, porém, inúmeros problemas sociais e as questões pessoais relacionados tinham apenas um nome, e ainda saía nas manchetes nos jornais a difamação derradeira, isto é, a pobreza (cabocla, mulata, negra, mestiça) como sinônimo de raça degenerada.

Não se pode em nenhum desses casos dizer que a medicina deixou de falar a verdade. Cabe escolher se são verdades de escravos (a dos senhores do mundo) ou verdades nobres e altivas, que jamais flertariam com estes tipos vulgares de enunciados, tão racistas quanto venenosos.

O reagrupamento da CIA e o início dos golpes na América Latina

A consequência direta da promessa eleitoral de Donald Trump, a de acabar com as guerras sem fim dos EUA no Oriente Médio e outras partes do mundo [aqui], colide com a reformulação dos serviços de inteligência de seu país. O vazamento do caso da sabotagem de Hillary Clinton à campanha de Bernie Sanders, com a suposta marca russa no hipotético caso de hackeamento dos arquivos do comitê de campanha do Partido Democrata, seria mais um caso de tentativa de interferência da CIA no rumos da política externa estadunidense. A ideia era menos difamar a candidata democrata do que criar o clima exasperado de neomacartismo contra a candidatura de Trump.

De fato, o ex-diretor da CIA, Michael Morell, apoiou Clinton e foi o primeiro a acusar Trump de ser um agente inconsciente do ex-agente da KGB, Vladimir Putin. Há uma mudança de paradigma total: se a Agência participou do assassinato de um presidente em 1963 e organizou a demissão de outro em 1974, a atuação pública de um de seus diretores na campanha presidencial mostra como as coisas mudaram radicalmente desde então.

A CIA decidiu entrar de vez na campanha logo após a viagem a Moscou de Carter Page, assessor de Trump em política exterior, e depois vazou a história para a imprensa norte-americana. “A defesa do indefendível feita por Morell pode dar uma pista sobre o fato de que não foi a inteligência russa que tinha uma porta traseira nos servidores da senhora Clinton em sua casa de Chappaqua, Nova Iorque, mas que a CIA que estava monitorando seu correio eletrônico com o objetivo de levar a cabo uma chantagem política, uma especialidade dos ‘Cavalheiros Negros do Potomac’ em Langley, Virgínia³”.

O que se deve notar é que a contraofensiva da CIA data, pelos registros disponíveis, de 2012. Dois pontos são fundamentais: sua participação nas alianças dos partidos e candidatos da França, Alemanha, reino Unido, Líbia, Israel, Palestina, Síria e Costa do Marfim, com o consequente financiamento de partidos e candidatos. O grande trunfo desse período foi a eleição de Emmanuel Macron. Ao seu lado, tudo parece indicar que as revelações de Snowden fazem parte de uma operação de Langley (núcleo duro da CIA) visando minar os superpoderes da NSA nos últimos anos.

Daniel Estulin narra diversos capítulos da história da CIA e da NSA e de seus conflitos mais recentes. Ao invés de nos perdermos no denso caminho de névoa e espelhos dos serviços de inteligência, quando o autor alude a uma “operação Langley” e a vitória desses operativos já em 2012, algumas hipóteses se abrem.

Se o caso Snowden difamou a NSA ao mesmo tempo em que encobria práticas idênticas realizadas pela tradicional CIA ou gigantes da tecnologia, isso serviu mais para o fortalecimento de um núcleo duro da espionagem enquanto uma cortina de fumaça era jogada aos olhos do público. Sempre agem assim os serviços de inteligência: revelam uma verdade menor como lenda de encobrimento de operações bem mais complexas. O dado concreto é que os conglomerados de inteligência agem em conjunto. Por vezes, por questão de diretrizes políticas ou pelo anseio de capturarem partes maiores dos imensos recursos financeiros alocados, uma guerra interna é formada. O caso Snowden, mais uma vez, é apenas mais um capítulo, talvez o mais visível de todos, desse caso.

Menos importante do que saber onde precisamente atuou a CIA, a NSA, a Microsoft, a Aplle, etc., é compreender a história da operação Langley e de sua vitória a partir de 2012. Trata-se de um sucesso que se estende das eleições de 2012 (daí também o profundo arraigamento do 2º Obama com as agências de inteligência) até o teratológico Russiangate. Conseguir novamente o centro de comando das agências de inteligência como um todo, reagrupadas sob a liderança neoconservadora, o Partido da Guerra (tanto republicano quanto democrata), permitiu a ofensiva que desbaratou a soberania nacional da maior parte dos governos da América do Sul, travou uma guerra de nervos inclemente com a Rússia através da OTAN e reativou (para nosso caso) a 4ª Frota, até chegar ao caso atual da guerra civil que se trava dentro dos EUA.

O núcleo duro da inteligência americana teve de se reagrupar para relançar a série de golpes de Estado famosas décadas atrás em nosso continente, e começou a sofrer seus primeiros reveses em dois fronts. Primeiro, com a eleição de Trump, que levou à ira esse grupo e a sua entrada na cena pública, como acima explicado. Segundo, a vitória da Rússia na Síria e o lançamento por Putin de um novo arsenal bélico que o Ocidente está a décadas de conseguir se igualar [aqui].

Por isso pude falar ainda em julho de 2019 que a guerra acabou. O que vemos agora são os últimos estertores da facção ultraliberal, cujo último capítulo foi a tentativa de lançar uma guerra termonuclear com o assassinato do general Soleimani. Olhando esse caso em particular, pode ser entrevisto como o “projeto alternativo” chamado Donald Trump ainda está longe de ser compreendido… [falei com um pouco mais de detalhes sobre esse caso aqui] Existe uma imensa sujeira, um mundo em ruínas depois desses intensos anos, da última década em particular, especialmente em sua segunda metade. O trabalho agora é limpar todo esse lixo e começar a pensar no mundo das próximas décadas. A prometida reunião entre Putin, Xi Jinping e Trump será fundamental para o estabelecimento do início de um novo acordo internacional, para o relançamento de um novo Bretton Woods ou Yalta 2.

Continua…

Referências

¹ ESTULIN, Daniel, La Trastienda de Trump. Cidade do México: Peguin Randon House , 2018, p. 197.

² DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002, p. 28.

³ ESTULIN, 2018, p. 187.

Com informações adicionais da Executive Intelligence Review e dos documentos da WikiLeaks: Year Zero/Vault 7.