A próxima fronteira do mundo, Idlib

Foto: Infografia: Alexandre Mauro/G1

 

Enquanto a Rússia denuncia um possível “operação de bandeira falsa”, o Ocidente ameaça russos e sírios por causa do recente avanço sobre a província de Idlib, um dos últimos refúgios de rebeldes após a bem sucedida parceria dos dois países contra o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, Al-Nusra e demais agrupamentos terroristas. A fronteira com a Turquia é um ponto-chave desse jogo por ser o lugar de onde os rebeldes tem acesso ao Ocidente e a suas fontes de financiamento e a armas. A postura dúbia de Erdogan, que se move entre a dependência econômica com o oriente e seu pacto militar com o ocidente, torna ainda mais dramático atos que podem levar a um possível desfecho a luta contra a desestabilização do Oriente Médio, na esteira da devastação da Líbia e do Iêmen, ou a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia.

O lugar de ligação dos rebeldes com o ocidente

Nos últimos dias, tanto o ministro das relações exteriores russo, Sergei Lavrov, quanto os serviços de inteligência dos EUA tem alertado para um possível ataque químico na província de Idlib, na Síria. Lavrov alerta para mais uma “operação de bandeira falsa”, como a acorrida em abril deste ano e que levou os EUA, França e Reino Unido a bombardearem Damasco. Por parte dos serviços de inteligência ocidentais, em especial americanos e ingleses, o alerta surge como uma forma de procurar deter o avanço sírio e russo na região. Idlib é uma pequena província situada na fronteira com a Turquia e tem sofrido um forte bombardeio nos últimos dias. Como local onde ainda se encontram os remanescentes da cabala al-Nusra/al-Qaeda/ISIS na luta contra Bashar Al-Assad, a vitória sobre os últimos rebeldes selaria definitivamente a vitória da Síria, de seu parceiro Irã e, claro, dos russos.

Uma ativista digital chamada Syrian Girl Partisan (muito interessante de acompanhar apesar das dezenas de vídeos deletados pelo youtube, sua exclusão do facebook e problemas variados com o twitter), antes de iniciarem os ataques conversou com um ex-agente da inteligência britânica sobre a situação perigosa de tais ataques, já que tropas turcas estariam na região. Os turcos foram avisados para retirarem seus contingentes militares do lugar (segundo seu informante, seriam apenas postos de observações turcos ocupados por membros do serviço especial) antes da entrada do exército sírio. A tática utilizada comumente nessa guerra – que devastou a Líbia, porém, com a ajuda russa, praticamente deu a vitória a Síria – é a presença massiva de bombardeios aéreos russos. Desmobilizadas as forças rebeldes, o exército sírio entra para finalizar a vitória. Desde a vitória na cidade histórica de Alepo, a luta contra o terrorismo tem alcançado grande sucesso no país.

O acesso a Turquia sempre foi um ponto de apoio aos jihadistas. Quando ocupavam a maior parte da Síria, era pelo acesso a Turquia que conseguiam transportar para a Europa os estoques de petróleo das regiões que controlavam. Antes da tentativa de golpe de Estado contra Erdogan, da fronteira turca saía os reforços por terra (proibidos pela ONU) para incrementar a resistência terrorista. Deve ser lembrada o caso de novembro de 2015, quando um avião russo foi abatido pelas forças aéreas turcas por, supostamente, terem passado por milésimos de segundo por sobre o espaço aéreo do país. Depois da tentativa de golpe, Erdogan voltou-se mais para o oriente e denunciou a CIA como autora do ataque. Membros do serviço de inteligência americana estariam ocupando posições de comando dentro das Forças Armadas turcas.

Além da tentativa de golpe de Estado, a Turquia vive numa difícil relação com a União Europeia e os EUA. É fundamental como braço armado como país com fronteiras no Oriente Médio. De outro lado, como é considerado pelos dirigentes europeus como negros muçulmanos, não teriam a capacidade de ocupar o mercado comum europeu. Erdogan continua a se mover entre a quase exigência de apoio às forças ocidentais, pois pertence a OTAN, e a necessidade econômica de se voltar para o oriente. Todas as espécies de jogos duplos podem sair dali, como confirma as últimas e tensas tentativas de negociação entre Putin e Erdogan sobre o ataque em Idlib.

O papel dos White Helmets e as armas químicas ocidentais

Os White Helmets servem como a última esperança britânica de conseguir uma confrontação de larga escala com os sírios e, consequentemente, com a Rússia. Para se ter uma ideia, a organização financiada pelo MI6 britânico conta com cerca de 1500 pessoas trabalhando em seu departamento de imprensa. Um de seus maiores objetivos: tirar fotos que depois confirmariam a ação de Assad contra civis através do uso de armas químicas. Para ser mais preciso, devem primeiro montar a cena e depois tirar as fotos e fazer as filmagens que abastecem a mídia ocidental para acusar Assad de matar civis aleatoriamente numa guerra em que está em franca vantagem.

Atualmente, não há desculpas para se fazer um ataque de grande escala no Oriente Médio. O único motivo plausível seria um ataque com armas químicas. É o único meio encontrado para mobilizar minimamente a opinião pública para uma guerra que seria, em todos os casos, extremamente impopular. Algumas forças rebeldes ao sul da Síria também poderiam organizar esse ataque, porém se encontram bastante fragmentadas e talvez não tenham tempo de montar o cenário. No mais, é um território ocupado pelos EUA. Recentemente, os russos pediram a cooperação americana para um assalto aos terroristas, porém deve ficar como mais um pedido de cooperação russa não atendido pelos americanos. Esse um dos motivos da ação rápida da Rússia em Idlib, onde até então os jihadistas se encontravam bem coesos ainda que num domínio bem menos extenso em comparação ao que já controlavam. E ainda com o acesso a Europa e a ajuda militar e econômica que vem dali.

A Síria já destruiu, sob a supervisão da ONU, suas armas químicas. A Organização para a Prevenção de Armas Químicas (OPAQ) verificou o subúrbio de Douma, em Damasco, nos supostos ataques em abril e não encontrou vestígios de uso de armas químicas. Ainda mais, esse tipo de verificação não precisa ser feita imediatamente após o ataque, já que deixam rastros por pelo menos três anos. Antes mesmo da OPAQ fazer as averiguações necessárias, EUA, França e Reino Unido bombardearam a capital da Síria, numa ação que deixou boa parte do mundo alarmada. Houve transmissão ao vivo do evento inclusive no Brasil. No final, soube-se que as forças ocidentais bombardearam lugares vazios de Damasco. Algumas instalações atingidas foram previamente esvaziadas pelos sírios, via informação relatada diretamente pelo Departamento de Defesa americano. Um dos maiores casos de “notícias falsas” jamais estudado. “Notícias falsas” do início ao fim que, se não fosse pela estranha atitude de Trump, de atacar e ao mesmo tempo cooperar, poderia levar diretamente para um confronto direto, termonuclear, entre Rússia e EUA.

Como alerta o memorando ao presidente, de 9 de setembro, dos Profissionais de Inteligência para a Sanidade (composto de antigos membros da CIA, FBI e demais grupos de inteligência): “Enquanto as forças sírias apoiadas pela Rússia lançam o confronto final na Síria contra extremistas jihadistas na província de Idlib, o potencial para um confronto entre EUA e Rússia nunca foi tão grande, como o VIPS adverte neste memorando para o presidente”.