Ainda Bannon: o recuo nas relações China-EUA

Steve Bannon e seu bilionário chinês, Guo Wengui

Como a reunião de cúpula do G-20 demonstrou, duas distintas facções da elite internacional trabalharam para boicotar o entendimento político dos EUA com a Rússia, via Ucrânia, e para boicotar o entendimento econômico da China com os americanos através da prisão política no Canadá da executiva chinesa. De maneira flagrante se demonstra ser de fachada o “antiglobalismo” da nova extrema-direita mundial. Ela se move em passos céleres para boicotar o desenvolvimento econômico chinês e asiático, enquanto os neocons, os ultraliberais, ainda mexem suas peças para uma provocação militar de larga escala contra a Rússia.

O Império move o mundo para o Coração das Trevas.

O concerto macabro

Talvez as notícias da área internacional mais significativas da semana passada foram o encontro de Trump com Xi Jinping na Cúpula do G-20 e a prisão da executiva chinesa da empresa Huawei, Meng Wanzhou. Ela foi presa enquanto os dois chefes de Estado se reuniam, o que indica que as pressões da oligarquia internacional chegaram a um nível bem alto últimas nas semanas.

Vale notar que uma reportagem do UOL (no hiperlink acima) diz que “prisão pretendia ser uma advertência do governo Trump na campanha para limitar a difusão global de tecnologia chinesa”. Logo, a primeira impressão é a de uma prisão política. Segundo, ela não “acabou por frustrar” os entendimentos comerciais ocorridos durante o encontro dos dois presidentes. Antes, ela foi feita para colocar um empecilho às negociações. É bastante dúbio o que se indica como “governo de Trump”. A política bipolar, que é o que se deduz do noticiário, revela, pelo contrário, duas facções políticas distintas em busca de hegemonia.

Outro ponto de ancoragem para essa interpretação foram os atos recentes do presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, que decretou lei marcial no país depois de provocar um grave acidente militar e diplomático com a Rússia. Como consequência, a reunião entre Trump e Putin marcada para ocorrer na mesma Cúpula do G-20 foi cancelada.

Um ato provocador antes e outro bem no calor dos acontecimentos. Esses dois atos também demonstram como diferentes facções da elite mundial podem agir em concerto. Seu objetivo: afastar um acordo ocidente-oriente em favor de um mundo multipolar e projetos amplos em parceria mútua, como exemplificado pela Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

A cisão da elite

Nos mesmo registros dos acontecimentos marcantes das últimas semanas, Steve Bannon deu uma coletiva a imprensa junto a Guo Wengui, bilionário chinês exilado e crítico da política de seu país. Eles pretendem criar um “Fundo do Estado de Direito”, ou seja, cerca de 100 milhões de dólares para investigar a corrupção na China e ajudar as vítimas de perseguição no país.

São notórias as declarações de Bannon contra a China, ainda que seu grupo não tenha o hábito da histeria russofóbica dos neocons. Como venho dizendo nos últimos textos que publiquei sobre política internacional, com a escalada militar da OTAN na fronteira com a Rússia e o derretimento do bloco financeiro transatlântico, City de Londres e Wall Street, depois de 2008, houve um racha entre as elites internacionais, compreendidas numa figura de linguagem:

  1. Neocons e libertários com George Soros. Sua política é a defesa genérica da democracia, junto a um projeto robusto de incremente de medidas de livre-comércio e guerra financeira (especulação), econômica (sanções), cibernética contra países “autoritários”. Chama a atenção a escalada capitaneada por esse grupo, via OTAN, contra a Rússia. O saldo positivo mais visível da derrota eleitoral de Hillary Clinton em 2016 foi a retomada do diálogo dos EUA com os russos. Até a chamada “linha vermelha” (onde os presidentes e os altos oficiais podem conversar diretamente numa situação grave de crise, opção emergencial existente desde a Guerra Fria) tinha sido desligada nos últimos meses do governo Obama.
  2. A extrema-direita xenófoba e racista, católica e pró-Israel, que tendem a distender as tensões com a Rússia e fechar o cerco contra os chineses: o caso de Henry Kissinger. Como modo de ação, usam das redes sociais e do apelo a um nacionalismo primitivo, pré-Segunda Guerra, para engrossar suas fileiras de apoiadores. Diante da insatisfação crescente com as políticas de austeridade da Troika ou da manutenção dos baixos padrões de vida nos EUA, esse movimento tenta catalizar a insatisfação popular em favor de um Mussolinismo 3.0, política cuja face mais visível é a de Steve Bannon.

A “russofobia” impulsiona Steve Bannon

É digno de nota como o The Times pôde identificar “pegadas russas” nas manifestações dos “coletes amarelos” franceses. Trata-se de uma confusão deliberada que busca confundir o movimento de extrema-direita exemplificado por Bannon.

(ele disse em matéria recente do The Guardian que gosta de uma passagem da vida de Napoleão; de acordo com ela, em resumo, quando o general ordena todos os oficiais obedecem; como trabalha na linha de frente, Bannon está mais para um oficial; resta saber para quem esse “Napoleão” aponta)

As análises que fazem uma comparação entre as “primaveras” de 2013-14 no mundo e o que acontece agora na França levam em consideração que o caos político fabricado no país tenderia a abrir um flanco para a extrema-direita, como ocorreu no Brasil e na Ucrânia. Os perfis da internet detectados pelo The Times podem estar sediados na Rússia, o que não diz que isso é uma ação do governo russo. Essa, afinal, é um dos pontos mais elementares da discussão a respeito da imensa fake news chamada de “russiangate”. Na verdade, essa é a fake news que deu origem ao termo fake news.

Significativo no diagnóstico dessas imensas pertubações políticas, foi a reunião da cúpula das Forças Armadas dos países asiáticos em 2014, onde, em documento oficial, foi considerado as “primaveras coloridas” “guerra irregular moderna” de outros Estados contra a soberania de seus países. Assim, essa segunda geração de nerds e empreendedores da internet, com grande quantidade de dados minerados, agem para fomentar caos social e indicam, nos rastros de seus atos, para uma interferência russa. Indiretamente trabalham para os neoliberais russofóbicos.

Como a reunião de cúpula do G-20 demonstrou, duas distintas facções da elite internacional trabalharam para boicotar o entendimento político dos EUA com a Rússia, via Ucrânia, e para boicotar o entendimento econômico da China com os americanos através da prisão política no Canadá da executiva chinesa. De maneira flagrante se demonstra ser de fachada o “antiglobalismo” da nova extrema-direita mundial. Ela se move em passos céleres para boicotar o desenvolvimento econômico chinês e asiático, enquanto os neocons, os ultraliberais, ainda mexem suas peças para uma provocação militar de larga escala contra a Rússia.

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