Cine-resposta: guerras encobertas e ações específicas no Irã

Apesar do reconhecimento oficial do Irã de que foi um de seus mísseis que abateram o avião civil ucraniano, ainda está em aberto a questão sobre a autoria de fato do atentado. Guerra cibernética, como feito contra a Rússia e a Venezuela, está entre uma das hipóteses para o “engano tático”. Acima de tudo, a sequência de fatos mostra que culpar o Irã continua sendo um artifício para diminuir a comoção popular em torno da morte do general Soleimani, procurar produzir uma “primavera árabe” no país e voltar a opinião pública internacional contra o Irã, apagando o ato bárbaro cometido pelos EUA.

Existe aqui um escritor que não só não escreve direito, mas esquerdo, como também tem verdadeira preguiça diante “dos fatos”. Pode parecer complacência com a objetividade redundante e vontade alguma de ser a voz mais alta num coro de histéricos. Por isso mesmo, e talvez vagarosamente, vamos para “a análise”.

Certa vez existiu um leitor do GGN indignado (nada pouco comum) com o fato do editor do site ter mantido um artigo meu sobre a guerra no Irã [aqui], sob o argumento de que o que eu dizia estava datado. Depois que o governo assumiu a culpa pela queda do avião ucraniano, nada do que estava escrito valia.

O leitor foi condescendente, tenho que admitir. Poderia somente questionar, meio anacronicamente, sobre os motivos de tais especulações terem sido publicadas no site. O fato é que só “se soube” que o Irã abateu o avião depois que eles assumiram, mas não questionei sobre discursos oficiais. Como comprova a comparação entre a queda do avião e os dois terremotos quase simultâneos ocorridos próximos a instalações nucleares iranianas, não se tratava se um ataque para ser comprovado positivisticamente pelos “fatos”.

No dia seguinte, o Gustavo Conde colocou o problema de uma maneira interessante, dizendo que a tragédia do voo não foi um erro, mas consequência da guerra [aqui]. Tamanha obviedade chega a assustar, ainda mais colocada nos termos corretos. Claro, isso não passa pelo fato de que o Irã não impediu os voos comerciais enquanto bombardeava o Iraque. Conde coloca o problema nos termos de uma “guerra de comunicação”, ou seja, no patamar mais visível além da obviedade assustadora.

A sequência dos fatos comprova o que eu disse em meu texto: culpar o Irã era artifício para minimizar a comoção popular causada pelo assassinato de Soleimani (como também Gustavo Conde disse). A partir da aceitação do Irã, toda a culpa recairia sobre o país.

Minhas observações eram as seguintes: alguns doutores canadenses, especialistas na questão nuclear e que tinham trabalhado no Paquistão quando esse país desenvolveu sua bomba, estavam naquele voo. Junto aos dois terremotos bem suspeitos (mísseis no Iraque e tremores de terra no Irã), o recado dado pelo Ocidente foi bem claro: seu programa de enriquecimento de urânio é o que mais nos desagrada e, se vocês continuarem a querer produzir uma bomba nuclear, ainda antes vocês serão destruídos com o mesmo “veneno” que querem criar.

E aqui a história termina.

O que se deu posteriormente, a “guerra de comunicação”, foi a tentativa de criar uma “primavera árabe” iraniana. Com a prisão do embaixador britânico, a “revolta popular” foi desmascarada, apesar dos meios de comunicação ainda tentarem colocar a comoção pseudo-popular a respeito da queda do avião como superior ao verdadeiro movimento tectônico causado após o assassinato de Soleimani.

O pessoal inteligente que gosta das análises do Pepe Escobar, recomendo suas especulações, que ainda não saíram em artigo algum mas estão em seu Facebook, a respeito de como o Ocidente utilizou artifícios similares à guerra cibernética usada na Rússia e Venezuela para confundir os operadores iranianos e provocar a disparada do míssil. Não por acaso, esses dias fez referência ao artigo do Instituto Schiller sobre a Nova Rota da Seda no Irã [aqui].

É inviável o fim da geopolítica sem a integração intercontinental sonhada desde o século XIX com o advento das ferrovias e do motor a vapor, ou seja, o fim do Mediterrâneo retratado por Fernand Braudel, um “espaço liso”, nômade, capturado pelo aparelho de Estado, i.e., o Império Britânico. Mas não vou repetir histórias contadas tantas vezes [aqui]…

O corredor China-Paquistão nos conta a mesma história [aqui]: não há solução possível, vivemos uma mudança de eras, de “sistemas-mundo”. As ameaças de guerra termonuclear são quase efeitos de superfície diante da guerra total que vivemos agora. Existe uma escolha a ser feita diante de duas possibilidades: ou continuamos ora com tom mais liberal, ora com um tom fascista, a defender o sistema imperialista da City de Londres e Wall Street, ou ingressamos num novo paradigma para a humanidade, atualmente encabeçado pela China e a Rússia e, pouco tempo atrás também pelo Brasil, via BRICS. Ou se concebe um mundo onde possam viver e conviver em paz não 8 ou 10 bilhões de pessoas, mas 20 ou 40 bilhões, sem qualquer malthusianismo ou “limites ao crescimento”, ou a saída é a guerra termonuclear, para que a Terra, com a interferência de mentalidades medíocres, consiga alimentar no máximo 1 bilhão de pessoas. Foi a segunda opção que fez “cair” o avião no Irã.

PS: o título é homenagem a Paul Virilio, Deleuze e Guattari. Em outra oportunidade explico de modo não factual as relações entre a velocidade e as máquinas de guerra. Por agora só pude expor os fatos...