Mundo virtual e peste planetária

Mas com o medo de perder a vida só se pode fundar uma tirania, a do monstruoso Leviatã com sua espada desembainhada“. Giorgio Agamben, 27 de março de 2020.

Como mostrar algo em meio à proliferação de palavras?

Entre as inúmeras inquietações que o atual surto viral planetário nos provoca, eu queria escolher apenas uma para de algum modo poder me expressar. Sim, a multiplicação de informações antes desfavorece a comunicação e pode provocar consensos precipitados.

Não é só uma questão científica. Se os médicos e pesquisadores não conseguem ainda definir um padrão para a doença, muito menos nós, os “espectadores”, temos diretrizes minimamente razoáveis para se situar em meio a um acontecimento inaudito.

Gostaria de citar uma série de questionamentos, tanto feito por médicos como pelos “leigos”, porém, como disse, quero me fixar em apenas um ponto. A questão não diz respeito a um “cui bono” (a quem beneficia), ou seja, entre o conflito narrativo sobre a origem da doença: o morcego e o mercado ou o Fort Detrick e a chegada da delegação americana para os Jogos Militares em Wuhan. Não é uma questão sobre um benefício, mas sobre uma conveniência.

Em 2009, a jornalista da CBS, Sharyl Attkison, 5 vezes premiada com Emmy, noticiou a sobrenotificação de casos de gripe suína (H1N1) nos EUA [aqui]. Pode ser pela repercussão das reportagens, talvez pela rapidez na entrega de uma vacina, ou por um “algo a mais” que faltava no período: não importa o motivo, a peste planetária não se concretizou naquele ano.

Qual é a conveniência de uma doença com capacidade tão chocante de propagação num mundo que é inteiramente diferente daquele de 2009? Se somos pouco mais velhos que os atuais adolescentes, temos memória para lembrar que pouco tempo atrás um BlackBlerry era considerado um telefone de alto luxo e pessoas comuns andavam pelas cidades orgulhosas de falarem em rádios como noutro tempo as crianças ricas em seus Walk Talks.

O mundo irreconhecível de 10 anos atrás

Veja bem: a música cantada por Ney Matogrosso, Samba do BlackBerry, foi lançada em 2013. A irreverência da letra tem um ponto central: a capacidade da moça com o celular moderno de mandar e-mails através de um dispositivo móvel. Só por isso, veja bem, ela trocou o narrador pelo telefone.

E assim era o ambiente daquela época. O “me mande um e-mail” e não mais um “me ligue” formava o ambiente da época. Da comunicação por telefone fixo ao telefone móvel, uma história longa. Da comunicação eletrônica via PC até as mensagens por celular, uma história mais curta. De repente, e no bojo do amplo mercado de consumo formado pelos governos do PT, as telas sensíveis dos celulares passaram a ser cada vez mais funcionais. Não surgiu apenas o Vale do Silício com seus aplicativos e jogos, mas, talvez de uma maneira mais correta, teve nascimento a política do Vale do Silício [aqui].

Lembro nos anos 2009-10 uma certa efeméride a respeito do lançamento do Google Chrome e todas as suas funcionalidades. O Gmail, vinculado ao Google, não era mais de acesso restrito, onde apenas quem era convidado poderia ter acesso a um serviço de e-mail que oferecia a quantidade então exuberante de 1 GB de armazenamento. O mecanismo de pesquisa Google mais seu serviço de e-mail criaram um novo paradigma do uso da internet e faz parte, como o BlackBerry, da pré-história de nossos usos atuais dos meios de comunicação.

Não sei precisar se em 2014 ou 15, mas com certeza contemporâneo às “primaveras árabes”, o mundo passou a ser visto através das telas de um celular. Não se tratava mais de comunicação, isto é, de falar com pessoas próximas por motivos afetivos ou profissionais. As revoluções não teriam sido tão coloridas caso não houvessem redes sociais e smartphones.

Quase que de repente, Twitter, Facebook, Instagram, YouTube formaram o enquadramento onde as pessoas se comunicam não só com os próximos, mas passaram a formar verdadeiras comunidades virtuais, todas quadranguladas a partir de uma conta Google.

A pós-história da comunicação

Paralelo à popularização das redes sociais e ao novo paradigma da internet, Google, surgiram os serviços de streaming ( Netflix, o mais famoso no Brasil, entre tantos outros). Nada disso teria sido possível sem a mudança expressa na música mencionada acima, isto é, a capacidade de utilizar computadores móveis cada vez mais sofisticados, porém com um nome ainda arcaico, celular.

Pode ser adicionado o termo “inteligente” ao objeto, mas para a maioria das pessoas ele não é um smartphone e sim um celular, assim como pouco se usa seu nome técnico, “dispositivo móvel”, que alberga também outras categorias de aparelhos.

A partir desse momento, houve uma liberação total do ambiente virtual do meio prosaico que a comunicação humana se estabelecia de modo corrente, quero dizer, a capacidade de se comunicar por meio diversos com pessoas de suas relações pessoais. Quem não é um anônimo no Twitter, uma figura entre tantas no Facebook, uma espécie de ator de si mesmo no Instagram? Todos os feitos realizados através dessas redes (multiplicação de curtidas e compartilhamentos) compõe uma história ainda rústica do que vem se compondo como a nova organização dos totens da Fama, da Influência e da Riqueza.

Seria um ambiente sem hierarquia, um “espaço liso”, quase anárquico, caso não fosse os mecanismos de controle social, vigilância e mineração de dados. Agora com esse caso, a “democracia vence” novamente, e igual a outras vezes, de uma maneira meramente formal.

Os serviços de streaming são importantes , então, por comunicarem a história mais antiga da comunicação na virada do século, a televisão, com a pós-história que abordamos. Talvez sendo um pouco mais velhos do que os atuais adolescentes, não é difícil lembrar as dificuldades de se lidar com a televisão. Os poucos canais disponibilizados pela TV aberta no Brasil condicionavam o espectador às pautas jornalísticas, horários e temas culturais criadas por esses meios. A TV a cabo era um luxo e, para se ter acesso a mais canais, o desembolso (talvez a quinze anos atrás, se não me falha a memória) chegava a 400-500 reais no pacote internet-tv. Não sei quanto era o salário mínimo na época, mas correspondia a uma boa parcela dele ou a sua totalidade…

O Netflix e YouTube, em especial, permitiram ao espectador formatar por conta própria sua programação preferida e seus horários. Numa grade aparentemente ilimitada, podem ser assistidos filmes, documentários, entrevistas, programas dos mais variados na hora que bem entendermos. Isso é uma revolução ainda mais impressionante se for considerado que todo o conteúdo pode ser acessado em dispositivos móveis e vistos não só em qualquer horário como em qualquer lugar.

Visto de relance, parece que os costumes de convivência mais arcaicos, o contato com os mais próximos, o contato pessoal, viraram coisas do passado. Essa televisão é muito chata! Vou jogar baralho ou o que seja com alguém. Vou sair por aí, colocar uma música qualquer no último volume, “tomar uma”, encher o saco do vizinho… Esse mundo áudio-visual é muito careta. Não! Agora temos liberdade.

A reorganização das relações humanas

A história da técnica também é uma história do cotidiano ou da “vida privada”, essa inovação da historiografia recente. Entendida dessa maneira, o projeto de se escrever a história do desenvolvimento tecnológico da sociedade capitalista sempre esteve ao lado de considerações sociais e econômicas, ainda que tenha que passar pelo caminho através de estranhos signos: o pacato cidadão que saía para passear com sua tartaruga amarrada a uma corda em meio às galerias parisienses, como descrito por W. Benjamin como a imagem quase arquetípica do flâneur.

Ao lado do mundo virtual que se estabelecia através de aplicativos e dispositivos móveis, houve toda uma reorganização social do trabalho consequente à política de transferência massiva de recursos para empresas fantasmas como a Apple [aqui]. Como que do nada, “por milagre”, no pós-crise, surge um estranho pioneirismo técnico-científico a partir do Vale do Sicílio.

A crise de 2007-8 encheu de poder (transferência massiva de recursos) as firmas fantasmáticas que pareciam não se apoiar em nada, tal como a lua sob uma visão em narcótico, parece não se apoiar em nada. Das empresas fantasmáticas à realidade virtual: toda uma nova configuração se ergueu que não passa pela história tradicional da comunicação.

Em outras áreas, portanto, que não o da comunicação direta (redes sociais), onde o telefone móvel serve como habilidade última para legitimar seu poder, apareceram os serviços de streaming. Mas não só: não apenas a comunicação, mas a locomoção pela cidade sofreu sérios transtornos. Na história tradicional do mundo, o entregador de pizza sempre foi uma espécie de versão “self-made man” em contraste às máquinas burocráticas de entrega, estatais ou privadas. Igualmente o taxista para as empresas de ônibus: um acontecimento das grandes capitais, como largamente relatado na cinematografia.

O sistema de locomoção, portanto, se encontra com o de comunicação. A última volta mefistotélica que o narrador do Samba do BlackBerry não poderia adivinhar. O Uber vira um caso de estudo nas grandes capitais: Uber vs Táxis; segurança vs preço; bom ou mal serviço: o antigo ou o moderno? Nunca se estudou tanto a vida de ubers, sem atinar sua correspondência com a do taxista: trabalhadores informais que se multiplicam nas metrópoles cada vez mais digitais e menos industrializadas. O que o Uber fez foi exponenciar uma relação intrínseca da nova relação entre cidade e capitalismo pós encerramento dos acordos originais de Bretton Woods [aqui].

Patinetes e bicicletas – sempre de repente, não mais que de repente – passaram a povoar calçadas e ruas, tudo acionado por meio de aplicativos. Nada mais natural que, entre o Uber e o patinete, o setor de comércio acionasse as novas tecnologias e chutasse para longe a relação pessoal com seus subprodutos de self-made man, os motoboys.

E não importa como se entrega a encomenda, se a pé, de carro, de bike ou patinete. Uma nova economia já estava madura e, não mais que de repente, plenamente estabelecida.

Mundo virtual e vida animal

A pergunta esboçada no início desse texto, porém não formulada ainda é a seguinte: não é o “cui bono”, mas o quão conveniente é uma pandemia global não apenas num “mundo virtual” plenamente estabelecido, mas diante de toda uma nova configuração do trabalho em todo o Ocidente do pós-crise.

Diante de tantas comodidades que setores tradicionais da burguesia podem aproveitar, a criação de consensos fica muito mais fácil. Foi talvez uma imaginação perversa que me fez chegar até aqui e fazer um questionamento, quem sabe, inoportuno.

Gostaria de ver, hoje, essa mesma classe-média encerrada na programação da Globo; por vez, através de um agudo transtorno bipolar, redirecionando sua atenção para a Band e a Record. Por outro lado, navegando numa internet com menos de 1% das possibilidades atuais. Sem serviços de entrega de abnegados trabalhadores. Tudo agora é bem diferente e já estamos acostumado ao mundo maniqueísta das redes, onde se separa hermeticamente o bom do mal e, no círculo mais próximo de nossas relações virtuais, todos sempre bonitos e bem educados.

O estado de comodismo chega a um ponto nunca antes visto. Como se faria quarentena dez anos atrás? Ainda mais, sem redes sociais, daria para se fazer uma quarentena planetária como agora? Sem drones, celulares que monitoram a movimentação das pessoas, a escalada não de um consenso médico, mas do Colégio Imperial (modelo gráfico-matemático, incontestável) e da OMS…

Para voltar ao nível “animal”, cotidiano, da análise, duvido que, esgotadas todas as possibilidades de diversão doméstica, mesmo para aqueles aventurosos que conseguiriam fazer reviver o “buraco” e outros jogos, tudo isso não durasse mais de quinze dias… Com força policial e militar ostensiva, tudo poderia durar mais, indefinidamente… Mas aí já seria antecipar coisas que não são conjecturadas por enquanto…

Do outro lado da película, os filhos só não estão totalmente soltos pela casa (impossibilidade de brincar com amigos nas ruas e condomínios, fora as diversões costumeiras), em boa parte em razão da abnegação de professores. Estes, de súbito, tiveram que virar especialistas em EaD (profetas do futuro próximo?) e assim, muito sem querer, ajudar a arrumar a casa alheia.

Mais um pouco além da película, os heróis que se aventurar para fazer compras nas ruas não são os que pegam os ônibus lotados, ou seja, aqueles que ainda vem para manter ativos os serviços essenciais e experienciam um estranho paradoxo: o alívio de não pegar engarrafamento por as vias estarem vazias e o medo de contágio em ambiente hermético e lotado. Afinal, nenhuma normatização para as empresas de transporte? Fora o fato de se exporem ao contato com dezenas ou centenas de pessoas diariamente e das mais diferentes formas.

Sempre, o estranho nervosismo que se vê em quem é obrigado a trabalhar ou ir à rua. Medo de contágio, ansiedade para o estado de exceção acabar, preocupações financeiras, problemas domésticos devido ao encarceramento geral, o próprio estranhamento provocado pela aparência de se viver num domingo eterno, mas sem as diversões do domingo… É um nervosismo generalizado: alguém pelo menos se habilita a falar? As ruas estão só virtualmente vazias. Alguém deve vir e contar seu cotidiano!

Talvez não o façam por tudo estar abafado em nome de uma causa maior.

O paradigma do contágio

Giorgio Agamben provavelmente prevaricou em suas atribuições de referência filosófica internacional ao escrever seu primeiro texto em que se opunha ao paradigma do contágio [aqui], mesmo considerando que ele se baseava em dados estatísticos ainda imaturos. O problema é que ele continuou prevaricando em textos sucessivos, mesmo exortado por velhos e valorosos companheiros.

Numa de suas réplicas aos críticos [aqui], pergunta: “o que é uma sociedade que não tem outro valor senão a sobrevivência?”. O trecho a ser destacado como resposta pode ser esse: ” Os homens se acostumaram tanto a viver nas condições de crise e emergência perpétuas que parecem nem mesmo notar que suas vidas foram reduzidas a uma condição puramente biológica e perderam todas as suas dimensões, não só as sociais e políticas, mas até as humanas e afetivas”.

É como se, agora numa nova escala, a tese que Agamben desenvolveu por toda a vida ganhasse nova confirmação. Nada tão novo em relação ao filósofo, para quem, segundo Georges Didi-Huberman, traz um tom apocalíptico a tudo o que fala, em filiação direta com o cinema e a literatura de Pasolini. Segundo Agamben, a peste, tal como o terrorismo, coloca a culpa em cada um de nós. Todos podem ser responsabilizados. Essa pode ser, em poucas palavras, a abordagem apocalítica de Giorgio Agamben [aqui].

Porém, existe uma direção programática em suas intervenções. Se suas afirmativas polêmicas a respeito da peste planetária, quando em contraste com seu longo trabalho teórico e o “tom” acima mencionado, pode tornar tudo obscuro, ele é muito claro ao afirmar em relação ao futuro próximo estabelecido pelo paradigma do contágio: “que as universidades e as escolas sejam fechadas e que só se dê aulas on-line, que deixemos de nos encontrar e falar por razões políticas ou culturais e só troquemos mensagens digitais, que sempre que possível as máquinas substituam qualquer contato — qualquer contágio — entre seres humanos”.

Os comentadores atuais se concentraram em criticar sua primeira intervenção. Não se fez uma crítica “texto por texto”, tampouco um apanhado do que ele vem falando sistematicamente. O que quis por agora não é tanto expor uma crítica como conjugar algumas de suas afirmações que me parecem mais importantes.

Giorgio Agamben: pestilência e vida nua

Deve ser lembrado que, após três textos sucessivos para o site Quodlibet, a confusão estava armada. O primeiro foi publicado em 26 de fevereiro, o segundo e o terceiro em 11 e 17 de março. Em 24 de março, o Le Monde publica uma entrevista com o filósofo, onde ele teima em manter seus posicionamentos, apesar de tudo.

Existe uma inflexão: ao falar para um público mais amplo, deveria provar (talvez assim se esperasse) factualmente seu posicionamento. Ele desliza das perguntas e diz que não entrará na seara dos especialistas da área de saúde: o que lhe interessa são as consequências éticas e políticas extremamente graves provocadas pelo novo estado de exceção. Na confusão babélica de línguas que nos caracteriza, cada categoria tem suas razões particulares que não levam em conta a relação dos outros: a do epidemiologista é uma, a do médico outra, a do chefe de Estado também. Mas ele mantém o ponto fundamental: “a falsa lógica é ainda a mesma: como em face do terrorismo argumentou-se que a liberdade deveria ser suprimida para defendê-la, da mesma maneira nos é dito que a vida deve ser suspensa para ser protegida”.

Acredito ser esse o ponto-chave, a repetição incansável da lógica agambeniana, eleática como dificilmente alguém poderia ver em vida.

Foi seu segundo texto, contudo, que me despertou a atenção. Quando fala sobre a facilidade com que os italianos se acostumaram com a vida nua, privados de qualquer sociabilidade, rapidamente acostumado com aulas virtuais e contatos eletrônicos, algo aconteceu. Devido a tantas coisas que venho pesquisando e escrevendo não teria como não perguntar: sem o atual mundo virtual seria possível o estabelecimento de uma peste planetária?

Sem querer, sem tê-lo visto se manifestar de maneira tão enfática (cada vez mais), acaba que minhas palavras podem ser colocadas ao lado das de Agamben em sua última intervenção, em 27 de março [aqui]: ” Perché non ci sono state, come pure era possibile immaginare e come di solito avviene in questi casi, proteste e opposizioni?”.

Sua hipótese é de que a peste já estava lá, a condição de vida das pessoas eram tais que bastou um sinal imprevisto para aparecer tal como era, isto é, como uma peste. Por tal motivo, uma necessidade de religião volta a aparecer e, ao lado, a mídia usa não o vocabulário “técnico”, como se pensa, mas o apocalíptico. Que se destaque isso: ” È come se il bisogno religioso, che la Chiesa non è più in grado di soddisfare, cercasse a tastoni un altro luogo in cui consistere e lo trovasse in quella che è ormai di fatto diventata la religione del nostro tempo: la scienza”.

Benefício vs Conveniência

Fora dos tratados escolares não há divergência de natureza, mas de grau, entre as escolas jônica e eleática. Assim, fica mais difícil de enxergar a singularidade de Atenas ou o fruto tardio a que se deu o nome de Filosofia, nascida, segundo os manuais, junto à democracia. Contudo, quando Sócrates é proibido por seu “demônio” de frequentar a praça pública, a configuração filosófica muda porque a palavra mágica do gênio grego tem que se exercer sob o risco da morte.

Meu ponto de vista se baseia numa postura mais oriental, exótica e materialista que a de Agamben. Não pergunto apenas o óbvio, como acima exposto, após dar um pequeno panorama da história mais recente da comunicação. Pergunto também sobre o que é evidente e não se precisa historiar a respeito. Já o 11/09 foi uma operação de bandeira falsa para imprimir liquidez num sistema em colapso, ou seja, a crise de 2007-8 legitimou, cada vez sem maiores dores aparentes, a necessidade infinda de dar crédito aos eternos devedores na vida de nosso planeta.

Eles devem muito e, assim, procuram sugar todos os recursos que a humanidade pode produzir. Como chegamos até aqui? Pouco importa. Do assassinato de Kennedy ao 11/09 se formou o paradigma atual. Num momento, o do terror; noutro, o dos resgates bancários (política do Vale do Silício); agora, o do contágio. Assim, se confirma a tese de Agamben: já vivíamos sob o mesmo paradigma. Bastou soar o alarme para que uma nova modalidade fosse instaurada.

Se devem muito, esses tão poucos e tão importantes personagens, sempre invisíveis ou escondidos num estranho jogo de fumo e espelhos, a sociedade deve ser colocada em alerta para socorrê-los. O perdão infinito só cabe à raça celestial, a dos anjos caídos nessa Terra – os donos do mundo? Enquanto isso, países inteiros, sua população e economia, entram num círculo de dívida infinita. Nos endividamos por termos nascidos sob o signo de Caim, enquanto a raça celeste, os atuais deuses do Olimpo, merecem toda a admiração e o perdão das suas faltas infinitas.

Pouco antes de acontecer o imprevisto, em agosto do ano passado, houve o infame encontro em Jackson Hole, no estado americano de Wyoming , onde banqueiros internacionais, todos participantes do gigantesco fundo hedge Black Rock LLP, propuseram flexibilização quantitativa com transferência direta do Tesouro para os bancos [aqui]. Um comitê de especialistas iria dirigir a alocação dos recursos. A facção política que os especialista da Black Rock encontraram para dirigirem e legitimarem a obtenção de tais somas de recursos, foi a que elaborou o Green New Deal. Com tal “mudança de regime” monetário, os estimados 16 trilhões de dólares para se mudar a base energética mundial para a da época de Dom Quixote, poderia ser adquirido via transferência direta para os fundos hedge.

Mas isso é mais uma cortina de fumaça ou uma das modalidade (opções) do plano de digitalizar todas as operações monetárias (mundo pós-dólar) e concretizar o sequestro pela banca privada da capacidade de emitir e direcionar crédito, prerrogativa dos bancos centrais. O plano continua em curso, porém foi gravemente intensificado depois de soar o alarme do “paradigma do contágio”. As máquinas dos bancos centrais voltaram a imprimir dinheiro como nunca. O próximo passo é acabar com essa burocracia e transformar definitivamente a economia através de transações exclusivamente digitais.

O chamado “cui bono” se encontra aqui com a “conveniência” como expressei até aqui em meu texto. Existia uma base material (midiáticas, tecnológicas) para se fazer uma quarentena generalizada sem gerar revoltas mais contundentes (pelo menos num primeiro momento), ou seja, enquanto rearranjam a economia em novas bases. Caso seja levado em conta as intervenções de Giorgio Agamben, já havia uma predisposição mental desde o surgimento da “guerra ao terror”, para que tal estado de coisas pudesse ocorrer sem maiores ruídos. Tanto no paradigma do terror quanto no do contágio, todos nós podemos ser responsabilizados pela vida de muitos.

Esse texto faz parte da série Paradigma do Contágio. Clique aqui para ter acesso.