“Não mais notícias falsas”: a volta do macartismo hoje

A matéria do Washington Post endossando um novo site, PropOrNot, que faz a denúncia de 200 sites que fazem campanha pró-Rússia mundo afora, com milhões de visualizações, engrossou o coro do neomacartismo no mundo, diante do posicionamento de Donald Trump quanto à Rússia e frente a suposta invasão dos arquivos de internet dos servidores da campanha de Hillary Clinton. Os EUA, fazendo dos Al-Nusra/Al-Qaeda transformarem-se de terroristas em “rebeldes”, a culpabilização de Bashar Al-Assad de crimes de guerra enquanto “rebeldes” se utilizam de escudos humanos, inclusive crianças, fazem ver a divergência de opiniões entre a imprensa ocidental e o que se pensa no resto do mundo, desde que, pelo menos, as “revoluções coloridas”, as “primaveras”, logo em seu princípio foram consideradas atos de guerra de Estados estrangeiros contra a soberania nacional dos países asiáticos…

Por que não dar voz a Assad ou a Putin? Em que medida, pelo contrário, esse clima de macartismo não é o clima de nosso próprio ambiente político com o espírito de cruzada dos concurseiros de Curitiba? Para contar essas histórias, para fazer Assad falar, etc., escrevi essa publicação.

A rede “pró-Rússia” internacional está fora de controle. Depois que o Washington Post publicou a lista dos 200 sites proscritos por uma suposta inteligência extrafísica, a rede, que de maneira muito rarefeita chega no Brasil, logo se mobilizou e levantou o estandarte: No More Fake News. O melhor material jornalístico, sem dúvida, foi a matéria de Gleen Greewald e Ben Norton no The Intercept. O The Nation também publicou um lúcido artigo sobre o tema, enquanto um oficial da Casa Branca, jornalista “da moda”, Patrick Buchanan, disse que o governo americano sempre foi a fonte das notícias falsas. Paul Craig Roberts perde um pouco a paciência para chamar pelo nome os imbecis que criaram, no site PropOrNot a ideia dos 200 condenados. Lembra das agências de propaganda de George Soros que fazem isso há décadas, para não cair nas garras do raciocínio que logo atribui tudo ao complô Illuminati que governa o planeta. Coisa de Hilarys e quê tais, desde a suposta invasão russa à sua campanha, que fez engrossar o coro do neomacartismo atual.

O problema todo é querer dividir o problema em partes falsas. Lá fora o neomacartismo, aqui somente Sérgio Moro. Sob a figura de um homem de negro, como os black-blocks, querem somente a destruição do alvo premeditadamente escolhido. Os EUA agora largaram a retórica da “luta contra o terrorismo” (realmente vivemos tempos excepcionais…) e escolheu apoiar os rebeldes, nem que estes sejam a própria Al-Qaeda. Ou seja, chegam mais próximo do que sempre foi sua posição, se não oficial, a real, de patrocinadora, de criadora, das redes terroristas mundo afora, com todo o 11 de setembro.
Outro dia, lendo na internet um comentário fascista qualquer, desses que proliferam nesses tempos com tanta facilidade, caiu a ficha. O mini-ditador falava que a ditadura estava certa ao prender Zé Dirceu, Lula e Dilma. Moro agora justifica a perseguição passada. Fora o caso excepcional de Eduardo Cunha, que colocou fogo nas próprias vestes, achando que fosse passar batido nesses tempos em que a história se move rápido, não há indício que qualquer cidadão de nossa elite venha a ser incomodado pela justiça. Pode ser que peguem um ou outro pmdebista, mas nada além de velhos coronéis, nada mais do que uma elite atrasada que faz tempo não controla nada de significativo no país. A “nata da nata”, sempre tucana para manter seus direitos de nascimento e suas afinidades seletivas, dificilmente será importunada se nada de mais substancial ocorrer.
O mini-ditador estava correto: prende-se agora quem lutou pela liberdade no passado; prende-se agora quem sempre a justiça prendeu, os pobres ou quem fala por eles. Como os pobres chegaram ao poder – essa a “variação musical”da época – a justiça, mesmo aí, chegou até eles. Para mostrar que o sistema de exceção continua exatamente vigente, intocável, como há 50 ou 100 anos atrás. Prova maior não pode ser os criminosos confessos livres – tão rápido – ou ainda confortavelmente, de maneira breve, aproveitando os milhões que lhes sobraram e curtindo uma temporada em suas casas. Mais uma pena duríssima imposta pelo juiz Moro. Que o Almirante Othon saiba ter compaixão e muita paciência.
Quem é o “homem de preto”?

Bashar Al-Assad dá entrevistas constantes aos jornalistas ocidentais. Algumas linhas ao menos deveriam ser publicadas para pelo menos conceder o famoso “direito de resposta”, supostamente um instrumento das democracias avançadas. Mas esse não é um caso somente do Brasil. Numa linha, no estrangeiro, dão voz aos proscritos por essa mesma mídia. Num outro lado, o envolvem com tantas calúnias que a voz contrária se torna novamente um murmúrio. Quando se fala em direito de resposta deve-se pelo menos compreender um destaque aproximado às manchetes tradicionais. O resto é demonstração de força e de poderio: “nós também entrevistamos o Satã. Veja, se quiser”. E se prepare para as consequências, prepare seu estômago, etc.
No vídeo que logo abaixo colocaremos, Assad concede entrevista ao canal NBC. É um digestivo antropológico para o povo estadunidense. Que não seja para nós. Nele, Assad diz muito bem que se não fosse o suporte dos EUA a guerra contra o Estado Islâmico não duraria alguns meses. O suporte em forma de dinheiro e de equipamentos, via Turquia, com o dinheiro também dos sauditas,s ão fundamentais para se manter o caos atual. Quando em 27 de novembro do ano passado a Turquia derrubou um avião russo, o que estava em jogo era o mesmo suporte: no caso, manter as rotas onde se levava o petróleo das áreas controladas pelo ISIS até a Europa. A Turquia mal se equilibra nessa balança. De um lado, a necessidade de continuar apoiando os sauditas, a aliança militar ocidental, e de outro a alternativa de crescimento real com a integração com a Ásia, com a Rússia primeiramente. O país, infelizmente, parece longe da “relação baseada em valores”, como descreve Assad, da Síria com a Rússia, longe do “indo junto para se dar bem” das parcerias entre as elites dos governos transatlânticos.
A Rússia tem a vontade política de acabar com o terrorismo, algo longe dos desejos norte-americanos. Sua aviação é ineficiente, contra-producente. Não são genuínos, não são verdadeiros, não fazem nenhuma aliança baseada em valores. Essas são as palavras de Assad no NBC Nightly News. Mas, pergunta o entrevistador, e se o atual presidente tiver que enfrentar no futuro uma corte internacional? Responde que tudo bem, “tenho que defender meu povo”. Logo, o entrevistador parte para a história de uma Marie Cohen, jornalista morta na guerra ao lado dos “rebeldes”. Assad é responsável por sua morte? Ela estava na Síria de maneira ilegal, se filiou aos rebeldes; ninguém sabe de onde saiu o míssil que destruiu o lugar onde estava a jornalista. Ela estava numa zona de conflito. Estando ilegal, como o governo a protegeria? Por tudo, muitos jornalistas a favor de Assad foram mortos na guerra. Foi a Síria que os matou? Silêncio de morte na sala.
Você já ouviu falar de guerra boa?, responde finalmente Assad. É porque ele não dá os dados, nem responde às perguntas para denunciar os crimes de guerra patrocinados pelo outro lado. Se a Síria e seu presidente cometem tais crimes, e Mossul, no Iraque, onde morreram muitos mais civis com os ataques estadunidenses? Foram simplesmente “efeitos colaterais”? Quanto a Síria mata, são “crimes de guerra”, quando os EUA, são “efeitos colaterais”. E o uso de civis como escudos humanos? Por que o ocidente não questiona os seus patrocinados? Por que não fazer essas questões ao Ocidente hegemônico, que parece ter “ganho a história” com a queda do muro de Berlim, mas que na verdade só fez aprofundá-la, levar-nos novamente para a beira do abismo de um possível “inverno nuclear” (quem quiser saber mais, tenho um artigo publicado aqui mesmo, bem detalhado, sobre a “nova guerra fria“).
Aí que entra Moro, como visto de maneira bem didática no documentário amador – e excelente – intitulado Destruição a jato. Não há razão para “se preservar a Lava-Jato”. Numa entrevista nem tão recente, mas bem esclarecedora, da presidenta Dilma para Luiz Nassif, na TV Brasil, (ela já tinha sido afastada), ela conta sobre as causas múltiplas que levaram ao fracasso da economia durante seu segundo mandato: seca prolongada (as maiores da história), baixa no preço das commodities (incluso petróleo), recessão nos países desenvolvidos, queda da atividade econômica chinesa, etc. É tudo muito compreensível. Se há algo a repreender na presidenta eleita, é o fato de não ter visto na altura suficiente o problema que nos encontramos enquanto civilização. Não é “recessão nos países desenvolvidos”, mas falência do sistema econômico transatlântico, como sempre reitera Lyndon LaRouche. A queda no preço das commodities, inclusive o petróleo, somente pode ser vista na ótica desses tempos excepcionais, ou seja, como forma de prolongar a guerra contra a Ásia principalmente e a Rússia em particular, para além das oficiais sanções econômicas. Sobre a seca incomparável, por que não levantar a hipótese das HAARPs? É um mecanismo de guerra disponível. Por que não pode estar sendo usado? Não é só a “embaixadora americana no Brasil”, que esteve no Paraguai, etc. É um contexto duro de guerra, já iniciada. Os acenos de Trump à Rússia soam mais do que insuficientes…
Não adianta buscar “causas múltiplas”. O dado concreto (expressão que Lula sempre usava em suas falas durante a presidência) é que a Lava-Jato é o inimigo número um do país. Atingiu a atividade econômica de maneira grave. São incontáveis empregos perdidos, recessão, empresas paradas, demonização da Petrobrás, responsável até então por 20 a 30 por cento do PIB nacional. Imagina se contabilizarmos as economias associadas direta e indiretamente? Chegaremos aos 50% do PIB? Só para ter uma ideia do que é um ataque tão frontal à Petrobrás, estreitamente vinculado ao DOJ e aos interesses dos oligarcas transatlânticos.

Não incluímos os dados que apontam que 63% do PIB se dá pelo consumo das famílias. Guardando os conservadores 20% relacionados à Petrobrás, e como o projeto de desenvolvimento nacional alicerçado na empresa ajuda num acréscimo substancial ao consumo: quanto do nosso desenvolvimento econômico real está diretamente ligado à empresa que os concurseiros de Curitiba querem destruir em seu conluio com o DOJ? Com o desmonte da rede de proteção social criado pelo PT (o mesmo programa da indústria naval foi construído por Dilma – mérito dela), e as PECs da morte – todas – que país sobrará? Não consigo crer que isso se efetivará nos próximos 5 ou 10 anos…

Não foi a Lava-Jato que oficializou o neomacartismo no Brasil, a sanha persecutória, a “sociedade punitiva” ressuscitada? O problema é exatamente não poder formar um discurso contra-hegemônico. Deve-se “salvar a Lava-Jato” a todo custo, e se ouve isso de políticos diretamente implicados no show midiático dos doutores da justiça. Deve-se manter os padrões civilizatórios, a boa educação, o bom senso e o senso comum. Não se pode nunca falar “contra a Lava-Jato”. Nas “jornadas de junho”, hoje relativamente digeridas pelo pensamento médio do “progressismo”, não se podia falar contra ela. Enquanto isso a Globo convocava para as manifestações, como hoje ainda faz, chegando ao disparate, agora, de convocar para enterros…