O Caga-Regra

Para qual lado olha o “caga-regra”?
Vladimir Palmeira, militante de currículo recheado, apronta as suas no grupo dos novos dissidentes que já incluiu a inesquecível (ah!) Heloísa Helena, a súdita do Império Britânico e seu imperialismo “verdista” (vide WWF e correlatos), Marina Silva, o honorável senador Cristóvão e sei lá mais quantos. Num artigo intitulado “Desmarcarando a narrativa petista“, deitando os cabelos na derrota do PT no senado, quase se lambuzando, defendendo inclusive uma “meia-privatização” da Petrobrás e outras sandices de quem não encontrou um lugar ao sol nos últimos anos ou simplesmente se cansou de fazer política com mais conteúdo – e com mais caráter. Assim ele se exprime sobre a Petrobrás:

Ao mesmo tempo, a obrigatoriedade de participação da Petrobras em pelo menos 30% dos consórcios de exploração do pré-sal e o monopólio técnico da exploração foram profundamente maléficos para a estatal. Era melhor poder escolher os campos a explorar. Para a Petrobras, seria muito mais vantajoso ter uma participação maior ou até 100% do campo de Libra, por exemplo, abrindo mão de sua participação em outros campos menos rentáveis.

Agradar PSDB e PT parece ser a fórmula. Privatiza aqui e estatiza ali. Nada mais lógico, meu caro. Para quem teve a honra de conhecê-lo em plena campanha de 2010, quando se candidatou a deputado federal pelo PT, uma fórmula com esse caráter não engana. Em meio à campanha imunda promovida pelos tucanos e mídia, da época do “poste” respondida com o “biruta de aeroporto” (quem se lembra?), Vladimir defendida o “esquerdismo” de Serra (hoje cabalmente demonstrado) e ônibus ecológico. E eu cá com meus botões: “o cara quer ser deputado federal. Cadê o discurso de país? Por que sempre essa meia culpa? “FHC tava certo, Lula só continuou; ou Lula tava certo, mas FHC foi imprescindível, (não sei em qual ordem)” e assim seguia o lenga lenga, sem qualquer posicionamento inclusive sobre a campanha nacional, sobre os debates que estava em jogo. Como se sua biografia de “antigo militante” contasse, falasse meio que por si, como se fosse uma espécie de perfume que contasse mais do que qualquer palavra. Fique quieto, cheiroso, arrumado. Você é um cidadão de esquerda, consciente, engajado. Mas fique calado. Se falar, fale de temas belos, bonitos como ônibus ecológicos, ou sobre o tema eterno da moral e da ética. Ser bem comportado, acender uma vela para Serra e para o Diabo, para FHC uma de 7 dias e uma para Lula uma da pequenina, mas como tarefa diária (deve-se sempre deixar o capeta quieto; esse é um trabalho diário).
Agora, se currículo contasse, por exemplo, o zagueiro Wallace, hoje no Grêmio, provavelmente teria sua próxima estadia no Milan ou algum outro grande time europeu. Já acumulou Corinthians, Flamengo, o Vitória (que não é de se desprezar). Tem um currículo invejável. Tem futebol para tanto? Angelim, o herói do hexa, apesar de seu feito  de todo amor devotado por ele pela torcida, é classe internacional? Sem querer abusar das comparações ou achar que as posso fazer como fazia Lula, mesmo com as coisas mais esdrúxulas, não mostra visão nenhuma de país, ainda mais na conjuntura de extremo combate desde que o torneiro mecânico ganhou seu primeiro diploma, o de presidente da república. Por falar nisso, se Lula ouvisse Lula, os excelentes discursos que ele dava no modo improviso durante seus mandatos, não falaria tanta asneira. Quantas vezes se tentou um, se nem que “mini”, reforma tributária (tão enfatizada no texto de Vladimir), e todas as demais reformas. Sempre alvo das mais altas negociatas, hoje escancaradas com todas as mazelas de nossos presidencialismo de coalizão expostas, foi preciso se focar nos programas sociais, feitos mais por atos do executivo do que do legislativo (por isso o interesse de escrever nosso artigo, “Pela manutenção dos poderes da presidência“), do que por “reformas” (insistentemente repetidas no texto) que passariam pelo poder parlamentar, historicamente de pouco poder e visão, e que chega a uma situação calamitosa em nossa torta democracia. Tem pedaços do quitute para todos, e não sobra nada para os votantes. Para resumir o que todos já sabem.
Ele chega ao ponto descarado de dizer que foi o PT que fragilizou e destruiu a Petrobrás, como se toda a história do pré-sal e do fortalecimento dela nos últimos anos não desmentisse a sofística ponto por ponto. Com a palavra os petroleiros, bem mais qualificados nesse ponto – como provavelmente em muitos outros – do que Vladimir Palmeira. Nada de falar dos interesses estratégicos nacionais na área de defesa que são correlatos ao fortalecimento de nossa estatal, a construção dos submarinos nucleares e os não nucleares, os caças, toda a nova fronteira traçada que passou a ser chamada de Amazônia Azul. De fato, o PT não fundou a Petrobrás, mas fundou algo ainda maior, uma nova fronteira de desenvolvimento científico e tecnológico, completamente barrado pelo arresto conservador dos últimos dois anos.
Fora a questão dos fertilizantes, que teriam grande impulso com o incremento da exploração nacional do petróleo e seus derivados, Vladimir entra para o coro de Janot, ou seja, do politicamente correto daqueles que não podem criticar a Lava-Jato, inclusive considerá-la absurda do início ao fim, como cada vez mais é evidente para quem não gosta de cagar regras, como gostam esses novos pastores, disfarçados ou não dentro do funcionalismo público, escondidos atrás de seus indecentes contra-cheques (será que Moro ainda só recebe 77 mil? A informação é de 2014. Será que já passou dos 100 mil? Quanto recebe um membro desse, o wi-fi de deus pode ser, do ministério público?). Não foi o próprio FMI e outros órgãos internacionais que mediram em pelo menos 2% negativo o impacto da Lava-Jato no PIB de 2014-15? Isso não conta? A caça às bruxas vale e o que se deve punir são os “erros do PT”, palavra sacrossanta que cheira a sacerdotismo e tudo o mais que é velho e podre?
Um ponto final, a respeito de sua atitude “visionária” e dos demais do movimento Ação Crítica quando defenderam no pós-eleição as Diretas Já. P…!, querer eleições depois de um pleito recém realizado? Sob quais condições? Para se fazer uma reforma política? Então tira todo mundo e elege de novo para que isso aconteça? E a população vai escolher tão  bem quanto a Ação Crítica gostaria? Ou será que novas eleições serviriam só se fosse para escolher um grupo seleto? Será parecido com um grupo de “iluminados” (não importa se homens ou mulheres – a Ação Crítica talvez queira ser mais moderada, mais politicamente correta, e escolher alguns membros mulheres) do governo Temer? Faz-me rir. Pior do que isso, ou igual a isso, só o “iluminado” Sartre abençoado pelo Stalinismo.
Não percam o Lula em pratos limpos, o antípoda dessa visões de “nova esquerda” ao estilo marineiro, cristovista e – ah! – como o da saudosa Heloísa Helena. Por falar nisso, seria a Ação afiliada de algum modo ao PSTU, pelo menos ideologicamente? Não é esse partido que quer impeachment para nada, para a revolução permanente ao estilo jacobino?
O manual caga-regra de literatura sob o stanilismo.