O Oculto, Hitler e Wall Street

 

Hitler participou de movimentos ocultistas desde sua juventude e sua biografia está repleta de fatos misteriosos que deixam entrever uma espécie de predestinação satânica que o levaria ao poder. Porém, outras forças ocultas, materiais até em demasia, o alçaram ao cargo e financiaram desde o início o seu projeto, como os Warburg, Harriman, Thyssen, além dos lobbies de Prescott Bush (avô de Bush Jr.) que ajudou no fornecimento de armas aos nazistas além de ter enriquecido sua família. A história de Hitler com o ocultismo nos mostra que sem conhecer o deus chamado mercado, cultuado desde o estabelecimento do Império Britânico, não se pode compreender qualquer tirania atual, desde a da Troika e demais políticas de austeridade financeira, até as políticas de mudança de regime, com armas ou com “revoluções coloridas”, no Brasil e no mundo.

O ambiente ocultista

O século XX é herdeiro de uma efervescência religiosa não usual no Ocidente. O fenômeno das mesas girantes, na França e em todo o mundo, as comunicações com os espíritos feitas pelas irmãs Fox, nos EUA, o espiritualismo tanto de cunho oriental quanto o que se filia às correntes da religiosidade cristã – todos, acontecimentos do século XIX e que tiveram continuidade nas décadas seguintes. Os filósofos pessimistas, não tendo mais como dialogar frente à bancarrota das religiões tradicionais, pesquisavam o budismo; Helena Blavatsky escrevia sua “doutrina secreta”, procurando sobrepor o conhecimento mágico-religioso dos antigos ao dos cientistas modernos; Allan Kardec cunhava uma religião que ele dizia ser a-religiosa, pois profundamente científica. São muitos os exemplos – ficamos apenas nos mais óbvios – da onda de espiritualismo que percorreu toda a civilização ocidental durante o século XIX.

Cientistas iminentes pesquisavam os fenômenos de materialização de espíritos; poetas e pensadores se aprofundavam nos Vedas e na sabedoria ancestral chinesa; Fernando Pessoa, Einstein, Gandhi, mas também Hitler, todos eram admiradores confessos da doutrina de madame Blavatsky. Não existia mais a Inquisição. Napoleão invadiu o Vaticano e seqüestrou o papa. Aquela instituição, cada vez mais desacreditada, principalmente depois da Reforma Protestante, se quedou pela última vez, com cada vez menos vontade de aspirar à universalidade, ao poder e ao prestígio que adquirira nos séculos passados. Foi nesse contexto que Hitler mergulhou no estudo do espiritualismo e do ocultismo. Diferente de Pessoa, Einstein e Gandhi, e inspirado por alguns esotéricos alemães, interpretou à sua maneira os livros de Madame Blavatsky, cunhando assim seu conceito de raça pura ou “ariana”.

Hitler tem uma história confusa – na verdade, histórias confusas – desde sua juventude, quando era um artista plástico e aspirante a poeta, sempre frustrado, até quando se elevou a líder máximo da Alemanha, na década de 1930. Dizia ele ter sido poupado da morte em meio ao campo de batalha, durante a Primeira Guerra Mundial, por um soldado britânico inúmeras vezes condecorado por sua presteza com as armas e sangue frio nas batalhas. O soldado realmente diz ter poupado um jovem franzino alemão, de aparência doentia e um bigode peculiar. Hitler até hoje é o único a confirmar a história. Existem outros relatos de salvamentos do futuro líder nazista, como uma vez num campo de batalha que, ao ouvir uma voz lhe chamar, saiu segundos antes de uma bomba explodir em cima dos companheiros que ainda faziam suas refeições.

Posteriormente, ainda como suboficial do exército, foi levado a espiar um grupo de extremistas que pregavam ser toda a culpa da Alemanha pela derrota na guerra dos judeus, os quais teriam conspirado para derrubar a nação que sempre fora a favorita para vencê-la. Só que esse grupo, o grupo Thule, não era simplesmente de homens frustrados com a derrota e que se reuniam para beber e atribuir aos outros suas próprias culpas. Era um grupo de ocultistas, profundamente interessado não só em espiritualismo e magia negra, como também em política. Hitler passou de espião a membro, e de membro a líder do grupo. Seus astrólogos, feiticeiros, médiuns, todos o ajudaram na ascensão ao poder. Heinrich Himmler, comandante da SS nazista, também fazia seus rituais de magia negra, e acreditava-se a reencarnação de um antigo imperador medieval.

Existe todo um movimento de pesquisadores da vida de Hitler que atribuem sua rápida ascensão aos seus poderes ocultos. Em que medida são verdadeiras as inúmeras ilações que se fazem a respeito de sua chegada ao poder, o mais correto afirmar é que o Führer, com todas as suas ligações com o oculto, não chegaria a nada se não fossem os grandes investimentos feitos pela banca privada que se localiza em Wall Street e na City de Londres. Por outro lado, não podemos esquecer que sua teoria relativa à “raça de sangue puro” ou “ariana”, só poderia existir caso levemos em consideração o meio ambiente impregnado de misticismo no qual viveu.

Famosas empresas norte-americanas como a Standard Oil, General Eletric, ITT e Ford, financiaram o partido nazista. A família Bush se tornou rica por causa as transações que fez com o governo alemão na venda de armas americanas, mesmo depois de proibido por lei a comercialização de armamentos para os nazistas. Igualmente podemos ver essas mesmas empresas, junto aos financistas de Nova Iorque, financiarem a ascensão de Lênin ao poder, na Rússia. As doutrinas como o comunismo, de Marx, ou outras espécies de socialismo científico, vigentes desde o século XIX, não contemplavam o desenvolvimento tecnológico como crucial para o sucesso de suas revoluções. O resultado foi que todos os avanços científicos da antiga União Soviética foram conseguidos através das fábricas, dos investimentos e do trabalho dos técnicos das companhias ocidentais. Inclusive quando falamos de Guerra Fria, ou seja, da ameaça de confronto entre as duas superpotências com vasto arsenal nuclear, EUA e URSS, podemos ver os dois governos, empresas e laboratórios científicos, empenhados em desenvolver armamento militar de ponta nos dois blocos políticos da época. Claramente, a Guerra Fria aconteceu de modo intencional; foi o estopim de diversas crises em países do mundo todo, mas principalmente na América Latina, onde o medo da “ameaça comunista” acabou prevalecendo, e as ditaduras de cunho militar se espalharam pela região.

O que aconteceu na Rússia não foi muito diferente do ocorrido na América Latina: ditaduras de partido único (ou no Brasil com dois partidos nominais, sem poder efetivo), com investimentos em indústria e tecnologia principalmente vindos de fora, transformando esses dois grandes contingentes territoriais do planeta em “mercados cativos” do imperialismo anglo-americano. De um lado, espantavam o medo de uma Rússia forte o suficiente para concorrer com as potências ocidentais; de outro, sufocaram quase todas as manifestações de cunho nacionalista na América do Sul e no Caribe, relegando o continente ao status de quintal das potências estrangeiras.

A cabala nazi

Fritz Thyssen, membro da ainda importante família alemã (que produz medicamentos com a sigla Thyssen-Krupp, e tem fábricas em todo mundo, inclusive uma siderúrgica no Rio de Janeiro, em Campo Grande) escreveu um livro em 1941 intitulado: “Eu paguei Hitler”. Fritz, junto a Averell Harriman, da Union Banking Corporation, transferiram fundos para a Alemanha em nome dos “interesses dos Thyssen”. Colocando 400.000 dólares nesse fundo, a organização chefiada por Harriman passou a controlar as operações financeiras dos Thyssen fora da Alemanha. Prescott Bush, avô do Bush que deslanchou a guerra contra o Iraque, era vice-presidente da W.A. Harriman & Co., e o responsável pela maioria dos produtos industrializados que foram usados na fabricação dos submarinos, bombas, rifles e câmeras de gás da Alemanha nazista.

 

Adolf Hitler se tornou Chanceler da Alemanha em 30 de janeiro de 1933, e ditador absoluto em março de 1933, após dois anos de lobby amplo e violento e propaganda eleitoral. Dois afiliados da organização de Bush-Harriman protagonizaram boa parte desse empreendimento criminoso: a Companhia Alemã de Aço, de Thyssen; e a Hamburg-Amerika Line e muitos de seus executivos1.

 

Pela afirmativa acima podemos muito bem entender onde estavam baseados os interesses “ocultos” de Hitler, e qual foi a força poderosamente misteriosa que o alçou ao poder. Esses fatos, repetidamente negligenciados pelos historiadores, são cruciais para entender a ascensão do nazismo. Thyssen também financiou a polícia privada nazista, a Schutzstaffel (S.S. ou Camisas Negras) e a Sturmabteilung (S.A., as tropas de choque ou Camisas Marrons). O tribunal de Nuremberg assim caracterizou Thyssen: “Proprietário e líder de largo grupo de empreendimentos industriais (minas de carvão e ferro, produtor de aço e construtor de usinas)… ‘Wehrwirtschaftsführer’, em 1938 (título dado pelo governo nazi aos seus industrialistas proeminentes por mérito na unidade de armamentos – Líder Econômico e Militar)…”2.

O governo norte-americano investigava as aliaças de seus membros com os líderes nazistas, mas pelo lobby liderado por Prescott Bush, não conseguiu efetivamente bloquear os investimentos naquele país. Em 1932, a Embaixada dos Estados Unidos em Berlim notificou a Washington que o custo de manutenção de um exército privado de 300.000 a 400.000 homens levantou suspeitas quanto aos financiadores do nazismo. O governo constitucional da Alemanha (que àquela altura estava prestes a sucumbir) ordenou ao Partido Nazista que desmantelasse sua força armada. “O embaixador norte-americano notificou que a Hamburg-Amerika Line estava patrocinando e distribuindo propagandas com ataques contra o governo alemão, na tentativa de reprimir esse ataque de última hora às forças de Hitler”.

Milhares de oponentes alemãos ao hitlerismo foram assassinados ou intimidados pelo exército privado dos nazi, a S.A. ou Camisas Marrons. Nesse sentido, poderemos entender o papel desempenhado pelo “Mercador da Morte” original, Samuel Pryor, diretor fundador da Union Banking Corp. e da Corporação Americana de Comércio e Navegação, e presidente da comissão executiva da Remington Arms. Figura central no tráfico internacional de armas, foi usado no projeto de Hitler a partir de suas conexões com a família Bush, se tornando parceiro do Partido Nazista nas suas operações bancárias e de transporte trans-Atlântico.

 

Os investigadores do tráfico de armas do senado norte-americano sondaram Remington depois que essa empresa se juntou em um acordo de cartel em explosivos com a empresa nazista IG Farben. Observando o período concernente à tomada de poder de Hitler, os senadores descobriram que “as associações políticas, como os nazistas e outros, são quase todas armadas por americanos… armas de todos os tipos vindo da América são transportadas por barcos pelo rio Scheldt antes de chegarem a Antuérpia. Elas podem ser guardadas até chegar a Holanda sem interferência ou inspeção policial. Presume-se que os hitleristas e comunistas adquirem armas dessa maneira. O principal armamento vindo da América são as submetralhadoras Thompson e revólvers. Os números são elevados”.

 

Fatos não comuns, caso continuemos com o senso comum sobre o governo de Hitler, aconteceram depois de sua chegada ao poder. Destaca-se frequentemnte o ódio do Führer aos judeus. Um pouco mais de pesquisa pode revelar qual o fundo de verdade que existia por detrás desse ódio3. Max Warburg, da grande família de banqueiros alemãos, judeu como todos seus parentes, entrou, em 1933, no lobby das empresas internacionais que davam suporte a Hitler. Em 7 de março desse ano, Prescott-Bush disse que o banqueiro: “seria o oficial da corporação, representante designado do conselho da Hamburg-Amerika”. Max Warburg se apressou em dizer aos seus patrocinadores norte-americanos que os negócios nunca foram tão bons na Alemanha, que as agitações dos últimos meses eram fruto das campanhas eleitorais, e que os rumores na imprensa estrangeira eram exagerados. Ainda segundo ele, o governo estaria firmemente interessado em manter a paz, e que não existe nenhum motivo para preocupação. “O sinal de aprovação a Hitler vindo de um famoso judeu era exatamente o que Harriman e Bush queriam para neutralizar qualquer alarme sério dos EUA contra suas operações nazistas”.

No mesmo ano de 1933, com Hitler já consolidado no poder, os nazi assinaram um acordo que coordenava todo o seu comércio com os EUA. A Harriman International Co., chefiada pelo sobrinho de Averell Harriman, Oliver, uniu 150 firmas e indivíduos sob seu comando, passando a ser responsável por todas as exportações da Alemanha de Hitler para os Estados Unidos. O acordo foi firmado com John Foster Dulles, advogado internacional de dezenas de empresas nazistas, e que, entre outros, teve papel fundamental na eleição de Prescott Bush para o senado norte-americano, e depois veio desempenhar papel não menos importante nas articulações que levaram ao golpe militar de 1964 no Brasil.

Terminamos com as palavras de Anton Chaitkin, o pesquisador que nos ajudou a desvendar alguns dos nomes e empresas responsáveis pelo surgimento de Adolf Hitler, para além de todo ocultismo:

 

Débitos impagáveis esmagavam a Alemanha na década de 1920, reparações requeridas pelos acordos de Versalhes. A Alemanha foi saqueada pelo sistema bancário de Londres e Nova Iorque, e a propaganda de Hitler explorou o fardo da dívida.

Mas, imediatamente depois que a Alemanha ficou sob a ditadura de Hitler, os financistas anglo-americanos garantiram o alívio da dívida, cujos fundos livres iriam ser usados para financiar o armamento do Estado nazista.

(…)

Essa história foi apagada; e essas decisões, as quais direcionam a história para um curso ou outro, estão perdidas para o conhecimento da geração atual.

 

CONCLUSÃO

O ano de 2013 pode servir para se começar a pensar sobre as forças ocultas que financiam o austericídio financeiro e a crise de refugiados na Europa, as “revoluções coloridas” mundo afora, com golpes de Estado sucessivos na América do Sul e no Caribe, e todo o neomacartismo, toda violência retórica e jurídica, que tem o nome de “russiangate” nos EUA, o “perigo vermelho” ou bolivariano por aqui, e a mesma paranóia da Guerra Fria que faz os europeus endossarem sanções econômicas contra a Rússia em detrimento de sua própria economia. Em 2013, houve um golpe declaradamente nazista na Ucrânia (os seguidores de Stephan Bandera), o assassinato do Kadafi, golpe militar no Egito, etc., e aqui se formou a histeria coletiva que levou de 2013 ao “não vai ter Copa” e, logo depois, ao impeachment. De um lado, a guerra irregular moderna, no conceito de von der Heydte. Isso foi estabelecido numa reunião das forças armadas asiáticas (não lembro se em 2013 ou 14), quando falaram que todas as “revoluções coloridas” seriam consideradas atos de guerra de nações estrangeiras contra seus países. Isso foi o que Putin avisou a Dilma logo no início, e aqui se demorou para perceber a extensão. De outro lado, o uso do aparelho judicial, que é uma arma de guerra diferente da primeira, mas que pode se encontrar com esta, fato marcante no Brasil ou no “russiangate”. Nos EUA, tem que se lembrar que a histeria russofóbica lá começou também com a Ucrânia (início das sanções econômicas), agravadas pelas acusações sem prova de que Trump é um “agente russo”.

Se pensarmos que as crises financeiras modernas, antes de serem “crises” são movimentos de fuga massiva de capital, ou seja, de transferência de renda (como em 1929 com JP Morgan e outros gigantes financeiros que depois iriam financiar o Projeto Hitler), existe todo uma movimentação não captada de capitais que nos sugere a hipótese que, se 2013 foi possível (ou tudo oque ocorreu a partir daí) foi por causa dos recursos infinitos concedidos à banca privada através dos mecanismos de resgate (bail-out), realizados tanto pela Troika quanto pelo Fed de Ben Bernanke (suas supostas medidas “neokeynesianas” chamadas de “quantitativa easing”). A crise generalizada que assola a economia transatlântica está longe de ser algo “natural” ao sistema. Ela é provocada com objetivos específicos. Não basta somente nomear determiandos fatos como neomacartismo ou como a nova Guerra Fria. Deve-se ver os mecanismo ocultos por meio dos quais age o deus chamado mercado cujos sacrifícios sangrentos são prestados em sua homenagem desde a consolidação do Império Britânico.

 

NOTAS

 

1 CHAITKIN, Anton. “The Hitler Project”. Executive Intelligence Review (EIR), 15 de setembro de 2006.

2 Todas as citações daqui em diante são da mesma fonte

3 Podemos também destacar o caso de Georges Soros, judeu polonês e mega-especulador financeiro ainda vivo, que começou a enriquecer sob as ordens de Hitler, ao despejar, com seu pai, camponeses poloneses de suas terras em favor do regime nazista.

 

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