Olavo e os dois fatores que dois conheço

Por que o monopólio das “teorias da conspiração” viraram monopólio bolsolavismo e não tem mais a irreverência e a agudez da época de um Glauber Rocha? O que antes era apanágio da esquerda dita radical, se tornou o “lugar de fala” de setores reacionários. A incapacidade de quem se chama progressista, hoje, de denunciar os movimentos de capitais transnacionais adquire feições mais do que preocupantes. No mundo dominado pelo Vale do Silício, nunca antes a esquerda se fez tão dócil ao discurso da mídia, braço de comunicação do aparelho de guerra das potências estrangeiras.

Um

Caracterizar Olavo de Carvalho como ideólogo da extrema-direita deixa de levar em consideração a captura feita por ele de uma postura antiga, geralmente associada a setores dissidentes do grande capital. O monopólio sobre as teorias da conspiração era de parcela da dita esquerda. A “guerra cultural” ou “retórica do ódio” são baseadas em teorias ditas conspirativas, mas com sinal invertido e alcance limitado.

Antigamente, a esquerda denunciava a globalização. Depois, o olavismo internacional (Olavo é um personagem de um teatro mais amplo com origem no estrangeiro, em especial Europa) passou a se utilizar do termo globalismo, numa clara corruptela da referência anterior. O marxismo cultural é corruptela para o comportamento da esquerda identitária, o libertarianismo que busca legitimar por meios culturais o liberalismo econômico. Mas, como é óbvio, Olavo desconhece a importância da economia na análise materialista. É uma pessoa muito comum, um padre, um liberal, um típico cidadão de bem.

A globalização, em seu grau mais elevado de poder conspirador, se remetia a tentativa de estabelecimento de um governo único, seja através da ONU ou de algum outro órgão multilateral, mas cujo esteio era o livre-comércio e suas zonas privilegiadas, como a União Europeia, a ALCA e o NAFTA. Já o globalismo vê a ameaça na China, a suposta tentativa de implantar no ocidente regimes de partido único e de orientação socialista. Com o marxismo cultural, a reserva neoliberal dos libertários foi esquecida em favor de uma difícil conjugação entre este e as políticas do PCCh. Diante disso, até uma pessoa tímida e triste como Gregório Duviver acaba rindo…

O que eu conheço, entretanto, são as intervenções extemporâneas, de derrisão e graça, feitas por Glauber Rocha. Segundo ele, André Midani era um agente da CIA. Ainda está para ser feito um estudo mais aprofundado de como esse agente contribuiu para uma agenda pró-americana no país através da promoção do tropicalismo, movimento com traços identitários por princípio, e do BR Rock, uma cultura de pequena parcela bem alimentada e deslumbrada da classe-média, portadores de uma ingenuidade política constrangedora até hoje.

Os anos 1980 foram anos de festa, mas isso foi preparado antes. Harry Stone, também segundo Glauber, foi agente da CIA. Produtor de cinema americano e aliado do governo militar, ajudou na substituição dos filmes ácidos, críticos, do cinema nacional, pelas produções hollywoodianas. Deu-se o encontro do ufanismo da Rede Globo, veículo midiático-burocrático de propaganda do aparelho de Estado criado pelos militares, com o American way of life.

Sei também que enquanto os setores que se pretendem dissidentes continuarem a fugir da irreverência e da seriedade constitutivas do pensamento consequente de esquerda, ou seja, da conspiração ou da denúncia dos poderes transnacionais sediados no norte do Atlântico através da análise e da acusação de seus ardis mais escandalosos, não serão jamais capazes de transformação social e serão meros arremedos dos poderes estabelecidos.

Se os escândalos ferem pudores como o de se tentar fazer de um vírus ou da molécula de carbono um Deus imperscrutável cujo conhecimento pela humanidade só se dá através da interpretação de sacerdotes adredemente destacados para a tarefa, quem aponta os perigos de tal estado de coisas não deve ser visto como escandaloso ou profanador, mas seus agentes. O ousar saber não é um problema kantiano de mero ato de leitura, de busca por informação. Exige a coragem e a consciência das terríveis consequências que historicamente o ser capaz de verdade foi submetido.

Quem se encontra na “porta dos fundos”, no lugar onde se quebram os tabus e toda a pornografia é permitida, mas que parte dos setores ditos nacionalistas insistem em não ver, é a antiguidade das relações dos Ferreira Gomes com Jorge Paulo Lemann. Ainda em 2018, a fundação do fabricante de cerveja e ketchup colocou Sobral como peça de propaganda para uma educação para a 4ª Revolução Industrial, isto é, aquela da renda básica e do tecno-feudalismo [aqui].

Sobral é o “case de sucesso” da família que a gabarita a participar do neocapitalismo “inclusivo” [aqui]. Mais uma coisa a se criticar em Lula e Dilma, ter dado tanto espaço pra esse tipo de gente.

Ciro Gomes se gabar de ter dado palestras em Harvard e Tabata Amaral de lá ter estudado, fazem parte da mesma estratégia do aparato de guerra anglo-saxão. Harvard como pântano da CIA, habitat de subcelebridades como as antes mencionadas, e de outro “notório” brasilanista, Mangabeira Unger.

Mas eu preciso ir um pouco além do Glauber, descaracterizar totalmente qualquer tipo de Olavo. Eu preciso dizer: Machado de Assis é agente da CIA. Com extenso aporte da Fundação Ford, o CEBRAP moldou a face atual do poeta niilista e parnasiano. O Machado de Assis que se lê em escolas e universidades é uma figura pintada por Roberto Schwarz [aqui], autor que fez a versão culturalista da teoria da dependência de FHC, e fez do bruxo um sucesso de escalada social, quase empreendedorismo, numa sociedade não de classes, mas de desclassificados. Teria sido o único caso em que a ideia chegou próxima ao seu lugar…

Dois

A Lei de Segurança Nacional dos EUA de 1947, assinada por Truman, colocou a comunidade de inteligência americana no sistema bancário. “O que fez em 1947 com a Lei de Segurança Nacional foi dar ao governo dos EUA a capacidade de arrancar dinheiro da contabilidade de todas as agências e pô-las numa arca opaca e alheia à contabilidade oficial e que se denominou contabilidade negra“. (DANIEL ESTULIN, La Trastienda de Trump, p. 160-1). Começa a longa história da CIA com o tráfico de drogas (primeiro em Marseille, França) e o das desestabilizações de governo, um logo depois.

Se num primeiro momento a contabilidade paralela servia para autofinanciar as políticas de mudança de regime, com a transformação do império territorial britânico em império financeiro [aqui] e a consequente desregulamentação dos mercados (cujo marco foi o fim do sistema de Bretton Woods, com Richard Nixon, e como ponto final a extinção da lei de separação bancária Glass-Steagall), o descolamento da economia física em favor da especulação financeira, em especial a partir da década de 1970, não mais o Sistema Nacional de Segurança como aparelho de guerra irregular, mas a banca privada (a do dinheiro novo americano e a do dinheiro velho europeu) teve que encontrar meios de encontrar liquidez em uma economia que se baseava cada vez menos na renda, emprego e produtividade.

No chamado mundo pós-moderno, as diferentes formas de tráfico (armas, drogas, órgãos, pessoas) passaram a alimentar a economia em bancarrota que, então, depois do relatório do Clube de Roma, procurou justificar a baixa produtividade e a induzi-la em países menos industrializados a partir da política do ambientalismo. O american way of life (que fiz alusão acima) não é o das donas de casa com seus fogões e geladeiras novas – mundo do consumo e da produtividade -, mas um mundo forjado no processo da contracultura, da despolitização hippie, do consumo de drogas e exaltação romântica-neocapitalista da natureza. Não é por acaso que se encontram tantos reacionários entre os que fizeram luta armada durante a ditadura.

Depois do processo de desintegração financeira controlada em 2007-8, os banqueiros do Atlântico norte conseguiram o que muitos ainda hoje acreditam ser uma façanha: imprimir dinheiro infinitamente e não criar inflação. Mas isso foi apenas o redirecionamento dos recursos dos Estados nacionais para as big techs, para o Vale do Silício. Em pouquíssimo tempo, um mundo inteiro apareceu com celulares inteligentes, o primeiro órgão artificial que o ser humano passou a usar 24/7.

Essa é a longuíssima história da década passada. Não tenho condições de resumi-la aqui, mas escrevi detalhadamente sobre o assunto em outro artigo.

Depois da crise financeira do início do século, a transferência de recursos para DARPA/Vale do Silício e o processo de mudança de regime de Sabastopol às margens do Rio da Prata, ou seja, com a conquista efetuada, a política de manutenção do domínio dificilmente se daria, como foi fortemente propagandeado após a extinção formal da URSS, através do ambientalismo. Este sempre encontrará entraves nas nações que querem se desenvolver. A novidade do novo ambientalismo é sua entrada massiva no antigo setor industrializado e a construção de um novo soft power para o “sul global”, o Bidenomics…

Para a manutenção do domínio, a política iniciada em 1947 de orçamento oculto teve que entrar em nova fase. Ainda é idílica a história da CIA promovendo o tráfico de drogas para se tornar autossustentável… O 11/09 ocorre na ocasião em que uma crise do tipo que enfrentamos há pouco mais de dez anos estava para ocorrer. Então, o “complexo industrial-militar” foi suficiente para gerar liquidez que a economia monetária necessitava, além de ter dinamizada exponencialmente a produção de drogas para alimentar o “1º mundo”.

Mas nada disso ocorreu em razão de um keynesianismo militarizado, mas porque o orçamento de defesa alimenta as corporações falidas e lhes dá sobrevida. Caso o Pentágono não fosse extremamente ineficaz, corrupto, não teria razão, devido ao montante de recursos alocados, de perder a corrida tecnológica na área militar para a Rússia.

Em resumo, num primeiro momento a guerra financia o mercado financeiro (pós-guerra). Logo depois, surge de forma quase concomitante o ambientalismo e o tráfico de drogas em escala industrial (mundo pós-Breton Woods). Este e o complexo industrial-militar continuam sua história tal como sempre. A diferença agora é que os “fundos verdes” estão nas mãos de empresas financeiras que sequestraram o Tesouro Nacional dos países outrora desenvolvidos. São eles que controlam e dirigem os fluxos monetários e não o executivo federal. Esta é a história em que a BlackRock é uma dos protagonistas.

Mas o novo ambientalismo serve para criar algum investimento produtivo, bem aquém do necessário, para tentar conter a inflação provocada pelas flexibilizações quantitativas. Por outro lado, o dinheiro precisa continuar a ser impresso. Como resolver o problema? Com a utopia de vacinar a população mundial inteira de três a quatro vezes por ano, indefinidamente.

O militarismo se transforma em tecno-feudalismo, o ambientalismo em desenvolvimentismo, o tráfico tenta sacramentar a primazia do terceiro setor por sobre a indústria, e a indústria farmacêutica permite que todo o investimento (agora em escala quântica) para a produtividade, o emprego e a renda seja direcionado para as mesmas corporações que formam, de maneira bem complexa, menos o governo mundial do que a Empresa Mundial S.A., o mundo gerido por uma gigantesca multinacional.

Em sentido meramente financeiro e para apresentar em germe essa história, a ditadura sanitária é a continuação das flexibilizações quantitativas e, com nuances e de maneira bem eficaz, completa o projeto de perda das liberdades sociais e individuais iniciadas no pós-guerra com o advento da indústria da guerra como governo paralelo. Com esses quatro fatores (DARPA/OTAN, Open Society ou Choque de Cultura, Greta Reset e ditadura sanitária) se vê o fluxo de dinheiro atual. As novas formas de governo por vir, que os investigadores comecem a desenhar!