Onde o mundo experimenta racionalidade?

“A verdade parece ser uma criatura bonachona que ama suas comodidades, que dá, sem cessar, a todos os poderes estabelecidos a certeza de que jamais causará o menor embaraço a alguém, pois ela, definitivamente, é apenas a ciência pura“. NIETSZCHE, Shopenhauer educador, § 3.

A invenção de uma esquerda anti-pandêmica?

René Descartes, na incrível simplicidade de seus escritos, fazia uma apelo à razão natural dos seres humanos. Fugiu das carregadas terminologias aristotélico-escolásticas (“ente”, “substância”, “enteléquia”, etc.) e, através da língua comum (no caso, o francês) buscou criar um método objetivo o suficiente para dar conta de todo o saber possível. Lembro de uma passagem do filme de Rossellini, Blaise Pascal, onde este filósofo (morto jovem) pergunta ao ilustre sábio Cartesio por que sonhar em resolver tudo com um método único e que se pretende infalível. Se a realidade é complexa, muitos métodos diferentes têm que ser conjugados para ajudar na solução de um problema. O caso de Descartes, contudo, não era criar um novo método, mas tornar filosófico o senso comum.

A imagem do pensamento, por sua vez, tem uma formação um pouco mais elaborada. Ela tanto se compõe do senso comum (cogitatio natura universalis: todo mundo sabe o que é pensar e ser…) e do bom senso (concordia facultatum: o que reúne o senso comum e garante a partilha desta concórdia). Trata-se do modelo de Descartes a Kant (o imperativo categórico como garantidor da boa convivência entre os bens pensantes), que Deleuze opõe a Eudóxio e Epistemón, ou seja, a duas figuras extremas, enganadoras, o “idiota” e o pedante, que a Filosofia precisa desconfiar.

Mesmo que tenhamos de nos fazer de idiota, façamo-lo à maneira russa: um homem do subsolo, que nem se reconhece nos pressupostos subjetivos de um pensamento natural nem nos pressupostos objetivos de uma cultura de seu tempo e que não dispõe de compasso para traçar um círculo. Ele é o Intempestivo, nem temporal e nem eterno. Ah! Chestov e as questões que ele sabe levantar, a má vontade que ele sabe mostrar, a impotência para pensar que ele coloca no pensamento, a dupla dimensão que ele desenvolve nessas exigentes questões concernentes ao mais radical começo e à mais obstinada repetição.

(Diferença e repetição, §II, 1)

Antes de chegar às alturas do “pensamento subterrâneo”, talvez seja melhor contar um caso de elaboração de um pensamento natural e universal. Na busca da concordância entre as faculdades, ou seja, entre um saber objetivo sobre o paradigma do contágio e ao “mais radical começo” proposto por Giorgio Agamben, Vinícius Nicastro Honesko (tradutor de Agamben, cujo site Flanagens é um refúgio idílico nas redes) propôs uma singular mudança de chave para abordar a estranha posição do autor da série homo sacer em relação ao Coronavírus. Não sei se alertado por alguém ou fruto de uma leitura atenta, cada vez ficou mais claro para ele que Agamben não estava bem. Não era mais possível acreditar em seu pensamento.

O primeiro refúgio foi acreditar que o filósofo buscava um cargo de vereança em sua cidade, Veneza. Queria aparecer em meio à coronacrise e se gabaritar para algum cargo público. Não era possível que ele estivesse defendendo o indefensável, ou seja, a coronacrise como um coronacirco. Contudo, a discussão aqui no Brasil pareceu se deteriorar depois de uma intervenção um tanto desajeitada de uma articulista no site da Boitempo sobre o pavor que o filósofo estava causando nas pessoas (em quem acreditava nele, medo de tudo ser uma armação; em quem não acreditava, a incredulidade de ver alguém admirado defendendo a irrisão). No artigo, foram gastas algumas páginas para mostrar que as intervenções de Agamben após a “invenção de uma pandemia” (nome de seu primeiro texto) não passavam de um copiar e colar de teses defendidas há anos.

A editora deu espaço para outro artigo que, se não saiu em defesa das teses do filósofo, pelo menos procurou a manutenção do respeito à pessoa. Logo depois do acirrado debate, Vinícius Nicastro Honesko resolveu intervir com suas próprias palavras em seu Flanagens. Tanto ele quanto as autoras do segundo artigo na Boitempo nem concordam nem discordam de Agamben, muito pelo contrário. Laudas e laudas foram gastas para se estabelecer a concordia facultatum. Ninguém ousou entrar no mérito para discutir, olhando para casos concretos, se o “paradigma do contágio” de Giorgio Agamben poderia ser válido ou não em toda sua radicalidade. Houve ou não a invenção de uma pandemia?

Em outra ocasião, cheguei a apontar para certo eleatismo de Agamben, ou seja, não se misturar com a confusão de opiniões a respeito do vírus. Nas suas palavras, ele está preocupado mais com as questões ético-políticas da pandemia do que com as discussões científicas propriamente ditas – buscaria menos uma epistemologia do que uma ontologia. “Eleatismo” bem parecido com o caso de Chestov narrado por Deleuze: Agamben parecia demonstrar uma má vontade e uma incapacidade para pensar. Não é possível que ele não estivesse vendo o óbvio! Contudo, o pensamento subterrâneo tem suas próprias vias para encarar esses “exigentes questões concernentes ao mais radical começo e à mais obstinada repetição“.

Vinícius pelo menos protagonizou dois capítulos importantes nessa história. Primeiro, saiu de sua tese de que Agamben almejava um cargo político em Veneza para alertar aos incautos que não se pode utilizar um filósofo como portador de uma verdade universal. Do senso comum duvidoso ao bom senso para neófitos, nada ajudou. Se Agamben está certo, em que medida há a invenção de uma pandemia? Por outro lado, no segundo capítulo, o professor trouxe informação relevante, algo que parece bastante exótico (infelizmente) em nosso país: segmentos da esquerda italiana (não diz se majoritários ou não ou qual grau de relevância deles) são opositores ferrenhos da política pandêmica. Trata-se de um belo caso de não catolicizar um pensador. E daí?

Como alertei em entrevista de Agamben traduzida e publicada por mim (existem outras traduções; o importante de minha publicação, acredito, são as notas, os detalhes abaixo assinalados e o momento da intervenção – por isso me dei ao trabalho), “Ao contrário do que muitos leitores atentos de Agamben vem dizendo, entre a total repulsa ou o eufemismo, o filósofo não recuou nem um milímetro de sua posição expressa pela primeira vez em texto de 26 de fevereiro de 2020, chamado A invenção de uma pandemia, quando os dados sobre a pandemia ainda eram imaturos”.

Novamente utilizando dados públicos, agora do Instituto Nacional de Estatística da Itália, Agamben reafirmou o que outrora disse, com novas palavras: “os teólogos declararam que não podiam definir claramente o que Deus é, mas em seu nome eles ditavam regras de conduta para os homens e não hesitavam em queimar hereges; os virologistas admitem que não sabem exatamente o que é um vírus, mas em seu nome afirmam decidir como os seres humanos devem viver”.

Dá para ver o paralelismo lógico da afirmação destacada acima com esta de texto bem anterior: “a falsa lógica é ainda a mesma: como em face do terrorismo argumentou-se que a liberdade deveria ser suprimida para defendê-la, da mesma maneira nos é dito que a vida deve ser suspensa para ser protegida”. A ciência é a religião de nosso tempo e, seja no uso de razões de Estado quanto nas de saúde pública, não deve ser questionada a objetividade mostrada nas telas de televisão ou nas dos dispositivos móveis. Como no paradigma do terror, no paradigma do contágio devemos nos reduzir à zoé (vida nua) para preservar nossa bíos (vida qualificada). Segundo o eleata (bem antes de ser “veneziano”), a cegueira que nos embaraça os sentidos (o não-ser ou a doxa) vem de modelos matemáticos que procuram determinar fenômenos clínicos não experimentados, muito pouco conhecidos.

Pepe Escobar talvez seja mais didático: “A ideia de um confinamento generalizado e obrigatório não é corroborada por nenhuma justificativa médica ou pesquisa epidemiológica no caso de combate a uma pandemia. Mesmo assim, essa medida foi sacramentada como a política hegemônica – trazendo o inevitável corolário de incontáveis multidões mergulhadas no desemprego. Tudo isso tomando como base modelos matemáticos fracassados e delirantes do tipo Imperial College, impostos por poderosos grupos de pressão que vão desde o Fórum Econômico Mundial (FEM) até a Conferência de Segurança de Munique”. Ele aponta para os mesmos problemas éticos e políticos, porém através de uma linha que analisa as razões de Estado até 2050 de maneira oposta, via China e Nova Rota da Seda. da que consta expresso no site da United Nations New World Order – “feudalismo digital” ou “campo de concentração eletrônico sem lágrimas”. No mais, não se discutiu “saúde pública” até agora, mas somente a política derivada dos gráficos londrinos. Este o nosso “cartesianismo”.

À sombra de Cartesio

Estudos clínicos, pelo contrário, mostram resultados bastante diferentes. Buscando a taxa de contaminação em “populações totais”, em Los Angeles, no condado de Santa Clara (Califórnia), no Irã, na Alemanha e em outros lugares, os artigos mostram que ela é exponencialmente superior às relatadas oficialmente, o que, ao invés de apontar para subnotificações e a necessidade de uma ação maior do Estado, concluem que a taxa de mortalidade é bastante inferior do que a oficial. Caso fossem usados dados clínicos como estes e não o modelo matemático de Neil Ferguson, a OMS não teria fundamento para decretar a pandemia.

Curiosamente, os dados dos estudos acima relatados mostram uma realidade bem parecida com a da Rússia. O país tem alta taxa de contaminados e baixa mortalidade. Não se pode dizer que os russos, por viverem sob um regime de tipo “totalitário” ou por terem uma cultura historicamente “autoritária” vêm escondendo sua real situação para o mundo. A Rússia foi o primeiro país a fechar fronteiras e restringir voos, ainda em janeiro, construiu novos hospitais, fez quarentena severa e multiplicou a testagem da população. Questiona-se como os médicos relatam a causa da morte das pessoas. Mas não existe métrica eficiente em lugar algum para distinguir se as pessoas morreram por causa do coronavírus ou com o coronavírus. Fora as acusações que aparecem em vários países da tendência de ser relatar como causa mortis Covid-19 para os hospitais (esvaziados de outros tratamentos) receberam uma parcela substancialmente maior dos seguros de saúde…

A questão da formalização dos mortos pelo novo corona nos leva para a questão do Corona-teste (especificado melhor por mim em outro texto). Não é só que ele não mede a carga viral, como também pode identificar outros vírus coronas ou até mesmo outros tipos de gripe. E isso falando do PCR e não dos testes que medem anticorpos… Um dos modos de ação do coronavírus como “guerra híbrida” (acho que o fenômeno é bem mais complexo do que o indicado pelo termo) é colocar em pane os radares, ou seja, os meios de detecção da doença. Com o agravante, por exemplo, do CDC americano, que orienta os médicos a relatarem pacientes mortos por corona mesmo a partir da mera suspeição, sem comprovação clínica. Isso é ótimo para engordar os gráficos, inflar nosso cartesianismo e colocar todo o sistema de saúde pronto para combater uma doença só e esquecer de todo o conjunto de problemas de saúde que uma população dada carrega.

Talvez tenha chegado a hora de se analisar com mais calma os problemas de saúde pública decorrentes da coronacrise. Uma olhada rápida na situação do Rio de Janeiro, por exemplo, deixa entrever os impactos para a saúde humana como um todo quando o sistema de saúde está voltado para combater um único mal. O Inca e o Hemorio se veem às voltas com a falta de doadores de sangue, o número de doadores de órgãos caiu 30%, fora um outro fato, que não é banal, indicativo da mudança radical de vida que muitos tem experimentado, isto é, projetos de vida vem sendo deixado de lado, jovens adultos voltam a morar com seus pais – a ponta de um iceberg que ainda não se tem a régua para medi-lo.

Cirurgias eletivas desmarcadas vão desde procedimentos estéticos até cirurgias em pacientes com câncer. Como contabilizar as pessoas que são acompanhadas regularmente por médicos e, devido à suspensão dos atendimentos, simplesmente não tem acesso a exames, receitas ou ao devido acompanhamento do profissional de saúde? O EUA chegou a criar uma situação bem estranha, a do desemprego massivo entre profissionais de saúde. Os hospitais tem que atender às emergências e as clínicas comuns ficaram vazias. Fora isso, os problemas mentais e os suicídios também tem que ser colocados na contagem. Não se trata de um impacto econômico somente, mas na saúde pública como um todo. Como medir isso? Uma indicação pode ser documento recentemente vazado do governo alemão.

Olhar diariamente a curva de mortos e infectados não ajuda. Ver o William Bonner chorar em “horário nobre”, constatar a insuficiência de leitos hospitalares no Brasil (como se fosse novidade) ou requentar delírios de Osmar Terra contra as alucinações da Tábata científica, Átila Iamarindo, não ajuda em nada. No caso dos dois cientistas citados, seria interessante uma análise comparativa da evolução (ou involução?) do discurso de ambos de acordo com o desenvolvimento da crise. Um partiu da diretamente da ortodoxia do Imperial College e foi ajustando seu discurso até virar um mero repetidor de fórmulas vazias e o outro simplesmente não tem mais o que falar depois de tratar como algo prosaico o fato político mais relevante após o 11/09.

O problema de abordar o novo vírus está no fato dele ser binário, político e biológico. Provavelmente existe uma mutação, tentada há anos, feita através da passagem do morcego para o ser humano. Mas mesmo sendo bem sucedido, os resultados são incertos: ele pode afetar uma região específica, mas é difícil saber seus desdobramentos quando misturado às pessoas e ao meio ambiente. Fica um estranho paradoxo: enquanto em Wuhan, para tratar mais rápido os pacientes, se fez a tomografia dos pulmões ao invés do PCR, inúmeros outros problemas são relatados em pacientes positivos para coronavírus, como uma inflamação vascular sistêmica e não pneumonia. O vírus, na verdade, pode ser tudo.

Seria tão fácil de ser detectado que se pretende criar uma máscara que acende quando em contato com ele. Na verdade, não só na imprensa, mas em tudo o mais, o Covid-19 é onipresente. Se realmente forem seguras, as máscaras de MIT e de Harvard tem que vir com um bom led para aguentar quando começarem a piscar mais do que árvores de natal! O vírus já foi encontrado em bodes e mamões, num gato e numa tigresa, no sêmen (DST?), que ele se multiplica rapidamente nos neurônios (neurovírus), talvez tão rápido quanto no esgoto ou nas saídas de ar-condicionado das cidades mundo afora. Enquanto isso, a nicotina, a maconha ou hormônios femininos podem auxiliar no tratamento (não sei se com mais ou menos eficácia do que os famosos remdesevir e cloroquina…). Contaminação e tratamento talvez sejam valores secundários, entretanto. O paradigma do contágio não só coloca Deus no vírus (ou faz do vírus um deus perverso que todos tem que adorar), mas nos torna assassinos em potencial. Seguir a lógica do paradigma em sua radicalidade, nos queimar em algum local isolado seria o único meio seguro menos de sermos infectados do que matarmos alguém…

Mais didático do que profético foi o lorde Bertrand Russell, há mais de 70 anos, no livro O impacto da ciência na sociedade: “Mas alguém dirá que os maus tempos são excepcionais e que podem ser enfrentados com métodos excepcionais. Isto foi mais ou menos certo durante o período de lua de mel do industrialismo, mas deixará de ser certo, a menos que se possa diminuir o aumento da população. Atualmente, a população do mundo cresce à razão de 58.000 indivíduos por dia. A guerra, até agora, não teve grande efeito neste crescimento, que continuou ao longo de cada uma das duas guerras mundiais. A guerra (…) até agora, foi decepcionante, neste aspecto (…) mas, talvez, a guerra bacteriológica seja mais efetiva. Se uma Peste Negra se propagasse uma vez a cada geração, os sobreviventes poderiam procriar livremente, sem encher demasiadamente o mundo (…). A situação, seguramente, seria algo desagradável, mas o que importa? As pessoas realmente nobres são indiferentes à felicidade, sobretudo à felicidade dos demais”.

A utopia da criação de uma Peste Negra periódica requer alguns pré-requisitos. Na Idade Média, a peste encontrou uma população esfomeada, saqueada por reis e banqueiros, logo após o primeiro caso de “crise sistêmica” do capitalismo moderno. Com o Estado funcionando bem, com pessoas bem alimentadas, com trabalho, boas expectativas de vida e acesso a um sistema de saúde eficiente, dificilmente o coronacirco seria montado. Como disse Agamben no texto que publiquei: “Surge a dúvida legítima de que, espalhando pânico e isolando as pessoas em suas casas, queríamos jogar sobre a população as sérias responsabilidades dos governos, que primeiro desmantelaram o serviço nacional de saúde e depois, na Lombardia, cometeram uma série de erros não menos graves no enfrentamento da epidemia.

Isto é, não é apenas questão de jogar a crise nas costas da população. Caso se tratasse apenas de erros médicos individuais, não haveria nenhum problema. O Estado, ao mobilizar seu corpo sanitário para enfrentar a crise, produz os Eichmmans dos dias atuais: “Eu sei que sempre haverá alguém que responderá que o sacrifício sério foi feito em nome dos princípios morais. Para eles, gostaria de lembrar que Eichmann, aparentemente de boa fé, nunca se cansou de repetir que havia feito o que havia feito conscientemente, para obedecer ao que acreditava ser os preceitos da moralidade kantiana. Uma regra que afirma que o bem deve ser renunciado para salvá-lo é tão falsa e contraditória quanto a que, para proteger a liberdade, exige que renunciemos à liberdade”.

Os Eichmmans, claro, são os agentes do biopoder. Vítimas e algozes ao mesmo tempo, é a síndrome do homem comum. Como culpá-los? Não é porque pessoas se graduam e exercem determinada função que tem a capacidade de compreender os problemas éticos e políticos, mesmo na sua estrita área de atuação. Por exemplo, o caso tão falado dos ventiladores pulmonares. Existe insuficiência respiratória, porém há incapacidade muscular nos pulmões? Quantos poderiam ter sobrevivido se não ligados a um tubo respiratório? A confusão é tão grande que a própria OMS diz que as máscaras (hoje obrigatórias para se andar na rua) deveriam ser usadas apenas para quem trata e/ou convive com alguém contaminado. Por outro lado, a Unicef (nenhuma instituição “antiglobalista”) tem uma postura praticamente “negacionista” aos mostrar os efeitos mortíferos da mobilização social para estancar as mortes por coronavírus.

Acima do bem e do mal, das falhas e dos acertos, estão os “homens nobres” do lorde Bertrand Russell. Pouco importa se há uma pandemia ou não. O importante é realizar um gigantesco experimento social para agravar ainda mais a chamada “crise sistêmica” do capitalismo. O JPMorgan atingiu a incrível marca de três trilhões de dólares em ativos, enquanto o Fed imprime PIBs de países inteiros em semanas.

Nunca houve tanto dinheiro na economia e nunca a população empobreceu tanto. Jamais se tratou de “crise”, mas de um processo de desintegração econômica controlado, isto é, transferência massiva de recursos das populações para agentes intangíveis. Se fosse só isso, a gente poderia ficar no nível dos protestos. Porém se sabe que, como na crise de 2007-8, o objetivo é a mudança da divisão atual do trabalho. Precarizá-la ainda mais. Inovações aparecem para distrair a todos. Quando se vê, tal como no mundo virtual criado depois da crise acima citada e de um novo “modelo” de trabalho, o empobrecimento é horripilante. Aparecem não só os fascismos, nazismos e novos liberalismos, mas com uma população doente, esfomeada e completamente alheia a princípios éticos basilares, a utopia de redução populacional abrupta se torna bem mais factível.

Memórias de uma pandemia no Brasil

A tática do vírus é a do terror. Dificilmente houve algum cidadão (fora as “pessoas realmente nobres” de Russell) que não sentiu algum grau de pavor quando a situação pandêmica começou a se tornar realidade. Para uns isso começou com as notícias da China e da Itália, para outros depois de ver de uma hora para outra tudo fechado nas ruas. Pessoalmente, me esforcei de inúmeras maneiras para compreender o que estava acontecendo e iniciei uma série de textos sobre a pandemia. Foi bem difícil, inclusive, não construir textos longos. Depois explico os motivos.

Por uma questão meramente lógica, de sanidade mental, se tornou urgente em meio a toda a mudança no ritmo de vida questionar como tudo isso aconteceu. Por outro lado, vivendo num semi-lockdown, rapidamente ficou claro que aquilo era algo bastante blasé. Um país com alto grau de trabalho informal, uma cidade repleta diariamente de camelôs, taxistas, traficantes de drogas, bancas de jornal, flanelinhas, MEIs e advogados (e todos os tipos de trabalho com pouco ou nulo resguardo legal), a quarentena parecia um delírio. Dupla alucinação, a da pandemia e a provocada pelas medidas para combatê-la. Irreal.

Se está certo que “o Estado é o mais frio dos monstros”, igualmente devem ser seus comandantes. O alto grau de incerteza demandava cautela (ainda demanda). Mais do que ir “contra a ciência”, qualquer atitude do tipo de “imunidade de rebanho” demandaria ir contra a crença das pessoas. Se a ciência é a religião de nosso tempo, mexer de forma violenta com a emoção de cada um é em si um grave ônus. Como mostrei ao comparar a situação de 2020 com a da época da gripe suína, uma série de medidas poderiam ter sido tomadas desde janeiro. Isso traria um conforto público, uma situação de segurança, que só encontramos igual quando, respondendo ao ato de guerra total imediatamente anterior ao atual, Lula foi à televisão em 2008 para a população não deixar de consumir… E como isso seria necessário! Logo após o assassinato do diretor da OMS Peter Salama e depois que um de seus executivos esqueceu de respirar tentando engolir um brócolis, toda a cautela e bom senso são poucos (e continuam sendo).

Ainda hoje, por exemplo, simplesmente abrir o comércio é uma medida mitigadora (entre tantas outras que podem ser usadas), porque a recessão é global. Caso o Brasil, como queria certo palhaço, ignorasse por completo o ato de guerra total chamado pandemia, os resultados econômicos para o país seriam catastróficos. A evidência óbvia é que não se trata de um problema local, e a outra é que, como país, seríamos mais párias do que já ficamos agora e, assim, nossas relações diplomáticas e comerciais com outros países poderiam ser pulverizadas. Mas ainda aqui estamos tratando de efeitos de superfície.

Além do mais, no Brasil, as ações do governo federal ajudam a não formação de um pensamento mais crítico em relação à pandemia. Pode parecer paradoxal, mas acredito que com um governo neoliberal linha dura, ficaria até mais fácil. As consequências econômicas e sociais não sei se estariam melhores ou piores, mas pela ação do governo, determinada reação acaba sendo provocada. Sem dúvida, o governo como um todo é péssimo para a criação de um pensamento crítico, apesar de ser bom para criar “frentes amplas”…

Pouco importa a língua que alguém fale, se é Eudóxio ou Epistemón, o idiota ou o pedante, se fala grego/latim ou a língua franca. Como não tenho nenhuma relação com qualquer aparelho de Estado ou ganho qualquer centavo para escrever esse tanto de palavras, falo francamente meu parvo latim, ou seja, tento trazer um debate um pouco mais esclarecido sobre a pandemia do que o que vejo sendo feito no Brasil. Com sua língua franca, sem parvoíces, Lula me impressionou em entrevistas sobre a situação brasileira atual. Sem nunca questionar o menor dado, seja da mídia ou da “ciência”, profundamente preocupado com o povo, se não falou o que objetivamente deveria ou poderia ser feito (não está no poder), porém sua atitude dá um exemplo do bom enfrentamento. O que é isso? Economia de guerra.

Ainda durante as eleições de 2018, houve um deslizamento do discurso do Partido dos Trabalhadores. Num primeiro momento, levantaram-se as bandeira de revogação das reformas do Temer e do reconhecimento do golpe como um sequestro da economia do país e de sua população. As palavras “plebiscito revogatório” e “golpe de Estado” pareciam que iam liderar a campanha presidencial. De uma hora para outra, se esqueceu a narrativa histórica do partido e começou a convergência para os lemas do chamado “centro democrático”, ou seja, a luta contra o fascismo (já naquela época) e contra as fake news.

O que Lula propõe durante a pandemia é a retomada deste discurso histórico. Fazer da economia uma economia de guerra significa poderes discricionários, excepcionais, para combater a crise. É o que tem sido feito – não há outra solução – mas com nula efetividade na base e um esquema funcionando bem no topo, como temos assistido. O estado de exceção provocado após a OMS decretar a pandemia global age como um sequestro da capacidade de livre ação dos governos nacionais. Como lidar com a chantagem? Nesse momento, poderes excepcionais poderiam ser dados aos bancos públicos para contornar a crise (financiamento de longo prazo, spreads baixos), a urgência de se retomar as obras paradas, além do imperativo de resgatar o SUS, assolado pela “abertura dos portos” que se seguiu ao golpe.

Dentro do inevitável prazo de dois a três meses que o país se viu capturado pelo paradigma do contágio, com um governo minimamente comprometido com o bem-estar social, as políticas impostas após a violência cometida contra Dilma Rousseff poderiam ser desfeitas com velocidade bem maior do que os trâmites institucionais ordinários. É até curioso que um dos nós da atual recuperação econômica, isto é, a incapacidade dos bancos baixarem seus spreads (mesmo salvaguardados pelo Tesouro de possíveis perdas), foi a última ofensiva bem sucedida, porém não de todo realizada, do governo petista. Se o auxílio agora serviria para criar capital de giro para as pequenas e micro empresas, o ataque ao sistema financeiro privado brasileiro, caso se tornasse uma política perene do Estado (com a mesma legitimidade, por exemplo, do Bolsa Família que, podem mexer e piorar, mas ninguém tem a coragem de acabar – pelo menos até agora), é a condição única para que o Brasil deixe de ser um camelódromo em crescimento.

A razão de Estado (“o mais frio dos monstros”) não questiona as crenças populares ou o Vaticano, o Imperial College ou o que seja. A aceitação da criação da pandemia a nível burocrático, via OMS, pelo Estado brasileiro, teria que ter como contrapartida a criação de uma economia de guerra que impulsionaria antigas políticas que, por ataques variados, cobriram-se de pó. No nível das instituições públicas, pouco importa se a OMS está ou não certa. De acordo com o jogo imposto, o executivo tem que ter o conjunto de medidas para responder aos sequestradores da autonomia nacional. No caso, com dados científicos mais maduros, com pesquisas realizadas no próprio país, com o tempo se pode criar o entendimento ou o consenso autóctone do que foi esse tal “paradigma do contágio”.

Ainda existe uma perversão a mais pelo mero fato de nosso país estar no hemisfério sul. Começamos a fechar tudo o que se pode em março, porém, como é comum, as doenças respiratórias tem um pico nos meses frios. Logo, é relativamente natural o aumento exponencial do número de casos agora. O “terceiro mundo” como um todo foi obrigado a fazer uma quarentena prolongada, o que é ruim em todos os aspectos, mesmo se acreditando nos gráficos do Imperial College.

O caso de Ricardo Valentim, coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica da UFRN e então responsável do estado no comitê científico do Consórcio Nordeste, mostra como as bolhas científicas não servem para lugar algum. Como ele disse, não existe “uma cooperação horizontal entre os estados, mas vertical de cima para baixo. E as cooperações são horizontais. Acho que o comitê da região Nordeste precisa estar presente ouvindo o estados”. O que esteve em jogo na sua saída foram as medidas tomadas pelo comitê para reforçar o isolamento social, após quase dois meses de restrição social intensa.

“E essa é também a posição de outros colegas em outros estados, mas que talvez não queiram se manifestar. Gosto das coisas claras e transparentes. Por exemplo: na terça-feira teve uma reunião com a organização panamericana de saúde quando discutimos 10 parâmetros que precisam ser definidos como indicadores para fazer o lockdown. Não existe decisão generalista para todo o Nordeste”. Ele não apela para o fim do confinamento, mas para mais diálogo e para o respeito às particularidades de cada região: “O lockdown é uma discussão técnica, não se faz num dia. O Maranhão decretou o lockdown por ordem judicial e no dia seguinte a imprensa começou a ver que só teve adesão da classe média, que classe mais pobre não tinha aderido, ou seja, acabou sendo uma medida segregária”. Uma ditadura científica encabeçada por Miguel Nicolelis?

Destacado o principal em relação à ação que deveria ser feita no Brasil, preciso continuar, para concluir o texto como um todo, as “memórias” que me propus aqui. Esse meu texto de agora, se não estou enganado, bate o recorde de tamanho entre tudo que publiquei desde que iniciei meu blog em 2016. Em toda a série iniciada na pandemia, realmente escrevi para não ser lido, apesar de que, ainda assim, consegui picos sucessivos de acesso no ano… Mas realmente escrevi pensando em ter apenas alguns poucos e bravos leitores, não tanto pelo que falo, mas pela forma de publicação na internet, dificilmente adequada para relatos um pouco maiores. Pessoalmente, se escrevo algo de 5 a 10 páginas, não acredito ser nada demais. É a coisa mais rápida ler tão pouco.

Conforme vou investigando os múltiplos aspectos deste problema tão grave, acredito que poderei em futuro próximo, escrever apenas o essencial. Aí sim, quem quiser se aprofundar, pode ir para meus textos mais longos. Mas chega de conversa. Queria pedir desculpas a quem se aventurou até aqui (pelo tempo gasto e pelo tema bem polêmico) por simplesmente não conseguir encontrar um meio de mostrar tantos aspectos contraditórios com poucas palavras. Situação realmente difícil, mas, de qualquer forma, obrigado a quem chegou até aqui.