Para desfazer qualquer engano: esse blog nunca foi Fresco

“Será preciso dizer que o retorno a Nietzsche implica um certo estetismo, uma certa renúncia à política, um “individualismo” tão despolitizado quanto despersonalizado? Talvez não. A política também é questão de interpretação. O intempestivo, do qual falamos há pouco, jamais se reduz ao elemento político-histórico. Porém ocorre às vezes, em momentos grandiosos, que eles coincidam. Quando pessoas morrem de fome na Índia, esse desastre é histórico-político. Mas quando um povo luta por sua libertação, há sempre coincidência entre atos poéticos e acontecimentos históricos ou ações políticas, a encarnação gloriosa de algo sublime ou intempestivo. As grandes coincidências são, por exemplo, a gargalhada de Nasser nacionalizando o canal de Suez, ou sobretudo os gestos inspirados de Castro, e essa outra gargalhada, a de Giap entrevistado pela televisão. Ali, há algo que lembra as injunções de Rimbaud e de Nietzsche e vem duplicar Marx – uma alegria artista que coincide com a luta histórica”.

 Deleuze, A gargalhada de Nietzsche.

Para desfazer qualquer engano: não é porque falamos aqui de Hamlet e o conceito de parresía, Nova Rota da Seda e falência do modelo euro, Nietzsche, Foucault e a biopolítica, etc., que queremos uma “nova esquerda”, espécie de terceira via daquele que disse que se deve acabar com os princípios que embasaram a Paz de Wesfália, da soberania dos Estados nacionais, no caso, Tony Blair. Somos da “ixquerda”, como se fala em boa carioquês, mas não só na pronúncia, mas também no estilo; estilo cafajeste, que também é dos bons nordestinos, não dos elitistas de lá, e que sabem, com todo respeito, que “dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Em que sentido, contudo? Para começar nossa retórica…

Quero não falar do “dinheiro em si”, famosa categoria transespecífica, protometafísica, algo muito valorizado quando se fala – e com que paixão – de “esquerda caviar”. São lindas todas essas denominações! Gostei mais de não sei em qual lugar que ouvi o termo “esquerda udenista”, moralista, e também no voto brizolista em Crivella. Isso é lindo! Não a vitória do pastor, mas os tortuosos caminhos eleitorais. Em 2012, para os de memória curta, junto à aliança do PT com o PSB de Eduardo Campos, foi considerada a maior vitória eleitoral das esquerdas de toda história. Daí teve a bruxa malvada, a Marina, que deu o remedinho pro Eduardo, abduziu o cara, e toda a série de ataques cujo cúmulo é, sem dúvida, o moralista-mor Sérgio Moro. Quero só dizer como as coisas mudam. Como disse o Fernando Brito, o brizolista-mor, há pouco tempo elegia-se FHC numa cegueira louca com o incontestável Plano Real, que não trouxe um grão de feijão a mais na mesa do pobre nem fez uma obra sequer de cimento. As que se fazem com barro humano, contudo, foram múltiplas e advindas das mais profundas entranhas. O cheiro foi tão forte que até hoje ficam por aí desnorteados e acham que a fezes não fedeu e que o Plano foi um “passo necessário” (como o capitalismo para o socialismo?) para o sucesso do governo Lula. Muito fumo para cobrir a muita merda. E continuamos com os mesmos paradigmas do superávit, da âncora cambial, das metas inflacionárias, etc. 
Mas, isso tudo foi como que esquecido e veio o fenômeno tectônico que derrubou o Farol de Alexandria (como diz PHA), aquele que iluminava a Antiguidade e foi destruído por um terremoto chamado Lula. Certas realidades ficaram em suspensão, meio que flutuando nessa nuvem de fumo. O governo do PT por prática deliberada, consciente, não atacou os “grandes paradigmas”. Com coisas mínimas, foi fazendo suas revoluções, tirando o país do mapa da fome da ONU, tirando não sei quantos da misérias, outros tantos indo pra classe-média, para o ensino técnico e as universidades, e tudo o mais e a nuvem de fumo novamente porque o pobre foi culpado, pobre que virou evangélico, logo livre-mercadista, se embruteceu com a ascensão e todas as demais especulações metafísicas que nos remetem à Roberto Piva que falava sem nenhum udenismo:
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
             sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
            fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
Agora o pobre é de direita e todos os mais bodes expiatórios que se tem de arrumar para nos desculpar de nossa profunda indigência moral como nação. Cú-de-ferros, senhoras piedosas e amantes de Roberto Carlos, comerciantes preocupados com os rumos do Brasil e, ah!, perguntam… O que mesmo, Piva? Os comunistas vão lhe responder… Os freiscos por aí, os puros, a “esquerda udenista”, como se disse, e que não gostam de dinheiro, frise-se bem, mas de ideias. Não gostam de poder, nem de alianças programáticas. Nunca farão, portanto, um PAC, um Luz pra todos, um Programa de Compra de Alimentos, um Bolsa Família e nada nada nada mais. E no fim, como não gostam de dinheiro nem de nada sujo nunca poderão falar como o Lula que, com tudo o mais que aconteceu e ocorre, não há homem mais honesto do que ele no Brasil. E como não seria? Foi presidente, o Brasil movimentou recursos nunca antes visto e teve protagonismo internacional jamais sequer sonhado. E o que acham dele? Ah!, não me venha com essa! Até o estádio do Corinthians! É um safado mesmo.
A única resposta que esse humilíssimo blog pode dar ao Freixo e seus eleitores é o primeiro verso do gigantesco poeta Falcão do ceará – só o primeiro já é mais do que suficiente – e é o que diz o que Freixo nunca será:
Nessa, há uma definição quase kantiana da beleza; uma descrição do sublime e que só podemos entender, infelizmente para os psolistas, em termos de Lula e Brizola: aqueles que sempre fedem:
“É porque eu sou feio que sou lindo, imagina se eu não fosse”. Essa é a impossibilidade freixista, nunca serão lindos dessa maneira e preferirão morrer cheirosos do que escaparem fedendo. Só uma objeção sobre o óbvio: feder não significa fazer merda. A merda do plano real, com seu cheiro nauseabundo, até pelo efeito de estupor que a carga tóxica acarreta, tem o efeito contrário, ou seja, é o bonito, o sublime kantiano. Tem cheiros e cheiros e suas metamorfoses e quem faz a merda devemos saber, principalmente no olor de santidade que sem dúvida sairá do caixão do professor (eita categoria sofrida: com quais representantes, me digam!).
Uma outra consideração a respeito de um vídeo de um tal de “Mamãe”, contratado do MBL, que provocou eleitores freixistas no Rio de Janeiro, querendo mostrar seu desconhecimento das medidas do candidato, ou seja, querendo provar, de acordo com preconceitos básicos, que tudo o que recende a socialismo não se sustenta frente à triunfante ideologia liberal. Porcariada pura e que pegou de surpresa os eleitores desatentos e desinformados, até pela forma ostensiva com que ele aborda as pessoas, inclusive numa escola. Um amigo me falou que era falta de estudo dos entrevistados. Respondi que não podia ser. Não se precisa ser “doutor” para responder a meia dúzia de baboseiras. É falta de imaginação mesmo e até estupor por parte daqueles que foram abordados na rua. 

Respondendo ao meu amigo que ficou perplexo por não ter sido publicada a resposta dele no vídeo do youtube, onde com toda a educação que esse amigo tem ao pedir um legítimo direito de resposta frente àquelas arbitrariedades, foi olimpicamente ignorado pelo Mamãe do MBL. Respondi na hora um pouco assustado. A quantidade de besteiras é muito grande. Tive que evocar a gloriosa Janaína Paschoal para embasar minhas impressões: “Vi o negócio do Mamãe e me liguei menos no negócio do assédio do que no da palhaçada. Mas a tática dele é de intimidação mesmo. Tu viu a Janaína Paschoal falando de invasão russa pela Venezuela? Porra!, é só loucura. Nunca vi tanto maluco junto, tanta merda sendo falada”. Mas a questão não era essa somente e meu amigo, com toda aquela educação, me falou da necessidade por parte da juventude de ler “livros tipo códice”. Putz!, pensei. O que é isso? São as Críticas kantianas? Max Weber? Que porcariada mais? Aí peguei o fio da questão:

“Mais do que de erudição é falta de imaginação. Outro dia ouvi uma coisa muito legal sobre esse negócio de terem desenterrado o mito da primeira dama (outra idiotice que só pode aparecer nessas épocas – e isso nos meios “ilustrados”, nos colunistas da Folha, etc.). Falaram que finalmente não chamam mais a primeira-dama de “dona”. Mas é claro, a pessoa respondeu. A mulher do Tancredo era dona porque era uma senhora; a do Collor não era porque era nova. A do Temer não é “dona” pelo mesmo motivo, e idem, por motivos contrários, para a mulher do Lula. Aí a pessoa falou, e isso que achei genial, é que a história da Marcela Temer, fadada a ser no máximo uma miss de interior, é narrada pela música do Zé Ramalho, “Mistérios da meia-noite”. E porra, o cara fez a música pensando nela. Só pode”.

Quem quiser relembrar, segue a música. É impressionante a capacidade profética do Zé nesse caso:

O pior é a análise do PSOL no pós-eleição. Num dia Freixo culpou parte da derrota dele aos “erros do PT”, sendo que um pouco antes o presidente do PSOL falou que o partido estava ocupando os espaços do PT. Aonde? No imaginário dos ufanistas, dos verde-amarelistas do século XXI. “Esquerda udenista”, acho a melhor definição que ouvi. Udenista porque moralista. Esses cheirosos são foda, sem imaginação nenhuma e sem nenhum senso de humor. Muito aquém da Gargalhada Nietzsche, como interpretada pelo Deleuze. Isso é muito mais foda, inclusive a analogia com os “mistérios da meia-noite” (achado genial), do que qualquer “obra em formato códice”. Que também é uma definição bem engraçada, hilária. Guattari e Deleuze estavam certos no Anti-Édipo: o riso que importa não é o de superioridade, característico da ironia. O que importa é a gargalhada, é mexer com o baixo-ventre, o riso gargantuesco, pantagruélico, deformador da face e de destruidor de todos os fascismos, que, no fundo, nada mais é do que uma filosofia do bom-comportamento e para os bem comportados (do bom senso e do senso comum, para falar em termos deleuzianos). Com o resto a gente não se mistura e se puder mata.

O riso que forma as obras de arte, o Intempestivo, o momento em que a Arte encontra a Política: a gargalhada de Castro e não a superioridade algo irônica dos doutores que analisam as “revoluções”, os “fenômenos sociais”. O Intempestivo é momento de festa. Sem qualquer capacidade de mobilização popular, sendo um partido elitista num dos piores sentidos, seus eleitores e partidários nunca irão compreender o sentido do humor – e o da vitória.

A ESQUERDA UDENISTA NÃO REPRESENTA ESSE BLOG, MUITO MENOS SEU ESCRITOR, APESAR DESSE AMAR ENLOUQUECIDAMENTE MUITOS AMIGOS QUE, POR PURITANISMO E/OU FALTA DE IMAGINAÇÃO, VOTAM NO CANDIDATO DA UTOPIA, NAQUELES QUE OPTAM PELA UTOPIA E NEGAM A PRÁTICA DA MUDANÇA.
Réquiem para o psol – finis – que nada mais foi do que os ecos dos escandalizados pelo suposto mensalão – ainda por se provar.