Será o filho do Santo nosso herdeiro?

O Santo e seu filho
Já se configura com clareza que o filho trairá o pai, mesmo sendo este o Santo, como chamado pelos anjos do juízo nas últimas revelações que chegaram ao nosso pequeno, minúsculo, mundo político. Se discordei da dualidade Ciro-Lula, e refutei o Luis Nassif, a quem admiro demais, não tem como não concordar que Dória, com seu populismo rasteiro, filho imaculado do ninho tucano, caminha aceleradamente para a traição, condição sem a qual não chegará à disputa que insistem a seus ouvidos que é o mais preparado. Mais preparado já foi o Serra, já foi o FHC, o próprio Alckmin: tudo o que cheira a tucano vale mais do que os feios e fedorentos petralhas. São Paulo, fonte da virtude brasileira, dos verdadeiros pais do país, dos bandeirantes, mostra seu reino e sua glória: opus dei.


Nassif está certo sobre o protagonismo futuro do atual prefeito paulista, como outros também, e talvez há menos tempo. Essa é a única certeza, ou o caminho mais viável. Talvez possa ser ortodoxia de minha parte rechaçar Ciro como o candidato necessário caso consigam inviabilizar Lula. Como respondi a um dos meus leitores, Gabriel, fala que reproduzo logo abaixo, são fracos os argumentos que querem colocar um “pecado original” no PT. Houveram desvios, talvez o principal, o afastamento de Paulo Lacerda da chefia da PF. Não se procurou controlar a justiça como se fez com a economia. Não se criou qualquer solução criativa. O PT teve suas virtudes mantendo o tripé neoliberal de pé, a sagrada trindade, o que, se não é irritante, não deixa de ser admirável. Como fazer o país crescer e esvaziar, mas sem acabar, matar, com o dogma onipresente, que sopra quando e onde quer?


O que quis dizer tanto no “frente das esquerdas” quanto na “resposta ao xadrez do fim do mundo” é que Ciro é bem o antípoda de Lula, ainda que no “campo das esquerdas”. O Partido dos Trabalhadores, ainda o maior partido de massas no ocidente, é fundamental para a manutenção de nossa democracia. Comparar um candidato personalista com um dos principais líderes que criou essa frente de luta contra a Casa Grande, é algo que faz rir, se não gargalhar. Logo, uma associação Lula-Ciro, pelo menos para mim, é ridículo. Um não se compara ao outro, e caso formos reféns do segundo, como único candidato “viável”, mal para nossa “frente das esquerdas”, porém muito melhor, incomparavelmente melhor, do que sermos herdeiros do filho do Santo.

Segue a resposta que o leitor Gabriel me deu, junto com minha “tréplica”, com algumas colagens de respostas ao Nassif retiradas dos comentários de seu blog quando colocou em nível de igualdade Lula e Ciro. “Seria viável o Ciro Gomes?”, responde o leitor:

Talvez, vai depender da capacidade de articulação do Ciro e do PDT. Mas se faz necessária, pelos erros e principalmente pela falta de auto crítica do PT, que na narrativa do golpe parece tentar esconder que a recessão começou com a Dilma, no estelionato eleitoral, nomeou Levy e fez tudo que disse que não faria. O PT tem que acabar? Claro que não! Mas poderiam ser humildes, perceber que esse antagonismo que se levantou contra o Lula vai manter a instabilidade política no país enquanto ele e o PT continuar na “guerra” pela hegemonia (4 eleições seguidas, já deu neh?!). “Ciro crítica a esquerda e a direita, quer aparecer como independente” Parece que o Ciro é mais um oportunista ou “radical” que chegou pra surfar na onda da crise. Como sabem(espero), foi ministro da fazenda e ajudou a implantar o plano real no governo de Itamar Franco, depois vendo FHC jogar o projeto do PSDB no lixo em troca de poder, rompe e se coloca como candidato contra FHC no auge da sua popularidade, segue como candidato perde em 2002, apóia Lula no segundo turno, vira ministro um dos, se não o mais importante no projeto de transposição do SF, na crise do mensalão e sai do governo quando PT se alia ao PMDB. Enfim, se pegar entrevistas de 2006 até 2012(auge do PT), Ciro mesmo fora do jogo, em 2010 não consegue se colocar como candidato e depois é “passado pra trás” por Eduardo Campos, reconhecia os avanços sociais, mas sempre foi um crítico do ponto de vista da falta projeto nacional, estrutural, de longo prazo do PT. Tem muito mais legitimidade para disputar que Marina, Luciana, Jair…

Minha resposta: “Gabriel, sua última frase é irrefutável. É muito melhor, incomparavelmente melhor, ter um candidato como o Ciro do que esses que você citou. O Eduardo Campos deu uma rasteira em todos e deu no que deu. Parece que o plano era para Marina adquirir um verdadeiro protagonismo no cenário político, mas ela é uma falha em todos os sentidos, e não conseguiu atender aos seus patrocinadores. A crise econômico começa no segundo mandato da Dilma, sem dúvida. Tem o Levy, essa “anta”, como dizem, que colocaram lá, mas também tem que saber que os projetos do governo não eram votados; o que entrava em pauta eram as “bombas” do Eduardo Cunha. Além de ser incapaz por sua formação, o Levy se mostrou ineficaz pela conjuntura política. Esse debate do Levy é bom para mostrar a “verruga”, a “cicatriz”, a “parte maldita” (para lembrar o Bataille) de quem se quer criticar. Contudo, em 2014 começa a pleno vapor a Lava-Jato, com o poder de paralisar todo o sistema produtivo do país, o que o Clube de Engenharia chamou de “jurisprudência da destruição”. Isso (e que acho o principal), somado ao Cunha na Câmara, ao ambiente de “primavera árabe” promovido pela mídia e pelos “movimentos apartidários” (sabe-se lá financiados por quem), criou uma situação econômica terrível. E tem outros fatores externos, como a guerra econômica com a Rússia que fez baixar os preços do petróleo (medida que veio junto às sanções promovidas pela Europa e os EUA) e a queda no preço das commodities, associada ao estranhíssimo fenômeno da seca prolongada, as maiores registradas nos últimos anos. A Dilma perdeu a guerra econômica, isso é fato. Mas temos que saber quais foram os adversários enfrentados”. 
Um último ponto (retirado dos comentários do blog do Nassif): 

Algumas correções sobre o “petismo”

seg, 06/03/2017 – 13:45

O “petismo” não fracassou coisa nenhuma. Tem uma longa e detalhada história de sucessos que começou antes ainda da própria fundação do PT, com as greves feitas no final dos anos 70. O PT é o único partido de esquerda e de massas que existe no Brasil. Por isso apanha feito cachorro durante 24 horas por dia.
Não foi só o PSOL que nasceu do PT: foi o PSOL, o PSTU, a Rede, o PCO, etc. Na última eleição presidencial, por exemplo, tivemos 7 candidaturas presidenciais, das 11 existentes, com pessoas que fundaram o Partido dos Trabalhadores ou que militaram durante décadas no Partido dos Trabalhadores. O PT é a grande novidade da história política do Brasil, a ponto de ser capaz de ter sido a origem de quase 2/3 dos candidatos presidenciais de 2014.
Outro ponto é que tirando o PT a esquerda é microscópica – o que é um sério problema – e praticamente irrelevante. Partidos nascidos de erros estratégicos ou do ódio e do ressentimento (como PSTU e PSOL) não comandam coisa nenhuma.
Outro ponto é a respeito do tal de MPL, movimento que depois da idiotice completa e absoluta do junho de 2013 caiu no mais cavernoso ostracismo de que se tem noticia. E, ao contrário do que Nassif disse, o MPL contou desde o primeiro minuto com o apoio – a meu juízo equivocado – de Lula, de Dilma, do PT e da JPT. A ponto de serem chamados ao Palácio do Planalto para conversar e tudo mais. Absolutamente nenhum dirigente político do PT criticou o junho de 2013 quando o evento aconteceu. Todos exaltaram, de maneira ingênua até onde a vista alcança, aquela ‘autêntica manifestação popular’.
O junho de 2013, como alertamos aqui desde o seu miserável nascedouro, nada mais era do que o ponto de inflexão a partir do qual a direita se rearticularia a nível nacional. Tínhamos um país com inflação controlada, pleno emprego, investimentos públicos e privados em alta, grandes projetos de infraestrutura e se jogou tudo fora a partir da patética consigna dos ‘vinte centavos’ e da ainda mais patética consigna do ‘Não Vai Ter Copa’. Me admira que as pessoas ainda fiquem glorificando o MPL, que não representa coisa nenhuma e que apenas foi usado como mula da direita em 2013 para detonar uma ‘Revolução Colorida’ em Pindorama.
No mais, é evidente que a únida candidatura viável do campo democrático e popular é a de Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhuma outra tem densidade política capaz de fazer frente ao que aí está. De todos os modos é preciso dizer que soa até meio ridícula essa campanha risível de que o “PT está morto”, de que “com o PT não dá mais”, etc. A quem interessa essa lenga lenga contra o único partido de esquerda com real penetração social e enraizamento nacional que existe no Brasil?
O PT terá candidatura própria em 2018 – com Lula ou sem Lula. Isso é e será cada vez mais uma justa reivindicação da militância do Partido dos Trabalhadores. Se até o PSDB, que não vence uma eleição presidencial desde o século passado, sempre teve candidaturas próprias, é evidente que o PT – vencedor de todas as eleições presidenciais no século XXI – tem todo o direito do mundo de querer e de ter candidatura própria em 2018 para defender o seu imenso legado.
Quando se fala em “Frente de Esquerda” ou em “Frente Progressista” fico muito satisfeito. Mas não me iludo. Jamais existirá essa frente se colocarem como pré-condição que o PT abdique de sua história e da vontade hiper majoritária da sua militância. E de quaisquer modos, as nano agremiações do PSOL e do PSTU jamais farão uma “Frente Política” com o PT. Preferem ficar no 1% fingindo que comandam alguma coisa que ninguém nunca vê em lugar algum.
Que Ciro seja candidato e que a esquerda tente formar uma coalizão política. Mas Lula também será candidato e se não for o PT terá candidatura própria sem nenhuma sombra de dúvidas.
Por imposição, repito, da militância que já está se pintando para a guerra e não vai abrir mão de defender as suas cores, teses, bandeiras e legado em 2018.

Para completar, uma crítica irreverente e bem realista, escrito pelo heterônimo Boeotorum Brasiliensis, “O branding do Ciro está errado”: 

O problema com Ciro é a (des)construção de imagem. 

Você escuta o discurso dele por 20 minutos e faz sentido, mexe com sua ânsia de ver o país mudar e acabar as práticas de ataque às grandes possibilidades que Brasil oferece. Você ouve ele a segunda vez esperando o capítulo seguinte e assiste ao reprise do primeiro episódio.Dá uma certa frustração, mas, vá lá. Então você vai ouví-lo pela terceira vez e… Episódio 1, novamente. O discurso dele mostra um plano de voo de galinha. Das duas uma, ou é isso mesmo, um discurso decorado e oportunista ou ele é muito ruim, sendo que as hipóteses não são mutuamente excludentes. 

Além do mais, se você não tem um plano bom, pelo menos tem de ter empatia com o eleitor e uma postura que cative e atraia. No caso dele, nem uma coisa, nem outra. Ninguém, acho eu, compra aquela conversa de cabra-macho-do-sertão, um Virgolino do Bem. Também sabemos que o sotaque nordestino é forçado e que o inglês dele é ruim. Então deveria parar de falar “corno féa-da-puta” e esquecer a passagem pelo curso Wallita em Harvard ou Yale, sei lá. Todas as Ivy League têm programas de verão onde o cara paga uma baba para não estudar, fazer academic tour e ganhar credencial e endereço de e-mail no Alumni. Ficar anunciando mestrado fake nos USA a cada discurso é pedantismo e não credencia ninguém, nem em Sobral. 

Para completar, a estratégia de diferenciação na construção de marca não é feita batendo geral. Ele bate no governo golpista ao mesmo tempo quem que bate em Lula. Bater em golpista é necessidade óbvia e trend da próxima estação. Logo, isso não cria diferenciação. Bater no líder de pesquisa, outro trend visível, cria diferenciação sim, mas aumenta a rejeição. 

Ciro cria é a imagem do típico líder estudantil. Mete bronca em um discurso inflamado contra o sistema ligado no foda-se porque no fim a galera bate palma, as mina ficam ligada e vai ter cerveja a rodo com churrasquinho de gato na sequência. E amanhã? Amanhã, tem mais. 

Entre esse canabrava e o Xuxu do PT, o Haddad, fico com o segundo.

Uma última correção, se é que é possível. Fazer como ele algumas ilações primárias a respeito de supostas capacidades de Psóis e Pstús é praticamente uma irresponsabilidade. É igual ficar ouvindo palavras de Bernie Sandres chamando Trump de monstro e mentiroso. A candidata da guerra que ele apoiou, em termos de virtude, talvez fique muito aquém do bruto Trump, mas que não tem planos tão sutis, “democráticos”, para afirmar a supremacia do império, inclusive que passasse pela aniquilação de boa parte da humanidade. Essa é a esquerda alva das ilações, como não só do candidato que não passa do túnel Rebouças ou de Luciana Genro, mas também do patético Chico Alencar ou, quem se lembra?, de Heloísa Helena.
Um ponto a mais: na avaliação das “esquerdas” atuais, Luís Nassif entrevistou recentemente Guilherme Boulos, líder de fato, como Stédile, de frente de organizações, ao contrário de tantas outras “ilustradas”, que contribuem para a melhoria de nossa democracia. O curioso é que encontrei uma aporia do discurso do MTST, nada, contudo, pelo menos que eu veja, que o desmereça. A lei da não contradição só vale no sensualismo aristotélico e de seus sucessores. Boulos disse que nos governos petistas houve um aumento da democracia com a participação dos movimentos sociais nos diversos Conselhos criados, o que, por outro lado, acabou por dar um papel de coadjuvante a eles. No mais, não acha que um cargo institucional, um cargo eletivo, seria bom, pelo menos no momento para o MTST. Mas se eles queriam participar dos programas de governo isso não passaria de alguma forma pela via institucional? É só uma pergunta, para dizer para aqueles que dizem que só quero polemizar…
Se a recente carta de Dirceu não serve para apontar o que deve ser a nova “frente das esquerdas”, ficamos com a fala de Lula. Foi ele, mas também todo o movimento do qual participou, e acabo por sair como um de seus principais líderes, que fez as maiores mudanças no Brasil desde o pré-64. Desmerecer o PT com ilações a candidatos personalistas ou a supostas “esquerdas” não está à altura da fala durante seu último depoimento
-O que incomodou muita gente no mundo inteiro é este país, que tinha complexo de vira-lata, virar dono de seu próprio nariz.Nós fizemos a maior política de inclusão deste país. 36 milhões de pessoas saíram da pobreza. Eu saí da presidência e queria que a América Latina e a África adotassem as políticas públicas que adotamos aqui. Eu queria ensinar que o pobre no Brasil e no mundo seria a solução quando incluído no Orçamento. 
E foda-se a macro ou a micro economia e o Moro também! Ah!, e como o bom Boeotorum Brasiliensis, eu iria preferir não o Haddad, mas o Jacques Wagner. A Bahia hoje é um dos estados mais prósperos do país, junto com o Maranhão do Flávio Dino, e ao contrário do fake capixaba (tão elogiado pelos “liberais”. E foda-se as pretensas “novas esquerdas” também”