Sobre o atual “conservadorismo ilustrado”

Quando a a direita passou a aumentar seu tom de voz há poucos anos, vira e mexe se falava que não existia mais direitistas como antigamente. Fazia-se alusões a Merchior, Paulo Francis, Bob Fields e que tais. Eram declaradamente de direita, porém tinham o mínimo de articulação, sabiam dialogar e não apenas xingar ou difamar, como o que vemos hoje no atacado e no varejo. Contudo, talvez esse conservadorismo já exista. Quem sabe, porventura, um pouco melhorado. São meio livre-mercadistas, meio esquerdistas, e não são vistos ainda como “de direita”. Dar tempo ao tempo…

Recentemente, Mathias Alencastro escreveu um artigo intitulado “Diplomacia a quatro mãos”. Nele, o articulista propõe como algo vantajoso o trabalho em conjunto do super-ministério de Paulo Guedes com o Itamaraty. Com os super-poderes do ministro da Economia, ele poderia se sobrepor a tradicional primazia do ministério das Relações Exteriores sobre as negociações de comércio internacional. Mathias sabe que o pró-americanismo da nova chancelaria não traz muitos benefícios econômicos. Assim, o Brasil poderia refazer seus elos com os países asiáticos ,em especial com a China, através de uma sobreposição do ministério da Fazenda sobre o das Relações Exteriores. Dar ainda mais poderes a Guedes teria como resultado o seguinte: “No limite, se o presidente eleito arbitrar a favor de Guedes, poderíamos ver a emergência de uma política externa com rótulo pró-americano, levada pelo Itamaraty, e uma política comercial com viés pró-asiático, conduzida pela Economia”. Genial!

Como dado concreto, o articulista propõe parcerias de livre-comércio, numa sub-versão da proposta original dos BRICS. Mathias se refere a artigo publicado no jornal onde se relata as movimentações radiantes de Temer ao redor do BRICS pós-golpes na América Latina: “‘O processo de aproximação entre os países do Mercosul e da Aliança do Pacífico, já em si mesmo relevante, adquire significado especial na atual conjuntura’, afirmou Temer”. Seria potencializado o comércio brasileiro numa espécie de Alca transpacífica, sem a ferrovia bi-oceânica e com o Itamaraty ajoelhado. Boa proposta!

Só por motivo de comparação, Fernando Haddad colocou em seu Twitter recentemente não mais um artigo do New York Times, mas do Financial Times (ah!, a velha e boa “mídia internacional”…). Dessa vez não sobre Trump e Rússia, porém sobre a China. A China é comparada com o Japão da década de 1980 que, segundo a imaginação de alguns, seria a potência dominante do século XXI, porém não atendeu às expectativas…

Nenhuma dado “macroeconômico”, ou seja, de mercado, que procure demonstrar a decadência da economia chinesa tem valor. A proposta da Nova Rota da Seda, num entendimento muito restrito, serve para resolver alguns problemas domésticos do país. A expansão financeira e empresarial da China traria benefícios imediatos a economia nacional. No entanto, no quadro geral da política internacional, podemos apontar dois quadros do maior interesse para as nações de um modo geral. O único país com recursos suficientes para financiar a reconstrução da Síria é a China. Os sírios, num esforço admirável, como foi narrado recentemente num excelente programa do LPAC (clique aqui para acessar), tem feito muito para refazer o país depois de anos de bombardeio. Com o financiamento da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, aliado à ideia geral de interconectividade eurasiática, a Síria pode se transformar num país plenamente estável num modelo para o mundo.

O mesmo vale para o projeto Transaqua, capitaneado pela empresa italiana Bonifica em parceria com o governo chinês, para a revitalização do Lago Chad, na Nigéria, que traria benefícios para inúmeros países do continente e, em especial, para essa região onde proliferam milícias armadas para alimentar as redes terroristas, como o Boko Haram e seu “terrorismo sintético”. Esse projeto é contemporâneo à eleição de Aldo Moro, na Itália, e agora saiu novamente da gaveta. A desconsideração em relação a esse projeto é como o caso do canal nicaraguense: não se deve desconsiderar que a crise na Nicarágua é contemporânea aos ataques à construção do Canal naquele país. Ainda hoje o Panamá tem que ser uma espécie de território desde que criaram artificialmente o país para se apoderarem de suas facilidades geográficas e logísticas.

No mesmo enquadramento, não é por acaso que a China foi a maior parceira do Brasil no projeto de partilha do pré-sal. Igualmente, antes do golpe de Estado, se discutia a pleno vapor a construção da ferrovia bi-oceânica em parceria com os chineses. Também, da mesma forma, o projeto abortado dos trens de alta velocidade poderia ser retomado via China. A Alemanha está muito atrasada em relação ao tema e essa discussão, iniciada com esse país, caiu em desgraça não por causa das anátemas, à época, de José Serra, mas por causa dos desdobramentos da crise financeira de 2007-8.

No artigo mencionado por Haddad, junto ao posicionamento de Mathias Alencastro, pode ser visto o inconveniente de ver a China como uma ameaça (e talvez não os EUA, mas Trump), que seria “regulamentada” com acordos de livre-comércio. Isso, vocês me desculpem, mas é neoliberalismo na veia – não sei o quão distante do “radicalismo” de Paulo Guedes. No quadro geral, contudo, o que os BRICS propõem, e a China agora assume maior protagonismo por causa do golpe no Brasil, é a criação de um novo modelo econômico não baseado no modelo pós-Bretton Woods, ou seja, o modelo contemporâneo ao regime de trocas fixas internacionais inaugurado por Nixon, à desvirtuação da orientação original do FMI e do Banco Mundial, aliado à desregulação financeira com o fim da lei Glass-Steagall no governo Bill Clinton (um desmonte que foi sendo feito ao longo de décadas). Um novo modelo de financiamento internacional de projetos de infraestrutura é o que está no fundo da criação do Banco dos BRICS e o que a China faz através da Organização para Cooperação de Xangai.

Em outro texto recente, Mathias Alencastro afirma: “Quanto mais a situação da Venezuela piorar, maior a chance de regime durar”. É uma cantilena diante da impossibilidade flagrante, pelo menos no curto prazo, do Brasil tomar medidas “mais drásticas” contra nosso vizinho. O governo brasileiro terá que se contentar em multiplicar as bravatas pela internet e anunciar medidas meramente simbólicas.

Logicamente, Maduro é um presidente ilegítimo, já que criou uma nova Assembléia Constituinte em 2013 e se reelegeu… Não considera nem que Chávez fez convocou anteriormente uma Assembléia Constituinte. Por questão de relação de forças da época, talvez não se tenha criticado tanto. Também é curioso que, em meio às conspirações antes do golpe de Estado de 2016, o que se debateu no Brasil era a criação dessa Assembléia como meio de se formar um mínimo de consenso popular para manutenção do governo e para sanar algumas das críticas difusas que o mesmo recebia. Caso houvesse possibilidade de isso ter sido criado na ocasião, Dilma poderia ter terminado seu mandato e, quem sabe, entregue o bastão presidencial a Lula. Alencastro iria dizer que o governo brasileiro, pela criação dessa medida e por suas consequências, seria ilegítimo?

O caso da Venezuela, ao contrário do que muitos pensam, é um excelente caso para pesquisa. A sabotagem econômica, a campanha ferrenha dos meios de comunicação internacionais junto ao apoio popular permanente, não tem como chamar a atenção do observador minimamente interessado nos desdobramentos da política latino americana. Contudo, ao que parece, preferem fechar-se em preconceitos. A Venezuela é um excelente caso de estudo ainda mais frente à derrota para as forças elitistas em nosso país e aos golpes de Estado em toda a América Latina, assim como a Rússia e seu sistema de inteligência e militar seria excelente para o governo brasileiro em 2013. Oportunidades passadas…

Que não se ignore a Venezuela.