Wikileaks, uma narrativa curta do 11/09

O livro de Daniel Estulin acabou entrando para a lista de raridades

Bem no início do fenômeno Wikileaks, inaugurado pela divulgação das imagens de tropas americanas bombardeando jornalistas e crianças no Iraque, Daniel Estulin, ex-KGB e best-seller internacional de livros talvez desconhecidos aqui no Brasil, lançou o seu “Desmontando Wikileaks”. Trata-se de investigação que entra em colisão frontal com a onda de celebridade que se espalhou ao redor dos harckers na época, cuja história está entrelaçada ao trabalho de Karl Koch e o Chaos Computer Club, ainda na década de 1980, na invenção dos afamados “cavalos de Tróia”.

Chelsea Manning, militar transexual americana(o), forneceu documentos diplomáticos de seu país para o Wikileaks. Segundo Estulin, a operação é um encobrimento das relações de organizações como Freedom House, National Endowment for Democracy, Afghanaid, entre outros, além do próprio Google que, segundo o autor, é a cara bonita da NSA. Essas agências subcontratam hackers que em muitos dos casos trabalham para agentes infiltrados. Realizam um serviço pago, porém sem consciência mais ampla de quem são os contratantes. O caso trágico de Chelsea Manning logo depois se tornou o de Julian Assange.

Quais as objeções de Daniel Estulin? Primeiro, são documentos digitais e, mesmo que não manipulados, não estão carimbados como “top secret” ou “doble top secret”. Mesmo que fosse, nada diria que não seriam falsificações. Cerca de duas milhões de pessoas tem credenciais para acessar os documentos não públicos de Wikileaks, isso quer dizer um nível de acesso médio, nunca alto. Um coronel, por exemplo, pode ter acesso a eles. Em nenhum dos documentos do Wikileaks existem grandes segredos militares. Alguns deles até possuem a classificação de “secret”, mas isso é usado muitas vezes como forma de desviar a atenção. No mundo da espionagem, quando documentos são classificados numa ordem de sigilo mais alta, podem simplesmente estar ocultando informações: ao confidencial se põe como secreto, o secreto se coloca como duplo secreto, e assim por diante. No caso da Wikileaks, os poucos que saíram como “secretos” são simplesmente confidenciais. O autor estima que somente 6% das primeiras 200 mil páginas de documentos revelados tinham alguma relevância para os serviços de inteligência.

Outra questão é que antes dos documentos serem revelados, órgãos de imprensa como o The Times e o New York Post já antecipavam as revelações “bombásticas” que dariam no futuro. Assange deu munição a esses veículos oficiais. Além dos dois, o hacker serviu de fonte para a oligarquia midiática transnacional como The Economist, The Guardian,
Der Spiegel, o Clarín argentino e New York Times. Como sair informações verdadeiramente relevantes através desses meios? Além do mais, não existe na Wikileaks um serviço de inteligência para minerar, decupar, interpretar e disseminar a informação. Foram reféns dos jornais e de seus funcionários.

Estulin coloca dois casos como paradigmáticos da postura anti-insurgente da Wikileaks. Dentre as milhares de páginas expostas, nenhuma linha sequer sobre o problema das drogas no Oriente Médio. Se a versão oficialista se detém nos descaminhos dos interesses no petróleo, não se tem o interesse de mostrar como a região inteira se tornou um dos maiores plantadores de opiodeis, em sua quase totalidade com latifúndios protegidos pelas “forças de segurança” internacional. Ignorar esse fato é também ficar cego para o papel do tráfico na manutenção do sistema financeiro transatlântico que, por suas próprias características, tende à entropia. Sem o aporte massivo de recursos retirados de atividades ilícitas, ele simplesmente declararia bancarrota no dia seguinte.

A versão do 11/09 da Wikileaks é igualmente oficialista. Nada de notável foi interposto à narrativa do governo dos EUA. Na chamada era digital, se desmontou com muita facilidade a morte de Bin Laden, logo nos meses seguintes ao 11/09. Anos depois, a famosa foto de Obama e Hillary assistindo ao suposto assassinato de Bin Laden somente veio para corroborar a farsa já conhecida. Além do mais, o 11/09 teve um efeito preventivo diante da crise financeira que já estava para explodir. As atenções se voltaram para outros assuntos, o “combate ao terrorismo” e a máquina de guerra ocidental deu liquidez extra ao sistema bancário, algo que depois só foi alcançado com as infames “flexibilizações quantitativas”. A orgia foi tão grande na massiva transferência de dinheiro da sociedade para os banqueiros que Mario Draghi, então presidente do Banco Central Europeu, chegou a falar de “helicoper money”, uma espécie de Bolsa Família de fanáticos. Aqui, as supostas medidas keynesianas de Obama (flexibilização quantitativa) se encontraram com o mais puro ortodoxismo de Milton Friedman. Até que ponto as duas medidas seriam de fato distintas?

O 11/09, cujo desdobramento mais infame depois das guerras no Oriente Médio foi a criação do Ato Patriota (na raiz de toda a judicialização da política hoje feita a partir dos EUA e que criou a “vara de Curitiba), teve como objetivo, com o Wikileaks, criar o Ato Patriota Cibernético. Isso é o que é dito no livro de Daniel Estulin, lançado em 2011, e pode ser visto de maneira mais clara com os acontecimentos mais recentes. Na longa narrativa do 11/09, na qual ainda vivemos, a última articulação de contra-insurgência global foi a criação do caso Russiangate, ou seja, a criação do termo “fake news”. De um lado, tentar jogar os EUA e Europa contra a Rússia. De outro, criar “agências de checagem” e colocar pavor numa suposta boataria que estaria sendo insuflada pela Rússia, tendo Assange como agente. Toda informação saída de meios “não-oficiais” não deveria mais ser digna de fé. Se o Russiangate não tivesse se mostrado uma autêntica mentira, talvez agora estivéssemos mais perto do objetivo utópico de setores poderosos transnacionais de sermos amordaçados com o tão acalentado sonho do Ato Patriota Cibernético.

Utilizado para plantar informações da CIA e de outros serviços de inteligência para os jornalistas, Assange é um personagem trágico. Se existe uma “beleza” na montagem da operação Wikileaks, é que seus diversos atores são protegidos por níveis variados de compartimentação. Assim é na burocracia dos serviços de inteligência, que vale tanto para o pessoal envolvido quanto para os documentos trocados entre eles e os que, por algum motivo, venham a se tornar públicos. Logo se nota a estranha arquitetura desse edifício, onde do interior podemos ver sua verdade de fumo e espelhos.

PS: Nas recentes aparições de Pepe Escobar na mídia brasileira, via 24/7, chamou minha atenção o fato dele manifestar descontentamento com o The Intercept. O motivo seria simples: eles teriam acesso a uma montanha de informações, mas que não tornam públicas. Talvez Escobar não acompanhe com cuidado as publicações do portal, que faz o jornalismo investigativo tradicional e tão raro, como também está sempre às voltas com documentos confidenciais. Não é que Gleen Greenwald tenha se apropriado das informações de Snowden e as guardou com todo esmero só para si. A revelação da espionagem massiva e mineração de dados seria motivo para até hoje se fazer mais matérias sobre o tema, mas parece não interessar ir até fundo. Isso é a postura geral. No mais, não se deve desprezar os “Drone Papers” revelados em 2015 e a postura do editor do portal de não endossar em nenhum momento a postura russofóbica após a vitória de Trump. Trata-se de um jornalista muito bem informado e altamente confiável e que, por isso mesmo, não cabe a ele se transformar num “especialista de Edward Snowden”. O que ele conseguiu com o caso foi mais do que o suficiente tanto para elucidar a rede de espionagem global, quanto para lançar um portal jornalístico raríssimo hoje em dia. Se Escobar quer saber mais sobre a rede de espionagem, sugiro que estude o Inslaw Affair, a morte do jornalista Danny Casolaro, que está na base dos sistemas de “fundo falso” cujo maior modelo hoje é o Google. Por lado, o Daniel Estulin não é alguém para se desprezar, como demonstra seu único livro que foi obrigado a escrever de maneira ficcional, The Octopus Deception. Existe farto material para o tema. Talvez a ele falte encontrar o foco certo. No mais, exemplo de contra-jornalismo é a matéria atual do El País, segundo a qual Guaidó é culpabilizado por não estar à altura dos planos estadunidenses para a Venezuela. Teria se precipitado, porque o golpe ocorreria meio que “naturalmente”, por vias institucionais. Ao mesmo tempo que culpa seu herói, Gauidó, aponta para um “racha” no chavismo, ainda a ser devidamente detectado. Se houve algum racha, foi nas fileiras dos golpistas, que agora parecem ter apenas a carta da guerra nas mãos. Tempos difíceis.