A Vênus de Botticelli e a primavera da história da arte: o caso Aby Warburg

Breve apresentação da História da Arte como concebida por Aby Warburg, pioneiro no estudo das Pathosformel ou “fórmulas patéticas”, que revolucionou sua disciplina, criou uma biblioteca fantástica (quase borgiana) e apontou para a crianção de uma cadeira, a Ciência da Arte. Depois dos estudos de Didi-huberman, se tornou praticamente uma inconsequência não estudar inclusive a arte moderna (Bataille, Einstein, Picasso, Miró) através das ferramentas intelectuais criadas pelo inovador pesquisador alemão.

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A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald

Não, esse não é Sartre. Muito pelo contrário.

O texto em pdf pode ser visto na Academia.edu

Não devemos nos remeter ou nos filiar a um Foucault “liberal porque não humanista”, curiosas leituras da pós-modernidade onde “it was Foucault’s turn to biopolitics, particularly once he grasped its relation to economic liberalism, which led him to revise the disciplinary hypothesis, not his interest in ancient arts of living[1]”. O tema da chamada Aulas sobre a vontade de saber, de 1970, a aludida exceção aristotélica na Antiguidade e especificamente o texto O saber de Édipo, desmentem uma suposta conversão súbita, quase que religiosa, ao credo liberal, onde se pode ler não sem estupor: “In his concluding remarks about the Chicago School, Foucault presents neoliberalism as an almost providential alternative to the repressive disciplinary model of society[2]”, ou seja, “this was no minor correction: Foucault had, in effect, disowned a central argument of Discipline and Punish[3]”. Foucault vira discípulo de Pinochet, Chicago Boy, protagonista de um dos capítulos de La literatura nazi em America, de Roberto Bolãno. Leitura que se aproxima de certos aspectos da retrospectiva de maio de 1968 feita por Dosse: “Por trás de Maio, o traje Mao não passara de fantasia. Mao-Maio propiciava uma abertura para o espaço e dava acesso à vida de um representante made in USA[4]”. Leitura que não é criativa, inclusive por proporem uma “conversão” e não a utilização inteligente das contradições inerentes ao estudo de um pensamento complexo como o de Michel Foucault.
As recentes leituras de um Foucault adepto do credo neoliberal, adepto do modelo de imposto negativo de Milton Friedman, como na obra dirigida por Daniel Zamora, Critiquer Foucault: Les Années 1980 et la tentation néolibérale, são duplamente frágeis: científica e eticamente. Para ser claro, cristalino, é impossível fundamentar a partir do curso intitulado Nascimento da biopolítica uma mudança de rumo que levaria o filósofo a endossar a economia política que legitimou o genocida governo de Pinochet. Estes teóricos não consideram:
1)Já no curso Em defesa da sociedade se pode ler a partir de sua análise das relações de poder: “Que essa unidade do poder assuma a fisionomia  do monarca ou a forma do Estado pouco importa; é dessa unidade do poder que vão derivar as diferentes formas, os aspectos, os mecanismos e instituições de poder[5]”. Em suma, ignoram completamente um conceito fundamental do filósofo, o de soberania, ou seja, “o ciclo do sujeito ao sujeito, o ciclo do poder e dos poderes, o ciclo da legitimidade e da lei[6]”. Ignoram, por consequência, a própria noção de genealogia tão debatida, se tratando de uma das mais originais leituras feitas sobre Nietzsche. Chegam, assim a estaca zero científica e abraçam, para lembrar novamente Roberto Bolaño (via Borges), as potências do falso: Pierre Menard. Dizem que Foucault – daí o erro ético e não só científico –, ao legitimar o neoliberalismo endossaria com uma suposta fuga da teoria do Estado (como se alguma vez a tivesse endossado) o que ele mesmo chamou a partir da aula de 31 de janeiro de 1979, a “fobia do Estado”, condição por excelência, numa Alemanha pós-Hitler, das discussões que levaram a erigir esse fenômeno civilizacional, a sociedade Mont Pelerin (Davos e seus correlatos mais recentes) ou a ascensão dos iluminados Chicago Boys (e seus correlatos – potências do falso).
E quem ainda se vê insatisfeito (é claro que se trata de uma discussão que consumiria algumas laudas e não poucas linhas como se faz agora), que consulte a aula de 7 de fevereiro de 1979, onde se afirma a relação entre fenomenologia e ordoliberalismo, especificamente “assim como para Husserl uma estrutura formal não se oferece à intuição sem um certo número de condições, assim também a concorrência como lógica econômica essencial só aparecerá e só produzirá seus efeitos sob certo número de condições cuidadosa e artificialmente preparadas[7]”. Será que, contudo, estes teóricos conseguiram tirar o Estado de suas considerações? Ou traveste seus pressupostos para fundamentar doutrinas das mais duvidosas? “Law and order quer dizer o seguinte: o Estado nunca intervirá na ordem econômica a não ser na forma de lei, e é no interior dessa lei, se efetivamente o poder público se limitar a essas intervenções legais, que poderá aparecer algo que é uma ordem econômica, que será ao mesmo tempo o efeito e o princípio da sua própria regulação[8]”. Não importa se estamos com Husserl ou seu discípulo, o entusiasta do Terceiro Reich, Heidegger; se estamos com Friedman ou Von Mise, Hitler ou Goebbels. Estamos em arena nazi, com ou sem a sombra de Pinochet, do Estado ou das demarcações legais de uma sociedade auto-regulada onde se governa para o mercado ao invés de se governar apesar do mercado (condição esta a do liberalismo dito clássico).
A questão de Foucault, que seja mais uma vez dito, é a da soberania (conceito múltiplo, fundamental para o acesso à usa analítica do poder), principalmente em seus últimos anos de vida, o da soberania sobre si mesmo, o do governo de si como condição (a leitura do diálogo Alcebíades) para se governar os outros. No mais, no prefácio que deu o título “Para uma vida não fascista”, o prefácio ao Anti-Édipo, ainda naquela época, já podíamos ler:
Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (visto que a oposição de O anti-Édipo a seus outros inimigos constitui antes um engajamento tático): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini — que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora.
Eu diria que O anti-Édipo (possam seus autores me perdoar) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França desde muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não se limitou a um “leitorado” particular: ser anti-Édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensamento e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um militante revolucionário? Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que se tinham alojado nas dobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua vez, espreitam os traços mais íntimos do fascismo no corpo.
Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales, poderíamos dizer que O anti-Édipo é uma introdução à vida não fascista[9].
2)A questão de Foucault com a militância de esquerda já é bem estabelecida no curso Em defesa da sociedade, onde afirma a similaridade que associa os quadros revolucionários, socialistas, de forma irrefutável com as correntes eugênicas do mesmo século XIX onde nasceu esta disciplina. As chamadas “esquerdas” ou os conservadores (os de “direita”) transitavam, se apoiavam em tais pressupostos. Como relatou na entrevista dada ainda do tempo em que visitou o Brasil com mais frequência, não estudou Marx, por exemplo, na Palavra e as Coisas, pelo pensamento de David Ricardo ser mais radical, estar mais enraizado neste autor as origens da economia política moderna do que o marxismo, até por Marx ter dito que seu Capital nada mais era do que um derivado, uma continuação, da teoria de valores de David Ricardo[10]. Não há distinção fundamental, dentro dos quadros do pensamento de Foucault, que faça divergir Marx da escola britânica de economia política. Surge, assim, antes uma similaridade do que um contraponto entre “liberais” e “anti-liberais”. Similaridade esta que, em sua origem, jamais existiu. São falsos arranjos sempre construídos nos pressupostos do bom senso e do senso comum, arranjos estes que ainda se aferram à imagem da divisão de tendências ocorridas durante a reunião das cortes francesas às vésperas da Revolução.
Como diz Chartier, “a rede contraditória das utilizações” de uma obra, no caso de Foucault, não se deve desconsiderar, ainda, a similaridade entre o ordoliberalismo e o weberianismo alemães (não podemos nos perder em longas citações e/ou considerações), patente também na aula de 7 de fevereiro de 1979. Por outro lado, os neoliberais aprofundam a abstração realizada por Marx a respeito do valor da força de trabalho, valor ainda abstrato que será transformado no século XX no termo “capital-competência”, nas “máquinas-fluxo”, a nova utopia para além do comunismo:
É Hayek, que dizia, há alguns anos: precisamos de um liberalismo que seja um pensamento vivo. O liberalismo sempre deixou por conta dos socialistas o cuidado de fabricar utopias, e foi essa atividade utópica ou utopizante que o socialismo deveu muito do seu vigor e do seu dinamismo histórico. Pois bem, o liberalismo também necessita de utopia. Cabe-nos fazer utopias liberais, cabe-nos pensar no modo do liberalismo, em vez de apresentar o liberalismo como uma alternativa técnica de governo. O liberalismo como estilo geral de pensamento, de análise e de imaginação[11].
Essa a nova teoria para racionalizar a irracionalidade do capital (para dizer em termos weberianos). E estará certo quem diz que por isso, pela adoção de uma nova utopia, Foucault se tornou m filho de Mao-Maio? Podemos voltar novamente ao Em defesa da sociedade, justamente quando introduz o tema do biopoder, em 17 de março de 1976, tema este amplamente desenvolvido no curso de 1979. Lá não encontraremos qualquer Foucault utópico, esquerdista, socialista. Quando fala dos vínculos entre racismo e genocídio aponta: “o Estado socialista, o socialismo, é tão marcado de racismo quanto o funcionamento do Estado moderno, do Estado capitalista[12]”. Ou: “o socialismo foi, logo de saída, no século XIX, um racismo. E seja Fourier, no início do século, sejam os anarquistas no final do século, passando por todas as formas de socialismo, vocês sempre veem neles um componente de racismo[13]”. Voltamos ao tema dos “instrumentos mentais” tão caro a Lucien Febvre e retomado pela escola de antropologia histórica: não será com pobres recursos intelectuais, pobres ferramentas mentais, a da ideologia, da conversão religiosa (ao mercado!), da utopia, de esquerdismos ou direitismos que chegaremos a compreender o complexo pensamento político de Foucault, muito além da mentalidade de contador que se reveste praticamente todo o pensamento econômico do século XX, seja o monetarismo keynesiano ou o de vertente neoliberal.
Mais uma vez a historiografia francesa da segunda metade do século passado é o instrumento adequado para corrigir distorções flagrantes a respeito de temas em que se deveria ter plena clareza e não ambiguidades provocadas por conceitos de cunho doutrinário. Falamos assim, porque lembramos do segundo grande trabalho de Fernand Braudel (considerado da segunda geração dos Annales, o chamado “presidente Braudel” fez o que chamou de geo-história e não abstração nas nuvens), a Civilização material, economia e capitalismo, obra em que um dos eixos centrais é a refutação de qualquer sociologia weberiana, de ética protestante calvinista ou usurária, à moda de Adam Smith, da escola britânica de um modo geral (na qual se filiou Karl Marx). É neste terreno intelectual que se pode situar as concepções mais elaboradas, mais complexas, de Michel Foucault, e não em modernismos fugazes como a de um Foucault fenomenólogo e neoliberal, marxista ou weberiano. Não, de forma alguma François Ewald é um ser capaz de verdade, no sentido grego ou foucaultiano. Por hipótese, poderíamos dizer que cabe a nossa pesquisa escrever um capítulo no estilo de trás para frente, ou seja, não como Foucault escreveu sua “vida dos homens infames”, mas talvez no estilo de Borges, segundo as potências do falso[14]. Já temos o protagonista, o rebento da geração made in usa – Mao-Maio –, o Pierre Menard que veste a medalha da Legião de Honra e se traveste de conselheiro das elites (qual outro papel, afinal, lhe caberia?).



[1] BEHRENT, Michel C. Liberalism without humanism: Michel Foucault and the liberal creed, 1976-1979. Modern Intellectual History, 6, 3 (2009), p. 559.
[2]Ibdem, p. 567.
[3]Ibdem, p. 559.
[4]DOSSE, François. Maio de 68, maio de 88: artimanhas da razão. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Editora UNESP, 2001, p. 133. Tais teóricos sobrevivem à luz de um ex-maoísta, um ganhador da Legião da Honra dado por Jacques Chirac, conselheiro da elite francesa, com certeza um dos mais legítimos representantes da dupla Mao-Maio, de um revolucionarismo enlatado, não muito diferente de nossos ex-marxistas, comunistas, como Roberto Freire ou Fernando Henrique Cardoso. É o que se costuma chamar de “revolução conservadora”, ou seja, a volta às formas oligárquicas, arcaicas, de poder, ainda que com revestimento “moderno”.
[5]FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 37.
[6]Idem, p. 38.
[7]FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo : Martins Fontes, 2008, p. 163-4.
[8]Idem, p. 239.
[9]FOUCAULT, Michel. O anti-Édipo: uma introdução à vida não fascista. Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993, p. 200.
[10]“Acho que na geologia da Economia Política, em seus conceitos fundamentais, Marx não introduz uma ruptura essencial. Houve mesmo alguém que o disse antes de mim: Karl Marx. Ele mesmo afirmou que, em relação a Ricardo, seus conceitos eram derivados”. Uma entrevista com Michel Foucault. Disponível em: http://oglobo.globo.com/
[11] Nascimento…, p. 301-2.
[12] Em defesa…, p. 219.
[13]Idem, p. 219-20.
[14]Termo deleuziano, da Imagem-Tempo, inspirado no cinema de Orson Welles.

Pela manutenção dos poderes da presidência (atualizado)

Atualizado em 12/07/2016

No Fórum econômico realizado em São Petersburgo um pouco mais de dez dias atrás o Ministro do Conhecimento e do Talento Humano do Equador, Andres Arauz, se expressou dessa maneira sobre o papel do novo sistema econômico internacional representado pelos BRICS, com a liderança da China e seu projeto, já em execução, da Nova Rota da Seda:

“Vemos com inveja os grandes projetos que mudam a história da civilização, como a Nova Rota da Seda proposta ao mundo pela China, a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o projeto eurasiático defendido pela Rússia (…) nós estamos com inveja porque falhamos quando a América do Sul propôs isso dez anos atrás (…) Esperamos que as lições expostas no Fórum de São Petersburgo possam ser aplicadas em nossa região”.

Tal declaração é feita praticamente um mês antes da reunião da OTAN que ocorrerá em Varsóvia entre 8 e 9 de julho, e terá como ponto central as sanções econômicas à Rússia e a escalada militar na região. Por outro lado, vemos a situação da Europa não só com o Brexit, mas a situação calamitosa do juros negativos, a emissão de títulos por parte dos bancos com vencimentos para daqui a cem anos (quem os comprará, tendo em vista o tempo mas também a solidez das instituições financeiras?), e a discussão maluca proposta por Mario Draghi a respeito do “dinheiro-helicóptero” (segundo ele, “um conceito muito interessante“), versão europeia da espiral  hiperinflacionária de Ben Bernanke, o Quantitative Easing. 
Enquanto o sistema financeiro transatlântico afunda, se desespera, e se prepara para a guerra, um novo sistema emerge com a união eurasiática, o banco de desenvolvimento dos BRICS, mudando inclusive o arco de alianças do ocidente no Pacífico, como no caso do Japão, mas no mesmo tipo de divisão de afinidades que fez nos últimos tempos a tensão nas Coréias subir. Não por outro motivo se expressou dessa maneira o Primeiro Ministro indiano, Narendra Modi, ao concluir sua fala no Congresso americano na primeira semana de junho:

“Mr. Speaker, (…) as limitações do passado ficaram para trás e os fundamentos para o futuro foram firmemente colocados. Nas palavras de Walt Whitman, “A Orquestra já afinou o suficiente seus instrumentos, o regente já deu o sinal”. E a isso devemos acrescentar que existe uma nova sinfonia tocando (…) Thank you very much”.

Sem o pleno exercício dos poderes do executivo sucumbiremos à Aliança de Livre Comércio do Pacífico e seremos recolonizados, mas agora por um sistema completamente decadente, de guerra e de depopulação.

……….

Ora, mas é exatamente isso que querem atacar quando se empenham para que o impeachment seja consolidado. Não sem algum atraso, mas tive a ideia desse post quanto, parado num dos engarrafamentos monumentais de um Rio de Janeiro em obras (culpa do Lula, dos petralhas – é bom não esquecer; o que não guarda necessariamente relação direta com o tal “projeto de cidade” de nosso jocoso e irreverente prefeito, que fala de Maricá mas também vem de um bairro que é bem mais periférico que qualquer outra coisa), e tive o imensurável prazer de ouvir ao vivo o discurso do relator Anastasia favorável à continuidade do processo. E ele disse com toda a sofística, com a elegância dos hipócritas contumazes, sobre a importância inquestionável da instituição do impeachment nas democracias modernas, citando com toda bazófia Alexander Hamilton e a necessidade de se limitar ou impedir “os poderes monárquicos” do executivo.
De fato, os poderes executivos sempre foram exercidos com muita liberdade. Caso não fosse, não teriam implantado um sistema de crédito onde as transações comerciais em ouro e prata chegaram a 1% do total das transações. O sistema de crédito criado por Hamilton, Franklin, etc. (não entra aqui Jefferson e seus seguidores), foi o que permitiu financiar a guerra de libertação e deslanchou o processo industrial nos EUA. Criaram assim uma briga direta, crua e dura, com o Império Britânico e com seus agentes dentro do país. O sistema foi consolidado com Lincoln, mais uma vez contra os britânicos de dentro e de fora, os escravistas e defensores do livre-comércio (sim, não há contradição historicamente entre um e outro; nosso barão de Cairu não é uma excrescência histórica como pode parecer a quem leu a Formação de Celso Furtado), através de um governo para a União (pelo povo, com o povo e para o povo).
Reza a lenda que quando Lincoln foi construir a ferrovia transoceânica deram um projeto com uma caminho mais barato. Não quis. Mesmo que tivesse que passar por cima de montanhas e gastar mais, tanto melhor. Assim aumentava a quantidade de crédito na economia (seus greenbacks) e aumentava a inovação e a produtividade do trabalho. É bom não esquecer que essa ferrovia de Lincoln foi a responsável, historicamente, por fazer pela primeira vez o mundo deixar de depender de rotas terrestres (como na antiga Rota da Seda) ou marítimas (como relatado nesse poema do mar que é o Mediterrâneo de Braudel), e colonizar pela primeira vez, de maneira eficiente, o continente. Na Europa essa tarefa ficou incompleta desde o sistema viário construído pelo império romano, e que talvez só na época das Luzes teve uma melhoria através da consolidação do Estados-nacionais. Como “mudança de paradigma”, nada comparado à ferrovia de Lincoln.
Isso tudo é para enfatizar os grandes poderes que a primeira democracia moderna de fato dava ao executivo. Uma “semelhança informe” (como Didi-Huberman nomeou os conceitos estéticos de Georges Batille) com o da União são os atos de guerra praticados por Obama à revelia do Congresso –  o que por si só daria margem a um processo de impeachment -, seu assassinatos de terça-feira com drones, inclusive com drones abatidos em solo russo numa tentativa temerária que aumenta ainda mais a tensão entre os dois países, e sem esquecer das guerras do Iraque e do Afeganistão, feitas ao arrepio de qualquer lei, para a desmoralização ainda maior da ONU. Eles tem um executivo muito forte e o impeachment foi algo criado e vigente em suas leis (lembre o ridículo processo contra Clinton, movido pelo grupo dos neocons de Donald Rumsfeld e Bush neto, por causa de uma felação – já bufavam por novas guerras, não satisfeito com um presidente tão fraco e incapaz).
O problema do relatório de Anastasia não é a “instituição” do impeachment, mas seu objeto. Os decretos de créditos suplementares, além de terem sido feitos no mandato anterior, são atos corriqueiros da administração. O tal do Plano Safra nem sequer teve assinatura da presidenta. E assim vai. Querem fazer uma invenção jurídica, como Gilmar Mendes bem salientou em sua entrevista recente na Suécia. Esquecem que primeiro tem que definir melhor o objeto dessa lei, discuti-la e, se conseguirem, implementá-la. Também não podem se esquecer que as leis não tem validade retroativa. No mais, é tudo baseado não em “crime de responsabilidade”, como previsto na lei de 1952!, mas bem mais na “lei de responsabilidade fiscal”, instrumento perverso criado pelo paradigma de modelo econômico sustentado no Plano Real, que visa a manutenção do sistema da dívida, mas que não guarda relação alguma com um crime contra o país. Muito pelo contrário.
Como Lincoln que lutou pela União, o projeto de governo defendido por Dilma, pelo PT, PC do B e todos seus aliados, é o único no momento capaz de unificar o país, tanto por suas ideias quanto por seu enraizamento na sociedade. A manutenção dos poderes da presidência é fundamental para se manter o país unido. Quem criou essa guerra civil, esse neomacartismo, foi não o “projeto de poder” do PT, mas o sucesso de suas políticas. Não são petralhas que jogam bomba na casa de ex-presidentes, que jogam bombas na sede do PSDB, que agridem militantes, simpatizantes ou simplesmente pessoas vestindo vermelho (não se pode esquecer do caso do cadeirante agredido em São Paulo). O PT ajudou na melhoria do sistema de justiça, da polícia federal, mas não criou a caça às bruxas de Moro, do FBI, da Transparência Internacional e do Departamento de Justiça americano. Quem ainda vai insistir na atual conjuntura, como muito repetido durante o mensalão, que o PT é o maior partido corruto da história? As teses da Lava Jato são insustentáveis.
Mas sim, o projeto de reforma política, fiscal, o início do ataque ao sistema de juros altos tentado por Dilma em seu primeiro mandato, o fortalecimento dos bancos públicos – esses são capazes de combater a corrupção através do desenvolvimento nacional em todos os aspectos, e não através de páginas de jornal e de perseguições político-jurídicas.
Só um contraponto: se o senador Roberto Requião fosse a favor da reforma política, da mudança do sistema político nacional, ele não estaria no PMDB. Ponto. Outra bazófia de “novas eleições” para integração nacional. Ah!, mas a Dilma não vai ter capacidade de governabilidade com o atual Congresso. Que pelo menos seja consequente em seus argumentos e peça uma eleição geral, de deputados e também de senadores. Ele vai vai botar seu cargo à disposição? Meu amigo, vá abraçar o Sarney e leve o PHA junto! Pelo amor dos meus filhinhos! E se tiver novas eleições e o Lula ou o Ciro (oh!) ganharem? Eles vão ter maior capacidade de governo com os Sóstenes, Anastasias, Renans (de seu partido, viu?) e etc? Por isso Mino Carta diz que esse projeto é utópico. E por isso Mino Carta é uma lenda e o restante dos “progressistas” são seus empregados.
Não é por outro motivo que vemos na mídia progressista, nos blogs sujos (que, claro, gosto muito), a hipótese do suposto “progressismo” da Folha. Alguém falou, “Ah, é por marketing”. E tocou só no ponto mais superficial da questão. Como adiantamos aqui n’O Abertinho, se a Folha não fosse golpista (e ponto final), no pior sentido possível, as gravações de Sérgio Machado sairiam antes da abertura do processo no senado. E fica-se horrorizado com a capacidade de “marketing” da Folha e não se discute o óbvio, ou seja, o adiamento da publicação das gravações para não comprometer o processo no senado. E ponto.
Vamos lutar pela manutenção dos poderes da presidência, sem utopias ou discussões inúteis.

……….
O post já parecia fechado, mas dois parágrafos de Paulo Moreira Leite situam historicamente com muita precisão os fundamentos jurídicos do que está acontecendo. Vamos a ele, depois faço minhas considerações finais.
Num processo que guarda semelhanças óbvias com o ambiente de perseguição e violência contra militantes e instalações do Partido dos Trabalhadores, o passo fundamental para a construção de uma inviável democracia para as elites foi dado em 1947, quando o Superior Tribunal Eleitoral cassou o registro do Partido Comunista Brasileiro. A medida colocou fora da lei uma legenda que possuía a quarta maior bancada do Congresso Nacional, a terceira maior força parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo — maior que a própria UDN, superada em seu próprio berço — e, acima de tudo, uma respeitável base no movimento operário. Só para deixar claro que se tratava, também naquela época, de uma medida politicamente seletiva. Em 1949 o mesmo tribunal examinou uma denúncia contra os integralistas — versão verde-amarela do fascismo — e manteve seu partido na legalidade, num voto coberto de elogios proferido pelo ministro Djalma da Cunha Mello. Conforme o ministro, o fascismo brasileiro havia se mostrado digno do “toque de sensatez” que uniu a nação em 1945, no grande condomínio que permitiu a derrubada de Vargas.
Contada por este ângulo, a história política do país nos últimos setenta anos pode ser descrita como um conflito permanente da maioria da população para enfrentar golpes e golpistas. Em 1950, quando o vulto popular do retorno de Getúlio Vargas pelas urnas estava no horizonte, o Congresso aprovou uma lei de impeachment de forte conteúdo parlamentarista — e não é difícil saber para que. Depois que uma tentativa de impeachment de Getúlio foi rejeitada pela Câmara, teve início a articulação que o levou ao suicídio. Numa conspiração que incluiu o vice, Café Filho, tentou-se impedir o governador de Minas Gerais Juscelino Kubistcheck de disputar a presidência. Embora JK tenha sido eleito, o próximo passo foi tentar impedir sua posse. Novo fiasco dos golpistas. Mesmo assim, Juscelino foi alvo de dois golpes militares. Passou a faixa presidencial a Jânio Quadros que, permaneceu sete meses no posto. Foi substituído pelo vice João Goulart, que contornou um golpe para tomar posse e não pode resistir ao segundo, que o afastou do poder. Vinte e um anos depois, na democratização, o veto militar impediu a saída natural, pelas eleições diretas, forçando um acordo pelo alto chamado Nova República, que deu posse à mais conservadora das opções em pauta naquela circunstância.
Está aí uma breve, precisa e consistente fundamentação histórica do “golpe parlamentar” que procuram consolidar nas próximas semanas. Esse arcaísmo de nosso sistema constitucional, que pode ser amplamente questionado, principalmente num país que mudou sua constituição, que fundou a “constituição cidadã”, a mesma que ainda falta em muitos aspectos ser consolidada em suas cláusulas mais progressistas. Logo, se utilizam das tentativas reiteradas das oligarquias quando vêem um executivo forte – e isso em qualquer lugar do mundo -, o uso do sistema parlamentar, seu fortalecimento, para barrar os supostos “poderes monárquicos do executivo”, numa clara paródia ao sentido original dado por Alexander Hamilton. Esse é o sistema anglo-veneziano, aquele organizado através dos fondi, hoje em dia recriado no caso do grupo Inter-Alpha, que controla o sistema da dívida, a eleição de deputados e senadores, e através desse tipo de utilização da vox popoli dos antigos imperadores romanos, querem travar toda capacidade do poder executivo em promover mudanças significativas na economia física de um país. 
Aqui, novamente em nosso país, a Rainha é glorificada enquanto Lincoln é assassinado. O sistema oligárquico, aquele de Zeus, novamente prende Prometeu e coloca a águia para comer seu fígado. Não mais luz para a humanidade, não mais fogo, somente os deus do Olimpo, os senhores das sombras, sempre invisíveis, que controlam boa parte do orçamento do país através do sistema da dívida, da mídia, promovendo uma campanha de difamação para fazer novamente o ser humano se sentir um macaco de Darwin e não a “centelha divina da razão”, que pode ser plenamente desenvolvida com os amplos poderes que lhe dá o executivo – antes, em oposição à Grã-Bretanha, e hoje, ainda que o Império continue a botar para fora suas garras assassinas, ele quer cada vez mais nos tornar distantes dos BRICS, e desenvolver todo o potencial econômico e social que está contido nessa aliança.
Como disse Modi, uma nova orquestra toca. Quem irá ouvi-la?

Um poderoso senso de imaginação: a “Harmonia dos Mundos”, de Johannes Kepler

“Quando a experiência parece ensinar algo diferente daquilo que nós cuidadosamente demos atenção, isto é, que os planetas se desviam de uma área simplesmente circular, isto dá origem a um poderoso senso de imaginação, que pela sua grandeza leva o homem a procurar pelas causas”.

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Da série “rir é o melhor remédio”

Say hello to Joel! Para lembrar o quadro do programa Pânico. Mas enquanto isso Gilmar traça as balizas intelectuais do Golpe – que não se consumará. Essa “inovação” de “crime sem crime”, logo impeachment, me fez lembrar dessa passagem de Georges Bataille sobre Hegel, sobre o erro que se condensa todo numa palavra. Querem impor a palavra “impeachment”, mas é Golpe o termo que Satã não reconhece em seu altar:

Hegel condensou o erro; ele o sistematizou, proferiu-o, se posso assim dizer, inteiro, e inteiro numa palavra. Sua fórmula está no frontispício da Escola de Satã, que de agora em diante zomba dos imitadores desafiando-os a fazer melhor. Satã se reconhece na fórmula hegeliana, admirou-a como coisa dele, pois o orgulho, Satã e Hegel soltam o mesmo grito: o Ser e o Nada são idênticos. (Bataille, L’Homme)

Abaixo nosso grande filósofo, nosso inovador, mentor intelectual do Golpe, William Friedrich Mendes, também conhecido por usa amizade com o indecente José Serra e por ser o Libertador do Estuprador Turco e do Banqueiro Bandido (um pleonasmo, desculpe): 

Falando de altas sumidades, lembro do retrato tosco que Gilberto Freyre fazia da Casa Grande:

“No senhor branco o corpo quase se tornou exclusivamente o membrum virile. Mãos de mulher, pés de menino; só o sexo arrogantemente viril. Em contraste com os negros – tantos deles gigantes enormes, mas pirocas de menino pequeno. Imbert, nos seus conselhos aos compradores de escravos, foi ponto que salientou: a necessidade de se atentarem nos órgãos sexuais dos negros, evitando-se adquirir os indivíduos que os tivessem pouco desenvolvidos ou mal-conformados. Receava-se que dessem maus procriadores. Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor copulando dentro dela.
Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar ordens aos negros; mandar escrever suas cartas pelo caixeiro ou pelo capelão; jogar gamão com algum parente ou compadre. De rede viajavam quase todos – sem ânimo para montar a cavalo: deixando-se tirar de dentro de casa como geléia por uma colher. Depois do almoço, ou do jantar, era na rede que eles faziam longamente o quilo – palitando os dentes, fumando um charuto, cuspindo no chão, arrotando alto, peidando, deixando-se abanar, agradar e catar piolho pelas molequinhas, coçando os pés ou a genitália; uns coçando-se por vícios; outros por doença venérea ou da pele. Lindley diz que na Bahia viu pessoas de ambos os sexos deixando-se catar piolhos; e os homens coçando-se sempre de ‘sarnas sifilíticas'”.

Para relembrar o quadro e nossas “celebridades”:

QuáQuáQuáQuáQuá

A beleza em meio ao mundo em frangalhos



Mais dois poemas para relaxar, dois sonetos, para não dizerem que também não sou clássico.

Soneto I
Ela com os olhos da imortalidade
procurou-me certa noite enluarada
dizendo que a paixão a procurava,
paixão de leito e calma. E de saudade.
Os tempos se foram, consumiram-se as idades
da Terra ainda agora enlutada.
Onde a alegria, o doce sorriso da amada?
Certa vez, contaram-me acerca da imortalidade…
Seus olhos falam-me de melancolia.
Irei te esperar, eu sei, por toda a vida,
com versos tristes e tão caros.
Sem remédio cumpramos esta sina –
só no fim da jornada estará tudo pago.
Isto diz quem teus olhos, amor, sempre queria.
Soneto II
Como na pele emolientes, calmantes,
para enfrentar os tórridos calores das terras ignotas,
com os nervos em frangalhos como a roupa puída e rota,
o amante retempera a alma e se faz amante.
Não mais as noites em vigília, sufocantes.
Não mais o demorar-se em tantas bocas,
aqui e ali, que ao falarem de amor fazem-se roucas.
Encontrei-me contigo, Amor, ainda como feroz amante.
Enfrentar o som!, que se espalha
seguindo o vento norte.
Canção de desterro e de martírio.
Pelas bárbaras praias, ventania e morte.
O verbo se faz contra o suplício

do poeta que não mais falha.

O profeta e a guerra


Para Lyndon LaRouche

The war sit down on war.
A guerra assenta-se, assevera-se.
Naquelas mesmas terras
onde o profeta João
viu o anjo abrir o poço
do Abismo.
Do buraco fumacento
saiu uma multidão de gafanhotos,
com caudas como de escorpião
e a permissão para espalhar a morte.
“O primeiro, Ai!, já passou.
Veja que atrás vêm contudo
outros dois”, disse o vidente de
Patmos.
Mas falava de Hiroshima?
De Nagazaki?
Os gafanhotos voadores
já atacavam naquela época?
Qual foi a primeira bomba?
A do Japão
ou a que destruiu o reinado
dos “deuses astronautas”?
Qual será a terceira?
Com certeza não será a do Irã,
como LaRouche sabe.
Pois, esta já tem data marcada.
E serão detonadas
antes de chegar ao fim

o dia de amanhã.

Uma pausa para o riso

rárárárárárárárárárárá

Atualizado em 08/08/2016

Já está ficando difícil de parar de rir. Certo é que às vezes dá muita vontade de chorar, como Temer , olhos marejados, na abertura das Olimpíadas. A gente fica pensando: “pô, esse cara deve ser um nacionalista. Poeta também, homem de sensibilidade. Nenhum tipo assim ia resistir à apresentação de militância eco-fascista que montaram para inauguração dos Jogos cariocas”. Diante da cena comovente, lembro imediatamente do corte de verbas no SUS e a proposta de criação de um plano de saúde mais barato, ou seja, para que se pague para os serviços que já são prestados de graça pelo SUS. Mais uma forma de taxação indireta, enquanto a classe-média e acima torce o nariz à mera possibilidade de se discutir o tema “imposto”.

Vamos rir ou chorar? Essa a grande questão imposta por nosso estadista provisório, ilegítimo e interino – Temer, o nanico (sim, é muito baixo, apesar da pose – e somente ela – de “grande homem”). Preferimos rir, é claro. Um tipo desse não fica, passa rapidamente, por isso podemos encarar a coisa com um pouco mais de leveza. Por esse motivo também que resolvemos atualizar a postagem. Não conseguimos parar de rir desde o dia primeiro da Usurpação, a começar pelo screenshot (Ctrl + PrtScn) cafona e tradicionalista do novo slogan de governo (é, eles mudaram tudo apesar de provisórios, ilegítimos e interinos! Temer, talvez mal de poeta, se acha eterno…). Nada como resgatar as raízes mais coronelísticas de nosso país. Calma aê que eu não sei qual imagem o governo realmente escolheu:

Uma pausa para o riso, por favor:

Aí sim
Agora tá explicado (foto do dia da “posse”)

Faltou só os tucanos da Globo na foto acima

É bom resgatar esses momentos primitivos, ainda mais sabendo (muito mais agora) que esse primitivismo é marca indelével dos neo-coronéis. Dois professores, por exemplo, na euforia do impeachment que ainda não foi, “reacionaram”:

Esse é um “especialista” americano (rárárárárárárárárárárárárárá) – Ah, o sonho dos cafajestes, para lembrar Nelson Rodrigues

(rárárárárárárárárárárárárárá) Professor da FGV também reaciona – e que capacidade de prognóstico!

Esse governo tem uma gana por justiça, por correção em todas as áreas, não só a econômica… Tudo vai dar certo com ele, inclusive a Globo, que não passará mais por qualquer ameaça de concordata. Como diria Leibniz, qual melhor dos mundos? Ora, nenhum mais. Mas a Carta Capital foi muito feliz no título de sua matéria sobre a ameaça seríssima de terrorismo no Rio de Janeiro. Quem foi o genial autor da chamada?

Na foto, a arma perigosa encontrada com os terroristas, para uso no paintball.

O pitbull de Temer realmente é uma piada – de extremo mal gosto. Vê as taxas de genocídio em São Paulo sob sua administração. São alarmantes! Sim, “taxas de genocídio” é a medição da morte de negros pobres por policiais ou grupos de extermínio, tão comuns na Suíça brasileira. Uma caricatura de um verdadeiro ministro da justiça.

Esse sim o verdadeiro vexame das Olimpíadas, o Regresso imposto por esse cidadão em diferentes frentes de trabalho (nesse caso não é exatamente “frentes de extermínio”)

Quando esse povo casa com a “república” de Curitiba só pode dar piada. A gente não pode esquecer do “japonês da federal”, que respondia desde 2003 a um processo (em que já fora condenado, mas que estava embargado) sobre facilitação de contrabando na fronteira com o Paraguai. Não é que o glorioso “japonês” foi preso, logo ele que se tornou um símbolo (e até fantasia de carnaval) da polícia do Moro? Essa piada já está ficando velha, mas mesmo assim: pausas para o riso.

Lembram dessa “chocante” história produzida pelos arianos curitibenses? Aqui numa versão, vamos dizer, mais “didática”
Professor de árabe, amante da cultura islâmica: como diria Magnan, Morel, Cabanis ou Lombroso – trata-se de um degenerado. (rárárárárárárárárárárárárárárá – como é idiota essa elite (créditos a Nelson Rodrigues))

E o Romário? O jogador de futebol sempre irreverente,  depois que entrou para a política virou “sério e respeitável”, uma espécie de novo baluarte da moral e dos bons costumes no Parlamento. Não é que ele ficou indeciso sobre o impeachment e pediu uma diretoria de Furnas para pensar melhor? Haja esperteza! Só rindo muito. (E não é que ele conseguiu!)
Ainda tem outras figuras grotescas, e muito atuante nesses dias, como o Gilmar Mendes (sempre militante), aquele que soltou duas vezes o banqueiro Daniel Dantas, no meio da noite!, e também o estuprador Roger Abdelmassih, e amigo íntimo do “chanceler” (hahaha) José Serra, e o maravilhoso site www.temerpoeta.com – você pode fazer seu próprio poema do Temer, exclusivo. Tem que rir. O Luis Nassif colocou algumas questões importantes: ele dá manchete ao PIG quando seus aliados estão sob os holofotes. Para quem tinha ligações com Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira, logo revista Veja, nenhuma surpresa.
Alexandre Frota no Ministério da Educação defendendo um eufemismo como “escola sem partido”, Janaína Paschoal dando suas consultas com sua pomba gira de estimação, altamente performática, o amante de petralha (porque não vive sem um) Marco Antônio Vila defendendo o Collor, o “modernizador” (“não, mas esse é um trabalho de história política”). QuáQuáQuá. E tem uns idiotas (Créditos a Nelson Rodrigues) ainda no Facebook colocando uma fota da cantora de axé que cantou na Copa (governo Dilma) ao lado da modelo Gisele nas Olimpíadas (governo Temer). Logo, este é muito melhor. E talvez nem tenham visto (ou se viram deram pouca importância – vai se querer crítica às fontes vinda de idiotas?) o hashtag a favor de Bolsonaro e a foto do ilustre ministro oculto da educação, Frotinha.
Falar também de “menos um ministro por semana”, do PMDB, não dá, muito menos das supostas delações de Marcelo Odebrecht. Isso tudo é muito óbvio (quem nunca soube que Eliseu era Quadrilha?, e etc.?). A situação toda é tão esdrúxula que eu prefiro rir, como com a Marta Suplicy quando disse outro dia que foi para o PMDB porque lá não tem corrupção (pelo menos “sistemática”, é o eufemismo dos hipócritas (com crédito a Nelson Rodrigues))! Quem tiver com vontade de rir, eu sugiro:
O ilustre historiador, agora demitido, faz uma análise imparcial porém não menos entusiástica do iluminado governo Collor (frente ao lulo-petismo qualquer coisa serve)

Sessão mediúnica gravada

E o humorista profissional, quero dizer, o estudante dos fenômenos mediúnicos indaga a médium:
Mas, poxa, essa é uma atualização… Esses vídeos aí de cima são muito bons, mas a piada já tem um tempo, etc. Podem argumentar, fazer o que? Agora, Marco Feliciano atracado com mulher? Por favor, me conta outra. E o Bolsonaro disse que “é pesado o negócio”. rárárárárárárárárárárárá

Sobre a guerra que se aproxima

O exército vermelho se reúne novamente para derrotar os nazistas

Com certeza, no ocidente, Lyndon LaRouche é o líder com maior consciência dos perigos que ameaçam nossa civilização atualmente. No seu tradicional webcast de sexta-feira, em 6 de maio, disse com propriedade, como nenhum outro por estas bandas de cá é capaz de fazer: “Nós não estamos à beira da terceira guerra mundial. Nós estamos no meio dela. Nós já chegamos lá, e se não conseguirmos detê-la, a civilização não existirá mais”. É claro que a esperança de uma vitória russa e/ou chinesa – provavelmente, com quase toda certeza, num cenário de conflito os dois gigantes irão se unir – não é apostar no vazio, porém é sempre alarmante a magnitude que adquirirá essa guerra. Os movimentos, ainda que em sua maior parte secretos, indicam que haverá o controle da situação por parte da Rússia principalmente, e da China, durante o processo. Vamos explicar com todos os detalhes essa história intrincada e que guarda silêncio conivente dos oligopólios midiáticos com os políticos mais poderosos do mundo.

Diferente do ano passado, quando tudo sobre o conflito ainda era envolto numa nuvem, quase como se tudo não passasse de boatos, apesar de vozes firmes internacionais terem se posicionado sobre o risco de um grave conflito, como o ex-comandante William J. Perry, hoje, as fontes que apontam para o conflito são tanto oficiais como não oficiais, estão na grande mídia ou na mídia alternativa. Não conseguem, contudo, formar qualquer consenso. Parece que o segredo é o que interessa numa guerra que será enormemente impopular, ainda que consideremos o estado mental deplorável que boa parte do mundo atravessa. Não só deplorável econômica ou politicamente. De maneira total, o que vemos é a degradação mental pelo culto a modernos mitos pagãos, como o da união europeia através de uma união monetária, ou do monetarismo de uma maneira geral, que é um sistema de signos abstratos que são não menos alienantes, de certa forma até pior, do que as intervenções na subjetividade dos indivíduos como em projetos em sua primeira fase pelo menos encerrados, como o caso do famoso MK-Ultra. A polarização intensa do mundo, como é cristalino para pelo menos os menos tontos, não é uma coisa fabricada por “petralhas” e que se restringe à nossa província chamada Brasil. Pelo contrário, é vivida mundo afora de maneira mais intensa pelo menos desde quando o Ocidente criou as chamadas “revoluções coloridas”, como também pelo avanço constante da OTAN, sua postura agressiva, que leva a uma polarização também entre as forças militares ocidentais e as orientais.

Primeiro, vamos começar com uma fonte oficial. É um resumo com comentários da fala de Sergei Lavrov na XXIV Assembleia do Conselho de Política Exterior e de Defesa, em 09/04/2016, republicado pelo portal GGN:

 

Atualmente a Rússia vem provocando histeria em Washington muito regularmente, só que isso não aparece na TV. Nós colocamos ordem na Síria sem um voucher de autorização americano, e não ficamos atolados por lá, mas nos retiramos no momento certo. Pode-se imaginar o quanto duplamente ofendidos eles devem estar?

É também revelador que, quando os políticos americanos relacionam as ameaças ao reduto da liberdade, a lista pode variar: terrorismo, China, até mesmo o ebola foi mencionado uma ou duas vezes, enquanto que a Rússia é membro permanente dessa lista. Então agora Sergey Lavrov declarou oficialmente: a Rússia vai perseguir abertamente a criação de um sistema político internacional policêntrico, de modo oficial e com base em documentos estratégicos apropriados. A partir de agora ações contra a Rússia serão também ações contra o conceito de mundo multipolar. Uma vez mais, nada disso é novidade, mas nada disso havia sido declarado abertamente até agora.

Obama faz a publicidade do seu país:

“Os Estados Unidos têm muitas cartas na mão. Nós somos objeto de inveja do mundo inteiro. Nós possuímos as forças armadas mais poderosas do planeta. A nossa economia é atualmente mais forte do que qualquer outra economia desenvolvida”.

E antes disso ele já havia dito:

“Nós não seremos capazes de conseguir nada se nós não tivermos a mais poderosa força militar no mundo e se nós não torcermos frequentemente o braço de países que não queiram fazer aquilo que nós necessitamos que seja feito, pelo emprego uma variedade de meios econômicos, diplomáticos e eventualmente militares”.

 

A supremacia não mais racial, mas social dos EUA, sua completa arrogância em termos de política externa, podem levar a uma situação jurídica anterior aos acordos de Yalta (não se precisa traduzir isso, principalmente se pensarmos em termos do estabelecimento da OTAN e os acordos feitos com Gorbachov no apagar das luzes da antiga União Soviética), como bem ressaltou Putin em sua “fala sobre o meio ambiente” na ONU recentemente, É bom ver o discurso dele no youtube, traduzido para o inglês ou o espanhol pela Russian Today. Podemos ver também no “oficial” New York Times que a escalada não é tão não-oficial, tão “de brincadeira” como se pensa. São basicamente duas reportagens sobre o escudo anti-mísseis recém-implantado pela OTAN na Europa, tanto com capacidade defensiva como ofensiva. Pode ser visto aqui e aqui, e também de maneira um pouco mais “alternativa” aqui. É a nova super-quente Guerra Fria. Nesse sentido, com certeza, já estamos em meio à guerra.

Por que quadruplicar a presença das tropas da OTAN nas fronteiras da Rússia? Qual ameaça concreta representada pelos russos? Por defenderem junto aos chineses, e aos países BRICS de um modo geral, um novo arranjo econômico, um novo sistema financeiro? Sair de seu próprio país, atravessar o Atlântico, para conter qual ameaça? Quem está provocando o que? E com a ajuda providencial dos alemães e o posicionamento de tropas nos Balcãs até onde podemos chegar?

A hipótese que move a OTAN é o que se chama de sua “doutrina utópica”. Acham que vão em apenas um ataque aniquilar o inimigo. Mas não consideram que Rússia e China podem responder em seguida, em segundos ou milésimos de segundo (em realidade, se calcula um tempo de 3 a 5 minutos para a resposta, ou seja, se não se destruir o inimigo nesse tempo, joga-se fora toda “doutrina utópica”), e lançar um ataque na mesma proporção de maneira simultânea – o que seria com toda certeza o fim da humanidade. Primeiro, o fato é que o cerceamento da Rússia a partir de sua fronteiras ocidentais e o sufocamento da China no Mar do Sul é fato, como bem demonstrou de maneira resumida uma das últimas postagens do comitê de ação política de Lyndon LaRouche (traduzido em português de Portugal):

 

  1.  A contínua expansão para leste da OTAN em direção às fronteiras da Rússia, apesar das garantias dadas pelo Ocidente a Gorbachov em 1989 de que tal não iria acontecer;

  2. A colocação do sistema de defesa antimísseis Aegis na Roménia, Polónia, Turquia e Espanha. Estas armas, equipadas com lançadores MK41, podem ser usadas para missões defensivas (ar, terra, mar), mas também para ataques ofensivos com armas nucleares;

  3. A planeada colocação rotativa permanente nos Estados Bálticos, Polónia e Roménia de quatro batalhões de 1,000 tropas cada um e de equipamento militar pesado;

  4. A criação de uma “Frente Nórdica” contra a Rússia, composta de uma aliança dos membros da OTAN Dinamarca, Islândia e Noruega e da “Parceria para a Paz” da OTAN (Suécia e Finlândia);

  5. A modernização de armas nucleares, em particular da bomba B61-12 e dos Mísseis de Cruzeiro de Longo Alcance Standoff (LRSO), baseados na Alemanha. A Senadora dos EUA Dianne Feinstein disse destas armas: “Os chamados melhoramentos a esta arma pareceram ser desenhados … para a tornar mais usável, para nos ajudar a lutar e ganhar uma guerra nuclear limitada”.

 

Quanto às ameaças no mar chinês, assim disse o editorial de um dos mais importantes periódicos do país, o Global Times: “Carter’s words have been the most threatening China has heard since the end of the Cold War. They confirm some Chinese people’s worries about the worst-case scenario in the Sino-US relationship, in which Washington may translate its intention to counter China into real actions“. Também pode ser visto aqui. A China já traçou uma linha vermelha por onde os EUA não podem e não devem atravessar. Tanto a Rússia como a China advertem com as mesmas palavras: “irão reagir de maneira assimétrica às provocações“. Dizem que será formalizada a cooperação militar entre os dois países, mas a cooperação em todos os níveis, principalmente depois da sanções econômicas e da puxada forçada do preço do petróleo (o que deveria fragilizar, “sangrar” – como diria o Farol sobre Lula – a Rússia até a morte), foi intensificada de maneira sem precedente desde então. A formalização da cooperação militar é somente tornar a público o que é irreversível.

A excelente foto do site LAROUCHEPAC.COM

O curioso da visão do movimento larouchista é que ora alerta sobre os perigos de guerra no Mar do Sul, ora nas fronteiras ocidentais da Rússia. No meu modo de entender, nada disso deve ser considerado. Dificilmente os russos vão esperar o primeiro ataque, aquele fulminante, como defendido pelos doutrinários utópicos da OTAN. No meu entender, dificilmente não será o oriente que irá tomar a iniciativa. Uma das análises mais lúcidas sobre o processo de guerra já iniciado, feito por John Helmer, relembra o comandante do exército vermelho, o marechal Georgy Zhukov, e o que ele chama de “momento Barbarossa”. Stálin estava pronto para lançar um ataque preventivo a Hitler. O marechal, querendo surpreender o ocidente como é costume entre os russos, como na vitória sobre Napoleão, agia em silêncio. Stálin foi dar com a língua nos dentes, disse que poderia atacar a Alemanha a qualquer momento, “secretamente”. Logo em seguida, Hitler deslanchou sua Operação Barbarossa. Medvedev teve seu “momento Barbarossa” logo após o assassinato de Kadafi, e alertou sobre os riscos eminentes de uma guerra. Putin, depois dos sucessos na Síria, teve a oportunidade de ter o seu momento. É clara a movimentação pela defesa dos dois países e os russos podem surpreender novamente. Recentemente tivemos a retomada da Crimeia realizada de maneira surpreendente e sempre humilhante para os derrotados; um pouco depois, a retumbante vitória russa contra o Estado islâmico, que os estadunidenses – agora novamente humilhados – combatiam a alguns anos. Mais surpreendente foi a saída, a retirada dos aviões russos apensas cinco meses após o início do confronto. Mais surpreendente ainda foi o concerto de Bach feito em Palmira, um momento único para a humanidade.

A questão não se restringe às sanções econômicas. Deve-se também levar em conta o lobbie para fazer despencar o preço do petróleo, o que de uma tacada só atingiu a Venezuela e tornou mais barato para os golpistas brasileiros retomarem os argumentos de entrega do pré-sal. Deve se levar em conta que todo tipo de guerra que se trava hoje é fundamentalmente econômica. A guerra dos discursos é toda ela econômica. Superavit primário, câmbio flutuantes, metas de inflação, etc., o tripé macroeconômico e todas as demais discussões bizantinas são a forma de se revestir de caráter “técnico” a discussão que sempre foi política, mas que nos idos da Guerra Fria se apresentava sempre com características ideológicas. Não se discute mais nesse sentido tão duro, ideológico. Nem o mundo está armado como estava naquelas décadas. O rearmamento, a preparação para o conflito, se dá de maneira súbita. Não há qualquer necessidade para corrida armamentista, vivemos numa espécie de época transhistórica, de paz ilusória, de vitória ainda da ideologia de Fukuyama ou da geopolítica de Brezinski.

Na verdade, desde a queda do muro em Berlim, não se tratou de uma alternativa viável para a paz entre os blocos que antes estavam em franco conflito. Lyndon LaRouche, que previu com agudeza a queda do muro pouco meses antes – e ninguém achava que iria ocorrer -, e junto com sua esposa Helga Zepp-LaRouche, vêm defendendo desde então a integração econômica, seja no plano inicial, o de se construir um triângulo produtivo Berlim-Paris-Viena, com o intuito de integrar a Europa ocidental a oriental, seja mais tarde com a Ponte Terrestre Mundial. Hoje a China já realiza os planos da senhorita Rota da Seda (como é apelidada na China Helga Zepp-LaRouche), e o ideal é que o plano sirva para integrar a Ásia com a Europa a partir do Oriente Médio, e se acabar, através desse plano de integração econômica com os conflitos na região, a crise dos refugiados e a ameaça constante de guerra. regional ou mundial.

 

A Ponte Terrestre Mundial devidamente estilizada

 

Como tem enfatizado Helga Zepp-LaRouche, vivemos uma crise existencial na humanidade maior do que na época da Crise dos Mísseis em Cuba. Não falamos de “crise existencial” no sentido “psicanalítico” ou em termos de “ser ou nada” do existencialismo francês ou de seus congêneres. O perigo que ameaça a existência do ser humano enquanto espécie nunca foi tão grande. A senhorita Rota da Seda, no discurso cujo link coloquei logo acima, cita artigo publicado pelo general russo Leonid Ivashov no periódico Zavtra (e resumido aqui, em inglês) em que diz: “existem sérios preparativos para a guerra. Não só na fronteira noroeste de nosso país e entorno dela. A Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, adotada ano passado, marcou o início das preparações para sua fase militar. Foi dito ali que não existe mundo multi-polar, porque não há alternativa para a liderança americana”. É o encontro de duas visões de mundo absolutamente opostas, entendimento de aspectos jurídicos que regem as relações internacionais inteiramente discrepantes, como exposto no primeiro trecho de artigo transcrito acima.

Ela também cita artigo recente do correspondente do conservador periódico alemão Die Welt, Michael Stürmer: “Nenhum protocolo irá nos salvar da guerra nuclear”. Para quem gosta da língua alemã, segue o link. O título, contudo já diz muito. Stümer, classificado como um “atlanticista” de quatro costados, alguém absolutamente comprometido com os meio ambiente midiático, alerta para o fato de que durante a Guerra Fria os militares de ambos os países tinham clareza a respeito das consequências de se adotar a política chamada MAD (Mutual Assured Destruction), à época, defendida com todo carinho pelo nobel sir Bertrand Russel – o “homem mais maldoso do século XX”(o que não é pouca coisa, é só lembrarmos de Hitler e correlatos), segundo Lyndon LaRouche.  Se paramos para pensar, a “doutrina utópica da OTAN” nada mais é do que um MAD amplificado, pois para os atlanticistas, caso aja “dano colateral”, tudo será para o bem da humanidade, já que devemos – segundo eles e os ideólogos do movimento verdista – reduzir para pelo menos um bilhão o número de seres humanos existentes no planeta.

Para os curiosos, indicaria com muita veemência o diálogo semanal entre o jornalista John Batchelor e o professor da universidade de Princeton, especialista em Rússia, Stephen F. Cohen. Pode ser visto no site do The Nation ou no Russian Insider. O link para um dos últimos podcasts está aqui. O professor relata os recentes movimentos dentro da Rússia para se reler o legado de Stalin, algumas considerações sobre Gorbachov (com ele, com a Perestroika, se deu o primeiro trabalho sério não de fuga do socialismo ou capitulação ao capitalismo, mas de “destalinização” da URSS), além dos comentários habituais sobre a mobilização alarmante das tropas da OTAN na fronteira russa, principalmente no Báltico.

Numa entrevista mais recente, o professor Coher relata com espanto as manobras de milhares de soldados da OTAN na Polônia, nos preparativos de guerra batizados de operação Anaconda-16. Por outro lado, existe o debate público na Rússia a respeito do grau de seriedade do avanço militar ocidental: seria apenas demonstração de poder, uma espécie de pirotecnia com armas nucleares prontas para uso, ou de declaração informal de guerra? A pergunta “retórica” do entrevistador (o professor chama assim a pergunta, até por considerar a resposta óbvia demais) não é menos pertinente: o que fariam os EUA caso os russos ou chineses estivessem em Cuba fazendo exercícios militares com grande mobilização de armas, homens e recursos? Assistiriam impassíveis ou aqui no ocidente já se teria feito renascer a histeria da guerra, talvez num modo ainda mais dramático do que nos anos 1960? O fato é que não há o telefone, os líderes políticos, como houve na época de Kennedy, capazes de conversarem e contornarem o terror iminente. Barack Obama, em sua visita ao Japão, disse com todas as letras entender as motivações que podem levar um presidente a utilizar de armas nucleares. Como se esse fosse o caso, com um Japão já rendido, e com as ordens do general Douglas MacArthur de retirar as tropas do local.

Colocamos abaixo o vídeo com uma fala mais curta do professor sobre o assunto específico do confronto Rússia versus EUA.

 

 

O ex-comandante do Joint Chiefs of Staff (por favor, fiquem a vontade para traduzir como quiserem a expressão que designa o Estado Maior das Forças Armadas), Martin Dempsey, fez um alerta vigoroso para os estadunidenses não caírem na “armadilha de Tucídides”. Elogiar Atenas na mesma intensidade com que se despreza os rivais pode fazer Washington virar pó, assim como Atenas nunca mais recuperou sua antiga supremacia após a Guerra do Peloponeso, um guerra sem vencedores. O alerta é claro, vem de quem vivenciou as mais recentes batalhas no Oriente Médio, e conhece o discurso dos neocons que são o coração da administração Obama, ou seja, o discurso do mundo unipolar, do “século americano”, seja pela retórica imperialista, pelo sufocamento econômico ou pelo uso das armas.

Não se precisa reiterar as sucessivas alusões, ou sucessivos planejamentos dos neocons a respeito da necessidade do desmantelamento da Rússia. Uma referência elementar é o “grande xadrez”, de Zbigniew Brzezinski, mas passa por alusões mais recentes, inclusive do ressurgimento do MAD, e que pode ser visto aqui, com links bem interessantes para outros artigos. Recentemente também, fala-se do movimento russo para fazer na Líbia o que foi feito na Síria, o que por si só nos dá bastante matéria para reflexão. É a guerra em movimento, a guerra total, generalizada, mesmo que ainda não se tenha um conflito direto entre as potências. Quais seriam as consequências para o “grande xadrez” internacional caso essa intenção russa venha a se concretizar? Lembrando que Medvedev teve seu “momento Barbarossa” quando da morte de Kadafi (pelos drones americanos), seria uma guerra direta contra a política de mudança de regime imposta pelos EUA e que teve seu momento marcante em 2013, com repercussões aqui no Brasil, mas principalmente na Ucrânia. Talvez o ponto final dessa história (se é que podemos falar de pontos finais em algo que está em pleno desenvolvimento), um ponto de ancoragem, a marcação de dois tempos seria as “revoluções coloridas de 2013” até a instalação do sistema anti-mísseis nas últimas semanas. Vamos dizer que essa é a “parte quente”, a mais recente, de um acontecimento de longo curso.

 

Os mísseis hipersônicos 3M22 Zirkon, arma russa para deter os mísseis anti-balísticos

Um tempo médio podemos entender que se estende a partir de uma dupla plataforma. Uma, de mais curto alcance, que vai desde a pronta inciativa de Putin em auxiliar os americanos depois do ataque de 11 de setembro, até os desapontamentos generalizados provocados pela guerra no Iraque, que levaram a Rússia a retirar, por volta de 2005 se não me engano, qualquer apoio à “guerra contra o terrorismo”. A partir do pressuposto da “guerra contra o terror” a OTAN passou a se multiplicar como um câncer, tornando membros países como Lituânia, Romênia, e sei lá mais o que, numa clara violação às cláusulas de respeito mútuo que ampararam o acordo Ocidente-Rússia com o colapso da URSS. A única importância desses países, dessa expansão da OTAN, é sua proximidade com a fronteira russa. Tendo em vista esses desdobramentos, se compreende por que se tornou inaceitável para a Rússia contribuir para a caça aos terroristas.

A outra plataforma de tempo médio, mas de alcance um pouco maior, é a eleição de Bush pai para a presidência dos EUA. Fala-se muito em Reagan, na sua patota de neoliberais, etc., mas se esquece de dois detalhes importantes: foi com Reagan que quase se realizou um acordo em comum EUA-URSS em torno também de mísseis anti-balísticos (portanto, esse projeto é bem antigo e agora é implantado não para o fim da guerra, mas para provocar o início de uma), a Iniciativa de Defesa Estratégica, que foi frustrada pela quadrilha liderada por Kissinger, e que levou à prisão seu idealizador, Lyndon LaRouche, junto a inúmeros de seus associados. A eleição de Bush pai, por seu lado, colocou definitivamente no poder os neocons, seu núcleo duro, baseado no chamado “complexo industrial-militar”, que tem suas gloriosas raízes na Skull and Bones e na colaboração com os nazistas, liderada pelo então senador Prescott Bush. Numa comparação talvez um pouco bárbara, podemos dizer que comparar os malefícios de um governo Collor a um governo FHC é como comprar Bush pai e Reagan. Este e Collor parecem absolutamente ignorantes do bem e do mal diante do oligarquismo puro e duro, e todos os novos paradigmas (mais do que práticas políticas), por eles implantado. Não é um acaso que os “atentados” ocorreram com Bush filho (na verdade, neto). “Caçadores de marajás”, playboys de Maceió ou atores de Hollywood não servem de forma alguma para ocupar cargos relevantes, quanto mais a presidência da república!

Faremos um último paralelo, agora sobre o tempo longo, que para mim vai do assassinato de Kennedy até a implosão das Torres Gêmeas. Depois vamos estourar essa dicotomia estruturalista de “quente e frio” e vamos tocar – mas apenas tocar por enquanto – as camadas geológicas mais profundas, seguindo as lições do dr. Xarada (Mr. Challenge), o grande protagonista dos Mil Platôs, de Deleuze e Guattari. Essa história de tempo mais longo, na verdade a ponta de algo mais amplo, talvez iniciado com os poderes discricionários adquiridos pelo Império Britânico depois da Guerra dos Sete Anos, é um marco simbólico do povo estadunidense, principalmente de sua derrota sem retorno aos ditados do Império que desde o assassinado de Kennedy o vem recolonizando. A partir da derrota das políticas pró-industriais de Roosevelt, da falência agora irremediável, sob Obama, do programa espacial dirigido pela NASA, etc., da crescente desigualdade econômica no país desde a década de 1970, culminando com a volta dos Bush ao poder, do “complexo industrial-militar” e ao seu lacaio neocon Barack Obama – tendo como meio termo o fim da lei Glass-Steagall no mandato de Billy Clinton -, o Império sabe que suas horas estão terminadas e parte para concretizar seus objetivos de guerra total.

A decadência do povo estadunidense do assassinato de Kennedy até a implosão das Torres Gêmeas são o solo propício em que se debatem entre dois serial killers, Obama ou Hilary, e depois entre uma assassina e um psicopata, Trump. Não há solução institucional para os Estados Unidos da América. É quase uma “doutrina utópica” a luta pelo impeachment de Obama e o restabelecimento dos poderes do Executivo, ainda que seja a ação mais sana em toda essa loucura. O que importa, contudo, – e aqui pedimos licença ao dr. Xarada – é a dinâmica que a civilização ocidental vem adquirindo desde mais de dois mil anos. Não assistimos desde a Grécia clássica a ascensão e queda dos impérios no sentido tradicional. É difícil estabelecer os motivos, mas passou a haver sistemas de comunicação entre as antigas potestades. No caso, Roma vira um império grego na cultura, nos modos, ainda que tenha contribuído com suas próprias características, o que manteve o latim uma língua popular por ainda alguns séculos (não falo do latim dos eclesiásticos medievais). Roma se torna, nas palavras do historiador Paul Veyne, o “Império greco-romano”: não se pode compreender sua dinâmica sem estudar as duas sociedades em conjunto.

Mas a partir do Renascimento essa dinâmica se mostra de maneira mais clara. Portugal, talvez como Bagdá alguns séculos antes, se torna a capital do mundo. Ben Franklin, George Washington e Hamilton parecem fazer reviver as luzes da Itália em plena sociedade científica e fundam, de fato (o que não conseguiram os italianos na extensão que desejavam), uma república. Existe uma correlação muito interessante entre os antigos reinos da Antiguidade e os Estados-nação atuais. Não caberia aqui levantar as hipóteses sem fundamentá-las de maneira suficiente. O relevante é que, pelo menos desde o Renascimento, vemos os império ascenderem e caírem como sempre (Portugal, Espanha, Itália, França, etc.), terem seus momentos de glória (como também Bagdá), mas depois de seu período de ocaso, manterem sua identidade, seu poder, sua relativa autonomia. É o que os EUA estão se tornando hoje – e já a algum tempo -, a sombra de um poder ultrapassado. Com algumas características peculiares, contudo.

A dinâmica do desenvolvimento da autonomia, da soberania dos povos, nunca foi tão intensa, e hoje é indicada pela sigla BRICS (que por si só possuem mais da metade da população mundial), mas que carrega consigo uma série de outros países, do Oriente Médio, da África, da América do Sul, etc. Não se compara a força dessa dinâmica com a, por exemplo, dos países não-alinhados durante a Guerra Fria, onde o espaço de manobra era muito restrito e os projetos para o futuro ainda menos que embrionários. O planeta conseguiu sobreviver aos presumíveis executores do MAD num primeiro momento. Agora que o conflito parece inevitável, “o lado iluminado do planeta” parece dispor de forças suficientes para enterrar mais uma vez a hidra do nazismo. E é a inevitabilidade do crescimento desse novo renascimento global, capitaneado pela China, o que alarma os atlanticistas. Estes deslancharam a maior crise econômica da história, a maior guerra econômica jamais vista, e entraram com tropas ou não, com “protestos cívicos” geralmente, coloridos, e tentaram sacudir a soberania das nações, e vêem que essa talvez lhes seja a última chance. Por isso enlouquecem a ponto de ameaçar a todos com o Apocalipse.

Quero dizer que as aspirações de guerra total partem do mais profundo desespero da oligarquia financeira internacional de perder de vez seus postos de comando. A Rainha da família dos Guelfos Negros (e que só mudou de nome para Windsor depois da histeria anti-germânica pós-1914) terá que vestir vestes de servente se quiser sobreviver. O sistema financeiro transatlântico está irremediavelmente falido, e por isso procuram a guerra. Não podem controlar  sete ou oito bilhões, quem sabe dez ou quinze bilhões de pessoas num único e só mundo. A guerra será longa, será dura, e terá um nobre objetivo: tirar a dura capa de neomacartismo de todos esses cidadãos, mesmo os 99% de mestiços que compõem meu país. O que se avizinha, o que já chegou em realidade – e todos a estão vivendo em diferentes graus – aqueles períodos chamados de provação coletiva. Se assistirá a um grande jogo cujo resultado final é a continuidade ou não da humanidade como espécie. Mantemos a confiança em alta, a confiança nos incríveis progressos dos últimos vinte e poucos séculos – e agora com a ajuda do milenar oriente – de que um império irá ruir definitivamente, e que nos anos de reconstrução – talvez para essa tarefa o próprio deus Vulcano deverá ser chamado, devido às cargas tóxicas que a Terra fatalmente irá experimentar, junto com a chuva, a chuva constante – poderemos ver um novo renascimento, uma troca de moedas, de valores que regem a relação entre os Estados soberanos, voltados todos para o espaço, para lua, para Marte e além, num progresso que é irremediável caso não sucumbamos ao apelos dos atlanticistas, essa raça milenar que ainda continua a procurar destruir o planeta que os acolheu para sua regeneração. O importante é “Lutar, lutar. Temer jamais”, como com muita propriedade reivindicou a torcida mineira do Galo. Afinal, estamos a um minuto da meia-noite.