Um doutrinador não nega o carnaval: as desventuras iluministas no enredo do samba (estudos sobre o cinismo III)

Roupas freudianas – fotografia refoulenta (Mário de Andrade)

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Atualizado em 23/07/2016
No programa estético esboçado pela Semana de 22 é flagrante o contraste entre sua visão de modernidade e a realidade brasileira e, por outro lado, as próprias conquistas artísticas, políticas, dos integrantes do movimento em contraposição a uma certa idealização de suas aspirações como doutrinários de uma nova ordem. Não foi pouco. Segundo Eduardo Jardim, o Manifesto da poesia pau-brasil “resume poeticamente toda uma doutrina[1]”, que, como expõe, não foi por causa da pobreza de suas concepções que encontrou os empecilhos para sua afirmação. “Elementos contrastantes compõem o retrato do Brasil do ‘Manifesto pau-brasil’: ‘Temos uma base dupla e presente – a floresta e a escola’. Ainda: ‘Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar’. A perspectiva ‘Pau-brasil’ apostava na possibilidade de combinar todos esses diversos componentes da vida brasileira[2]”.

No Clã do jabuti, livro de poemas que rivaliza com o manifesto em suas concepções estéticas e que acabou por deixar na sombra, frente ao Manifesto, essa obra mais amadurecida conceitualmente de Mario de Andrade, podemos ver no Noturno de Belo Horizonte: “que luta pavorosa entre florestas e casas… / todas as idades humanas / macaqueadas por arquiteturas históricas”, o mato invade a cidade, os homens fogem desta em “comboios de trânsfugas pra Rio de Janeiro”, no que surge o desenho: “clareiras do Brasil, praças agrestes!… / Paz”. E já no seu início, o impulso vital que unira e animara poetas, pintores e músicos de ânimos diversificados, era confrontado com disputas das mais diversas e, talvez quando o movimento parecia se firmar como algo para além de um ou uns “manifestos”, surge a Revolução de 30, o Estado Novo, e em mais uma fileira se reivindica se não as bênçãos da modernidade, pelo menos a glória da alcunha de modernistas. O Clã do jabuti reivindicava uma reflexão madura sobre a nova estética, sem descuidar das prerrogativas intelectuais exigidas por tal empreitada; o Manifesto da poesia pau-brasil, ante-sala do Manifesto antropófago, se apresentava como anti-doutrinário, anti-intelectualista. Pouco importa, todos desejavam uma determinada pureza em suas formas de expressão, em suas concepções de arte nacional e, não obstante, chocavam-se entre si como a revolução que devorou seus próprios filhos, ou seja, não muito diferente dos arbítrios da época do Estado Novo. E talvez estivessem certos dois intelectuais importantes, porém não tão centrais nas análises do Modernismo brasileiro. Paulo Prado e Manoel Bandeira talvez tenham visto melhor, nessa época, a tristeza e a melancolia do Brasil…
Outro intelectual que surge no período, filho da revolução e um dos sobreviventes, Sérgio Buarque de Holanda, em algumas poucas palavras transcreveu a sensação daqueles que de mais longe viam os ânimos exaltados e as aspirações utópicas da legião de doutrinários, pois “nós não fomos postos neste mundo para descobrir as verdades e sim para achar as conveniências[3]”. É sua, mais do que de Thomas Hardy, a percepção ética a respeito dos dilemas posto por idealizações das mais diversas que beiraram o ufanismo. Ele mesmo no início do movimento se pensava como uma peça da nova construção (palavra comumente empregada pelos modernistas, pelos construtores da nova ordem), “ele próprio procura se iludir e às vezes finge acreditar no prestígio eterno das categorias humanas e, até certo ponto, imagina-se um personagem necessário, um elemento de construção. Mas no fundo, é bem um espírito de negação, um adversário constante das ordenações que os homens se impuseram[4]”.
Como (ao contrário de Sérgio Buarque, de Thomas Hardy) a aspiração por pureza dos modernistas, essa moral expressa numa prática de ser artista, de ser moderno, que envolve menos uma questão de reflexões de ordem geral, metafísicas, ou de prescrição moral do que uma questão de “prática”, de vida cotidiana, pode ser compreendida sob a ótica da “analítica dos prazeres” feita por Michel Focault? A partir do campo, da “substância ética” onde são formados os aphrodisia, “isto é, atos determinados pela natureza, associados a ela a um prazer intenso, e aos quais ela conduz através de uma força sempre suscetível de excesso e revolta[5]”, como podem ter se constituído os modernistas em moralistas, em doutrinários do desejo, em hipotéticos construtores de uma nova era? Como isso pode ser relacionado à pintura extremamente caótica, que nos sugere enganos, erros dos mais variados, como na reconstrução da sociedade e da cultura paulista da década de 1920, como expressa no livro de Nicolau Sevcenko, Orfeu extático na metrólpole?
No confronto destas duas camadas de reflexões, sobre a aleturgia e sobre a crítica ao desejo dos doutrinários de 1920, é que se colocam nossos questionamentos. As formas aletúrgicas (as provas da alma, a coragem do dizer-a-verdade) nos modernistas brasileiros, a espécie de provação de sua própria verdade pela qual passam “nos frementes anos 20”, pode ser colocada de modo mais claro caso sobrepormos duas descrições de época, uma a vivida por Sérgio Buarque de Holanda como jovem crítico do movimento artístico ascendente, e outra a reconstituição quase como uma nova crônica de época, o trabalho por vezes de aparência mais estética do que científica feito por Nicolau Sevcenko.
Dos laboratórios para as indústrias, para o mercado, para as casas, o ciclo do prodígio se acelerava num feitio como que de moto-contínuo inesgotável. Do ponto de vista local, São Paulo, grande núcleo consumidor a partir de uma renda de cunho basicamente agrícola, a perspectiva era mais estática, só se tinha acesso à última etapa do ciclo produtivo tecnológico. A magia parecia maior. Daí o prestígio peculiar de certas simbolizações de realidades descontextualizadas e que, por isso mesmo, adquiriam uma áurea de deslumbramento, sendo portanto apropriadas como índices de discriminação social. Vimos já como o automóvel era aqui tudo, menos utilitário. Algo semelhante ocorre com os fiambres enlatados do Frigorífico Armour, o “o mais moderno da América do Sul”, quando ele aqui se instalou em 1921, iniciando um espantoso sistema de abate em série e processamento mecânico das carnes em escala colossal. E o que pensar da “Casa Edison”, que evocava o “gênio” por trás das novas tecnologias e se apresentava simplesmente como “moderno magazin”? Ou o que se passaria no misterioso “Gabinete de raios X do dr. Raphael de Barros”, sobre quem só éramos informados que “acaba de chegar da Europa”? Ao que parecia, havia virtudes no moderno, mas elas não eram para todos. Nem tanto assim. O “sapólio Radium”, por exemplo: a pequena barra do saponáceo irradiava uma auréola de brilho espontâneo ao seu redor, idêntica àquela do mineral radiativo descoberto pelos cientistas Marie e Pierre Curie apresentados no quadrinho ao lado, idêntica também à substância da equipagem terapêutica usada por médicos no quadrinho seguinte e idêntica, por fim, ao brilho radiante das loucas e panelas no último quadrinho[6].
Este o quadro, esta a crítica:
Parece claro que o próprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um desejo de libertação como já foi dito […], não de um esforço de resistência contra o aniquilamento, mas ao contrário e acentuadamente, ao desejo invencível de negar a vida em todas as suas manifestações. Surge assim em sua expressão artística mais rudimentar esse afã de reduzir o informe à forma, o livre ao necessário, o acidental à regra. O desenho regular e monótono dos primitivos, essa exclusão de todos os elementos especiais e acidentais que eles revelam, mostram claramente o significado e o sentido da tendência dos homens para uma regularidade abstrata e unânime[7].
Em que medida este desejo de verdade, o processo pelo qual os modernistas acreditavam que a verdade deveria atravessar para ser capaz de plena expressão – suas formas aletúrgicas, não veio mesclado aos deslumbres da modernidade, a um modo quase religioso de entender os novos tempos, onde o mais vil materialismo adquiria uma espécie de santidade enquanto vista como totem? Nada mais era do que “uma regularidade abstrata e unânime”, o “desenho regular e monótono dos primitivos”, que, contudo, procuravam imitar? Como desenvolveram a história de sua verdade, que seja, do que chamaram de “arte”, em meio a concepções tão distintas de sociedade e cultura de sua época? Como se constituiu para eles sua aleturgia, seu ritual da verdade?  O que era historicamente esta modalidade da Alétheia? Quais eram os desejos daqueles doutrinários de nossa primeira modernidade? Como o desejo – as miragens do prazer infinito – fazia a doutrina se liquefazer, se perder em meio a um interminável carnaval? Mário de Andrade talvez tenha sido aquele que com maior clareza – sinceridade mesmo – tenha exposto o drama:
Onde andou minha missão de poeta, Carnaval?
Puxou-me a ventania,
Segundo círculo do Inferno,
Rajadas de confetes
Hálitos diabólicos perfumes
Fazendo relar pelo corpo da gente
Semíramis Marília Helena Cleópatra e Francesca.
Milhares de Julietas!
Domitilas fantasiadas de cow-girls,
Isoldas de pijamas bem franceses,
Alsacianas portuguesas holandesas…
                                                              Geografia!
Para quê “missão de poeta”? Mário de Andrade cumpre sua promessa, “todos cumprem sua promessa de gozar”: “Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar! / Levou a breca o destino do poeta, / Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela…”. Num amor tão casto, do poeta que menos do que homossexual, talvez tenha morrido virgem… Sua cópula, no esfregar dos corpos numa multidão, num beijo roubado, num amor romanceado, num beijo fugaz, segundos talvez, em pleno Carnaval carioca:
Teu amor provinha de desejos irritados,
Irritados como os morros do nascente nas primeiras horas da manhã
Teu beijo era como o grito da araponga.
Me alumeava atordoava com o golpe estridente viril.
Teu braço era como a noite dormida na rede
Que traz o dia membros moles mornos de torpor.
Te possuindo, eu me alimentei com o mel dos guarapus,
Mel ácido, mel que não sacia,
Mel que dá sede quando as fontes estão muitas léguas além,
Quando a soalheira é mais desoladora
E o corpo mais exausto.
Um desejo sem fim, nunca corretamente saciado… Doutrinas que se perdiam em meio ao carnaval, do poeta que fez uma primeira viagem, “científica”, ao norte e nordeste do país, para depois, numa segunda viagem, se perder nos maracatus do Recife, solto, sem ter que integrar a nenhuma “expedição”. Perdeu-se nas delícias, nos desvarios, nas fugacidades: o carnaval carioca, frente a essa rápida passagem no Recife, parece um sonho dourado, cheio de Helenas e Domitilas, e não os festejos no estilo Pablo Picasso, aqueles do lobo solitário representado à maneira da “semelhança informe”, na feliz expressão de Georges Didi-Huberman em seu livro sobre Georges Batille.
Logo, uma quebra. Como comparar esses desejos com toda a doutrina construída apesar do carnaval? Não se formaria uma construção abstrata e monótona como lá atrás Sérgio Buarque alertou? Não seria aqui o caso, numa reverberação da História da Loucura, de perguntar à desrazão os limites da razão, aos loucos sobre a sabedoria dos médicos? Por qual racionamento se sustenta frente ao desbarato das ideologias construídas? Derrota com a ditadura, derrota carioca sob as ordens de Capanema, reconsideração sobre as diretrizes de 1920 minutos antes da morte: alcoolismo no apartamento da Glória, virgindade corporal ou ausência de sentimentos (sentidos?) concretos (Tarsila?) – para além da carne? Uma dor que não se cala, um poeta que se vai e deixa enigmas em que se parece que falar dele é ou a louvação de um momento utópico ou a discussão de sua sexualidade, suas desventuras românticas e sua itinerante genialidade. Onde o descompasso? Da crítica ou do poeta? Semana (santa?) que marcou a história nacional ou um simples desenredo de carnaval? Logo ele, o
Carnaval…
Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti…
Morreu o poeta e um gramofone escravo
Arranhou discos de sensações…
Por qual “regime de veridicção” passou Mário de Andrade entre sua atuação na Semana de 22 e o seu Carnaval Carioca? Em que medida ele foi alguém capaz de verdade, da coragem de verdade? Em que medida seus discursos sobre literatura, o programa de modernização da literatura produzido por ele, não causou uma ruptura em seu próprio modo de dizer a verdade, entre o poeta e o teórico? Não se trata de uma escansão, de uma abertura da verdade, não entre “palavras e coisas”, mas de uma relação assimétrica entre as condutas cotidianas e os livros de preceitos morais como Foucault fez a utilização em seu terceiro volume sobre a História da Sexualidade? O livro de Artemidoro, texto que dá início ao livro, “não estabelece, em geral, de maneira direta e explícita, julgamentos morais a respeito desses atos [sexuais]; mas mostra esquemas de apreciação geralmente aceitos. E pode-se constatar que esses esquemas são bem próximos dos princípios gerais que já organizavam, na época clássica, a experiência moral dos aphrodisia[8]”. Logo, na sua livre expressão poética, Mário de Andrade expunha seu modo de lidar com os prazeres, prazeres esses estéticos, mas também amorosos ou sexuais. Isso traça um nítido contraste com a análise dos “programas” elaborados na época; na linguagem foucaultiana, um contraste entre os códigos de comportamento (o programa) e as formas de subjetivação (a conduta), isto é, o que se poderia chamar de determinação da substância ética ou os modos de sujeição do indivíduo a essa determinação, “à maneira pela qual o indivíduo estabelece sua relação com essa regra e se reconhece como ligado à obrigação de pô-la em prática[9]”.

[1] JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos: vida e obra. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015, p. 72.
[2] Idem, p. 73.
[3] HOLANDA, Sérgio Buarque de. O testamento de Thomas Hardy. In: MONTEIRO, 2012, p. 406.
[4] Idem, p. 407.
[5]FOUCAULT, 1984, p. 84.
[6]SEVCENKO, 1992, p. 229-30.
[7]HOLANDA, 1989, p. 68.
[8] FOUCAULT, 1985, p. 11.
[9] FOUCAULT, 1984, p. 27.


BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Mário de. Poesias Completas 2.Vols. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2; o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.
_________________. História da sexualidade 3; o cuidado de si. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 68.
JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos: vida e obra. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.
MONTEIRO, Pedro Meira (Org.). Mario de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: correspondência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 229-30.

A verdade sobre a vida entre os Cínicos: a ante-sala do Modernismo (estudos sobre o cinismo I)

Duchamp: nada como a tranquilidade de uma vida cínica

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Como se constitui o dizer-a-verdade com os cínicos? Em Platão, a fala verdadeira, franca, se mistura com o tema da retórica, como se pode ver no Górgias, no Fédon e nas interpelações que Sócrates faz a seus juízes logo no começo da Apologia. O que está em jogo na “coragem da verdade” não é uma relação agonística como no Íon de Eurípides, nem a apaixonada retórica dos populistas. O que nos sugere as reflexões de Foucault em seus dois últimos cursos é a alternância entre o tema da “coragem da verdade” com o “cuidado de si”. Cuidado e coragem, dois movimentos contrários, duas posturas da alma. Ter cuidado é saber se curar, é saber agir, é saber tomar a decisão correta. Sócrates perante o tribunal. Mas ainda aí o jogo com a retórica. A coragem no cuidado ou pelo cuidado pode se ver igualmente nos cínicos, porém não é mais com a outra vida, com o destino da alma, que primeiramente se preocupam estes. Nos cínicos, o importante é o que faz distinguir o tema de uma outra vida e de uma vida outra. Neles, o tema da vida verdadeira coincide com o tema da outra vida. O bíos passa a ser objeto de cuidado, da epiméleia, e não mais o cuidado como apresentado no diálogo Alcebíades, o olhar para a alma, o a questão do conselho político, da nova estruturação da psykhé com o surgimento das monarquias no ocidente. Os cínicos são reis de miséria, reis de derrisão: Diógenes Laerte frente a Alexandre, as fábulas da vida cínica como fundadora de um novo mito bem além da caverna platônica.

Creio também – e aqui as coisas seriam sem dúvida mais fáceis, porém deveriam ser estudadas de perto – que o cinismo foi a matriz, o ponto de partida de uma longa série de figuras históricas que podemos encontrar no ascetismo cristão, ascetismo que é ao mesmo tempo um combate espiritual em si mesmo, contra seus próprios pecados, suas próprias tentações, mas combate também pelo mundo inteiro. O asceta cristão e aquele que purga o mundo inteiro de seus demônios. Ideia da sujeira combativa. E, claro, nos diversos movimentos que puderam perpassar, acompanhar, o cristianismo ao longo de sua história, vocês encontrariam também essa ideia do soberano oculto, do soberano de derrisão que luta pela humanidade e para libertá-la de seus males e de seus vícios. É o desenvolvimento das ordens mendicantes da Idade Média, são os movimentos que precederam a Reforma, que a seguiram também. E nesses movimentos retorna perpetuamente o principio de um militantismo, um militantismo aberto que constitui a crítica da vida real e do comportamento dos homens e que, na renúncia, no despojamento pessoal, trava o combate que deve conduzir à mudança do mundo inteiro. E afinal o militantismo revolucionário do século XIX ainda é isso, essa espécie de realeza, de monarquia oculta sob os ouropéis da miséria, em todo caso sob as práticas de despojamento e da renúncia, essa monarquia que é combate agressivo, combate perpétuo, combate incessante, para que o mundo mude. E podemos dizer, muito brevemente, nessas condições, que o cinismo não só conduziu o tema até invertê-lo em tema da vida escandalosamente outra, como colocou essa alteridade da vida outra, não simplesmente como escolha de uma vida diferente, feliz e soberana, mas como prática de uma combatividade no horizonte do qual há um mundo outro.
Vocês estão vendo que o cínico é aquele que, retomando os temas tradicionais da verdadeira vida na filosofia antiga, transpõe esses temas, reverte-os em reivindicação e afirmação da necessidade de uma vida outra. E depois, através da imagem e da figura do rei de miséria, ele transpõe mais uma vez essa ideia da vida outra em tema de uma vida cuja alteridade deve levar à mudança do mundo. Uma vida outra para um mundo outro.
Estamos, como vocês estão vendo, muito longe, claro, da maioria dos temas da verdadeira vida antiga. Mas temos nele o núcleo de uma forma de ética que é bem característica do mundo cristão e do mundo moderno. E na medida em que ele é esse movimento pelo qual o tema da verdadeira vida se tornou princípio da vida outra e aspiração a um outro mundo, o cinismo constitui a matriz, pelo menos o germe, de uma experiência ética fundamental no Ocidente[1].
A apenas a outra vida, mas a vida “escandalosamente outra”. São “duas grandes linhas de evolução da reflexão e da prática da filosofia”, ambas já encontradas em Platão, especificamente na distinção entre os diálogos Laques e Alcebíades: “a filosofia como o que, ao inclinar, ao incitar os homens a cuidar de si mesmos, os conduz a essa realidade metafísica que é a da alma, e a filosofia como uma prova de vida, uma prova de existência e a elaboração de uma certa forma e modalidade de vida (…) do bíos que é a matéria ética e objeto de uma arte de si[2]”. Com os cínicos, o cuidado de si se elabora ao ponto de se tornar uma arte de si. A epiméleia, relacionada ao lema do dístico de Delfos, sugere menos o cuidado ritual, de observância em face da liturgia dos deuses que se exprimiu como “conhece a si mesmo”, e mais o olhar para dentro, para a própria alma, pela reversão platônica operada no tema do cuidado de si, antes simples lema da oligarquia espartana que dizia precisar cuidar de si e que por isso alimentava tantos escravos. Com os cínicos, nova reversão. O conhecer a si, depois o cuidar de si, e agora uma ética de si, uma arte da existência. Imaginaram os historiadores-antropólogos tamanha transformação em seu antigo desvelo pela Alétheia? Quais as implicações para seu próprio ofício? Como o cuidado com o bíos, com a ética e a arte de si, pode ser relacionado à vida e à produção intelectual moderna? O Laques é a primeira trilha para entrarmos nesta senda, a primeira fonte primária a ser utilizada.
……
Nícias e Laques são dois personagens importantes na Grécia antiga, o primeiro líder político e o segundo general de renome. São convidados por Lisímaco e Melésias para irem com seus filhos assistir uma exibição de armas, a performance de Estenislau. Os dois tiveram pais famosos, porém tiveram uma vida medíocre e não querem ver seus filhos seguirem o mesmo caminho. Querem interrogar Nícias e Laques sobre a importância da educação em armas para a formação dos jovens. Sócrates intervém no diálogo, é convidado, aceito pelos personagens para que, por sua opinião sensata, também contribua para o esclarecimento de todos. Sócrates induz seus interlocutores a um jogo. Falando sobre competência e técnica, leva o diálogo para a questão da parresía e da ética, da formação do éthos. Leva, com a aceitação tácita de seus interlocutores, a prestarem conta a respeito de si mesmos, quase como se fosse um tribunal. Mas não se trata de competência ou de técnica, mas da maneira como se vive. Nícias e Laques fracassam. Este, que é corajoso, não dá o lógos sobre si mesmo: uma hora sua explicação é restrita demais e na outra muito extensa. Nícias quer falar em termos de aptidão, de competência de saber. Fracassa igualmente. “todas essas pessoas são corajosas na realidade, essas pessoas que tiveram a corajem de aceitar o jogo da verdade que Sócrates lhes propôs não foram capazes de dizer a verdade da coragem. E, nesse sentido, há fracasso, e o diálogo é interrompido com uma constatação: ‘Não descobrimos a verdadeira natureza da coragem’, diz Sócrates”. Este o tema do diálogo, a coragem, definição esta que também não é bem delimitada por Sócrates. Diz que sem vergonha deveriam voltar à escola. E ele fala isso no momento em que Nícias e Laques pedem para que Lisímaco e Melésias deixem seus filhos a cuidado de Sócrates. Como cuidar dos outros se ele mesmo fracassou na tarefa que se impôs?
No momento em que Sócrates acaba de dizer sou tão ignorante quanto vocês e todos nós necessitamos de um mestre, Lisímaco, ouvindo isso, entendeu outra coisa: ele entendeu que Sócrates, e somente Sócrates, o mestre desse caminho que conduz ao verdadeiro mestre. E é por isso que, em vez de procurar o mestre caro de que Sócrates havia ironicamente falado, Lisímaco diz simplesmente a Sócrates: passe lá em casa. É o pacto da epiméleiaque aparece agora: é você que cuidará dos meus filhos, e não só cuidará dos meus filhos, mas também de mim – de acordo com o princípio evocado no início do diálogo, quando foi dito que mesmo quando se tem idade, e ao longo de toda sua vida, é preciso questionar a própria maneira como se vive. É preciso sem cessar submeter sua existência, a forma de seu estilo de existência, ao básanos (à pedra de toque). É como básanos, como aquele que faz cada um dar razão de sua existência, de toda a sua existência e ao longo de toda sua existência, é a esse título que Sócrates é convocado, convocado para os filhos de Lisímaco e para o próprio Lisímaco. Aliás, Sócrates aceita a missão. Sua última palavra é a seguinte: não deixarei de ir, Lisímaco, “amanhã estarei em sua casa” para guiar vocês, você e seus filhos, no caminho do cuidado de si e da escuta do lógos. Estarei amanhã em sua casa “se assim aprouver aos deuses”. Fórmula banal e ritual, mas afinal de contas é preciso entendê-la também em dois níveis, como muitas vezes as fórmulas rituais em Platão. É preciso lembrar que o deus quis quando, lembrem-se da Apologia, mostrou a Sócrates que ele tinha de ir ver as pessoas para lhes pedir contas de sua maneira de viver e lhes ensinar assim a cuidar de si mesmos[3].
Enquanto no Alcebíades Sócrates exorta a olhar para a própria alma e se inicia assim uma história da metafísica, da psyckhé, uma ontologia da alma, no Laques aparece uma “história da estilística da existência, uma história da vida como beleza possível[4]”. Uma história, de acordo com Foucault, acabou por se sobrepor a outra, e mesmo a estética acabou por se tornar filosofia em que se procurou dar cor, forma, espaço, luz ao invisível, dar materialidade a um aspecto metafísico. Foucault apela para uma reversão do olhar, olhar este que não guarda mais admiração pela figura legendária do herói filosófico. Este não é o sábio tradicional da Antiguidade, também não é o asceta ou o santo do cristianismo. Mas esta legenda, tão bem encarnada pelos cínicos, se acaba quando a filosofia se torna um ofício de professor, ou seja, no início do século XIX. O Fausto de Goethe é a última formulação desta espécie de legendário, sua forma mais bem acabada, melhor elaborada, como que sua última floração, talvez a mais bela, melhor constituída. Depois, “o heroísmo filosófico, a ética filosófica não vão mais encontrar lugar na própria prática da filosofia, que se tornou ofício de ensino, mas nesta outra forma de vida filosófica, deslocada e transformada, ou seja, no campo político: a vida revolucionária. Exit Fausto, entra o revolucionário[5]”. Mas isso não se restringe à militância política, à formação de partidos, à constituição das democracias modernas. Tem um vínculo claro com o surgimento da arte moderna, com as vanguardas estéticas do século XX: assim como o cinismo se forma com a “mudança de valor” (alusão à fala do oráculo a Diógenes Laércio), mudança em relação ao próprio platonismo, a arte moderna igualmente possui um antiplatonismo. “Antiplatonismo: a arte como irrupção do elementar, desnudamento da experiência[6]”, como anti-mímeses, como desmascaramento das formas clássicas, do “estilo elevado”. Arte antiplatônica e antiaristotélica: “ao consenso da cultura se opõe a coragem da arte em sua verdade bárbara. A arte moderna é o cinismo na cultura, é o cinismo da cultura voltada contra ela mesma[7]”. Mas se a ruptura se dá no século XIX, com o modernismo, com o fim do herói filosófico, não existiria um ato correlato na constituição das ciências ditas positivas? Resgatamos este trecho d’A palavra e as coisas:
Jardins botânicos e gabinetes de história natural eram, ao nível das instituições, os correlatos necessários desse recorte. E sua importância para a cultura clássica não lhes vem essencialmente do que eles permitem ver, mas do que escondem e do que, por essa obliteração, eles deixam surgir: disfarçam a anatomia e o funcionamento, ocultam o organismo, para suscitar ante os olhos que esperaram sua verdade, o visível relevo das formas, com seus elementos, seu modo de dispersão e suas medidas. São o livro ordenado das estruturas, o espaço onde se combinam os caracteres e onde se desdobram as classificações. Um dia, no final do século XVIII, Cuvier saqueará os frascos do Museu, quebrá-los-á e dissecará toda a grande conserva clássica da visibilidade animal. Esse gesto iconoclasta, ao qual Lamarck jamais se decidirá, não traduz uma curiosidade nova por um segredo a cujo propósito não se teria tido nem a preocupação, nem a coragem, nem a possibilidade de conhecer. Trata-se, muito mais seriamente, de uma mutação no espaço natural da cultura ocidental: o fim da história, no sentido de Tournefort, de Lineu, de Buffonm, de Adanson, no sentido igualmente em que Boissier de Sauvages a entendia quando opunha o conhecimento histórico do visível ao filosófico do invisível, do oculto e das causas; e será também o começo do que, substituindo a anatomia à classificação, o organismo à estrutura, a subordinação interna ao caráter visível, a série ao quadro, permite precipitar no velho mundo plano e gravado em branco e preto, de animais e de plantas, toda uma massa profunda de tempo à qual se dará o nome renovado de história[8].
A preocupação com o bíos, com a vida, com o visível, é retomada com o ato iconoclasta de Cuvier. Sua dissecação de “toda grande conserva clássica da visibilidade animal” pode ser correlacionada a arte oitocentista, como a de Baudelaire, Flaubert, Manet, que “se constitui como lugar de irrupção do debaixo, do embaixo, do que, na cultura, não tem direito, ou pelo menos não tem possibilidade de expressão[9]”. A “conserva clássica”, o diagrama, a taxonomia, o tabuleiro de xadrez, não resistem ao niilismo, ao ceticismo, ao questionamento dos modernos. Não importa estabelecer uma história da doutrina, mas uma história das artes de existência: “Neste Ocidente que inventou tantas verdades diversas e moldou artes de existência tão múltiplas, o cinismo não para de lembrar o seguinte: que muito pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente e que muito pouca vida é necessária quando se é verdadeiramente sábio[10]”. Afirmativa genuinamente cínica de Foucault, não por seu conteúdo, mas por sua própria elaboração. Como Cuvier, um ato e não uma palavra. Com a constituição das ciências do homem no século XIX, da historiografia de caráter positivo, preocupações com “causas primeiras”, com metafísicas de todo gênero, são substituídas pelo olhar atento à reconstituição fiel do mundo visível, seja na Cidade Antiga ou através da invocação da fala dos mortos com Michelet. Como, portanto, a partir deste novo estatuto que ganham as ciências com o nascimento das disciplinas, se forma, mais além, o questionamento da própria prática da existência, o “bíos como obra bela”? Quais as relações da historiografia mais recente com este modo de ser contemporâneo, filiado ao vanguardismo e herdeiro do cinismo? O olhar do historiador pode ser entrevisto pelas lentes de Cuvier ou com o desvelo “ótico”, por assim dizer, de Morgani e Bichat no aparecimento da anatomia patológica. Como, portanto, este olhar se desloca: por exemplo, olhar do historiador para olhar ohistoriador? Que espécie é esta de “cuidado de beleza, de brilho e de perfeição, [que suscitou] um trabalho contínuo e sempre renovado de enformação[11]”, da vida tornada objeto de preocupação estética?



[1] FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 252-3.
[2] Idem, p. 112.
[3] Idem, p. 133-4.
[4] Idem, p. 141.
[5] Idem, p. 187.
[6] Idem, p. 165.
[7] Idem.
[8]FOUCAULT, Michel. A palavra e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 189-90.
[9] Op. Cit.
[10] Idem, p. 166.
[11] Op. Cit.

A Vênus de Botticelli e a primavera da história da arte: o caso Aby Warburg

Breve apresentação da História da Arte como concebida por Aby Warburg, pioneiro no estudo das Pathosformel ou “fórmulas patéticas”, que revolucionou sua disciplina, criou uma biblioteca fantástica (quase borgiana) e apontou para a crianção de uma cadeira, a Ciência da Arte. Depois dos estudos de Didi-huberman, se tornou praticamente uma inconsequência não estudar inclusive a arte moderna (Bataille, Einstein, Picasso, Miró) através das ferramentas intelectuais criadas pelo inovador pesquisador alemão.

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A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald

Não, esse não é Sartre. Muito pelo contrário.

O texto em pdf pode ser visto na Academia.edu

Não devemos nos remeter ou nos filiar a um Foucault “liberal porque não humanista”, curiosas leituras da pós-modernidade onde “it was Foucault’s turn to biopolitics, particularly once he grasped its relation to economic liberalism, which led him to revise the disciplinary hypothesis, not his interest in ancient arts of living[1]”. O tema da chamada Aulas sobre a vontade de saber, de 1970, a aludida exceção aristotélica na Antiguidade e especificamente o texto O saber de Édipo, desmentem uma suposta conversão súbita, quase que religiosa, ao credo liberal, onde se pode ler não sem estupor: “In his concluding remarks about the Chicago School, Foucault presents neoliberalism as an almost providential alternative to the repressive disciplinary model of society[2]”, ou seja, “this was no minor correction: Foucault had, in effect, disowned a central argument of Discipline and Punish[3]”. Foucault vira discípulo de Pinochet, Chicago Boy, protagonista de um dos capítulos de La literatura nazi em America, de Roberto Bolãno. Leitura que se aproxima de certos aspectos da retrospectiva de maio de 1968 feita por Dosse: “Por trás de Maio, o traje Mao não passara de fantasia. Mao-Maio propiciava uma abertura para o espaço e dava acesso à vida de um representante made in USA[4]”. Leitura que não é criativa, inclusive por proporem uma “conversão” e não a utilização inteligente das contradições inerentes ao estudo de um pensamento complexo como o de Michel Foucault.
As recentes leituras de um Foucault adepto do credo neoliberal, adepto do modelo de imposto negativo de Milton Friedman, como na obra dirigida por Daniel Zamora, Critiquer Foucault: Les Années 1980 et la tentation néolibérale, são duplamente frágeis: científica e eticamente. Para ser claro, cristalino, é impossível fundamentar a partir do curso intitulado Nascimento da biopolítica uma mudança de rumo que levaria o filósofo a endossar a economia política que legitimou o genocida governo de Pinochet. Estes teóricos não consideram:
1)Já no curso Em defesa da sociedade se pode ler a partir de sua análise das relações de poder: “Que essa unidade do poder assuma a fisionomia  do monarca ou a forma do Estado pouco importa; é dessa unidade do poder que vão derivar as diferentes formas, os aspectos, os mecanismos e instituições de poder[5]”. Em suma, ignoram completamente um conceito fundamental do filósofo, o de soberania, ou seja, “o ciclo do sujeito ao sujeito, o ciclo do poder e dos poderes, o ciclo da legitimidade e da lei[6]”. Ignoram, por consequência, a própria noção de genealogia tão debatida, se tratando de uma das mais originais leituras feitas sobre Nietzsche. Chegam, assim a estaca zero científica e abraçam, para lembrar novamente Roberto Bolaño (via Borges), as potências do falso: Pierre Menard. Dizem que Foucault – daí o erro ético e não só científico –, ao legitimar o neoliberalismo endossaria com uma suposta fuga da teoria do Estado (como se alguma vez a tivesse endossado) o que ele mesmo chamou a partir da aula de 31 de janeiro de 1979, a “fobia do Estado”, condição por excelência, numa Alemanha pós-Hitler, das discussões que levaram a erigir esse fenômeno civilizacional, a sociedade Mont Pelerin (Davos e seus correlatos mais recentes) ou a ascensão dos iluminados Chicago Boys (e seus correlatos – potências do falso).
E quem ainda se vê insatisfeito (é claro que se trata de uma discussão que consumiria algumas laudas e não poucas linhas como se faz agora), que consulte a aula de 7 de fevereiro de 1979, onde se afirma a relação entre fenomenologia e ordoliberalismo, especificamente “assim como para Husserl uma estrutura formal não se oferece à intuição sem um certo número de condições, assim também a concorrência como lógica econômica essencial só aparecerá e só produzirá seus efeitos sob certo número de condições cuidadosa e artificialmente preparadas[7]”. Será que, contudo, estes teóricos conseguiram tirar o Estado de suas considerações? Ou traveste seus pressupostos para fundamentar doutrinas das mais duvidosas? “Law and order quer dizer o seguinte: o Estado nunca intervirá na ordem econômica a não ser na forma de lei, e é no interior dessa lei, se efetivamente o poder público se limitar a essas intervenções legais, que poderá aparecer algo que é uma ordem econômica, que será ao mesmo tempo o efeito e o princípio da sua própria regulação[8]”. Não importa se estamos com Husserl ou seu discípulo, o entusiasta do Terceiro Reich, Heidegger; se estamos com Friedman ou Von Mise, Hitler ou Goebbels. Estamos em arena nazi, com ou sem a sombra de Pinochet, do Estado ou das demarcações legais de uma sociedade auto-regulada onde se governa para o mercado ao invés de se governar apesar do mercado (condição esta a do liberalismo dito clássico).
A questão de Foucault, que seja mais uma vez dito, é a da soberania (conceito múltiplo, fundamental para o acesso à usa analítica do poder), principalmente em seus últimos anos de vida, o da soberania sobre si mesmo, o do governo de si como condição (a leitura do diálogo Alcebíades) para se governar os outros. No mais, no prefácio que deu o título “Para uma vida não fascista”, o prefácio ao Anti-Édipo, ainda naquela época, já podíamos ler:
Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (visto que a oposição de O anti-Édipo a seus outros inimigos constitui antes um engajamento tático): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini — que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora.
Eu diria que O anti-Édipo (possam seus autores me perdoar) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França desde muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não se limitou a um “leitorado” particular: ser anti-Édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensamento e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um militante revolucionário? Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que se tinham alojado nas dobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua vez, espreitam os traços mais íntimos do fascismo no corpo.
Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales, poderíamos dizer que O anti-Édipo é uma introdução à vida não fascista[9].
2)A questão de Foucault com a militância de esquerda já é bem estabelecida no curso Em defesa da sociedade, onde afirma a similaridade que associa os quadros revolucionários, socialistas, de forma irrefutável com as correntes eugênicas do mesmo século XIX onde nasceu esta disciplina. As chamadas “esquerdas” ou os conservadores (os de “direita”) transitavam, se apoiavam em tais pressupostos. Como relatou na entrevista dada ainda do tempo em que visitou o Brasil com mais frequência, não estudou Marx, por exemplo, na Palavra e as Coisas, pelo pensamento de David Ricardo ser mais radical, estar mais enraizado neste autor as origens da economia política moderna do que o marxismo, até por Marx ter dito que seu Capital nada mais era do que um derivado, uma continuação, da teoria de valores de David Ricardo[10]. Não há distinção fundamental, dentro dos quadros do pensamento de Foucault, que faça divergir Marx da escola britânica de economia política. Surge, assim, antes uma similaridade do que um contraponto entre “liberais” e “anti-liberais”. Similaridade esta que, em sua origem, jamais existiu. São falsos arranjos sempre construídos nos pressupostos do bom senso e do senso comum, arranjos estes que ainda se aferram à imagem da divisão de tendências ocorridas durante a reunião das cortes francesas às vésperas da Revolução.
Como diz Chartier, “a rede contraditória das utilizações” de uma obra, no caso de Foucault, não se deve desconsiderar, ainda, a similaridade entre o ordoliberalismo e o weberianismo alemães (não podemos nos perder em longas citações e/ou considerações), patente também na aula de 7 de fevereiro de 1979. Por outro lado, os neoliberais aprofundam a abstração realizada por Marx a respeito do valor da força de trabalho, valor ainda abstrato que será transformado no século XX no termo “capital-competência”, nas “máquinas-fluxo”, a nova utopia para além do comunismo:
É Hayek, que dizia, há alguns anos: precisamos de um liberalismo que seja um pensamento vivo. O liberalismo sempre deixou por conta dos socialistas o cuidado de fabricar utopias, e foi essa atividade utópica ou utopizante que o socialismo deveu muito do seu vigor e do seu dinamismo histórico. Pois bem, o liberalismo também necessita de utopia. Cabe-nos fazer utopias liberais, cabe-nos pensar no modo do liberalismo, em vez de apresentar o liberalismo como uma alternativa técnica de governo. O liberalismo como estilo geral de pensamento, de análise e de imaginação[11].
Essa a nova teoria para racionalizar a irracionalidade do capital (para dizer em termos weberianos). E estará certo quem diz que por isso, pela adoção de uma nova utopia, Foucault se tornou m filho de Mao-Maio? Podemos voltar novamente ao Em defesa da sociedade, justamente quando introduz o tema do biopoder, em 17 de março de 1976, tema este amplamente desenvolvido no curso de 1979. Lá não encontraremos qualquer Foucault utópico, esquerdista, socialista. Quando fala dos vínculos entre racismo e genocídio aponta: “o Estado socialista, o socialismo, é tão marcado de racismo quanto o funcionamento do Estado moderno, do Estado capitalista[12]”. Ou: “o socialismo foi, logo de saída, no século XIX, um racismo. E seja Fourier, no início do século, sejam os anarquistas no final do século, passando por todas as formas de socialismo, vocês sempre veem neles um componente de racismo[13]”. Voltamos ao tema dos “instrumentos mentais” tão caro a Lucien Febvre e retomado pela escola de antropologia histórica: não será com pobres recursos intelectuais, pobres ferramentas mentais, a da ideologia, da conversão religiosa (ao mercado!), da utopia, de esquerdismos ou direitismos que chegaremos a compreender o complexo pensamento político de Foucault, muito além da mentalidade de contador que se reveste praticamente todo o pensamento econômico do século XX, seja o monetarismo keynesiano ou o de vertente neoliberal.
Mais uma vez a historiografia francesa da segunda metade do século passado é o instrumento adequado para corrigir distorções flagrantes a respeito de temas em que se deveria ter plena clareza e não ambiguidades provocadas por conceitos de cunho doutrinário. Falamos assim, porque lembramos do segundo grande trabalho de Fernand Braudel (considerado da segunda geração dos Annales, o chamado “presidente Braudel” fez o que chamou de geo-história e não abstração nas nuvens), a Civilização material, economia e capitalismo, obra em que um dos eixos centrais é a refutação de qualquer sociologia weberiana, de ética protestante calvinista ou usurária, à moda de Adam Smith, da escola britânica de um modo geral (na qual se filiou Karl Marx). É neste terreno intelectual que se pode situar as concepções mais elaboradas, mais complexas, de Michel Foucault, e não em modernismos fugazes como a de um Foucault fenomenólogo e neoliberal, marxista ou weberiano. Não, de forma alguma François Ewald é um ser capaz de verdade, no sentido grego ou foucaultiano. Por hipótese, poderíamos dizer que cabe a nossa pesquisa escrever um capítulo no estilo de trás para frente, ou seja, não como Foucault escreveu sua “vida dos homens infames”, mas talvez no estilo de Borges, segundo as potências do falso[14]. Já temos o protagonista, o rebento da geração made in usa – Mao-Maio –, o Pierre Menard que veste a medalha da Legião de Honra e se traveste de conselheiro das elites (qual outro papel, afinal, lhe caberia?).



[1] BEHRENT, Michel C. Liberalism without humanism: Michel Foucault and the liberal creed, 1976-1979. Modern Intellectual History, 6, 3 (2009), p. 559.
[2]Ibdem, p. 567.
[3]Ibdem, p. 559.
[4]DOSSE, François. Maio de 68, maio de 88: artimanhas da razão. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Editora UNESP, 2001, p. 133. Tais teóricos sobrevivem à luz de um ex-maoísta, um ganhador da Legião da Honra dado por Jacques Chirac, conselheiro da elite francesa, com certeza um dos mais legítimos representantes da dupla Mao-Maio, de um revolucionarismo enlatado, não muito diferente de nossos ex-marxistas, comunistas, como Roberto Freire ou Fernando Henrique Cardoso. É o que se costuma chamar de “revolução conservadora”, ou seja, a volta às formas oligárquicas, arcaicas, de poder, ainda que com revestimento “moderno”.
[5]FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 37.
[6]Idem, p. 38.
[7]FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo : Martins Fontes, 2008, p. 163-4.
[8]Idem, p. 239.
[9]FOUCAULT, Michel. O anti-Édipo: uma introdução à vida não fascista. Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993, p. 200.
[10]“Acho que na geologia da Economia Política, em seus conceitos fundamentais, Marx não introduz uma ruptura essencial. Houve mesmo alguém que o disse antes de mim: Karl Marx. Ele mesmo afirmou que, em relação a Ricardo, seus conceitos eram derivados”. Uma entrevista com Michel Foucault. Disponível em: http://oglobo.globo.com/
[11] Nascimento…, p. 301-2.
[12] Em defesa…, p. 219.
[13]Idem, p. 219-20.
[14]Termo deleuziano, da Imagem-Tempo, inspirado no cinema de Orson Welles.

Pela manutenção dos poderes da presidência (atualizado)

Atualizado em 12/07/2016

No Fórum econômico realizado em São Petersburgo um pouco mais de dez dias atrás o Ministro do Conhecimento e do Talento Humano do Equador, Andres Arauz, se expressou dessa maneira sobre o papel do novo sistema econômico internacional representado pelos BRICS, com a liderança da China e seu projeto, já em execução, da Nova Rota da Seda:

“Vemos com inveja os grandes projetos que mudam a história da civilização, como a Nova Rota da Seda proposta ao mundo pela China, a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o projeto eurasiático defendido pela Rússia (…) nós estamos com inveja porque falhamos quando a América do Sul propôs isso dez anos atrás (…) Esperamos que as lições expostas no Fórum de São Petersburgo possam ser aplicadas em nossa região”.

Tal declaração é feita praticamente um mês antes da reunião da OTAN que ocorrerá em Varsóvia entre 8 e 9 de julho, e terá como ponto central as sanções econômicas à Rússia e a escalada militar na região. Por outro lado, vemos a situação da Europa não só com o Brexit, mas a situação calamitosa do juros negativos, a emissão de títulos por parte dos bancos com vencimentos para daqui a cem anos (quem os comprará, tendo em vista o tempo mas também a solidez das instituições financeiras?), e a discussão maluca proposta por Mario Draghi a respeito do “dinheiro-helicóptero” (segundo ele, “um conceito muito interessante“), versão europeia da espiral  hiperinflacionária de Ben Bernanke, o Quantitative Easing. 
Enquanto o sistema financeiro transatlântico afunda, se desespera, e se prepara para a guerra, um novo sistema emerge com a união eurasiática, o banco de desenvolvimento dos BRICS, mudando inclusive o arco de alianças do ocidente no Pacífico, como no caso do Japão, mas no mesmo tipo de divisão de afinidades que fez nos últimos tempos a tensão nas Coréias subir. Não por outro motivo se expressou dessa maneira o Primeiro Ministro indiano, Narendra Modi, ao concluir sua fala no Congresso americano na primeira semana de junho:

“Mr. Speaker, (…) as limitações do passado ficaram para trás e os fundamentos para o futuro foram firmemente colocados. Nas palavras de Walt Whitman, “A Orquestra já afinou o suficiente seus instrumentos, o regente já deu o sinal”. E a isso devemos acrescentar que existe uma nova sinfonia tocando (…) Thank you very much”.

Sem o pleno exercício dos poderes do executivo sucumbiremos à Aliança de Livre Comércio do Pacífico e seremos recolonizados, mas agora por um sistema completamente decadente, de guerra e de depopulação.

……….

Ora, mas é exatamente isso que querem atacar quando se empenham para que o impeachment seja consolidado. Não sem algum atraso, mas tive a ideia desse post quanto, parado num dos engarrafamentos monumentais de um Rio de Janeiro em obras (culpa do Lula, dos petralhas – é bom não esquecer; o que não guarda necessariamente relação direta com o tal “projeto de cidade” de nosso jocoso e irreverente prefeito, que fala de Maricá mas também vem de um bairro que é bem mais periférico que qualquer outra coisa), e tive o imensurável prazer de ouvir ao vivo o discurso do relator Anastasia favorável à continuidade do processo. E ele disse com toda a sofística, com a elegância dos hipócritas contumazes, sobre a importância inquestionável da instituição do impeachment nas democracias modernas, citando com toda bazófia Alexander Hamilton e a necessidade de se limitar ou impedir “os poderes monárquicos” do executivo.
De fato, os poderes executivos sempre foram exercidos com muita liberdade. Caso não fosse, não teriam implantado um sistema de crédito onde as transações comerciais em ouro e prata chegaram a 1% do total das transações. O sistema de crédito criado por Hamilton, Franklin, etc. (não entra aqui Jefferson e seus seguidores), foi o que permitiu financiar a guerra de libertação e deslanchou o processo industrial nos EUA. Criaram assim uma briga direta, crua e dura, com o Império Britânico e com seus agentes dentro do país. O sistema foi consolidado com Lincoln, mais uma vez contra os britânicos de dentro e de fora, os escravistas e defensores do livre-comércio (sim, não há contradição historicamente entre um e outro; nosso barão de Cairu não é uma excrescência histórica como pode parecer a quem leu a Formação de Celso Furtado), através de um governo para a União (pelo povo, com o povo e para o povo).
Reza a lenda que quando Lincoln foi construir a ferrovia transoceânica deram um projeto com uma caminho mais barato. Não quis. Mesmo que tivesse que passar por cima de montanhas e gastar mais, tanto melhor. Assim aumentava a quantidade de crédito na economia (seus greenbacks) e aumentava a inovação e a produtividade do trabalho. É bom não esquecer que essa ferrovia de Lincoln foi a responsável, historicamente, por fazer pela primeira vez o mundo deixar de depender de rotas terrestres (como na antiga Rota da Seda) ou marítimas (como relatado nesse poema do mar que é o Mediterrâneo de Braudel), e colonizar pela primeira vez, de maneira eficiente, o continente. Na Europa essa tarefa ficou incompleta desde o sistema viário construído pelo império romano, e que talvez só na época das Luzes teve uma melhoria através da consolidação do Estados-nacionais. Como “mudança de paradigma”, nada comparado à ferrovia de Lincoln.
Isso tudo é para enfatizar os grandes poderes que a primeira democracia moderna de fato dava ao executivo. Uma “semelhança informe” (como Didi-Huberman nomeou os conceitos estéticos de Georges Batille) com o da União são os atos de guerra praticados por Obama à revelia do Congresso –  o que por si só daria margem a um processo de impeachment -, seu assassinatos de terça-feira com drones, inclusive com drones abatidos em solo russo numa tentativa temerária que aumenta ainda mais a tensão entre os dois países, e sem esquecer das guerras do Iraque e do Afeganistão, feitas ao arrepio de qualquer lei, para a desmoralização ainda maior da ONU. Eles tem um executivo muito forte e o impeachment foi algo criado e vigente em suas leis (lembre o ridículo processo contra Clinton, movido pelo grupo dos neocons de Donald Rumsfeld e Bush neto, por causa de uma felação – já bufavam por novas guerras, não satisfeito com um presidente tão fraco e incapaz).
O problema do relatório de Anastasia não é a “instituição” do impeachment, mas seu objeto. Os decretos de créditos suplementares, além de terem sido feitos no mandato anterior, são atos corriqueiros da administração. O tal do Plano Safra nem sequer teve assinatura da presidenta. E assim vai. Querem fazer uma invenção jurídica, como Gilmar Mendes bem salientou em sua entrevista recente na Suécia. Esquecem que primeiro tem que definir melhor o objeto dessa lei, discuti-la e, se conseguirem, implementá-la. Também não podem se esquecer que as leis não tem validade retroativa. No mais, é tudo baseado não em “crime de responsabilidade”, como previsto na lei de 1952!, mas bem mais na “lei de responsabilidade fiscal”, instrumento perverso criado pelo paradigma de modelo econômico sustentado no Plano Real, que visa a manutenção do sistema da dívida, mas que não guarda relação alguma com um crime contra o país. Muito pelo contrário.
Como Lincoln que lutou pela União, o projeto de governo defendido por Dilma, pelo PT, PC do B e todos seus aliados, é o único no momento capaz de unificar o país, tanto por suas ideias quanto por seu enraizamento na sociedade. A manutenção dos poderes da presidência é fundamental para se manter o país unido. Quem criou essa guerra civil, esse neomacartismo, foi não o “projeto de poder” do PT, mas o sucesso de suas políticas. Não são petralhas que jogam bomba na casa de ex-presidentes, que jogam bombas na sede do PSDB, que agridem militantes, simpatizantes ou simplesmente pessoas vestindo vermelho (não se pode esquecer do caso do cadeirante agredido em São Paulo). O PT ajudou na melhoria do sistema de justiça, da polícia federal, mas não criou a caça às bruxas de Moro, do FBI, da Transparência Internacional e do Departamento de Justiça americano. Quem ainda vai insistir na atual conjuntura, como muito repetido durante o mensalão, que o PT é o maior partido corruto da história? As teses da Lava Jato são insustentáveis.
Mas sim, o projeto de reforma política, fiscal, o início do ataque ao sistema de juros altos tentado por Dilma em seu primeiro mandato, o fortalecimento dos bancos públicos – esses são capazes de combater a corrupção através do desenvolvimento nacional em todos os aspectos, e não através de páginas de jornal e de perseguições político-jurídicas.
Só um contraponto: se o senador Roberto Requião fosse a favor da reforma política, da mudança do sistema político nacional, ele não estaria no PMDB. Ponto. Outra bazófia de “novas eleições” para integração nacional. Ah!, mas a Dilma não vai ter capacidade de governabilidade com o atual Congresso. Que pelo menos seja consequente em seus argumentos e peça uma eleição geral, de deputados e também de senadores. Ele vai vai botar seu cargo à disposição? Meu amigo, vá abraçar o Sarney e leve o PHA junto! Pelo amor dos meus filhinhos! E se tiver novas eleições e o Lula ou o Ciro (oh!) ganharem? Eles vão ter maior capacidade de governo com os Sóstenes, Anastasias, Renans (de seu partido, viu?) e etc? Por isso Mino Carta diz que esse projeto é utópico. E por isso Mino Carta é uma lenda e o restante dos “progressistas” são seus empregados.
Não é por outro motivo que vemos na mídia progressista, nos blogs sujos (que, claro, gosto muito), a hipótese do suposto “progressismo” da Folha. Alguém falou, “Ah, é por marketing”. E tocou só no ponto mais superficial da questão. Como adiantamos aqui n’O Abertinho, se a Folha não fosse golpista (e ponto final), no pior sentido possível, as gravações de Sérgio Machado sairiam antes da abertura do processo no senado. E fica-se horrorizado com a capacidade de “marketing” da Folha e não se discute o óbvio, ou seja, o adiamento da publicação das gravações para não comprometer o processo no senado. E ponto.
Vamos lutar pela manutenção dos poderes da presidência, sem utopias ou discussões inúteis.

……….
O post já parecia fechado, mas dois parágrafos de Paulo Moreira Leite situam historicamente com muita precisão os fundamentos jurídicos do que está acontecendo. Vamos a ele, depois faço minhas considerações finais.
Num processo que guarda semelhanças óbvias com o ambiente de perseguição e violência contra militantes e instalações do Partido dos Trabalhadores, o passo fundamental para a construção de uma inviável democracia para as elites foi dado em 1947, quando o Superior Tribunal Eleitoral cassou o registro do Partido Comunista Brasileiro. A medida colocou fora da lei uma legenda que possuía a quarta maior bancada do Congresso Nacional, a terceira maior força parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo — maior que a própria UDN, superada em seu próprio berço — e, acima de tudo, uma respeitável base no movimento operário. Só para deixar claro que se tratava, também naquela época, de uma medida politicamente seletiva. Em 1949 o mesmo tribunal examinou uma denúncia contra os integralistas — versão verde-amarela do fascismo — e manteve seu partido na legalidade, num voto coberto de elogios proferido pelo ministro Djalma da Cunha Mello. Conforme o ministro, o fascismo brasileiro havia se mostrado digno do “toque de sensatez” que uniu a nação em 1945, no grande condomínio que permitiu a derrubada de Vargas.
Contada por este ângulo, a história política do país nos últimos setenta anos pode ser descrita como um conflito permanente da maioria da população para enfrentar golpes e golpistas. Em 1950, quando o vulto popular do retorno de Getúlio Vargas pelas urnas estava no horizonte, o Congresso aprovou uma lei de impeachment de forte conteúdo parlamentarista — e não é difícil saber para que. Depois que uma tentativa de impeachment de Getúlio foi rejeitada pela Câmara, teve início a articulação que o levou ao suicídio. Numa conspiração que incluiu o vice, Café Filho, tentou-se impedir o governador de Minas Gerais Juscelino Kubistcheck de disputar a presidência. Embora JK tenha sido eleito, o próximo passo foi tentar impedir sua posse. Novo fiasco dos golpistas. Mesmo assim, Juscelino foi alvo de dois golpes militares. Passou a faixa presidencial a Jânio Quadros que, permaneceu sete meses no posto. Foi substituído pelo vice João Goulart, que contornou um golpe para tomar posse e não pode resistir ao segundo, que o afastou do poder. Vinte e um anos depois, na democratização, o veto militar impediu a saída natural, pelas eleições diretas, forçando um acordo pelo alto chamado Nova República, que deu posse à mais conservadora das opções em pauta naquela circunstância.
Está aí uma breve, precisa e consistente fundamentação histórica do “golpe parlamentar” que procuram consolidar nas próximas semanas. Esse arcaísmo de nosso sistema constitucional, que pode ser amplamente questionado, principalmente num país que mudou sua constituição, que fundou a “constituição cidadã”, a mesma que ainda falta em muitos aspectos ser consolidada em suas cláusulas mais progressistas. Logo, se utilizam das tentativas reiteradas das oligarquias quando vêem um executivo forte – e isso em qualquer lugar do mundo -, o uso do sistema parlamentar, seu fortalecimento, para barrar os supostos “poderes monárquicos do executivo”, numa clara paródia ao sentido original dado por Alexander Hamilton. Esse é o sistema anglo-veneziano, aquele organizado através dos fondi, hoje em dia recriado no caso do grupo Inter-Alpha, que controla o sistema da dívida, a eleição de deputados e senadores, e através desse tipo de utilização da vox popoli dos antigos imperadores romanos, querem travar toda capacidade do poder executivo em promover mudanças significativas na economia física de um país. 
Aqui, novamente em nosso país, a Rainha é glorificada enquanto Lincoln é assassinado. O sistema oligárquico, aquele de Zeus, novamente prende Prometeu e coloca a águia para comer seu fígado. Não mais luz para a humanidade, não mais fogo, somente os deus do Olimpo, os senhores das sombras, sempre invisíveis, que controlam boa parte do orçamento do país através do sistema da dívida, da mídia, promovendo uma campanha de difamação para fazer novamente o ser humano se sentir um macaco de Darwin e não a “centelha divina da razão”, que pode ser plenamente desenvolvida com os amplos poderes que lhe dá o executivo – antes, em oposição à Grã-Bretanha, e hoje, ainda que o Império continue a botar para fora suas garras assassinas, ele quer cada vez mais nos tornar distantes dos BRICS, e desenvolver todo o potencial econômico e social que está contido nessa aliança.
Como disse Modi, uma nova orquestra toca. Quem irá ouvi-la?

Um poderoso senso de imaginação: a “Harmonia dos Mundos”, de Johannes Kepler

“Quando a experiência parece ensinar algo diferente daquilo que nós cuidadosamente demos atenção, isto é, que os planetas se desviam de uma área simplesmente circular, isto dá origem a um poderoso senso de imaginação, que pela sua grandeza leva o homem a procurar pelas causas”.

Continue lendo “Um poderoso senso de imaginação: a “Harmonia dos Mundos”, de Johannes Kepler”

Da série “rir é o melhor remédio”

Say hello to Joel! Para lembrar o quadro do programa Pânico. Mas enquanto isso Gilmar traça as balizas intelectuais do Golpe – que não se consumará. Essa “inovação” de “crime sem crime”, logo impeachment, me fez lembrar dessa passagem de Georges Bataille sobre Hegel, sobre o erro que se condensa todo numa palavra. Querem impor a palavra “impeachment”, mas é Golpe o termo que Satã não reconhece em seu altar:

Hegel condensou o erro; ele o sistematizou, proferiu-o, se posso assim dizer, inteiro, e inteiro numa palavra. Sua fórmula está no frontispício da Escola de Satã, que de agora em diante zomba dos imitadores desafiando-os a fazer melhor. Satã se reconhece na fórmula hegeliana, admirou-a como coisa dele, pois o orgulho, Satã e Hegel soltam o mesmo grito: o Ser e o Nada são idênticos. (Bataille, L’Homme)

Abaixo nosso grande filósofo, nosso inovador, mentor intelectual do Golpe, William Friedrich Mendes, também conhecido por usa amizade com o indecente José Serra e por ser o Libertador do Estuprador Turco e do Banqueiro Bandido (um pleonasmo, desculpe): 

Falando de altas sumidades, lembro do retrato tosco que Gilberto Freyre fazia da Casa Grande:

“No senhor branco o corpo quase se tornou exclusivamente o membrum virile. Mãos de mulher, pés de menino; só o sexo arrogantemente viril. Em contraste com os negros – tantos deles gigantes enormes, mas pirocas de menino pequeno. Imbert, nos seus conselhos aos compradores de escravos, foi ponto que salientou: a necessidade de se atentarem nos órgãos sexuais dos negros, evitando-se adquirir os indivíduos que os tivessem pouco desenvolvidos ou mal-conformados. Receava-se que dessem maus procriadores. Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor copulando dentro dela.
Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar ordens aos negros; mandar escrever suas cartas pelo caixeiro ou pelo capelão; jogar gamão com algum parente ou compadre. De rede viajavam quase todos – sem ânimo para montar a cavalo: deixando-se tirar de dentro de casa como geléia por uma colher. Depois do almoço, ou do jantar, era na rede que eles faziam longamente o quilo – palitando os dentes, fumando um charuto, cuspindo no chão, arrotando alto, peidando, deixando-se abanar, agradar e catar piolho pelas molequinhas, coçando os pés ou a genitália; uns coçando-se por vícios; outros por doença venérea ou da pele. Lindley diz que na Bahia viu pessoas de ambos os sexos deixando-se catar piolhos; e os homens coçando-se sempre de ‘sarnas sifilíticas'”.

Para relembrar o quadro e nossas “celebridades”:

QuáQuáQuáQuáQuá

A beleza em meio ao mundo em frangalhos



Mais dois poemas para relaxar, dois sonetos, para não dizerem que também não sou clássico.

Soneto I
Ela com os olhos da imortalidade
procurou-me certa noite enluarada
dizendo que a paixão a procurava,
paixão de leito e calma. E de saudade.
Os tempos se foram, consumiram-se as idades
da Terra ainda agora enlutada.
Onde a alegria, o doce sorriso da amada?
Certa vez, contaram-me acerca da imortalidade…
Seus olhos falam-me de melancolia.
Irei te esperar, eu sei, por toda a vida,
com versos tristes e tão caros.
Sem remédio cumpramos esta sina –
só no fim da jornada estará tudo pago.
Isto diz quem teus olhos, amor, sempre queria.
Soneto II
Como na pele emolientes, calmantes,
para enfrentar os tórridos calores das terras ignotas,
com os nervos em frangalhos como a roupa puída e rota,
o amante retempera a alma e se faz amante.
Não mais as noites em vigília, sufocantes.
Não mais o demorar-se em tantas bocas,
aqui e ali, que ao falarem de amor fazem-se roucas.
Encontrei-me contigo, Amor, ainda como feroz amante.
Enfrentar o som!, que se espalha
seguindo o vento norte.
Canção de desterro e de martírio.
Pelas bárbaras praias, ventania e morte.
O verbo se faz contra o suplício

do poeta que não mais falha.

O profeta e a guerra


Para Lyndon LaRouche

The war sit down on war.
A guerra assenta-se, assevera-se.
Naquelas mesmas terras
onde o profeta João
viu o anjo abrir o poço
do Abismo.
Do buraco fumacento
saiu uma multidão de gafanhotos,
com caudas como de escorpião
e a permissão para espalhar a morte.
“O primeiro, Ai!, já passou.
Veja que atrás vêm contudo
outros dois”, disse o vidente de
Patmos.
Mas falava de Hiroshima?
De Nagazaki?
Os gafanhotos voadores
já atacavam naquela época?
Qual foi a primeira bomba?
A do Japão
ou a que destruiu o reinado
dos “deuses astronautas”?
Qual será a terceira?
Com certeza não será a do Irã,
como LaRouche sabe.
Pois, esta já tem data marcada.
E serão detonadas
antes de chegar ao fim

o dia de amanhã.