Solilóquio et urbe



Por Rogério Mattos


Pode ser acessado, completo, no Academia.edu




Solilóquio et urbe

Des Geist in der Natur, Camille Flammarion
Um garçom, que talvez tivesse acabado de sair de sua hora de almoço, estava muito sério a pensar na mesa em que ainda se demorava. Era um bar ou um restaurante de pessoas relativamente abastadas da região onde moro. Um dos frequentadores, membro assíduo daquelas reuniões em que homens barrigudos e de barbas feitas sentavam-se para proferir suas sonoras gargalhadas servidos a gordos pedaços de carne no pão acompanhada de cerveja, acabava, como o garçom, seu almoço. Estava sozinho por ser pleno dia. Fazia – o gordo – sua hora extra no bar. Ao ver o trabalhador tão absorto em seus pensamentos, retrucou:
– Não se pensa sério nessa vida, meu rapaz! Caso esteja blasfemando contra as mil pragas que te perseguem, ainda assim não tem razão. Haverá um dia em que tudo isso acabará e nós nunca, por fim, teremos razão.
No que o rapaz fez cara de pouco entendimento, em parte tentando dar razão ao interlocutor através de um olhar de ignorância que era ressaltado pelo susto tomado pela bravata do cliente, que nem o cumprimentou; de outro lado, reforçando seu papel de completo abestalhado, não entendia absolutamente nada do que lhe falavam, talvez por não ter encontrado dentro de si o mínimo eco daquelas palavras.
Observando o aparente despreparo intelectual do jovem, completou o senhor de meia-idade, aumentando a ironia, sempre algo apertado em seu traje que dificilmente cabia no corpo, devido ao excesso de gordura, e inteiramente desconfortável em seu terno em meio ao forte calor dentro do ambiente que só tinha alguns poucos ventiladores para refrescar sua clientela faminta:
– Caso pense tão gravemente no Holocausto, basta apenas quando tiver sentado colocar as mãos sob o traseiro até que elas fiquem completamente dormentes. Depois tente escrever tudo o que lhe tiver passado na cabeça nesse meio tempo. Verás que existe um meio muito mais confortável de se sentar e que se cansas as mãos permanecendo com elas demasiado tempo em posição incômoda, imagine seu cérebro procurando engendrar conceitos por demais complexos. Tenho dito o que me passa e falei até o que não devia. Boa tarde – completou limpando a boca brilhante de gordura antes de ir-se embora como se nada houvesse acontecido.


Depois de assistir a tão interessante e jocoso diálogo, gostaria de expor minhas impressões, já que carrego há tempo as ideias que suscitaram essas linhas escritas após participar anonimamente daquele colóquio.
Nenhuma força, venho pensando, cá eu, têm o inimigo sombrio. Entre a força e a matéria existe uma distinção tão clara quanto a das noites que sucedem os dias. A força organiza a matéria, sem o que esta se tornaria tão somente as partículas elementares que os cientistas estudam, e a vida se esvaziaria de beleza e significado. Nem a mínima célula poderia se organizar caso dispensasse a força que a preestabelece. A beleza do estudo do mundo microscópico não existiria, pois as células não são somente carbono, hidrogênio ou o que seja. A conjugação dos elementos dentro de uma ordem que se sucede em todos os reinos, guardando cada uma suas particularidades relativas ao grau de desenvolvimento alcançado nos incontáveis milênios desde a criação do planeta são produtores de mistérios infindos. E tanto é o poder dessa força que a tudo molda conforme sua vontade que é muito provável que no dia em que a humanidade conseguir recriar a espécie humana em laboratório, com toda perfectibilidade possível, nada nos garante que esta roupagem esplendorosa terá vida própria. Já que não somos simplesmente um simples aglomerado de matéria – como se os mais variados tipos de pó pudessem, por si só, se organizarem e refletir toda a vida, por exemplo, de uma obra de arte –, a força molda e anima a matéria. Dentro desse paradigma, a recriação do corpo humano sem vida é como a arte sem alma, sem significado: apenas uma cópia mais ou menos perfeita de um modelo antecedente; seria nada mais do que um manequim.


A conjugação das moléculas até a formação de células e destas aos mais variados corpos terrestres, em todos os reinos, se repete incontavelmente no universo, já que não podemos concebê-lo sem vida. Caso pensarmos que existam as mais variadas conjugações elementares e vibrações da matéria no espaço que nossos sentidos não captam, mas que alguns são pesados e medidos em laboratório, como as ondas de rádio e elétricas, podemos concluir não só que o universo é vivo, mas entrever as inúmeras possibilidades de vidas no mesmo. Como são feitas de composições diferentes e vibram em campos distintos do nosso, podem estar tão próximos de nós que caso as vermos é bem provável que nos assustem.
Imaginando a quantidade de vidas no universo a fora e a quantidade de formas que as mesmas podem assumir, às vezes chegando a resultados bem distantes aos que estamos cotidianamente acostumados a assistir, podemos conceber mundos tão diversos do nosso que, quem sabe, até a felicidade plena poderíamos encontrar em um deles. De nossa pequena condição humana, a qual veleja por mares tão tenebrosos para às vezes encontrar os portos mais duvidosos, até se chegar a esse ideal que a História ainda não registrou em seus anais, quantas graduações devem existir, ou seja, quantos níveis de felicidade relativa devem ter alcançado outros mundos mais civilizados que o nosso?
Não precisamos ser astrônomos, nem físicos ou químicos para compreender que as propriedades da matéria se estendem por todo o espaço, numa ordem tal e com tal senso harmônico que dificilmente atribuiríamos ao azoto ou ao potássio inteligência própria capaz de congregar tamanhas maravilhas. O universo e seu bailado infinito e toda multiplicidade, todas as cores, toda beleza do mundo microscópico e toda sua organização cuja síntese pode ser sinalizada no conceito de evolução, são frutos de uma inteligência que é a própria modeladora da matéria. A força rege à matéria e, caso levarmos em consideração que seu produto final é a harmonia perfeita, tal qual o espelho do universo, como também o papel determinante da matéria em todo seu conjunto – quero dizer em todas suas uniões mais ou menos perfeitas do elemento mais simples até chegar à espantosa força solar –, diremos, tal qual na lei da evolução, que ela tende a se tornar, em suas formas múltiplas, cada vez mais incompreensível ou inapreensível para nós e, portanto, invisível. Não é por outro motivo que a conquista do reino microscópico por parte dos cientistas caminha lado a lado com as descobertas no universo, e ao que tudo indica ainda estamos longe de encontrar o estágio fundamental da matéria.
Comparando-nos ao esplendor celeste e levando em conta a lei de evolução que hoje é vista com naturalidade por boa parte dos seres humanos podemos, outrossim, concluir de nossa situação passageira enquanto humanidade. Outras belezas, como nos atesta a História em seus dramas e superações incontáveis, um dia nos serão facultadas. Portanto, entender a o Inimigo sombrio como uma força, seguindo todo nosso raciocínio até aqui, é uma contradição em termos, já que esta submete a matéria e a leva à perfeição. O inimigo, antes, procura a destruição da matéria para se apossar de uma força que em absoluto o pertence. Como ele procura a corrupção e a força a criação, não, nos esforçamos em conceder à esta a primazia, já que o universo inteiro é um ato criador constante. Se não observamos nas alturas a corrupção que a olhos nus nos assalta, tendo em vista nossa realidade particular e limitada dentro de um todo completamente coeso e que nos transcende por inteiro, concebemos que o domínio da matéria em seus estados corruptos também é uma realidade que tende a ser superada.


Falamos do Absoluto diversas vezes, porém não o definimos por entendermos ser tal tentativa inútil. O que nos transcende de pronto nos escapa. Não é por outro motivo que toda ciência se faz por comparações, criando hipóteses que restrinjam ao máximo a abrangência do fenômeno, porém sem descaracterizá-lo, para assim podermos controlá-los através dos pressupostos por nós estabelecidos. Portanto, Deus, em sua inteireza, é a nós completamente desconhecido. Não podemos idolatrá-lo, porque ídolos são feitos de homens, animais ou objetos, e a mais tímida comparação – quer seja do reino hominal – com o Todo, descaracteriza por completo sua presença.
O Amor talvez seja a categoria mais compreensível para fazermos nossa analogia, já que o mesmo não é feito de ídolos, e sim de uma imagem celeste que é a nós totalmente subjetiva. O amor é a própria imaginação celeste, o pensamento criador, já que nele não há corrupção. Logo, igualmente, temos uma grandeza que nos escapa em sua integralidade. No entanto, como a Natureza viva, o amor se manifesta para nós na mais ridícula e por vezes rara banalidade, como a asa da borboleta, que é a polifonia de formas do pensamento feminino.
O que é o amor se não o que é igual, vivente, e até mesmo inferior em suas expressões diminutas e graciosas, e é ao mesmo tempo sempre algo superior a nós? Olhamos a criação ou o criador, o ser amado ou o amor? A personificação da vida é a criação em si mesma; o amor, a maravilha que podemos tocar, mas nunca compreender por si mesma.

Viver o Anti-Édipo: Gilles Deleuze na “Carta a um crítico severo”

 

Murilo Corrêa foi, talvez, quem colocou com maior sucesso esse texto na web. De fato, é um texto que deve ser destacado. Curto, denso, revela a seu leitor boa parte da biografia de Deleuze. A hipersensibilidade na ponta dos dedos mostra a pessoa que sempre atravessou a vida com problemas mais ou menos graves de saúde, e os pensou em termos mais “mentais”, por assim dizer, do que fisiológicos. “Porque não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão?”. Em raros momentos, talvez, se tenha visto em Deleuze esses constantes problemas de saúde, sendo visto esta como um todo e não em partes como “tuberculose” de um lado, “falta de impressões digitais” de outro, ou ainda outros problemas que aparecem aqui e ali na entrevista intitulada Abecedário. A frase preferida do Anti-Édipo: “não, nós nunca vimos esquizofrênicos”. Nós nunca vimos um Deleuze com problemas de saúde, com uma hipersensibilidade não só na ponta dos dedos. Algo que nos faz lembrar muito o Nietszche… 

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Discutindo a Fundação Ford

Não é costume desse blog, mas como gostamos muito dessa matéria, de um modo geral, e do texto de Marcus Correa, e um modo particular, republico aqui para os leitores de meu blog. Falta ainda a quarta parte, ansiosamente esperada por mim. Espero que se fale da Fundação Ford no Brasil, de seus vínculos com a CEBRAP, com Fernando Henrique Cardoso, e com, a partir daí, a falsificação da Teoria da Dependência, de Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra, pelo Farol de Alexandria.

Publico o texto na íntegra, as três partes, já que não são tão longos.
É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda, em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.
Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.
O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.
Cabe observar que, nesse delicado momento atual do país, é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone. E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

As origens: de 1936 a 1945
Em uma cerimônia solene ocorrida na cidade de Dearborn, em Michigan, nos Estados Unidos, no dia 30 de julho de 1938, o cônsul da Alemanha acreditado em Cleveland, Karl Krapp, e seu congênere em Detroit, Fritz Heller, presentearam o industrial estadunidense Henry Ford pelo dia do seu aniversário. A pedido do führer, ofereceram-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã (Großkreuz des Deutschen Adlerordens). Essa alta condecoração do Estado alemão havia sido criada no ano anterior por Adolf Hitler com o intuito de homenagear estrangeiros que desfrutavam da sua admiração. Outros dois indivíduos que receberam a referida medalha honorífica foram Benito Mussolini e o espanhol Francisco Franco.
Adolf Hitler há muito manifestava uma forte simpatia por Henry Ford e manteve uma foto dele em seu escritório em Munique. No início dos anos 1920, Henry Ford escreveu execráveis escritos antisemitas, os panfletos The International Jews: The World`s Problem, transformados ulteriormente em livro e que inspiraram o líder nazista na sua perseguição implacável aos judeus na Europa. Traduzidos para a língua alemã, os escritos de Ford tiveram ampla circulação nos meios nazistas antes de 1933. Por essa razão, a primeira edição de Mein Kampf Hitler, dedicou a Henry Ford.
Afora as concepções lunáticas da existência de uma conspiração judaico-comunista internacional contra a qual ambos lutavam, a admiração de Hitler por Henry Ford advinha também dos métodos de racionalização industrial. Essa racionalização serviria como exemplo tanto ao modelo industrial do Reich, como ao sistema, igualmente fabril, de extermínio bárbaro de milhões de pessoas em campos de concentração, a exemplo de Auschwitz, Sobibor e Treblinka.
Desde os anos 1920, Ford vinha contribuindo com o financiamento do Partido Nacional-Socialista na Alemanha e enviava de 10 a 20 mil marcos alemães como presente de aniversário para Adolf Hitler todos os anos, até 1944. [1]
Nos Estados Unidos, Henry Ford manteve um sistema conhecido pelos críticos como a “Gestapo de Ford”, o que também lhe rendeu o apelido dado pelo New York Times, em 1928, de “Mussolini do Highland Park” [2].
Ford, além de perseguir e reprimir sindicalistas, organizou um sistema de vigilância e controle da vida privada de seus funcionários, por meio da criação de um Departamento de Sociologia da Ford Motor Company. Tal órgão procurava intervir nos aspectos privados dos trabalhadores das fábricas, como moradia, alimentação, lazer e modo de vida. Ford até mesmo contratou um ex-pugilista que serviu como “fiscalizador” do serviço privado de repressão política e social aos trabalhadores da Ford em Dearborn e que lhes fazia visitas inesperadas em seus lares. [3]
A condecoração de Henry Ford com o maior título honorífico dado a estrangeiros pelo governo nazista nada mais foi do que um reconhecimento inter pares. Dois anos antes, no início de 1936, Edsel Ford, filho de Henry Ford e então presidente da Ford Motor Company anunciou a criação da Fundação Ford, que tinha por objetivo dispender recursos “à caridade, à educação e à ciência”. Mas, de fato, a criação da fundação filantrópica familiar servia a interesses econômicos muito claros aos contemporâneos.
Em 1934, um grupo de empresários, banqueiros e oficiais militares estadunidenses patrocinaram uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Franklin D. Roosevelt, golpe esse que visava à instauração de um regime filofascista nos Estados Unidos.[4]
Malfadada a tentativa de golpe contra Roosevelt e no contexto econômico do New Deal, em 1935, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Revenue Act, uma espécie de taxação de grandes fortunas que chegava à casa dos 70%. [5]
O maior prejudicado com a nova legislação seria justamente a multimilionária família Ford. Para dissimular do fisco a cobrança dos novos impostos foi, portanto, criada a Fundação Ford, transferindo-se, assim, 90% das ações da Ford Motor Co. pertecentes à família para a nova entidade “filantrópica”.
Desde então, diferentemente do que se pensa, a Fundação Ford tornou-se a proprietária da Ford Motor Company. [6]
Os três únicos diretores da Fundação Ford no período eram Edsel Ford, presidente da Ford Motor Co. e igualmente presidente da Fundação; Bert J. Craig, secretário e tesoureiro da Ford Motor Co; e Clifford Longley, advogado da Ford Motor Co.
Pressionada pelo governo a dar, então, início a qualquer atividade filantrópica de relevo, a Fundação Ford anunciou, em dezembro de 1937, a doação de um terreno em Dearborn, Michigan, EUA, para a construção de quatro mil “moradias modelo” para operários locais. A Ford doou o terreno e o projeto, enquanto a construção ficaria a cargo de outros empresários que tivessem interesse no empreendimento.
Originalmente anunciado como filantropia a operários, pelos baixos custos de aluguel ou venda, logo o projeto foi desconfigurado, tornando-se um empreendimento imobiliário de mais alto padrão, com centro de negócios, escolas, clínicas médicas, lojas, entre outros. De acordo com uma matéria da época, a iniciativa passou a beneficiar trabalhadores de “white collar”, conforme a expressão do jornal [7].
Essa foi a única iniciativa “filantrópica” da entidade que teve ampla repercussão antes de 1945. O real interesse por trás da criação da Fundação, i.e., dissimular a fortuna familiar adquirida ao longo dos anos de exploração da classe trabalhadora pela Ford Motor Co., fez com que ela permanecesse inexpressiva nas suas ações “humanitárias” durante os primeiros dez anos de existência.
Já na Europa, a Ford Motor Co. mantinha fortes investimentos econômicos desde os anos 1920. Em particular, na Inglaterra e na Alemanha. Neste último, encontrou certas dificuldades decorrentes da ascensão do nacionalismo de ultra-direita no país, uma vez que parte da população sabotava a compra de produtos de empresas estrangeiras. Mesmo assim, a relação com o governo nazista que ascendeu em 1933 era mais amena e a Ford fabricou um terço dos caminhões do exército nazista, por exemplo, e dobrou de tamanho na Alemanha entre 1939 e 1945 [8].
Entre 1941 e 1945, a subsidiária da Ford Motor Co. em Colônia, na Alemanha, a FordWerke, utilizou, inclusive, trabalho escravo de presos estrangeiros e judeus, oriundos da Europa Oriental, da União Soviética, da Itália e da França [9].
Esses são alguns poucos e relevantes fatos do período de origem da Fundação Ford. Frente à oposição política que a família Ford mantinha ao governo de Franklin D. Roosevelt, até o final da II Guerra, a Fundação não atuou em parceria com o governo dos Estados Unidos. E suas atividades de caridade restringiam-se a poucas iniciativas em Michigan. A relação estreita com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência estadunidenses passaria a ocorrer a partir do início da chamada Guerra Fria, objeto da próxima parte desse artigo.
Pós-Guerra e Guerra Fria: de 1945 aos anos 1960
Com o término da Segunda Guerra Mundial, grandes empresários e financistas estadunidenses, muitos dos quais haviam apoiado a ascensão do nazi-fascismo na Europa, bem como muitos quadros técnicos do partido nazista alemão, passaram a colaborar com os Estados Unidos num esforço pela hegemonia global e pelo combate à expansão do comunismo. Entre os frustrados com a derrota nazi-fascista encontrava-se a família Ford, que passaria então a atuar junto à política externa dos Estados Unidos a fim de justificar a série de isenções de impostos que obtivera com a criação da sua fundação “filantrópica” em 1936.
Em 1943, porém, faleceu Edsel Ford, o primeiro presidente da Fundação e presidente da Ford Motor Co. O patrono, Henry Ford, faleceu quatro anos depois, em 1947. Por esta razão, as presidências da Fundação Ford e da Ford Motor Co. ficaram a cargo do filho de Edsel, Henry Ford II. Ele é quem vai reestruturar a Fundação Ford, fazendo com que a entidade passasse a atuar na política internacional, como ocorre ainda hoje.
O intuito aqui não é o de enumerar as diversas atividades e financiamentos promovidos pela Fundação Ford ao longo dos anos, porque isso excederia muito os objetivos desse artigo, não havendo, ademais, um levantamento exaustivo dessas atividades. Optou-se apenas pela apresentação de dados dos principais indivíduos que compuseram o staff da Fundação Ford, destacando suas relações com o aparato estatal dos Estados Unidos e seu complexo industrial-militar-acadêmico.
A partir de 1947, no contexto do lançamento da Doutrina Truman, a Fundação Ford passou por uma reestruturação que, em razão da sua expansão à atuação internacional, necessitava operar em parceria com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, como com a recém-fundada Agência Central de Inteligência, a CIA.
Essas novas diretrizes da entidade foram elaboradas por um conjunto de indivíduos, entre os quais o então presidente da entidade, Henry Ford II, Ernest Kanzler, antigo executivo da Ford Motor Co.,Donald K. David, da Harvard Business School, e Karl T.Compton, presidente do Massachusetts Institute of Technology. Mas, o principal formulador da perspectiva de internacionalização da Fundação foi Horace Rowan Gaither Jr.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Donald David e Karl Compton eram elementos de ligação entre a industria armamentista e as pesquisas acadêmicas nos Estados Unidos [1]. Já Horace Rowan Gaither Jr. era um executivo de corporações privadas ligadas ao Departamento de Defesa e ao Exército dos Estados Unidos, como a RAND Corporation e MITRE Corporation [2].
O primeiro presidente da Fundação, fora dos quadros de diretores da Ford Motor Co.,foi Paul G. Hoffmann. Entre 1948 e 1950, Paul Hoffmann havia sido diretor-chefe da Administração de Cooperação Econômica, organismo que administrava o Plano Marshall na Europa depois da Guerra [3]. No período em que ocupou a presidência da Fundação Ford, apareceram as primeiras denúncias da relação entre a entidade e atividades clandestinas do serviço secreto estadunidense no exterior.
Em dezembro de 1951, por exemplo, o presidente Harry Truman nomeou como embaixador na União Soviética George F. Kennan. Kennan era um especialista em política soviética e foi o formulador da política de “contenção” do comunismo. Em 1944, Kennan já havia composto a embaixada dos Estados Unidos em Moscou. Quando retornou aos Estados Unidos, em 1946, ocupou cargo no Colégio de Guerra e no Departamento de Estado. Entre 1949 e 1950, Kennan “licenciou-se” das suas funções públicas, passando a trabalhar para a Fundação Ford, no seu Fundo do Oriente Europeu para o Entedimento Internacional.
Quando foi novamente nomeado ao cargo de embaixador em Moscou no final do ano de 1951, o Pravda, órgão oficial de imprensa soviética, denunciou Kennan como sendo o responsável pela distribuição de fundos da Fundação Ford para auxiliar “organizações anti-soviéticas” [4]. A nota dizia ainda que o objetivo de tais doações era o de “fomentar atividades clandestinas” no país [5].
Em 1952, com a campanha presidencial do ex-comandante supremo das Forças Aliadas na Europa e ex-comandante supremo da OTAN, o general Dwight Eisenhower, Paul Hoffmann fundou, e igualmente presidiu, a Liga dos Cidadãos Favoráveis a Eisenhower. No mesmo ano, Hoffman trouxe para a Fundação Ford ninguém menos que Richard Bissel, chefe do serviço clandestino da CIA [6] e que havia trabalhado com ele na administração do Plano Marshall. Como membro da agência de inteligência, Richard Bissel era muito próximo de Allen Dulles, que, com a administração Eisenhower, tornou-se o diretor geral da CIA. Bissel recebeu o convite de Dulles para ser seu principal assistente na agência em 1954 e deixou a Ford. [7] Na Fundação, Bissel obteve o auxílio de Allen Dulles e outros altos oficiais colegas seus da CIA na formulação de várias ações da Fundação Ford pelo mundo [8].
Também em 1953, ingressou na Fundação Ford, Frank Lindsay, antigo veterano do OSS – Office of Strategic Service (órgão precursor da CIA). Como Bissel, Lindsay foi um dos primeiros formuladores, em 1947, de técnicas de operações encobertas do serviço secreto dos Estados Unidos. Lindsay foi levado para a Fundação Ford por um de seus diretores, Waldemar Nielsen, também um agente da CIA [9].
Em 1954, foi empossado o novo presidente da Fundação Ford: John McCloy. Antes de ocupar esse cargo, McCloy havia sido Secretário Assistente do Ministério da Guerra dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Depois do conflito, foi Alto Comissário da Alemanha ocupada, foi presidente do Banco Mundial e presidente do Chase Manhattan Bank, pertencente à família Rockefeller. Além de ser diretor de grandes corporações, McCloy foi advogado em Wall Street, representando nessa posição as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos. Como Alto Comissário da Alemanha ocupada, trabalhou junto com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos na Europa no final da Segunda Guerra Mundial, período em que vários quadros técnicos do nazismo passaram a trabalhar para os Estados Unidos [10].
Em 1953, com John McCloy a frente da Fundação Ford, Shepard Stone também ingressou na instituição na área de Relações Internacionais. Shepard Stone havia trabalhado com McCloy como assessor de relações públicas no período em que o segundo fora alto comissário da ocupação da Alemanha depois da Guerra e, depois de ter “recusado” ocupar um cargo na área de operações psicológicas (psy-ops) na CIA, passou a trabalhar para a Fundação Ford [11].
O presidente seguinte da Fundação Ford foi Horace Rowan Gaither Jr. Além de ter sido o responsável pela formulação das diretrizes que estabeleceram o vínculo entre a entidade e o aparato estatal estadunidense em 1947, uma ação sua que vale menção foi que, em novembro de 1957, o presidente Eisenhower encarregou um grupo de cientistas para um estudo, altamente sigiloso, a respeito de possíveis ataques nucleares da União Soviética contra os Estados Unidos. Foi encarregado da presidência do grupo de pesquisadores justamente Horace Rowan Gaither Jr, [12].
O relatório final do grupo, apresentado ao Conselho Nacional de Segurança e ao Departamento de Defesa, previa que, sob risco de uma ameaça nuclear soviética, era necessário um forte aumento dos gastos militares pelos próximos treze anos, ou seja, até 1970, [13], o que fortaleceu a posição do complexo industrial-militar e, em particular, da indústria bélica.
Nesse mesmo ano em que Horace Rowan Gaither Jr. ocupava a presidência da Fundação Ford, em fevereiro, o ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Dmitri Shepilov, havia apresentado uma nota à imprensa internacional em Moscou em que denunciava que “organismos oficiais do governo dos Estados Unidos desenvolvem atividades subversivas e de espionagem, sob o disfarce de toda sorte de comissões, fundações e instituições particulares”. A nota citava como cobertura do serviço secreto a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller e a Fundação Carnegie. A nota ainda dizia que a chamada “libertação das democracias populares” havia se convertido na “pedra fundamental da política exterior norte-americana” [14]
Depois de H. Rowan Gaither Jr. o presidente da Fundação Ford foi Henry T. Heald, que ficará no cargo até 1965. Não existem muitos dados a respeito da sua relação com o aparato estatal e de inteligência dos Estados Unidos, apenas que era um indivíduo igualmente vinculado ao chamado complexo industrial-militar-acadêmico estadunidense, uma vez que, entre 1940 e 1952, presidiu o Illinois Institute of Technology [15]. Mas é lícito afirmar que essa relação não deixou de acontecer durante sua administração como presidente da Fundação, a exemplo da atuação da entidade no Brasil desde 1961, como se verá na próxima parte do artigo.
Em 1966, McGeorge Bundy tornou-se presidente da Fundação Ford, ficando no cargo até 1979.Imediatamente antes de ocupar a presidência da Fundação Ford, McGeorge foi Assistente de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson, cargo que,entre outras funções, tinha como prerrogativa o monitoramento das atividades da CIA.
Bundy também havia trabalhado na organização do Plano Marshall e, posteriormente, como reconhecido intelectual de política exterior nos meios conservadores nos Estados Unidos, a ele e ao irmão também é atribuída a formulação de falsos pretextos que justificaram ao Congresso a escalada militar do país na Guerra do Vietnã em 1964 [17].
No mesmo ano, McGeorge Bundy compôs um comitê do governo para formular ações encobertas no Chile para a eleição de Eduardo Frei.[18]. Seu irmão, William Bundy, era membro do Conselho de Avaliação Nacional da CIA e genro do antigo secretário de Estado Dean Achenson [19].
Os dados aqui apresentados são apenas breves exemplos. O fato é que a maior parte dos funcionários de alto escalão da Fundação Ford entre 1945 e 1979 eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com a CIA, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com o alto escalão do complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos. Essas redes de relações do poder imperialista foram estabelecidas durante a Segunda Guerra Mundial e, no pós-Guerra e na Guerra Fria, estenderam-se e aprofundaram-se em decorrência da disputa contra a União Soviética por hegemonia global.
Conforme aponta ainda Frances Stonor Saunders, um dos intuitos principais que movia a relação orgânica entre a Fundação Ford, a CIA e o Departamento de Estado era livrar-se de eventuais embaraços na política interna dos Estados Unidos em relação a ações de inteligência no exterior. As fundações, em particular, a Fundação Ford, e outras entidades privadas, desburocratizavam ações sigilosas (na maioria das vezes ilegais) em outros países, sobretudo, na área cultural e de operações psicológicas (psy-ops), uma vez que não precisavam prestar contas das suas ações ao Congresso do país.
No Brasil
Depois da Revolução Cubana, a política externa estadunidense voltou-se mais atentamente para a América Latina e, em particular, para o Brasil. A pretexto de conter a ameaça comunista internacional, o Departamento de Estado, a CIA, o Pentágono e grandes corporações patrocinaram uma série de regimes militares sanguinários por todo o continente. Foi nesse contexto que a Fundação Ford passou a atuar como organização “filantrópica” no Brasil, em 1961, abrindo um escritório no país ano seguinte, mesmo período em que também o fez no Chile e no México.
Dois elementos que foram abordados nas partes anteriores do artigo merecem atenção aqui. O primeiro deles é o fato de, à época, a Fundação Ford deter a maior parte das ações da Ford Motor Company, diferente do que comumente se pensa (Cf. Parte 1). Em 1962, por exemplo, a Fundação Ford era proprietária de mais de 50% das ações das indústrias Ford e sua principal controladora [1]. O segundo elemento refere-se à relação desenvolvida no pós-Guerra entre a Fundação e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Como já foi mencionado, depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte dos altos funcionários da entidade eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com os órgãos de inteligência, com o Departamento de Defesa, com o Departamento de Estado e com o complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos (Cf. Parte 2).
No Brasil, desde 1962, alguns executivos da Ford Motor do Brasil estiveram vinculados à conspiração civil-militar que levou ao golpe de Estado de 1964. Estavam ligados principalmente ao financiamento do chamado “complexo IPES/IBAD”, cujos recursos advinham, entre outras pessoas jurídicas, da Atlantic Community Development Group for Latin America (ADELA), da qual a Ford Motor era participante, e da American Chamber of Commerce, onde participavam vários diretores da Ford Motor do Brasil (Mario Bardella, Robert F. Carlson, Luiz B. Carneiro da Cunha, Joseph Radleigh Dent, H. H. Eichstaedt, John C. Goulden) [2]. Inclusive, em 1963, o Congresso brasileiro instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades do IBAD no financiamento da campanha eleitoral anterior. O predidente da CPI foi o deputado federal Rubens Paiva.
Mas o principal nome vinculado à Ford Motor do Brasil com participação no golpe de 1964 foi Humberto Monteiro. Monteiro era membro-diretor da seção de São Paulo do IPES. Também integrava o Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de São Paulo, da American Chamber of Commerce. [3] Monteiro foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Ademar de Barros e presidente da União Cultural Brasil-Estados Unidos. [4]
Logo após o golpe, em setembro de 1964, chegou ao Brasil, Peter Dexter Bell, um dos mais importantes representantes da Fundação Ford para a área internacional e responsável pela distribuição dos recursos da entidade no país. Antes de ocupar tal posto, Peter Bell havia estagiado na área de Relações de Segurança Internacional do Pentágono. Meses depois da sua chegada ao Brasil, no início de 1965, ele fez sua primeira visita a uma instituição de ensino superior, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Lá, foi recebido com a explosão de uma bomba, detonada por estudantes a fim de que ele “mantivesse distância”. [5]
É importante relembrar (Cf. Parte 2) que, em 1964, McGeorge Bundy, que assumiria a presidência da Fundação Ford dois anos depois, era Assessor de Segurança Nacional do presidente Lyndon Johnson e uma das suas prerrogativas era monitorar e assessorar as atividades da CIA ao redor do mundo. McGeorge Bundy compôs, também em 1964, um comitê especial da Casa Branca, junto com outros membros do governo e das agências de inteligência, a fim de determinarem ações clandestinas no Chile para auxiliar na eleição de Eduardo Frei.[6] É provável também que, ocupando o cargo, tenha sido um dos formuladores da parceria golpista para o Brasil.
Na mesma época, o irmão de McGeorge, William Bundy, compunha o Comitê Nacional de Avaliação da CIA. Os irmãos Bundy são ainda apontados como os formuladores de falsos pretextos apresentados ao Congresso dos Estados Unidos para justificar a escalada militar do país na Guerra do Vietnã a partir de 1964. [7] McGeorge ficará na presidência da Fundação Ford entre 1966 e 1979, período de maior influência da entidade no Brasil. Portanto, Peter Bell foi o principal representante, no Brasil e na América Latina, da administração de McGeorge Bundy na Fundação Ford.
Seguindo as diretrizes de internacionalização da Fundação, formuladas por Horace Rowan Gaither Jr. depois da Segunda Guerra Mundial (Cf. Parte 2), a principal atividade de Peter Bell no Brasil era promover o financiamento de atividades nos campos social, acadêmico e cultural. No pós-guerra, uma série de colaborações diplomático-empresariais foram firmadas entre o Brasil e os Estados Unidos. Duas delas foram a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, criada em 1951, e ligada ao Ponto IV do Plano Marshall [8] e, em 1961, a Aliança para o Progresso. Ambas as parcerias, no entanto, destinavam-se sobretudo ao campo econômico-industrial. Logo, na estratégia da política externa dos Estados Unidos, um dos papéis a ser cumprido pela Fundação Ford no Brasil seria o de atuar em áreas que as iniciativas anteriores não abrangiam e essa foi a atuação de Bell.
Peter Bell ficou no Brasil entre 1964 e 1969 e ele próprio narra que encontrou-se com agentes da CIA por aqui, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, a fim de conversarem sobre os financiamentos promovidos pela Fundação Ford. [9]
Em março de 1968, o presidente Arthur da Costa e Silva solicitou ao Congresso uma autorização, em caráter especial, para que a Fundação Ford fosse considerada de “utilidade pública”, o que era uma prerrogativa apenas de entidades nacionais. Na exposição de motivos formulada pelo ministro da Justiça, Luis Antônio da Gama e Silva justifica-se para tal medida em “face aos relevantes serviços prestados pela entidade através da realização de intenso programa social objetivando o bem estar humano…” [10]. Em junho, o Senado aprovou a solicitação do general.
Seis meses depois dessa aprovação, tanto Costa e Silva, como o professor e ex-reitor da USP, Gama e Silva, foram signatários do Ato Institucional n. 5 (AI-5), expressando a preocupação de ambos com o “bem estar humano” no país, promovendo expurgos, torturas, assassinatos, perseguições e toda a sorte de barbárie contra a população organizada contra o regime.
Em 1 de julho de 1969, na esteira do AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes e a Ford Motor Co., cuja maior acionista era a Fundação Ford, tornou-se uma das suas principais financiadoras [11]. O intuito central da operação era o extermínio dos militantes comunistas do país. A Ford Motor Co. dispendeu recursos também para a criação dos DOI-CODI, conforme, entre outras fontes, o depoimento à Comissão da Verdade do ex-agente da repressão Merival Chaves, do setor de inteligência do Exército [12]. É desnecessário mencionar aqui as atrocidades perpetradas pelo órgão contra os revolucionários brasileiros do período.
Entre as muitas iniciativas “filantrópicas” da Fundação Ford no Brasil, a mais conhecida foram os recursos que, também em 1969, a entidade destinou à criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), cujo principal pesquisador veio posteriormente a ser presidente do país, o procônsul do império Fernando Henrique Cardoso. O centro foi fundado por professores que haviam sido demitidos da universidade em razão do AI-5 e, no primeiro momento, a embaixada dos Estados Unidos e a CIA no Brasil, talvez um pouco desinformados, viram com preocupação o auxílio da Fundação Ford. Porém, segundo o próprio Peter Bell, depois que ele se reuniu com um agente da CIA no país, a preocupação se desfez e a entidade destinou recursos à criação do centro de pesquisa. [13]
Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2012, Peter Bell afirmou, com toda razão: “No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim.” [14]
Conforme o processo de abertura política no país a partir de meados dos anos 1970, a Fundação Ford foi “camaleonicamente” adaptando-se ao novo ambiente e sua nova linha de atuação passou a ser os chamados “direitos humanos”. A quarta e última parte do artigo irá abordar alguns fatos relevantes da história da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais. É possível afirmar que também nesse período a promoção do “bem estar humano” e dos “direitos humanos” foi mais uma vez apenas uma cobertura na defesa dos interesses do imperialismo yankee.

NOTAS DA PARTE 1:
1 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Desordem Mundial: o espectro da total dominação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 44-46
3 – Idem.
4 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. p. 44-46
5 – CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 26-27
6 – Idem. p. 26-27
7 – De La Crosse Tribune, La Crosse, Winconsin, EUA, 6 jul. 1939.
9- REICH, Simon. Tha Nazi Party: Ford Motor Company and the Third Reich. Jewish Virtual Library. A própria Ford Motor Co. em 1998 abriu um amplo processo de investigação interna sobre a conduta da sua subsidiária na Alemanha, provocada por processos legais de sobreviventes do Holocausto que foram movidos contra a empresa por haverem trabalhado como escravos na FordWerke.

NOTAS DA PARTE 2
1– CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 28
2 – CHAVES, Wanderson da Silva. Idem.p.28 ;História da RAND Corporation no seu sítio eletrônico.
3 – O Estado de S. Paulo, 18 mar. 1952
4 – O Estado de S. Paulo, 28 dez. 1951
5 – Jornal do Brasil, 28 dez. 1951, p. 7.
6 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 655 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974. Este último livro traz muitas informações sobre Bissel.
7 – STONOR, Francis Saunders. The Cultural Cold War: the CIA and the world of arts and letters. New York/London: The New Press, 1967.
8 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. ; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001.
9 – STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 119
10–Biografia de John McCloy no sítio eletrônico do Bando Mundial; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 120.
11–; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p.120
12 – O Estado de S. Paulo, 27 nov. 1957, p. 2
13 – O Estado de S. Paulo, 21 dez. 1957, p.5
14 – O Estado de S. Paulo, 7 de fev. 1957, p. 2
16 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz.Op. cit. p. 270,318, 772.
17 – MARCHETTI, Victor & MARKS, John D.Op. Cit. Este livro traz muitas referências sobre os irmãos Bundy.
18 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. Cit.; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974

NOTAS DA PARTE 3
[1] – O Estado de S. Paulo, 9 de março 1962
[2] – DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classes. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.
[3] Idem.
[4] – O Estado de S. Paulo,
[5] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ e Entrevista com Peter Bell. O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221
[6] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 259, 318, 772 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974.
[7] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op.cit. p. 259, 318, 772.
[8] – CANEDO, Leticia Bicalho. Op. cit.
[10] – O Estado de S. Paulo, 23 mar. 1968
[11] – BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014. Vol. 1. e Vol. 2.
[12] – Comissão Nacional da Verdade. Tomada pública de depoimento de agentes da repressão: Merival Chaves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pKcnTDCcDuw (a partir dos 21 minutos)
[13] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ ; E Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Vista sobre a Baixada Fluminense

A produção de resíduos tóxicos provenientes dos lares, mais do que das indústrias (como a farmacêutica ou a metalúrgica, por exemplo) são um caso de estudo para se compreender como se deu a urbanização da região metropolitana do Rio de Janeiro. A exclusão das famílias mais pobres para as áreas periféricas, o incentivo à favelização dos morros (não é algo que, como a morte de Teori, se deu ao acaso), o tipo de urbanização com que se conformou as áreas consideradas nobres (o processo de “verticalização” das moradias junto à especulação imobiliária), mostra não só o caos urbanístico, porém revela as bases frágeis da economia da região.
De um lado, numa zona mais industrializada, o lixo abundante e de alta carga tóxica seria o problema ululante, e nem nos piores pesadelos seria sobreposto em gravidade pelo lixo doméstico. O que mostra, como no exemplo da proliferação dos táxis e ubers na cidade, assim como do tráfico de drogas (como componente do terceiro setor), uma cidade que tem boa parte de sua mão-de-obra relegada à informalidade, com salários baixos e expectativa de vida oscilante. Por outro lado, a questão do lixiviado demonstra o quão longe ainda estamos de ser a cidade bela que presumimos, devido ao grave problema social e ambiental que sua falta de tratamento produz (o saneamento básico, com certeza uma das maiores tarefas brasileiras). Vide a nunca impoluta, a bela sempre com alguma mácula, Baía de Guanabara.
Por isso resolvemos publicar nesse blog o texto belo e nem por isso menos objetivo de Lays Rodrigues, bióloga e mestre em engenharia ambiental, sobre nosso Rio e suas muitas Baixadas.



Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Os resíduos sólidos de origem doméstica não só em quantidade, mas em variedade, ultrapassam a produção de dejetos industriais ou de outras fontes, como o produzido pelos hospitais. É impossível mapear a origem dos componentes que são encontrados no lixiviado, ainda que uma averiguação acerca da cartografia que compõe este aglomerado tóxico não possa ser descartada completamente, pois os detritos domésticos e as estruturas familiares produtoras do que se tornará o material tóxico são certamente conhecidas. A questão da inclusão ou não destas categorias no planejamento urbano concernente à coleta e ao tratamento do lixo não exclui a necessidade de considerar, nem que com os conceitos mais básicos possíveis, a inclusão da produção realizada por estes contingentes humanos na escala dos agentes tóxicos encontrados nos aterros sanitários.
Transformações químicas ou biológicas ainda na fase sólida ou no lixiviado podem levar a formação de substâncias tóxicas a partir de componentes orgânicos relativamente inócuos. Exemplos disso são o 1,4 dioxano (uma substância controlada), tanto quanto o tetracloreto de carbono, princípio constituinte do PVC (Slack et al, 2004). Farmacêuticos ou resquícios de metais pesados como o mercúrio (de difícil tratamento) são encontrados nos lixiviados provenientes de grupos familiares, ainda que neste aspecto específico tenhamos que fazer uma distinção entre os aterros sanitários dos municípios de diferentes países. Contudo, tanto os componentes orgânicos quanto os industriais ou farmacológicos compõem a produção de resíduos sólidos das famílias, numa mescla difícil de ser descriminada por qualquer legislação. Seu tratamento impõe inúmeras dificuldades não catalogadas no conjunto do que meramente é chamado de “lixo familiar”.

Aterros sanitários construídos em Roma há mais de 2000 anos ainda produzem lixiviado, assim como os aterros sem revestimento num clima bastante úmido conterão perigosos elementos químicos, acima dos padrões aceitáveis para o consumo de água, por algumas centenas de anos. A intromissão nos aterros sanitários de componentes de alta toxicidade é acontecimento da história recente (falamos da Revolução Industrial). O fato de a Roma imperial continuar a exalar o gás de seus lixiviados é uma advertência ao que hoje temos como comum a partir da decomposição dos resíduos sólidos retirados de nossa mais cotidiana existência. Lá os produtos sintéticos ainda não existiam, enquanto para nós quase nada do que consumimos deixa de estar amarrado, embrulhado, envolvido em algum produto desta espécie.
Quando falamos dos resíduos sólidos produzidos dentro dos grupos familiares, a mera distinção entre “industrial”, “doméstico”, “farmacêutico”, não é suficiente para dar conta dos componentes tóxicos da degradação destes resíduos em sua forma líquida, o lixiviado. O fenômeno urbanístico caracterizado como “explosão demográfica da Baixada” (Abreu, 2011) resultou do crescimento no número de loteamentos desta região em taxas elevadíssimas, em muitos casos superiores a 140%, por mais de três décadas. A abertura da rodovia Presidente Dutra, os incentivos fiscais concedidos pelo antigo Estado do Rio com o objetivo de reverter a queda das receitas tributárias ocasionadas pela crise da citricultura e a eletrificação dos trens que seguiam até Queimados e Paracambi ou da Linha Auxiliar até Belford Roxo, contribuíram para a rápida propagação do povoamento da região metropolitana do Rio de Janeiro, para além dos limites estabelecidos das regiões da Pavuna e Anchieta.

Coevo do fenômeno de povoamento da Baixada Fluminense, a problemática caracterizada pela geografia urbana carioca de “verticalização da Zona Sul” foi a resposta da empresa imobiliária à Lei da Usura, da década de 1930, que “impedia o reajustamento de prestações e saldos devedores em contratos de financiamento”, e ao congelamento dos aluguéis também decretado pelo Governo, o que representou “um desestímulo a mais à compra de habitações para renda” (Abreu, 2011). A saída para o impasse não necessitou a extrapolação dos rígidos limites legais, pois a lei federal determinava o que um apartamento ou casa deveria ter, mas não previa áreas nem formas. O raciocínio econômico que levou à verticalização da Zona Sul carioca, baseada no modelo de apartamentos quarto-e-sala e conjugados, é simples: poderiam vender imóveis que atenderiam nos valores às determinações da legislação, enquanto majoravam os lucros do empreendimento com o incremento da oferta quantitativa de unidades à venda.
Ainda que não necessitemos nos deter neles, ainda há outros fenômenos urbanos correlatos aos dois acima expostos. A favelização da zona da Leopoldina e de suas proximidades, também reflexo da expansão demográfica e da questão de como os empregos eram criados à época (mais serviços e comércio, menos indústria), assim como o crescimento de importância de áreas suburbanas como Madureira, atendendo às demandas dos núcleos urbanos recém criados (na área metropolitana, distante do centro), são exemplos do que o pesquisador encontrará nos aterros sanitários cariocas, precisamente o que os distingue quando consideramos pesquisas em aterros sanitários primordialmente de países desenvolvidos ou com grau elevado de industrialização, como a China.

O processo de expansão urbana do Rio de Janeiro evidencia o aumento da densidade demográfica da região baseado na lógica da especulação imobiliária ou na necessidade do Estado de criar novas fontes de renda por meio do loteamento das terras próximas à nova Rodovia Rio-São Paulo. A divisão e cerceamento do território na Baixada Fluminense é simulado pela proliferação de apartamentos de pouca metragem na zona sul carioca. Os incentivos fiscais para o estabelecimento de indústrias ao longo da rodovia Presidente Dutra é um processo interrompido com a paulatina perda de importância do Rio de Janeiro no cenário nacional (construção de Brasília), assim como pelo estabelecimento do governo autoritário que preferencialmente abonava indústrias estrangeiras produtora de bens de consumo de alto valor agregado, em detrimento do subsídio à indústria nacional. Como resultado, temos altas percentagens da população vivendo em condições rurais ou semi-rurais, suburbanas no sentido em que não recebem as benesses das melhorias públicas implantadas pelo Estado, tampouco usufruem das elevadas remunerações dos trabalhadores mais qualificados do setor industrial, e que por isso possuem um perfil de consumo diametralmente oposto ao das zonas altamente industrializadas do planeta.

Os resíduos sólidos e o lixiviado do Aterro Controlado Metropolitano de Jardim Gramacho devem ser abordados em qualquer pesquisa a partir desta perspectiva. Portanto, a problemática dos desreguladores endócrinos aparece ainda mais evidenciada nestas condições devido ao perfil de consumo das famílias e, de um modo geral, ao tipo de expansão urbana carioca experimentada na metade do século passado. Caso nos debrucemos exclusivamente sobre os perigos dos resíduos sólidos domésticos, das contaminações encontradas nos lixiviados no aterro sanitário de Jardim Gramacho, o foco nos desreguladores endócrinos é ainda mais saliente. Ao contrário das análises dos aterros municipais realizadas em países com processos de industrialização mais complexos do que o nosso, os desreguladores em ambientes como o nosso são de vital importância, tendo em vista a gama de produtos sintéticos consumidos por todos os tipos de famílias, mas principalmente as de renda menos elevada.
O paralelo com a toxicidade dos aterros construídos na Antiguidade, na Roma imperial, em níveis considerados elevados até os dias de hoje, mostra apenas uma face dos desafios impostos por quem se ocupa da toxicidade produzida pelo lixiviado do aterro municipal de Gramacho. Não tanto pela ampla variedade de materiais novos produzidos pela sociedade com o advento da Revolução Industrial no que concerne ao uso de metais pesados e componentes químicos, mas pelo advento mais recente de produtos sintéticos, cuja capacidade de incorporação ao consumo doméstico em todos os extratos da sociedade é ainda mais forte. O aterro sanitário de Jardim Gramacho, com suas atividades encerradas no ano de 2012, experimentou em seu período de funcionamento pouco contato com a atual expansão de consumo das classes menos abastadas, ou seja, no que isso se reflete no descarte de aparelhos eletrodomésticos e eletroportáteis, assim como no incremento do consumo doméstico de produtos farmacológicos, resultado da expansão da rede farmacêutica ainda na década de 1990 e da proliferação das farmácias populares nos últimos dez anos. Portanto, o foco, tratando-se do aterro de Gramacho, é nos produtos sintéticos e químicos de ampla circulação entre a população, com resultados evidentes na problemática dos desreguladores endócrinos.

Fora da faixa de alto consumo da exígua classe abastada carioca, encontramos muitas Baixadas num Rio não tão caudaloso, pois não soube dar curso apropriado ao seu desenvolvimento industrial – único vetor para a mudança de sua paisagem urbana em amplo espectro, na produção de uma burguesia nacional consolidada e de elevado padrão de vida. Este, ao contrário, é o legado dos países cujo surto industrializante soube beneficiar sua população de um modo geral. Contudo, a questão do tratamento do lixiviado, da presença ou não de desreguladores endócrinos mesmo após a passagem pelas etapas de tratamento, tem a capacidade de reverter à população um tipo específico de malefício. É que nos limites do Rio encontra-se a Baía, receptora de todos os poluentes e tóxicos para a saúde humana resultantes de um tratamento não adequado durante sua estadia no aterro sanitário.


REFERÊNCIAS

ABREU, M. A., Evolução Urbana do Rio de Janeiro, Instituto Pereira Passos, pp.126- 129, Rio de Janeiro, 2011.
SLACK, R. J., GRONOW, J.R., VOULVOULIS, N., Household hazardous waste in municipal landfills: contaminants in leachate, Science of The Total Environment, v. 337, pp.119–137, 2005. 



OLIVEIRA, Lays Rodrigues Santos de. Avaliação da toxicidade aguda do lixiviado tratado pelos processos de wetland e nanofiltração. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Engenharia: 2014. 

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I: “Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg”

Michel Foucault e Benedito Nunes na praia do Marahú – Belém, 1970. Será que ali discutiam Kant? Ou foi por inpiração do “velho chinês” que Foucault foi parar na praia do Marahu?

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I
Por Rogério Mattos: rogerio_mattos@hotmail.com
Essa série, Antropologias foucaultianas, se destina à discussão depossíveis leituras foucaultianas, desde a tradição filosófica até a história da arte, da historiografia e, mesmo, da própria história das leituras que se fizeram de Foucault, com destaque para o “Foucault leitor de Foucault”, como nomeou Roger Chartier. Nessa primeira parte, utilizando de fontes primárias da época da auge da chamada “ideologia alemã”, questionaremos: como se libertar do “velho chinês” de Königsberg, a suposta bela alma, Kant?

Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg

Escrevo essas palavras para levantar, por parte dos meus leitores, indagações sobre leituras que “casam” com os conceitos de Foucault. Por exemplo, escuto muito falar de Peter Sloterdijk, a “Crítica da razão cínica”, mas ainda assim não me empolgo para sua leitura, por ter me parecido um autor muito influenciado por Heidegger, Hegel, etc., (o que talvez barbaramente podemos chamar de “ideologia alemã”, ou seja, o que de pior a Alemanha produziu em termos de filosofia, a começar por Kant). Claro que não falo de Nietzsche, que é alguém que pensa “de fora” (como Foucault fala sobre Blanchot), e que não é muito diferente da História da religião e da filosofia na Alemanha, do excelente Heinrich Heine que, em sua excelente História da religião e da filosofia na Alemanha, diz: “Afastem-se, espíritos! Pois falo agora de um homem cujo próprio nome carrega consigo um poder de exorcismo; falo de Immanuel Kant. Dizem que espíritos da noite se alarmam com a visão da espada de um executor. – Com que terror eles não devem ter ficado quando a Crítica da Razão Pura foi colocada diante deles. Esse livro é a espada com que o deísmo foi executado na Alemanha1”. Depois disso, faço um breve recorte e anotações das palavras de Heine, quase um exilado na França (escreve para periódicos franceses na língua para ele estrangeira), um crítico feroz da falta de liberdade que assolou o país desde Kant, pelo menos, e que chega aos cumes na época de Hegel (que adorou esse estado), e nos sofrimentos, por exemplo, do gênio da matemática, Carl Gauss, na publicação de suas descobertas e escritos…

A Crítica da Razão Pura, como eu disse, é a principal obra de Kant, ao passo que seus outros escritos podem ser vistos como mais ou menos dispensáveis ou, no máximo, como anotações. A importância social de sua principal obra irá se tornar aparente no que se segue.

Os filósofos antes de Kant pensaram, isso é fato, sobre a origem de nosso conhecimento e, como já demonstramos, seguiram duas trajetórias distintas, dependendo de se aceitavam ideias a priori ou a posteriori. Entretanto, houve menos pensamento a respeito da faculdade de conhecimento em si, sobre sua extensão ou sobre seus limites. Essa, então, tornou-se a tarefa de Kant: ele submeteu nossa faculdade de conhecimento a uma investigação rigorosa; examinou todas as profundezas dessa faculdade e estabeleceu seus limites. A bem da verdade, descobriu que não somos capazes de saber absolutamente nada a respeito de um grande número de temas que antes pensávamos conhecer de maneira mais profunda. Isso foi extremamente cansativo. Mas é inegável que tenha sido útil saber sobre quais das coisas que existem não podemos ter conhecimento algum. É tão vantajoso o fato de nos prevenirem a respeito dos caminhos inúteis como o de nos mostrarem o caminho correto. Kant nos provou que nada sabemos a respeito das coisas do modo como elas são em si mesmas; em vez disso, nós as conhecemos apenas na extensão em que elas são refletidas em nossa mente. Sendo assim, somos exatamente como os prisioneiros de que Platão fala de modo tão sombrio no sétimo livro de sua República: aqueles infelizes, amarrados pela garganta e pelos pés para não conseguirem virar suas cabeças, sentados em uma prisão com uma abertura no alto, de onde recebem uma certa luz. Essa luz, porém, vem de um fogo que queima atrás e em cima deles, e que, além disso, está separado dlees por um prqueno muro. Pessoas que carregavam todo tipo de estátuas e imagens de madeira e pedra andam ao longo desse muro, conversando uns com os outros . Os pobres prisioneiros não conseguem ver nada dessas pessoas, que não são tão altas quanto o muro. Eles veem apenas as sombras das estátuas que as pessoas carregam, que ficam visiveis acima do muro, e essas sombras andam para cá e para lá na parede à frente deles. Eles acreditam que essas sombras são coisas reais e, enganados pelo eco de sua prisão, acreditam que são as sombras que conversam umas com as outras.

A filosofia antes do aparecimento de Kant, vinha farejando coisas por todo o lado, coletando e classificando suas características. Com Kant, isso teve um fim, pois ele conduziu uma investigação da mente humana e examinou o que era revelado por ela. Como consequência, ele comparou sua filosofia, de maneira justíssima, ao método de Copérnico. Antes, quando se acreditava que o mundo se mantinha imóvel e se pressupunha que o Sol girava em torno dele, as medições astronômicas não eram especialmente congruentes. Copérnico tornou o Sol imóvel e fez a Terra orbitar em torno dele; e, olhe, agora tudo se resolvia de maneira esplêndida. Antes, a razão, como o Sol, orbitava o mundo das aparências e buscava iluminá-lo; Kant, porém, manteve a razão, o Sol, imóvel e fez o mundo das aparências orbitar a seu redor e se iluminar sempre que entrasse em seu domínio.2


Isso, na verdade, porde ser chamada de uma piada culta. A filosofia de Kant é a luz do sol, foco imóvel que ilumina a Terra, ou seja, o mundo das aparências. A única coisa que existe de verdadeira é essa luz da razão, a luz do prórpio Kant, em suma. Por isso, na filosofia kantiana, habitamos a caverna de Platão: “Só podemos conhecer algo sobre as coisas como fenômenos; não podemos saber nada delas como coisas em si. Estas são simplesmente problemáticas; não podemos dizer ‘elas existem’, tampouco ‘elas não existem’. Na verdade, a expressão ‘coisa em si’ é diferenciada da palavra ‘fenômeno’ apenas para que possamos falar de coisas porquanto nos sejam conhecíveis, sem que nosso juízo esbarre nas que são incognoscíveis3”. Não é por outro motivo que os cálculos de Kepler sobre a órbita solar foram os únicos planamente satisfatórios para a época. Copérnico, como tantos outros, vendo os astros se moverem de modo circular, poderia colocar até a lua como centro do sistema, que ele não seria alterado. Logo,

Para Kant, Deus é uma coisa em si. Segundo sua argumentação, o ser ideal e transcedente que, até então, chamamos Deus, não é nada além de ficção. Ele surgiu de uma ilusão natural. Na verdade, Kant mostra que não podemos saber nada dessa coisa em si, Deus; além disso, qualquer prova futura de sua existência é impossível. Somos forçados a escrever as palavras de Dante, “Abandonai toda a esperança!”, sobre essa seção de Crítica da Razão Pura4.

Kant é comparado por Heine a Robespierre. Este, um assassino, aparentemente nada tem a ver com um pacato professor universitário, mais pontual que o próprio relógio da província onde morava (diziam que o relógio era corrigido de acordo com as horas que Kant passava na rua – de fato, era ele quem estava sempre certo). Mas, como grande iconoclasta (“grande destruidor na esfera do pensamento”), teve suas similaridades – e algumas diferenças – com o líder do Terror.

No entanto, se Immanuel Kant, o grande destruidor na esfera do pensamento, ultrapassa de longe Maximilien Robespierre no quesito terrorismo, ambos, por outro lado, tinham certas similaridades, que nos convidam a compará-los. Em primeiro lugar, encontramos nos dois a mesma honestidade inflexível, mordaz, prosaica e objetiva. Em segundo, vemos em ambos a mesma aptidão para a desconfiança, exceto pelo fato de o primeiro aplicá-la sobre o pensamento e chamá-la de criticismo, ao passo que o segundo a utiliza contra as pessoas e a chama de virtude republicana. Ainda assim, ambos revelam no mais elevado grau a espécie do petit-burgeois – a natureza os havia destinado a medir café e açúcar, mas o destino os forçou a pesar outras coisas, e pôs um Deus e um Rei, respectivamente, em suas escalas…
E eles encontraram seu verdadeiro peso!5


Algo relativamente marginal na obra de Foucault, a preocupação com a filosofia aristotélica, aparece de maneira bem desenvolvida em sua genealogia no primeiro ano de curso no Collège de France, no volume entitulado Aulas sobre a vontade de saber. Fazemos alusão ao curso pela alusão algo rara entre Aristóteles e Nietzsche. Falemos do primeiro antes de chegarmos ao outro.

Texto muito conhecido, muito banal e que a localização nas linhas iniciais da Metafísica parece manter na margem da obra: “Todos os homens têm, por naureza, o desejo de conhecer; o prazer causado pelas sensações é prova disso, pois, além de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as sensações visuais”6.


Aqui começam a se estabelecer as premissas do contentamento do homem sábio. O saber encarado como algo se não totalmente corporal, pelo menos com origem no corpo, nas sensações. Seu pendor intelectual se ampara nas sensações visuais, mas de um modo tal que “imediatamente o corpo, o desejo são elididos; o movimento que no próprio nível raso da sensação leva rumo ao grande conhecimento sereno e incorporal das causas, esse movimento já é, em si mesmo, vontade obscura de alcançar essa sabedoria, esse movimento7”. Logo, conhecimento que nasce de um instinto, de uma motivação puramente corporal, cujo objetivo é o gozo (mas “sublimado”, intelectualizado) e que, assim, solapa o próprio corpo e seus desejos no cadafalso da comtemplação e das puras teorias. “Sua função é assegurar também que, apesar da aparência, o desejo não é nem anterior nem exterior ao conhecimento, visto que um conhecimento sem desejo, um conhecimento feliz e de pura contemplação já é, em si mesmo, a causa desse desejo de conhecer que tremula nos simples contentamento da sensação8”. Por isso, “o escândalo que há em recolocar a vontade e o desejo fora da consciência, como fizeram Nietzsche ou Freud9”.

Nietzsche vai colocar toda essa verdade apoiada na consciência, já presente na forma mais elementar da sensação – o contentamento com si mesmo – como algo ilusório. “A vontade é aquilo que diz com voz dupla e superposta: quero tanto a verdade que não quero conhecer e quero conhecer até o ponto e até um limite tal que quero que não haja mais verdade. A vontade de poder é o ponto de ruptura em que verdade e conhecimento se desatam e se destroçam mutuamente”. Palavras fundamentais. Toda vontade de saber não é a busca pelo contentamento com um teoria pura. Vontade de saber é, antes, vontade de poder. Para tanto, a verdade deve ser irremediavelmente separada do conhecimento. A verdade não opera nos cinco sentidos do animal aristotélico. Por isso a vontade de poder é um ponto de ruptura, que opera tanto “o grande nojo do homem” de Zaratustra quando este deve voltar à planície, como também a sensação de escalar alturas imensas, fazendo cobrir suas orelhas de chumbo: quanto mais ao alto, mais próximo a queda trágica. Vertigens.
Uma nota curiosa desse texto de Foucault, relativamente raro, sobre Aristóteles (e que tenta situá-lo na história da filosofia, com Platão, sofistas, mas também com o saber dos poetas antigos como dos trágicos – trilhas de Os mestres da verdade da Grécia arcaica), é que coloca-o como uma exceção à filosofia antiga. Como exceção, seus textos são os mais próximos dos modernos: o sujeito do puro conhecimento, como em Descartes, como no próprio Kant, refazem, na modernidade, a diferença que constituiu Aristóteles para os outros gregos.
Conclusão:

Deleuze foi bem sábio quando disse (em Nietzsche e a filosofia) que se houve alguém que Nietzsche lutou contra durante toda sua vida, ainda que sejam muito poucas as referências explícitas e qualquer de seus textos, esse alguém foi Hegel. Não poderia o filósofo da afirmação se conformar com o da negação. E é esse mesmo espírito anti-negacionista, afirmativo da vida, que faz Heine criticar de maneira até satírica, humorística, os sábios de seu tempo, de Kant a Hegel. A Alemanha teve o dom de fazer renascer a filosofia (tem uma coisa muito socrática, até mesmo “anti-sofística” e anti-aristotélica nos escritos de Lutero, que quase podemos colocá-lo – além de certos escrúpulos religiosos – como alguém que iniciou esse processo, mas que teve um desenvolvimento notável com Leibniz e, a partir desse, com toda uma escola que veio a fundar a física moderna, com Gauss, Riemann, Abel, até os tempos de Planck e Einstein), mas que também foi sua tumba, onde se enterrou, com a suposta “ideologia alemã”, com suas influências britânicas principalmente, o lugar que parecia ter sido criado como uma espécie de nova Grécia. Como disse, ainda, Heine, em seu Poemas dos tempos:

Ribombe o tambor e não tenha medo
E beije a mulher boateira!
Essa é toda a filosofia
É o que dizem de verdade os livros.
Desperte o povo com seu tambor
Ribombe o toque de alvorada com a força da juventude,
Marche adiante e adiante, ribombando seu tambor,
Essa é toda filosofia.
Essa é a filosofia hegeliana,
É o que dizem os livros.
Eu entendi porque sou brulhante,
E porque sei ribombar tambor como ninguém.

Bom, voltando ao tema de se achar boas “leituras foucaultianas”, penso que, ao invés de querer achar um livro pronto, acabado, dá para se desenvolver várias linhas de pesquis, como se vê no “Foucault leitor de Foucault” (artigo do Roger Chartier publicado no livro À beira da falésia), do que, por outro lado, na publicação francesa recente, “Foucault contra Foucault” (Foucault against himself, na publicação em inglês). Devo escrever pra esses dias um texto sobre esse “confronto” aqui no blog.
Do meu ponto de vista, se fosse para dar apenas uma opção (e é o que me pedem e ficamos sempre nessas limitações de tantas referências, mas às vezes tão poucas), o que considero fundamental é a leitura do Mestres da Verdade, do Marcel Detienne, e depois sua releitura do mesmo livro no Os gregos e nós. Ele fala ali do Foucault, faz uma crítica bem contundente, do ponto de vista da antropologia, ao Heidegger, e talvez seja a chave para o que o Foucault chamou nos últimos cursos dele de “aleturgia” ou modelos de veridicção. Se não é uma “chave”, com certeza é uma porta que leva a lugares bem interessantes.
Sobre o cinismo propriamente – esse é um tema definitivamente popular -, gosto muito das leituras do Walter Benjamin feitas pelo Georges Didi-Huberman, numa série de livros, mas principalmente nos 6 volumes (não tão grandes, apenas o último é um pouco maior), de uma série chamada L’oeil de l’histoire. Mas acompanho os livros dele desde que escreveu sobre a Salpetrière e sobre Fra Angelico. Baudelaire, Benjamin e Didi-Huberman, eu considero bastante em relação aos estudos sobre o cinismo, mas também especificamente no que Foucault escreveu sobre a arte moderna, como com Manet ou Magritte.
Tem também alguns livros “de situação”, sobre o contexto intelectual da época de Foucault. Gosto de aconselhar não só o livro do François Disse, a biografia dele sobre o Guattari e o Deleuze, mas como complemento, o From Revolution to Ethics, do Julian Bourg, e o After the Deluge, do Dosse e o Bourg. Sem contar o livro indispensável, o “Foucault”, do Deleuze, que provavelmente todos devem conhecer.
É isso. tem um nexo com a historiografia (principalmente a antropologia histórica, a chamada terceira geração dos Annales), com a história das ciências também (aí entraria o Canguilhem, o Koyré, etc., mas isso eu ainda não tenho muitas leituras), com a própria filosofia – claro – e com uma vertente mais literária, a do Bataille, Blanchot, etc. Grosseiramente, quase, é isso. É porque é um mundo de leituras e fica difícil apontar um ou dois. Seria isso, no caso, o Didi-Huberman e o Marcel Detienne (que passaria pelo Levi-Strauss das Mitológicas). Uma opção, claro (dentre tantas), estritamente pessoal.
Tudo isso deve ser desenvolvido ainda em pelo menos duas publicações futuras. A aguardar.


FONTES
1HEINE, Heinrich. História da religião e da filosofia na Alemanha e outros escritos. São Paulo: Madras, 2010, p. 131.
2Idem, p. 135-6.
3Idem, p. 136.
4Idem, p. 137.
5Idem, p. 132.
6FOUCAULT, Michel. Aulas sobre a vontade de saber. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014, p. 6.
7Idem, p. 13.
8Idem, p. 14.

9Idem, p. 17.

Sobre a guerra que se aproxima 2 – Um Pearl Harbor cibernético

Os idiotas pensam que nazismo e guerra mundial é coisa de alemão…
A histeria que fez criar um novo tipo de macartismo, as perseguições a líderes progressistas na América do Sul e na Europa, a demonização da figura de Putin… São processos de longo curso, com muitas variáveis, mas que apontam para o perigo iminente de guerra. Eu pude escrever um texto relativamente longo sobre o assunto ainda no começo do ano passado (que pode ser acessado aqui). Com a eleição de Trump, por incrível que possa parecer à primeira vista, os rumores de guerra parecem ter diminuído. Sempre afirmou como algo positivo a reaproximação entre russos e americanos. O problema de você não ter nenhuma linha de diálogo entre os dois países é o que faz dizerem que podemos estar numa situação ainda pior do que durante a Crise dos Misses. Claro, a falta de diálogo associada a um aumento exponencial das tropas ocidentais na fronteira russa, mas também no Mar da China.
De um modo geral, não sabemos quais os limites da vontade de Trump de se aproximar dos Russos ou até que ponto pode resistir às pressões. O certo é que Obama mandou o U.S.S Carl Vinson, um submarino de alta capacidade nuclear, para o Pacífico. Chegará no Mar da China no dia da posse de Trump… Os neocons irão levar o mundo a esse precipício? Um nova guerra fria com certeza já está instalada, e “super quente”, até porque silenciosa – para quem nada quer ouvir. Como diz Giulietto Chiesa, “siamo in presenza di decisioni che la Nato sta prendendo nell’imminenza di un cambio di direzione politica degli Stati Uniti d’America: cioè, per dirla chiaramente, ci sono forze nella Nato e negli stessi Usa che tendono a predefinire le condizioni in cui dovrà agire il presidente Trump. E questo è molto, molto preoccupante”. A OTAN está por definir a política dos EUA e não o contrário. Os neocons, os ultras de todos os matizes, se utilizando do controle que detém sobre o aparato militar de maior envergadura no ocidente, podem prescindir de maiores controles sobre o poder executivo norte-americano e, por pressões, ou seja, por meios indiretos, e mesmo por ameaças diretas (como o destacamento de tropas e submarinos nucleares).
Chiesa ressalta que 2,5 mil tanques e outros transportes e materiais bélicos estão no que Stephen Cohen chama de Suwalki Gap, a fronteira milimétrica que separa os países dos Bálticos da fronteira russa. Só do lado americano, o grupo de brigada de tanques da quarta divisão do exército norte-americano conta com 3,5 mil efetivos, 87 tanques, 18 obuses autopropulsados Paladin, 144 veículos de combate de infantaria e mais de 400 veículos Humwee. E isso, claro, não deixa de ser estimativas conservadoras, por considerar apenas o que os EUA colocaram por si só – e isso apenas nos Bálticos.
No blog O Cafezinho, um panorama pouco digerível do tema: 

O fato é que essa situação pode levar a um confronto entre nações dotadas de um arsenal nuclear muito mais potente do que o usado pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki. As mensagens de militares ocidentais de que a Rússia está se preparando para a guerra, ao mesmo tempo que a OTAN envia tropas para os Países Bálticos, na fronteira russa, mostra o nível de nervosismo entre os dois blocos. Rússia, China e Irã continuam sendo constantemente provocadas pelos americanos e pela OTAN, seja na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na violação do espaço aéreo e marítimo iranianos.

O secretário de Defesa de Trump (o presidente imprevisível) é bem dúbio sobre o tema. Acusa Putin de tentar romper a OTAN. É uma afirmativa complicada para alguém que vai ocupar um cargo de tamanha importância. O que o presidente russo sempre destaca é que a OTAN não respeita a soberania dos países que não fazem parte da instituição. A multiplicação do aparato militar no oriente aponta para um nível de insegurança jurídica anterior aos do acordo de Ialta. Isso é muito grave, como se pode perceber. Mostra-se preocupado também com os supostos ataques cibernéticos russos contra os EUA. John Batchelor criou uma expressão bem interessante para a histeria coletiva criada com as acusações sem qualquer fundamento (não apresentam um mínimo de provas, somente a tosca afirmação de que Trump teria participado de uma orgia na Rússia e que os agentes desse país teriam fotos que usariam para chantagear o presidente eleito): a expressão é Cyber Pearl Harbor. Acho que por aí não temos mais nenhuma palavra a adicionar…
(vale a pena, nesse último link, ouvir o programa de John Batchelor com o professor Cohen)
Por incrível que pareça, seu coxinha ignorante, a segurança planetária, hoje, depende muito mais desses dois aí do que da camarilha no poder nos EUA e na UE.
É risível a acusação contra Trump. Se coisas como essa podem ter algum efeito, o que falar do Pizzagate?, algo completamente bizarro, ainda que não sem algum fundamento… Preocupante é o papel dos EUA, da Alemanha em dar apoio às tropas nos Bálticos, as mobilizações no Mar da China, a ridícula posição do ocidente pró-terrorismo (os chamados “rebeldes moderados”, fora a criação ocidental do ISIS). Preocupante é a questão econômica (logo, social) que atravessa todo o ocidente, o chamado setor transatlântico da economia mundial. Bancos insolventes por toda a Europa. Ah!, mas vão dizer: esse é o caso da Itália, onde querem implantar o ball-in de maneira ostensiva (o uso da poupança e de pequenos e médios investimentos do cidadão médio para cobrir os gastos do setor financeiro com derivativos). A Itália é o caso número um de próxima saída do sistema euro, com bancos insolventes e com a população (como no último referendo) literalmente de saco cheio de mais medidas de austeridade. Com o fracasso grego não se estabilizou de maneira alguma os planos da Troika. A queda agora, caso a Itália siga em frente em sua espiral de crise, promete uma derrubada ainda maior ao status do eurogrupo, praticamente um golpe de morte nesse paradigma, que tentou forçar uma união política via união monetária, promovendo uma nova colonização das economias periféricas. A morte do euro parece já decretada. Falta marcar a data de seu tribunal (não podemos esquecer, nesse caso, do sepultamento de Michel Jackson: quanto tempo pode durar da morte física até à descida do caixão?, são esses o momentos que aguardamos).

Ver, para quem tiver maior interesse, o texto que traduzi de Helga Zepp-LaRouche (há alguns bons posts sobre a sr. Rota da Seda, como é chamada na China), um réquiem para a política dos tecnocratas atlanticistas. Podem clicar aqui.

Ver também o artigo detalhado da situação italiana escrito por Claudio Celani na última edição da Executive Intelligence Review. Podem clicar aqui.

O projeto da Nova Rota da Seda (um vídeo completo, de quase 30 minutos, brevemente será lançado por mim nesse blog, com as legendas). Por enquanto, indico o curto vídeo que legendei, mas bom o suficiente para entender quais alternativas temos contra as armas da geopolítica e ao caos e à histeria do neomacartismo que hoje os ultras, os neocons, tucanos e demais degenerados de toda as espécies estão lançando no mundo. Esse vídeo mostra, sob determinada perspectiva, o porque a segurança planetária (como disse na legenda da foto acima) está mais nas mãos de Putin e do presidente Xi do que dos bárbaros ocidentais.

Enquanto isso, a CIA adverte Trump das dificuldades que terá de enfrentar dentro dos EUA para normalizar as relações com a Rússia, talvez mesmo de criar novamente um canal formal de comunicação, esfacelado depois da vitória síria-Russa contra o ISIS. Na TV russa, a guerra é iminente. Podem criticar os russos por estarem reeditando comportamentos atávicos de sua cultura, vindos da época da guerra fria oficial, mas essa guerra fria não oficial é cada vez mais quente do que a de décadas atrás. Por que não estaríamos nos aproximando, com a retórica dos ultras cada vez mais virulenta (como aqui no Brasil com os consortes de Sérgio Moro), de um inverno nuclear? Quem tenha a capacidade suficiente que responda.

Para não dizer que não falei das flores, da alegria – na verdade do trágico-cômico da situação atual – vemos o militante anti-impeachment e seu grupo fazendo propaganda para os ultras paneleiros daqui, os amantes de Moro, os verde-amarelistas. Coisa ridícula! É para rir de desprezo, para gargalhar com ódio. Coisa nefasta! Cidadãos que não conhecem o assassino das terças-feiras e acha que política é simplesmente coisa de “se colocar bom senso”. Vamos lembrar o Gilles Deleuze do Diferença e Repetição: os dois enganos da filosofia tradicional, kantiana, cartesiana, hegeliana e por aí vai: se mover sempre no circuito do bom senso e do sendo comum. E discutir se fulano é “hegeliano” de esquerda ou de direita (“hegeliano é o caralho!, como podemos falar no bom português). Pouco importa, em suma. Conheça seu inimigo: essas são as palavras para não se produzir toneladas de baboseira, mesmo que com as maiores das melhores intenções comerciais… Sem mais palavras:

Para quem quiser saber um pouco mais dessa tensa atmosfera internacional, pode ir até minha publicação sobre o Cabral. É de racismo sempre que se fala, e de genocídio, seu estúpido! Por isso a guerra, cada vez mais, se aproxima.

A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad

Quando se fala de um “estado jurídico do nazismo” este estado é o chamado “de exceção”, e seu teórico, Carl Smith. Como se sabe, o nazismo não foi só um movimento político, mas conjugou um projeto econômico, leis específicas, um regime médico e policial, além de ter seus parâmetros estéticos próprios. Contudo, o que não faltam são histórias do nazismo, porém não consta o que foi a sua geografia. O nazismo foi um movimento que precedeu a Hitler e continuou depois de falhar na Alemanha. O projeto econômico e político atrelado ao ativismo judiciário atual, com estreita vinculação ao Departamento de Justiça norte-americano, torna premente a necessidade de se conhecer a geografia nazi. Os arbítrios cometidos sob o que se chama “lawfare” nos remete não à uma suposta “pós-modernidade”, a um regime de “pós-verdade”, mas ao que se conhece por Operação Condor e, mais ainda, à colônia nazista La Dignidad.

Continue lendo “A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad”

O tema e o tom do Camões de José Saramago

O mercado editorial não é o campo de flores dos “campeões de venda”, como a Companhia das Letras. É uma mercado sombrio, como o as brumas do Porto como descrita por Saramago, quando faz reviver Camões em sua peça teatral. Na foto, o mínimo cuidado editorial, com as ilustrações de Günter Grass, até para compensar, visualmente, os apelos para a venda de um livro incompleto (Alabardas!). Não tem café grátis e, no dia a dia, só mediocridade, como descrito na crítica ao projeto gráfico da imperial Companhia editorial brasileira.

O Império suposto responsável por fazer de Camões um maneirista ao invés de um classicista, tinge com as mesmas cores melancólicas obras brilhantes de autores contemporâneos. No caso, Saramago, reeditando a partir da figura de Camões o furor heroico de Heitor, na mais exata acepção grega de acordo com a leitura renascentista, como atesta Giordano Bruno, tenta restabelecer as bases legítimas da guerra, ao contrário da fúria aquilina, do auto-amor magoado, do sujeito vingativo, do agente imperial capaz de cometer todas e quaisquer sandices, como Homero retratou com a descrição do lamentável funeral de Pátroclo.
A caixa de fundo falso que é a Companhia das Letras, repetindo paradigmas filosóficos-editoriais-mercadológicos que ecoam práticas do século das Luzes, como a caixa de fundo falso montada por Joseph de Maistre em seu Elogio ao Executor, mostra claramente as diferenças da civilização heroica do Renascimento, fundamentalmente mediterrânico, contra os prejuízos da hipotética ilustração dos países da civilização científica banhados pelo Mar do Norte.
No mais, fazemos às vezes do dr. Challenge (para mim, na humilde tradução, o dr. Charada), de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no Mil Platôs. Confundimos os estratos, os tempos verbais, as camadas geológicas que formam o substrato da história terrestre. Nada mais atual do que os arcaísmos, como na arqueologia foucaultiana, na história da arte de Didi-Huberman, ou pelo amor ambivalente do historiador pelo passado. Qual seria, hoje, a cidade do Porto que José Saramago quis reescrever?



O tema e o tom do Camões de José Saramago
Um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto não se divisasse, como de costume, as naus; muito menos suas longas velas, brancas, porém que antes serviam como se fossem a bandeira nacional, como se estandartes da antiga gloria lusitana no mundo. Não que faltassem velas ou barcos, o porto estava movimentado como de costume. Contudo, tampouco pessoas podiam ser vistas como normalmente as vemos. O cheiro da canela, da pimenta, a voz dos marinheiros embriagados confundida com a gritaria dos vendedores que se apinhavam no ponto nodal da cidade, tudo isso parecia também imerso em trevas, na treva cinzenta que se apoderava naquela manhã da cidade do Porto. Um retrato mudo como mudos foram todos os retratos que os antigos se acostumaram a admirar, sem cinema, sem o domínio da reprodução eletrônica do som, sem a eloqüente figuração de personagens e eventos nas páginas dos romances modernos. Naquele momento em Portugal, somente silêncio e versos, versos ainda menos inteligíveis do que o inexpressivo burburinho do porto frente à névoa cinzenta, versos heróicos e bravos que são ainda maiores e mais altos do que a eloqüência humana frente a vitória lusitana nos tempos passados. Versos heróicos não como os do velho Camões, mas versos líricos acompanhados da mais profunda solitude, como vivenciou com grandeza o velho Camões. Por isso, um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto…
O tema da capa do livro de José Saramago, Que farei com este livro?, é ainda mais enigmático do que imaginar uma cidade do Porto coberta de névoa pesada, cinzenta, pois nada diz e, portanto, pode dizer qualquer coisa. A capa do livro editado pela Companhia das Letras pode servir para qualquer outro livro de Saramago, como a qualquer outro autor de qualquer área do conhecimento. É do tipo de arte abstrata como incentivada por Rockfeller, Fundação Ford e outros think-thanksdurante o período conhecido como Guerra Fria cultural. Esse tipo de arte, não metafórica, nos conduz não apenas à simplicidade expressiva de sociedades consideradas menos evoluídas (quanto a esse tipo de “pensamento primitivo”, foi trabalho feito por Levi-Strauss durante toda sua vida em demonstrar a complexidade estética, religiosa e lingüística dessas sociedades), mas ao que se entende por desvio de foco. O mal não se encontra em deliberadamente, conscientemente, fazê-lo; antes, o próprio fato de não conscientemente, voluntariamente, fazer o bem, deixando as “coisas correrem” ou ser indiferente ao potencial de bem que posemos alcançar, por si só já é o início do mal. Portanto, quando deliberadamente se escolhe por um bem menor, ou por uma fórmula expressiva que não remete à complexidade da mentalidade humana, ou seja, a potencialidade da ação humana sobre o mundo, ainda que esta arte não seja em si má, é uma operação que encobre todo o bem potencial a ser realizado. No caso do livro, nada em seu exterior, muito menos em seu tratamento editorial, remete à metáfora produzida por Saramago ao falar através de Camões, talcomo Kepler fez em sua hipótese vicária ao falar como se fosse umantigo, porém para esgotar suas limitações e trazer a descoberta de um novo princípio físico para a humanidade.
A editora Companhia das Letras poderia, em determinado sentido, ser considerada um orgulho nacional devido ao seu inegável sucesso editorial. No entanto, o que enxergamos quando analisamos um pouco mais detidamente a estrutura dessa companhia é uma caixa de fundo falso, que remete a um outrem não devidamente reconhecível. Detém o controle acionário “nacional” o sistema bancário Itaú-Unibanco; contudo, 45% de suas ações foram compradas pela Penguin, outro sucesso editorial, só que do mundo anglo-saxão. A Penguin, por sua vez, se uniu a outro gigante do setor, a editora britânica Randon House; todas são controladas pela Person, empresa controladora de revistas como a The Economist e do jornal Financial Times. É notório o vínculo da chamada mainstream mediacom os bancos transnacionais, a indústria armamentista e instituições culturais como as de Ford e Rockfeller. Todo o pacote embutido no controle acionário da Companhia das Letras remete a essa caixa de fundo falso com uma bela embalagem, no caso em questão, a administração da editora por Luiz Schwarcz e sua mulher, historiadora e antropóloga, Lilia Moritz Schwarcz, e também a família Moreira Sales. Essa teia cujas cabeças nos são desconhecidas, por ser similar a mitologia Hidra, ainda controla grandes centros educacionais no Brasil e mundo afora, como é o caso do Sistema Educacional Brasil (SEB), do empresário Chaim Zaher, de Ribeirão Preto. Com isso, a afilhada da Person-Penguin-Randon House e co-irmão da The Economist e do Financial Times, Companhia das Letras, passou a ter mais alguns irmãos em sua família, no caso as marcas que trabalham com a educação COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name1.
Poderíamos compor um elenco de capas esdrúxulas dos livros editados pela Companhia das Letras, abstraindo um pouco do tema central de nossas palavras, ou seja, a peça de José Saramago. Não podemos fazer isso para não prejudicar o restante da análise com temas correlatos, porém é importante enfatizar que a relação entre livro e capa é oposta a da relação embalagem-caixa. Se o Itaú-Unibanco nada tem de nacional, antes trabalhando de acordo com as diretrizes financeiras dos think tanksinternacionais, atuando dessa maneira como um global playerna economia nacional, sem ao menos lhe passar pela cabeça a idéia de fomentar o desenvolvimento do país, a feia capa que esconde o livro de José Saramago e demais escritores não é suficiente para apagar o que foi escrito, ainda que as diretrizes editoriais dessas indústrias antes zelem pela ausência de um trabalho científico-editorial, ou seja, um posicionamento político-filosófico, que a permita contribuir e dialogar com a educação e a cultura no Brasil, e não fazer um trabalho de encobrimento dos valores culturais através da ostentação de suas supostas virtudes no mercado global e dos meros “títulos” que ostentam em seu catálogo.
O que está em jogo aqui é o contraposto claro a atonia dos personagens que se acotovelam numa cidade do Porto imersa em sombras. O escândalo, pressuposto necessário a paralisação das reações humanas normais e rotineiras, somente pode ser superado por um ato de natureza bem distinta e superior. Ao escândalo produzido pela corte corrompida do mitológico rei Sebastião, com seus vestais da ética fantasiados com os panos negros que semeiam o dissídio entre os seres humanos – cardeais, bispos, o papa – se contrabalanceia a razão camoniana, focada não tanto em palavras de ordem, em discursos moralizadores e gestos grandiloqüentes. A historiografia mais rudimentar é capaz de reconhecer a distância enorme que separa Camões e seu espantoso conhecimento erudito, do eruditismo de movimentos letrados como os dos iluministas franceses. Porém, essa historiografia rudimentar conhece apenas uma espécie de espaço-tempo newtoniano, uniformemente regular dentro de uma sequência infinita de eventos que ocorrem dentro de um espaço plano. O que separa a erudição camoniana da encontrada nas Luzes não é um suposto caráter mais moderno, científico, desta última. Se Rousseau pregava a ausência de representação para combater os problemas inerentes ao sistema representativo, no seu caso o personalismo à romana embutido no Absolutismo, Camões sai da ordem do discurso, do espaço plano newtoniano, das meras palavras ou do que se conhecesse hoje como “matemática pura”, e se posiciona no centro do escândalo que absorve todas as energias de sua pátria outrora gloriosa. Camões, como Heitor após ouvir o clamor de Helena, pode cantar assim:
Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e do filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos Gregos2.
A ironia do texto homérico não compreendida por Platão é a concepção que separa Heitor de Aquiles. Este é conhecido não só pelo calcanhar, mas por sua “fúria” e uma suposta descrição fantástica do seu escudo por Homero. Aqui, inclusive no mito do calcanhar, reside a ironia homérica. Aquiles, furioso com a morte de seu escudeiro Pátroclo, resolve esquecer os dissídios com Agamenon e entrar na guerra. Seu alvo é Heitor, o maior guerreiro de Tróia. Pode-se conceber uma ironia em Homero porque ele não faz uma crítica direta aos deuses; ele os louva, ao mesmo tempo em que mostra toda a confusão gerada por eles. Os deuses fomentadores de guerra da Grécia arcaica são contrapostos pela nobreza guerreira de Heitor, amante da pátria, da sua família e de seus conterrâneos. A destruição da lendária Ílion, dos construtores de cidade nas terras banhadas pelo mar Egeu, dos filósofos pré-socráticos e do início do renascimento do mundo antigo ocorrido a partir da Grécia, é retratada por Homero como uma trama dos deuses, dos deuses oligarcas, tal como no império invisível que assolou com guerras e destruição todo o século XX e continua espalhar o caos no século atual, principalmente nas sociedades construídas no norte do Atlântico. A intriga dos deuses, o escândalo por eles provocado a fim de levar a destruição a formosa cidade retratada na Ilíada, é a ironia incompreendida por Platão, incapaz de reconhecer Heitor como protótipo do guerreiro que menospreza a vida com o objetivo de salvá-la. Por isso, Saramago relembra, dentre tantos versos dos Lusíadas, especificamente estes, dramatizando-os:
LUÍS DE CAMÕES
(lendo e acentuando progressivamente a ênfase)
Dai-me uma fúria grande e sonorosa, / E não de agreste avena ou frauta ruda, / Mas de tuba canora e belicosa, / Que o peito acende e a cor ao gesto muda; / Dai-me igual canto aos feitos da famosa / Gente vossa, que a Marte tanto ajuda: / Que se espalhe e se cante no universo, / Se tão sublime preço cabe em verso. (Falando como se pensasse). Aqui é que deverá entrar a dedicatória a el-rei… (Lendo outra vez). E vós, Tágides minhas… (Fala). Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei… (Torna a ler). E vós, Tágides minhas… (Fala). Um verso, para começar, que emparelhasse com este, um vocativo… (Começa a ouvir-se a sineta da galera dos mortos da peste). E vós, ó bem nascida segurança… Sim, isto será… (Senta-se à mesa, puxa pena, papel e tinta e começa a escrever. A sineta vai aumentando de intensidade) E vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança… (Vai diminuindo o tom, enquanto diminui também o toque da sineta e a luz baixa)3.
Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei…”. Assim pensa Camões enquanto escreve seus versos. Segundo Saramago, Diogo do Couto vê sombras. Como ser diferente, devido a sua longa estadia nas Índias, com a visão de todos os descalabros cometidos pelos portugueses naquelas terras? Camões, pelo contrário, canta o alvorecer da glória portuguesa, a faina guerreira que levou seu povo às maiores glórias. Ao contrário da prosa crepuscular de Couto, Heitor renasce em seus versos, como o único caminho capaz de tirar sua pátria do atoleiro imposto pelo rei lunático e o fanatismo imposto pelo Santo Ofício. Porém, são crepusculares os diálogos teatrais de Saramago, como também foi a conturbada vida de Camões. Este conseguiu publicar sua grande obra, ninguém ainda hoje sabe ao certo como. O que é certo é que só publicou depois de assistir ao aprisionamento e depois assassinato de seu amigo, o humanista e historiador Damião de Góis, um dos mais ácidos críticos da decadência portuguesa. É pela bravura, pela coragem indômita, tal como a dele, a de Diogo Couto, a de Damião de Góis, que clama o poeta. É a partir dessa coragem que nasce sua vontade de saber, não importa sob quais circunstâncias. Na pobreza e miséria da Índia ou de Portugal, Camões esculpiu seus bravos versos, não como o intelectual bem remunerado ou agraciado nos salões como os “iluminados” da sociedade científica dos séculos XVII e XVIII. Estes, por sua vez, são os pressupostos necessários para se entender a luta pela ausência de representação, pela supressão da ordem e ascensão da personalidade carismática, tal como ocorrido no período do Terror jacobino.
O jacobinismo, regiamente pago pela Companhia das Índias Orientais britânica, procurava fazer subir ao poder seu “carismático” rei, carinhosamente chamado, em tradução livre, de Felipe Igualdade4. O Bourbon, amigo do banqueiro suíço Jacques Necker, foi a tentativa falha realizada posteriormente pelo primeiro fascista moderno, Napoleão. Queimados na pira revolucionária – onde parece que se ergueu a primeira guilhotina como para lembrar a primeira fogueira acessa na fatídica Noite de São Bartolomeu –, Robespierre, Danton, Marat, são os modelos do tipo de criticismo contemporâneo em torno fundamentalmente de assuntos políticos. Reeditam a fúria do semi-deus Aquiles, e encontram a morte por meio de destino semelhante ao de seu ídolo. Quando sua mãe Tétis o avisa que caso entrasse na guerra, ao pelejar contra Heitor, não escaparia da morte, é o mote para Homero brilhantemente construir a fábula do calcanhar do herói, sendo a flecha que o acerta nada além do velho significado deste símbolo, ou seja, a verdade, filha da precisão e da destreza dos nobres heróis que corajosamente a lançam. No caso, o errante Páris, incitado a guerra por Heitor, é quem coroa a tragédia, cobrindo de vileza o funeral do idolatrado semi-deus, capaz apenas de lançar poeira ao alto e contribuir ainda mais para a confusão, o escândalo e o genocídio que representam o fim da gloriosa Ílion. Este tipo de semi-deus que se ergue com a revolução na França, com toda sua fúria à moda de Aquiles, é do tipo de indignação que nasce do amor-próprio ferido, e da reação desproporcional que segue como a ação dos filhos dos deuses do Olimpo, no caso francês o império britânico patrocinador do fim do movimento científico que tinha por fim estabelecer as bases de um governo constitucional no país, ao invés do tipo de parlamentarismo refém dos interesses de um banco central independente, tal como o modelo britânico pressupunha, modelo este idêntico ao babilônico-aristotélico responsável pela queda de Ílion e da Atenas de Sócrates e Platão.
A distinção entre Heitor e Aquiles é fundamental para se entender o que desde a Grécia compreendemos como Ideia, ou seja, o modelo espitemológico platônico, e a ideologia da “grande prostituta”, como retratada por João em seu Apocalipse, que é aquela que fala muitas línguas e confunde os homens a fim de enredá-los em sua rede de intrigas – como nas redes tecidas pelos panfletos acusatórios jacobinos, rede fratricida cujo intuito era o colapso da ordem social vigente e dos debates que se faziam para superá-la através de um princípio epistemológico superior, o ordenamento constitucional. Esta rede são as que hoje cotidianamente produzem o escândalo ou a perversão cultural, como na Guerra Fria cultural, todos tendo a forma de uma caixa de fundo falso, como o cadafalso admirado por Joseph de Maistre, amante da revolução jacobina e teórico preferido de Napoleão; essa é a caixa de fundo falso que nos conduz a análise de instituições como a da global player Companhia das Letras, achada no mesmo saco de think tankscomo The Economist, Financial Times, a editora Penguin, Itaú-Unibanco – sem esquecer da face admirável, da antropóloga e seu marido, mais a família Moreira Salles, como supostos controladores da editora. É bom relembrar as célebres palavras de Maistre em seu elogio ao Executor, o qual, segundo Isaiah Berlin, estava nas origens do fascismo, como bem exemplifica seu maior seguidor, Bonaparte:
Qu’est-ce donc que cet être inexplicable qui a preféré à tous les métiers agréables, lucratifs, honnêtes et même honorables qui se présentent en foule à la force ou à la dextérité humaine, celui de tourmenter et de mettre à mort ses semblables ? Cette tête, ce coeur sont-ils faits comme les nôtres ? ne contiennent-ils rien de particulier et d’étranger à notre nature ? Pour moi, je n’en sais pas douter. Il est fait comme nous extérieurement; il naîte comme nous; mais c’est un être extraordinaire, et pour qu’il existe dans la famille humaine il faut un décret particulier, un FIAT de la puissance créatice. Il est comme un monde. Voyez ce qu’il est dans l’opinion des hommes, et comprenez, si vouz pouvez, comment il peut ignorer cette opinion ou l’affronter ! A peine l’autorité a-t-elle désigné sa demeure, à peine en a-t-il pris possession, que les autres habitations reculent jusqu’à ce qu’elles ne voient plus sienne. C’est au milieu de cette solitutde, et cette espèce de vide formé autour de lui qu’il vit seul avec sa femelle et ses petits, qui lui font connaître la voix de l’homme : sans eux il n’en connaître que les gémissements… Un signal lugubre est donné ; un ministre abject de la justice vient frapper à sa porte et l‘avertir qu’on a besoin de lui: il part; il arrive sur une place publique couverte d’une foule pressée et palpitante. On lui jette un empoisonneur, un patricide, un sacrlège : il le saisit, il l’étend, il le lie sur une croix horizontale, il levé le bras : alors il se fait un silence horrible, et l’on n’entend plus que le cri des os qui éclatent sous la barre, et les hurlements de la victime. Il la détache ; il la porte sur une roue : les membres fracassés s’enlancent dans les rayons ; la tête pend ; les cheveux se hérissent, et la bouche, ouverte comme une fournaise, n’envoie plus par intervalle qu’un petit nombre de paroles sanglantes qui appellent la mort. Il a fini: le coeur lui bat, mais c’est de joie; il s’applaudit, il dit dans son couer: Nul ne roue mieux que moi. Il descend : il tend sa main souillée de sang, et la justice y jette de loin quelques pièces d’or qu’il emporte à travers une double haie d’hommes écartés par l’horreur. Is se met à table, et il mange ; au lit ensuite, et il dort. Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille. Est-ce un homme ? Oui : Dieu le reçoit dans ses temples et lui permet de prier. Il n’est pas criminel ; cependant aucune langue ne consent à dire, par exemple, qu’il est vertueux, qu’il est honnênte homme, qu’il est estimable, etc. Nul éloge moral ne peut lui convenir ; car tous supposent des rapports avec les hommes, et il n’en a point.
Et cependant toute grandeur, toute puissance, toute subordination repose sur l’exécuteur : il est l’horreur et le lien de l’association humaine. Ôtez du monde cet agent incompréhensible ; dans l’instant même l’ordre fait place au chaos, les trônes s’abiment et la société disparaît. Dieu qui est l’auteur de la souveraineté, l’est donc aussi du châtiment : il a jeté notre terre sur ces deux pôles : car Jéhovah est le maître des deux pôles, et sur eux il fait tourner le mond5.
No tom épico do texto de Joseph de Maistre, a saga do Executor é retratada como a do Cordeiro imolado, porém nunca morto. Ele ressurge após a execução, volta para casa, come e dorme: “Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille”. Ele é um homem, pergunta Maistre? Claro, Deus o recebe em seu seio e permite que ele ore, ainda que nenhuma voz ouse se levantar para chamá-lo de virtuoso, de honesto, de admirável. Toda grandeza, todo o poder, contudo, reside nele. Tal como a caixa de fundo falso, ele é ambivalente, ambíguo como o Deus bipolar que faz o mundo girar. Ele é o Deus do cadafalso, da guilhotina, do jacobino Tribunal da Razão, da acusação sem provas, do amor pelo terror. É como o doutor Angélico fornecendo as premissas teóricas para as Cruzadas dos papas ultramontanos: o problema não são os infiéis, mas o que eles podem representar. Faremos, portanto, uma guerra de prevenção contra todos aqueles que podem, algum dia, levar a perder a hegemonia católica no mundo. Façamos guerra aos que chamamos infiéis, presumindo-os culpados por um crime que talvez nunca venham a cometer. Assim se chega às guerras preventivas de Bush Jr. e Dick Cheney no Iraque e no Afeganistão; assim chegamos ao tipo de acusação tendenciosa dia a dia feita pelos conglomerados midiáticos que se ramificam mundo afora, e dos quais a estimada Companhia das Letras faz parte.
Depois de condenar os hereges à morte, ainda que revogável com o perdão papal caso se submetam às diretrizes católicas, o doutor Angélico assim se expressa (em tradução livre do inglês, por não ser redação original):
Existem alguns infiéis como os gentios e os hebreus que nunca aceitaram a fé cristã. Esses não podem de nenhuma maneira serem forçados a acreditar… A força apropriada deve ser usada pelos fiéis para prevenir que eles interfiram na fé com a blasfêmia ou vis estímulos, ou perseguição aberta… Essa é a razão pela qual os cristãos freqüentemente fazem guerra aos infiéis, não para forçá-los a acreditar… mas para prevenir que eles interfiram na fé cristã. Contudo, existem outros infiéis, como os heréticos e todos os apóstatas que uma vez aceitaram e professaram a fé. Esses devem ser obrigados, ainda que pela a força física, a cuidarem do que eles prometeram e manter o que eles uma vez aceitaram6.
Como José Saramago poderia compartilhar de semelhante sentimento ao destacar os bravos versos camonianos? O que podemos destacar como uma tendência recorrente em toda sua extensa bibliografia (que não se evade, antes procura os temas espinhosos, históricos e políticos), é a serenidade, a capacidade de julgamento lúcido, ainda que incisivo, sem ter sido pego nas teias das ideologias fabricadas mundo afora, cujo intuito é reeditar o tipo de cisão cultural e política entre os homens, tal como na Guerra Fria. Guerra ao terror, guerra à corrupção, como se faltassem alternativas viáveis para se discutir dentro do terreno político, como por exemplo projetos de infra-estrutura e integração entre a Europa e o Oriente Médio. Não, só guerra e acusações infundadas. Como se no combate a corrupção não estivesse em jogo o modelo do sistema político, no caso brasileiro moldado por Golbery, numa espécie de parlamentarismo disfarçado, onde vemos o poder executivo refém dos interesses de um Parlamento que atende às vozes dos interesses bilionários que o patrocina. A moralização da política nesse sentido serve apenas para levar ao poder figuras carismáticas, controladas por interesses complexos dentro da rede de tramas do oligopólio financeiro internacional – ninguém é mais símbolo desse estilo de poder “moral” do que Hitler…
Por isso Saramago não se enreda nessas redes. E é por esse mesmo furor guerreiro ou furor heróico, como nomeou Giordano Bruno, que Camões, como Gil Vicente em sua época, incita a pátria à guerra. Como os reis guerreiros da Idade Média, ainda na Renascença é impossível pensar em riqueza sem a expansão das fronteiras nacionais, o que implicava a guerra de conquista. A Conquista de Ceuta é o marco do novo estado que surge com a dinastia de Avis. O que já em Gil Vicente, e de maneira ainda mais veemente, quiçá desesperada, aparece em Camões, é a necessidade do Estado voltar a se expandir, trazendo a riqueza do comércio para a população, e não se enredando nos descaminhos do ganho fácil, dos nobres que parasitam a corte já no reinado de D. Manoel. É de sacrifício próprio e não o alheio que fala Saramago, Camões e Gil Vicente. Este, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa:
Deveis, Senhores, esperar
Em Deos que vos ha de dar
Toda Africa na vossa mão,
Africa que foi de Christãos,
Mouros vo-la tem roubada.
Capitães ponde-lh’as mãos,
Que vós vereis mais louçãos
Com famosa nomeada.
Ó Senhoras Portuguesas,
Gastae pedras preciosas,
Donas, Donzellas, Duquezas,
Que as taes guerras e emprezas
São propriamente vossas.
He guerra de devação,
Por honra de vossa terra,
Commettida com razão,
Formada com discrição
Contra aquella gente perra.
Fazei contas de bugalhos,
E perlas de camarinhas,
Firmaes de cabeças d’alhos;
Isto si, Senhoras minhas,
E esses que tendes dae-lh’os.
Oh! que não honrão vestidos,
Nem mui ricos atavios,
Mas os feitos nobrecidos;
Não briaes d’ouro tecidos
Com trepas de desvarios:
Dae-os pêra capacetes.
E vós, Priores honrados,
Reparti os Priorados,
A Suiços e soldados,
Et centum pro uno accipietis.
A renda que apanhais
O melhor que vós podeis,
Nas igrejas não gastais,
Aos pobres pouco dais.
E não sei que lhes fazeis.
Dae a terça do que houveres,
Pera Africa conquistar,
Com mais prazer que puderdes;
Que quanto menos tiverdes,
Menos tereis de guardar.
Ó senhores cidadãos,
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante! não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear7.
O objetivo das guerras de conquista ou pelo menos a admoestação a esse tipo de prática por poetas como Vicente e Camões, ou seja, de D. Manoel a D. Sebastião, é para impedir o parasitismo cortesão, como minuciosamente demonstrado na recriação da Portugal quinhentista por José Saramago. A soberania do reino fora extinta pela submissão ao Santo Ofício, fato verificado a partir de D. João III. O rei jovem, D. Sebastião, sem visão estratégica de governo e influenciado de forma malsã pelos padres da Companhia de Jesus, empreende uma guerra com objetivo utópico no Marrocos, com pouca ou quase nenhuma possibilidade de sucesso. As trevas que caem sobre Portugal são tão densas no período em que a nação é dominada pelos jesuítas, que a simples convocação para a guerra como feita por Vicente não era mais possível. Havia antes de se lutar contra o inimigo interno, o inimigo alojado no coração do Estado, que sugava todas as suas forças materiais e mentais, num quadro em que o parasitismo se instalara talvez de modo definitivo. O próximo passo seria se submeter a um rei estrangeiro, este também um monarca católico, bem distante da tradição peninsular de independência frente a Igreja, tradição essa que lhe rendeu os maiores frutos, como os advindos dos Descobrimentos.
É pela voz de Heitor que chama Saramago, no horizonte distante que faz ecoar os versos de Camões, já fatalmente submerso nas trevas entrevistas por Gil Vicente décadas antes. Saramago-Heitor tateia nas sombras da escuridão milenar que procura separar o mais legítimo sentimento de defesa da pátria e de seus iguais, num Portugal refém de um suposto “concerto europeu” que iria desembocar no Tratado de Lisboa8, ou seja, na tentativa de artificialmente criar uma unidade política européia a partir da união monetária. A Troika, como o jesuitismo alhures, nesse momento em que Saramago não tem mais olhos para ver o destino de seu país, ergue seu manto cinzento sobre o “concerto europeu”, levando a velha dama Europa a um passo do abismo, incapaz de ouvir a voz de Heitor que ecoa na planície – incapaz de ouvir o tema que incita à coragem. O tom é de névoa cinzenta e o tema é desagradável para todos aqueles que se acostumaram a viver na caixa de fundo falso, nas sombras da caverna platônica, no mundo dos sentidos, no mundo do escândalo jacobino,e da impotência do cidadão médio fascinado frente ao esplendor das luzes que descem do Olimpo – como se realmente fossem luzes, e não névoa cinzenta. Divide et impera, como sempre, o lema.
2 Homero, Ilíada. Tradução de Odorico Mendes. Campinas, Editora UNICAMP, 2010. Canto VI, p. 249.
3 Saramago, José. Que farei com este livro?. Lisboa: Editorial Caminho, 1980, p. 54.
4 Uma excelente referência ao assunto são dois artigos, feitos a partir de inéditas fontes primárias, publicados por Pierre Beaudry no semanário norte-americano Executive Intelligence Review, com os títulos de Jean Sylvain Bailly: The French Revolution’s Benjamin Franklin e Why France Did Not Have an American Revolution?. Podem ser lidos em: http://www.larouchepub.com
5 Extraído das Soirées de Joseph de Maistre, publicado no apêndice do ensaio de Isaiah Berlin, Joseph de Maitre and the Origins of Fascism. Em: Berlin, Isaiah, The crooked timber of humanity: chapters in the history of ideas. Nova Jersey: Princeton University Press, 2013.
6 Aquino, Tomas de. Summa Theologia, ii, ii, Q.10, Art. 8. Extraído de: Beaudry, Pierre. The Ultramontane Papacy. Publicado no site pessoal do autor: http://www.amatterofmind.org
7 Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

8 A Carta de Lisboa pode ser um eixo de análise a partir do qual se contrapor ao infame Tratado. A história de Darcy Ribeiro é fonte merecedora da mais legítima atenção, caso queiramos nos contrapor ao estilo de fascismo imposto atualmente, ainda mais se pensarmos no ocaso da civilização que se desenvolveu às margens do Mar do Norte (chegando ao norte da América), e no fascismo que hoje a derruba e querem nos impor. Fascismo londrino por excelência e norte-americano por descendência.

As quatros leis econômicas de Lyndon LaRouche

Lyndon LaRouche é um dos poucos ainda no norte do continente americano a defender o legítimo sistema econômico que levou a verdadeira revolução industrial no planeta (não os teares ingleses, correlatos dos indianos, imitados por aqueles depois de ter imposto mais uma fome monumental a estes, desorganizando todo o sistema produtivo colonial do qual dependia a Inglaterra). Não se trata de impor uma falsa dualidade como a de “liberais” e “conservadores”, “whigs” e “tories”, “esquerda” e “direita”; se trata de estabelecer as bases de um legítimo desenvolvimento nacional, anti-imperialista, o que, por consequência, deve ser contra o liberalismo e mesmo contra o conservadorismo anglo-americano, contra a doutrina do livre-mercado que se impôs quase como um consenso após o fim da URSS.
As quatro leis econômicas de Lyndon LaRouche fazem remontar aos movimentos anti-imperialistas estadunidenses, contra a Grã-Bretanha e seu domínio genocida; movimento de Alexander Hamilton e Abrahan Lincoln, como também do “homem esquecido”, Franklin Delano Roosevelt e sua lei que salvou os EUA da bancarrota, a lei Glass-Steagall de separação bancária; fazem retornar às bases da ciência moderna, com Kepler, Nicolau de Cusa e os experimentos mais recentes na área da física, de Bernard Riemann a Albert Einstein. Como fator diferencial, a “vara de medir a história”, a química, tal como colocada pelo cientista russo Vladimir Vernadsky. 
Um texto curto e iluminador que vale a leitura para quem se interessa para as bases do pensamento anti-hegemônico em termos científicos, históricos e econômicos; texto revelador para os momentos decisivos que vive atualmente a humanidade.

Numa série de publicações viemos dando crédito às elaborações de LaRouche, como também ao grande projeto da Nova Rota da Seda, Um cinturão, uma estrada, capitaneado pela esposa de Lynn desde a década de 1990 em contatos constantes com a inteligência e os homens públicos chineses. Hoje um projeto já em execução, se soma à iniciativa BRICS. Quem quiser passear pelo site poderá ter acesso a muitos dos pormenores epistemológicos, políticos, econômicos e culturais que se baseiam o movimento estadunidense. que a essa altura já ultrapassou 40 anos de atuação mundo afora.

AS QUATRO LEIS PARA SALVAR OS EUA, JÁ!
Não uma opção: uma necessidade imediata
Por Lyndon LaRouche, 2014
1. A realidade das coisas
A economia dos Estados Unidos da América, como também a política econômica das regiões transatlânticas do planeta: estão agora sob o perigo imediato, mortal, de uma crise de desintegração físico-econômica generalizada, em cadeia, nessa região do planeta como um todo. O nome para essa crise de desintegração por todas essas regiões indicadas do planeta é pela introdução da ação de “regaste interno” (bail-in), levadas a cabo nesse momento por muitos, se não todos, os governos dessa região: o efeito nessas regiões será comparável ao colapso físico-econômico do pós-“Primeira Guerra Mundial”, com o colapso generalizado da economia alemã sob a República de Weimar: mas isso, no tempo atual, atinge, primeiro, as economias inteiras dos Estados-nação da região transatlântica, ao invés de algumas economias derrotadas dentro da Europa. Um colapso provocado por uma reação em cadeia, por esse efeito, já está sendo acelerado com um efeito no sistema monetário das nações dessa região. A atual aceleração da política de “regaste interno” (ball-in) por toda a região transatlântica, como levada a cabo agora, significa o genocídio súbito atingir as populações de todas as nações da região transatlântica: seja diretamente ou por “transbordamento”.
Os remédios disponíveis
O único meio para a necessária ação imediata que pode prevenir tal genocídio imediato através de todo o setor transatlântico do planeta requer a decisão imediata do governo dos EUA  para instituir quatro medidas cardeais, específicas: medidas que devem ser totalmente consistentes com o propósito específico da Constituição Federal dos EUA originalcomo foi especificada pelo secretário do tesouro Alexander Hamilton enquanto ele se manteve no cargo: (1) reinstauração imediata, sem modificações, da lei Glass-Steagall instituída pelo presidente Franklin D. Roosevelt, como princípio de ação. (2) Um retorno a um sistema de Banco Nacional vertical e muito bem definido.
O que foi realmente testado, o modelo bem sucedido, é o que foi instituído sob a direção das políticas de banco nacional que foram realmente, de modo bem sucedido, instalados sob a autoridade do presidente Abraham Lincoln, com a emissão de uma moeda  criada pela Presidência dos Estados Unidos (osGreenbacks), conduzida como um sistema nacional bancário e de crédito colocado sob a supervisão da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos (Office of the Treasury Secretary of the United States).
Para as circunstâncias atuais, todos os outros bancos e políticas monetárias devem ser superadas ou, simplesmente, descontinuadas: é o que se segue. Bancos qualificados para operações sob essa provisão devem ser avaliados em sua comprovada competência para operar sob a autoridade nacional para criar e compor os elementos dessa prática essencial, que foi assinalada, como que por tradição, ao gabinete original do Secretário de Tesouro dos EUA sob Alexander Hamilton.  Isso significa que os estados individuais dos Estados Unidos funcionam sob normas nacionais de prática, e não entre quaisquer estados separados de nossa nação.
(3) O propósito de usar um sistema de Crédito Federal é gerar normas de alta produtividade em melhorias de emprego, com a intenção conjunta de aumentar a produtividade físico-econômica, e o padrão de vida das pessoas e dos lares dos Estados Unidos. A criação de crédito para o agora necessário aumento das relativas quantidades e qualidades do trabalho produtivo deve ser assegurado, hoje em dia, mais uma vez, assim como feito de modo bem sucedido pelo presidente Franklin D. Roosevelt, ou por padrões similares da prática Federal usada para criar uma recuperação econômica geral para a nação, per capita, e por taxas de efeitos conjugados na produtividade, e por confiança na essência do princípio humano, que distingue a personalidade humana das características sistemáticas das formas inferiores de vida: os efeitos conjugados do aumento do fluxo de densidade energética na prática efetiva. Isso significa, intrinsecamente, o efeito de uma prática de toda científica, mais do que meramente matemática, e pelo crescimento correlato, efetivo, do fluxo de densidade energética per capita, e para a população humana quando considerada individualmente ou como um todo. O aumento indefinido da produtividade física dos postos de trabalho, acompanhado por seus benefícios para o bem-estar geral, constituem um princípio da lei Federal que deve ser o padrão supremo nas conquistas da nação e dos indivíduos[1].
(4) Adotar um programa de emergência orientado à fusão nuclear. A distinção essencial entre o homem e todas as outras formas de vida, por isso, na prática, é que isso apresenta os meios para a perfeição dos especificamente afirmativos objetivos e necessidades da indivíduo humano e da vida social. Portanto: a questão do homem no processo criativo, como uma identificação afirmativa de uma comprovada afirmação de um estado natural absoluto, é a forma de expressão permitida. Princípios de natureza só podem ser afirmativos ou não podem ser enunciados entre mentes humanas civilizadas.
Dadas as circunstâncias dos Estados Unidos, em particular, desde os assassinatos do presidente John F. Kennedy e o de seu irmão Robert, o rápido crescimento requerido para qualquer recuperação da economia dos EUA, desde esse tempo, requer nada mais do que as medidas tomadas e executadas pelo presidente Franklin D. Roosevelt durante sua permanência no cargo. As vítimas da maldade trazidas aos EUA e a sua população desde a estranha morte do presidente Harding, sob a presidência de Calvin Coolidge e Herbert Hoover (como os terríveis efeitos das administrações Obama e Bush-Cheney, atualmente) requer remédios comparáveis aos do presidente Franklin Roosevelt enquanto esteve no cargo.
Isso significa medidas de alívio de emergência, incluindo sensíveis medidas temporárias de recuperação, requeridas para conter a vaga de mortes deixado pelos regimes de Hoover e Coolidge: medidas requeridas para preservar a dignidade dos que de outro modo seriam desempregados, enquanto se construía as mais poderosas capacidades econômicas e militares  reunidas sob a presidência de Franklin Roosevelt durante o tempo em que ele permaneceu no cargo. Isso significou então desenvolver os poderes da energia nuclear e agora significa fusão termonuclear. Sem essa intenção e o compromisso com sua realização, a população dos Estados Unidos, em particular, enfrentará agora, imediatamente, o mais monstruoso desastre jamais visto em sua história. Em princípio, sem uma presidência pronta para remover e descartar os piores efeitos sentidos atualmente, os criados atualmente pelas presidências de Bush-Cheney e Obama, os Estados Unidos em breve acabará, começando pelo genocídio da população dos EUA sob as práticas políticas em pleno andamento do governo Obama.
Existem certas políticas que mais notadamente são requeridas, nesse caso, agora, como segue:
Vernadsky sobre o homem e a criação
O sistêmico princípio de V. I. Vernadsky sobre a natureza humana é um princípio universal que é sumamente específico em relação ao fator primordial da existência da espécie humana. Por exemplo: “tempo” e “espaço” não existem realmente como um conjunto de princípios métricos do sistema solar; seu único emprego admissível, para propósitos de comunicação, é essencialmente uma presunção nominal. Desde que a competência científica hoje em dia pode ser expressa somente nos termos das características únicas do papel da espécie humana dentro dos conhecidos aspectos do universo, o princípio humano é o único princípio verdadeiro conhecido por nós para a prática: as noções de espaço e tempo são meramente ferramentas imaginárias úteis:
Pelo contrário:
A característica essencial da espécie humana é sua distinção de todas as outras espécies de processos viventes: isso, como uma questão de princípio, que está enraizada cientificamente, por toda a competente ciência moderna, nos fundamentos dos princípios estabelecidos por Filipo Brunelleschi (o descobridor do mínimo ontológico), Nicolau de Cusa (o descobridor do máximo ontológico), e a descoberta positiva pela humanidade, por Johannes Kepler, de um princípio coincidente com a escala Clássica do canto humano aperfeiçoada,  adotada por Kepler, e a medição elementar do sistema solar dentro do universo ainda maior da Galáxia, e ordens ainda maiores no universo.
Ou, igualmente, mais tarde, o moderno padrão de ciência-física implícito no argumento de Bernhard Riemann, o mínimo real (ecoando o princípio de Brunelleschi), de Max Planck, o máximo real do máximo atual, aquele de Albert Einstein; e, as relativamente últimas implicações consequentes da definição da vida humana por Vladimir Ivanovich Vernadsky. Esses valores são, cada um, absolutos relativos de medição do papel do homem dentro do conhecimento do universo.
Esse conjunto de fatos pertence à fraude inerente dos meramente matemáticos ou “întérpretes musicais” modernistas desde a norma do paragão relevante para a música, Johannes Brahms (anterior aos degenerados, tais como os meros matemáticos, tais como David Hilbert e o verdadeiro modelo para cada Satã moderno, tais como Bertrand Russell ou Tony Blair).
A medida conhecível, por princípio, da diferença entre o homem e todas as outras formas de vida, está fundada no que foi utilmente compreendido como uma evolução ascendente natural à espécie humana, em contraste com todas as outras categorias conhecidas de espécies vivas. O padrão de medição dessas relações comparadas é que a humanidade está habilitada para evoluir de modo ascendente, e isso de maneira categórica,  por esses voluntários poderes noéticos da vontade humana individual.
Exceto quando a humanidade aparece num estado de comportamento físico e moralmente degenerados, como nas culturas do tirano Zeus, do Império Romano, e do Império Britânico, atualmente: todas as culturas humanas realmente sãs apareceram, desse modo, num certo estágio do progresso evolucionário na qualidade de uma espécie inferior para uma superior. Isso, quando considerado em termos de efeitos eficientes, corresponde, dentro do domínio de uma viva prática humana da química, a uma forma de avanços sistêmicos, se não agora em saltos, no aumentto na densidade de fluxo energético químico de uma sociedade, de saltos de progresso da própria espécie em densidade de fluxo energético numa efetiva expressão científica e a ela comparáveis: em resumo, um princípio físico universal do progresso humano.
A cultura humana saudável, tal como a da Cristandade, se eles justificarem essa afirmação sobre tal devoção, por exemplo, representa uma sociedade que está aumentando seus poderes de suas habilidades produtivas para o progresso a um nível ainda maior, per capita, de existência. Os casos contrários, o flagelo do chamado “crescimento zero”, tal como o Império Britânico atual, é, sistêmicamente, o verdadeiro modelo consistente com as tiranias de Zeus ou com o Império Británico (ou melhor dizer, “Brutânico”), tais como os tipos, para nós nos Estados Unidos, dos governos Bush-Cheney e Obama, cujas características tem sido, concordantes com aqueles modelos abertamente satânicos do império de Roma e do império   britânico atualmente, uma população humana em declínio no planeta, uma população que se degrada  atualmente em relação à sua produtividade intelectual e física, tal como sob esses governos americanos mais recentes.
Química: A vara de medir a história
Nós chamamos isso de “química”. O progresso humano, como medida mais simples como espécie, é expresso tipicamente no poder crescente do poder do princípio da vida humana sobre as habilidades da vida animal, de um modo geral, e sua superioridade relativamente absoluta sobre os poderes dos processos não-vivos, para alcançar, por sua intervenção deliberada, seus efeitos pretendidos. O progresso somente existe sob um aumento progressivo, contínuo, dos poderes produtivos e correlatos da espécie humana. Esse progresso define a distinção absoluta da espécie humana sobre todas as outras conhecidas por nós. Um governo da população baseado nas políticas de ”crescimento-zero da população e dos padrões  da vida humana per capita” é uma abominação moral, e na prática.
O homem é a única medição verdadeira que tem a humanidade, da história de nosso sistema solar e aquilo que repousa dentro dele. Isso é a mesma coisa, como o mais honrado significado e a conquista sem limite da espécie humana, agora no espaço solar próximo procurando ascender à maestria sobre o sol e o sistema solar, aquele descoberto (sem dúvida, de maneira singular) por Johannes Kepler.
Uma economia de fusão é atualmente o próximo passo urgente, e o padrâo para o aumento do poder humano dentro do sistema solar e, mais tarde, para além dele.


[1] A substituição da “3. Cancelar as políticas ambientalistas (…)” pelo correto “Um sistema de crédito federal”, é uma caricatura contra os princípios de qualquer princípio científico real. Somente identificações afirmativas da “Ciência” podem ser permitidas. Somente é permitido o título precedente: “O uso do Sistema de Crédito Federal”. Eliminar todas as referências utilizadas como “políticas ambientalistas”: o próprio uso desta referência é uma representação fraudulenta

A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

A culpa não é do Cabral, seu racista nojento!

Está mais comum do que costuma ser culpar Cabral pelas desgraças do país. Segundo o doutor Mario Darius (1989, Ibdem), ele foi o pioneiro, o primeiro a corromper uma suposta brasilidade intocada, ameríndia, “jogando sífilis” nas índias. Mas não iremos começar essa publicação com mais palavras. Ah!, os ingleses podem roubar, mas não tão descaradamente – falam, por exemplo. Ora, por que não falar logo: ah!, os ingleses podem roubar, mas eles são ingleses! Podem ser “sujos”, mas por sua origem étnica, por pertencerem à civilização banhada pelo mar do norte, aquela, científica, que substituiu a civilização humanística, mediterrânica, da Renascença, são limpos. Agora, italianos, portugueses, espanhóis e todos mais povos que foram colonizados por esses países – ainda mais se se considera a mistura com africanos e ameríndios -, ferrou! A culpa não é do Cabral, seu racista nojento! O que aconteceu com sua prisão, sua morte política, é queima de arquivos, como os milicos faziam na ditadura. Logo, não vamos começar com mais palavras, mas com uma imagem sinônimo de democracia nesse dias de tantas intolerâncias.

Alepo antes da chegada das tropas democráticas

Os bárbaros libertaram Alepo. As ameaças de guerra, contudo, continuam. Obama agora fala que vai tomar todas as medidas necessárias para apurar a interferência russa nas eleições americanas. Os neocons de lá também querem terceiro turno! Lyndon LaRouche foi quem melhor expressou essa situação quando disse que “as palavras de Obama são uma ameça de morte“. Ele considera o histórico do presidente, conhecido como o “assassino das terças-feiras“, com uma de suas maiores vítimas via drone, Muamar Kadafi. Considera também a continuação da política de estrangulamento da Rússia, algo que, se não resolvido com a eleição de Trump (que de qualquer maneira gera dúvidas), pelo menos distendeu as tensões, abriu uma pequena brecha de ar no ambiente já sufocante. Não há provas alguma da interferência russa, até porque não se trata de trabalho de hackers que invadiram os arquivos de campanha dos democratas. Foi um vazamento, logo, alguém de dentro do EUA colocou isso no ventilador. Mas não!, deve-se culpar a Rússia e ponto. É a história das “notícias falsas”, como reportamos por aqui e que teve uma pormenorizada cronologia publicada no LPAC.

E olha quem fala de “notícias falsas”!

Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, inclusive a contestação do resultado do pleito eleitoral. Não importa se são de esquerda ou de direita, democratas, republicanos ou o que quer que seja. São ultras, ultra reacionários, ultra libertários, são os extremos que se tocam, como vemos nas siglas partidárias brasileiras “independentes” que para fazerem algo limpo passam a considerar sujo todo o espectro partidário, ou seja, não distinguem alhos de bugalhos e, caso necessário, elogiam deus e o diabo. Como na prática comum do bom senso e do senso comum de elogiar o plano real e o governo lula como progressos… Obama disse que vai tomar todas as medidas cabíveis, algumas passíveis de publicização e outras não… O que quis dizer com isso o Assassino das Terças-Feiras? Enquanto isso não foi só a Rússia que voltou à prática da Guerra Fria de simular ataques às suas cidades. A Suécia também está simulando situações de guerra em defesa contra possíveis ataques russos. É a paranoia da nova Guerra Fria, ainda, talvez, mais quente do que a considerada “oficial”…

PARANOIA, 1989, Ibdem

– Chegaram aqui de caravela e comeram logo as índias. Passaram a sífilis. Português chegou aqui e soltou logo sífilis. Tá lá o símbolo, as águias. Estão todas com AIDS [as águias do Palácio do Catete]. Aquela tá morrendo. Aquela lá ó.

– Artigo subversivo é o caralho, eu sou advogado.

– Aqui nunca teve crise. aqui sempre teve roubo. a crise é ética e a saída exige decência

– Pergunta se o mendigo consegue roubar alguma coisa.

– Patriotismo é o último refúgio do canalha.

O BRASILEIRO MÉDIO, PARANOIA, 1989, GUERRA FRIA, IBDEM

Todo mundo que tem o poder na mão é podre. São pérolas… O problema do brasileiro médio, mesmo que o suposto dr. Mario Darius não seja tão médio assim… É a linguagem da paranoia. O Brasil sempre foi corrupto. Não há nada de novo no front, etc. A incapacidade de crer é a mais absoluta falha do entendimento político. Não sem sair do contexto, podemos aludir ao cardeal Nicolau de Cusa, para quem, ainda no século XV, sem a Terra nem o sol estava no centro do universo. Sua capacidade de raciocinar, contudo, dizia respeito, quando falava sobre o “não visto”, que a fé auxiliava a razão onde esta não tinha forças suficientes, com o raciocínio sendo não a luz guia, mas o solo por onde se movia o homem em direção a mundos ainda não vistos. Isso quer dizer que muitos não creram nos avanços que os governos do Partido dos Trabalhadores promoveram no país. Não viram o óbvio, como a sólida rede de proteção social, por exemplo, criada no nordeste e que melhorou substancialmente as consequências das secas na região, mesmo no ano de 2015, quando enfrentamos a maior seca em 80 anos de história. Não houve migração, saques a supermercados, etc. E esse é o dado óbvio, mas mesmo assim não acreditam. Agora, quanto ao caminho de desenvolvimento que esse país passou a trilhar, nenhum desses conseguia ver, por exemplo, as consequências da Amazônia Azul para nosso futuro. A necessidade de engenheiros navais, e biólogos marinhos, etc., várias categorias profissionais que nossas universidades praticamente não dão a formação, E todas as outras profissões envolvidas de maneira direta e indireta no projeto, do engenheiro até o pequeníssimo empresário que vende almoços e lanches nas áreas em obra, nos novos campos criados, seja Comperj, Abreu e Lima, Angra 3 e tudo o mais. O desmonte do setor produtivo no Rio de Janeiro não tem outra causa.

(Não é culpa do Cabral, mermão! Mais fácil culpar o messianismo curitibano, os pontas-de-lança do Império por aqui e responsável pela empresa que chegou a ser responsável por 30% do PIB nacional. Se é isso para o Brasil, o que é o Rio de Janeiro sem a Petrobrás? Um prostíbulo onde os turistas vem se aliviar das tensões de se viver nas sociedades racionalistas e bem comportadas do Atlântico norte? O que é o Rio sem Moro? O estado mais rico do país, capaz até de sustentar sem quebrar uma corja como a de Cabral…)

(foi Cabral que começou a corrupção? E o que falar do impoluto governo militar e suas Estranhas Catedrais?)

A prisão do Almirante Othon Pinheiro, um crime de lesa-pátria, a comprometer a futura produção industrial de urânio enriquecido, e que nos levaria finalmente ao rol das nações desenvolvidas com a tecnologia mais avançada que existe, a do núcleo do átomo, é um exemplo claro na falta de fé em nosso futuro. Para os descrentes, o complexo de vira-latas. Numa entrevista recente, a presidenta Dilma disse ser o MT (como chamado nas planilhas da Odebrecht) nada mais do que um cidadão médio, ou seja, bem abaixo das aspirações do Brasil. Estaria, contudo, muito abaixo do brasileiro médio. Essa “entidade” seria aquela que crê no futuro do país. E nisso, pegando por esse lado, a presidenta está certa. Temos que levar em consideração num caso como esse que o brasileiro médio é exatamente essa ponte entre a descrença mais ordinária (com a aspiração máxima de conseguir, por exemplo, um apartamento de relativo luxo numa área de proteção ambiental – isso é o máximo de aspiração que esse pessoal tem) e a população mais pobre que, por tudo o que passa, nada resta a não ser alimentar uma esperança quase do tamanho da dos gênios e profetas que já visitaram nosso mundo. A chamada classe média, por seu poder de influência, seja porque são professores, médicos, advogados, que lidam numa situação de relativa superioridade social, tem um poder fundamental de influenciar muitas pessoas, num verdadeiro ativismo que podemos chamar, sem desprezar os teóricos, de micropolítica. Quando essa classe se homizia, pensa só em seus interesses mais imediatos, seja um apartamento qualquer, seja no problema causado pela inflação do tomate ou do preço da gasolina ou da “percepção de corrupção”, etc., e esquece a quantos pobres foram atendidos, em quanto o país está se desenvolvendo para além do que seus olhos podem ver, no nordeste, com a indústria naval, com o desenvolvimento da área de defesa, da energia nuclear, etc., com a criação do piso nacional dos professores, com a criação de centenas de escolas técnicas, a interiorização das universidades federais, a criação de novos cursos e de extensões universitárias, etc., quando se esquece tudo isso e só se pensa nesses interesses mais imediatos, a crença no futuro rui e não se é menos “crente” do que antes. Passa-se a idolatrar salvadores da pátria, em Power Points, a se admirar com a atuação do novo Maquiavel, do espertíssimo Eduardo Cunha, e etc. Acreditam, até, que foi a poucas semanas que a Globo descobriu o Cabral…

A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura.

Temos que manter os pés no chão, com certeza, ainda mais nos tempos excepcionais em que vivemos. A inteligência no planeta parece toda coberta de cinzas, de uma mediocridade retumbante, parecendo lembrar os Greys, os mal-fadados extra-terrestres, supostamente antropófagos, que apareciam nos filmes de ficção científica durante a Guerra Fria oficial. A de agora, oficiosa, não é menos perigosa, e não menos capaz de realizar o sonho dos “invernos nucleares”, e cobrir definitivamente de cinza nossa Terra.
O FBI espia a embaixada russa em Washington
A Globo convoca para manifestações, a Globo convoca para enterros, a Globo decreta a morte política. Os mortos no voo da Chapecoense são “oficializados”, amestrados. adocicados pela misericórdia global. Ora, como quando o ator global morreu no São Francisco, falamos a mesma coisa: o que isso significa frente aos milhares de jovens mortos todos os dias frente à atuação de nossa justiça e polícias “ineficientes”? E as famílias que perderam seu sustento por causa de Moro e seu grupo? E o país indo ralo a baixo com a paralisação de sua atividade econômica? Quantas mortes, quantas vidas destruídas, quantos sonhos enterrados daqueles mais pobres, mais carentes em nosso país? Chapecó que me perdoe, mas vocês viram mais uma joia da coroa ao se associarem, querendo ou não, aos faustos imperiais, como nas comemorações fúnebres das glórias do Império por Victor Meirelles.


Moro é o comandante do navio?
É somente sobre despojos que o império consegue mostrar seu brilho. A tragédia de Chapecó é um retrato disso, a parte visível, da aparição imperial frente aos corpos sem vida. A parte não vista é a batalha diária que deixa a cada dia mais mortos, mas que o império não mostra sua face, nem pode à luz do dia mostrar quem dirige, quem narra, quem comanda o cortejo fúnebre. Não mais notícias falsas. Fora o macartismo e o sistema de guerra imposto a nós, aqui ou em qualquer parte do mundo. Que o quadro cinza de Meirelles não continue a ser o retrato de nossa inteligência.
Como será apresentado o próximo rito fúnebre global?