A atual posição do The Intercept sobre Trump

Não é de hoje que o portal The Intercept, apesar de adotar uma linha de radical oposição ao governo de Donald Trump, consegue se posicionar lucidamente a respeito das insanidades que a mídia americana e os neocons cometem não contra Trump, mas contra seu país. Que o recente posicionamento editorial do portal sirva não para se “pegar leve” com Trump, mas para aprimorar nosso senso crítico e ver o conjunto mais amplo dos graves dilemas existenciais pelos quais passa o mundo atualmente.

Não é de hoje que o portal The Intercept, apesar de adotar uma linha de radical oposição ao governo de Donald Trump, consegue se posicionar lucidamente a respeito das insanidades que a mídia americana e os neocons cometem não contra Trump, mas contra seu país. Gleen Greenwald, desde que Trump assumiu e junto com ele veio o escândalo do “Russiangate” e as especulações a respeito das “fake news”, se colocou frontalmente quanto às insinuações de Trump seria um “agente russo na Casa Branca” e que o vazamento para a Wikileaks da sabotagem de Hillary Clinton para retirar Bernie Sanders da disputa interna de seu partido não era um ato de hackers russos que estariam procurando influir nas eleições estadunidenses.

O posicionamento de Gleen se junta, por exemplo, ao do professor emérito de Princeton e da Universidade de Nova Iorque, Stephen Cohen, especialista em Rússia e historicamente alinhado aos democratas. À revelia de qualquer sentimento pessoal, passando mesmo por cima de escrúpulos menores, a tentativa de aprofundar a Nova Guerra Fria não deve ser aceita sob o manto do ataque ao autocratismo de Trump. Não se louvam as virtudes pessoais deste presidente, porém seu posicionamento de aproximação com a Rússia e a intenção antiga de retirar as tropas do Oriente Médio, é um ponto mínimo de consenso que qualquer pessoa preocupada com a segurança planetária deveria considerar.

Cohen escreve semanalmente para o The Nation, publicação, como a The Intercept, declaradamente pró-democratas e anti-Trump (sua esposa é uma das editoras da revista), e tem um podcast há quase cinco anos (desde o golpe de Estado na Ucrânia) com John Batchelor, chamado “Tales of the New Cold War”. Sua iniciativa para uma política de détente entre Rússia e EUA se encontra no site http://www.eastwestaccord.com, que poderia ser muito mais conhecido do público brasileiro.

Também nos EUA, Lyndon LaRouche, mais conhecido e admirado na Rússia do que nos EUA em boa parte por causa de sua militância durante a Guerra Fria, se posicionou durante as primárias de maneira extremamente dura contra Donald Trump. Quando a eleição se configurou entre Hillary e ele, o posicionamento de seu Comitê de Ação Política passou de um estado de neutralidade para um apoio quase formal a Trump, tendo em vista também a política externa e breves esperanças numa possível política de reindustrialização nos EUA. Hoje, na Executive Intelligence Review, os artigos de Barbara Boyd demonstram claramente que não houve “conluio” entre russos e americanos, mas entre estes e os britânicos. É a continuação da política de “relações especiais” entre EUA e o Reino Unido, inaugurado por Truman e Churchill após o famoso discurso da “cortina de ferro”. Foi tal acordo que possibilitou, com a morte de Roosevelt, o recrudescimento da Guerra Fria. Os artigos de Boyd, como mencionado, servem, entre outras consequências, para dar nome aos bois da política externa transatlântica, da atuação dos serviços de inteligência, e não se entrar nas especulações genéricas a respeito da existência de um “deep State”.

A continuidade agora das “relações especiais” (que também tem implicações econômicas passadas e presentes e que não mencionarei aqui) é o que permite a proliferação das calúnias do Russiangate e a tentativa de recrudescimento da presença da OTAN no Oriente Médio e no leste europeu em claras provocações contra os russos. O professor acima mencionado, Stephen Cohen, denomina o momento atual, iniciado com Obama e a Ucrânia, como uma “Crise dos Mísseis invertida”!

No dia 22 de janeiro, a The Intercept publicou um vídeo onde reitera seu posicionamento anti-Trump, porém pede para que as pessoas considerem que, sem ele, talvez não haja no horizonte mais próximo solução para a política de guerras infinitas dos EUA. O título do vídeo é o seguinte: “Donald Trump é um mentiroso – mas talvez ele possa representar o fim das guerras eternas dos EUA”.

Acredito que é um posicionamento importante para ser analisado por nós brasileiros. Temos simpatia pelo The Intercept, por Gleen Greewald, sabemos que não são de orientação política nem um pouco reacionária, e que prestam bons serviços para o Brasil com seu portal em português. É uma das pouquíssimas mídias estrangeiras minimamente dignas, em meio a tantos El Pais, Sputnik, e que tais, fora os demais órgãos conservadores da Inglaterra e dos Estados Unidos que são referenciados como fonte de credibilidade. É complicado criticar a Globo e o bispo Macedo e repercutir acriticamente a The Economist ou o The New York Times…

Apesar da ausência de legendas em português, coloco aqui o vídeo do portal. Que isso não sirva para “se pegar mais leve” com Trump, mas fundamentalmente para se ver o quadro mais abrangente da crítica crise financeira do falido sistema transatlântico e as pungentes ameaças de guerra termonuclear que sofremos de maneira ainda mais aguda desde a “revolução colorida” na Ucrânia. Analisar sem a histeria insuflada pela mídia golpista internacional o governo de Trump, serve para aprimorar o senso crítico e ver o conjunto mais amplo dos graves dilemas existenciais pelos quais passa o mundo atualmente.