A Nova Rota da Seda e o Cone Sul

Os que se chamam liberais nunca puderam ser tão contestados depois da crise financeira (ainda atual). Ressuscitaram mortos com a ajuda estatal, que por sua vez ficou mortalmente comprometida. A China, com novos objetivos de financiamento da economia mundial, traça uma outra geografia internacional. Na Nova Rota da Seda aparece a centralidade de países como a Bolívia, um mar de equilíbrio em meio aos descalabros no sul do continente, e que pode ser o centro da integração regional nos próximos anos.

A Condor judiciária tem o objetivo de bloquear dois tipos de movimento que, num plano mais amplo, se chama genericamente de BRICS. De um lado, fazer retroceder as conquistas sociais, políticas e econômicas que começaram na virada do século na América do Sul com a eleição de Chávez. Logo após, com Néstor Kirchner e Lula, passamos a criar um desenvolvimento autônomo, cada vez mais livres dos ditados das metrópoles financeiras, o que, logo de início, ocorreu com a reunião dos três presidentes no rechaço à proposta da ALCA. De outro lado, a criação de mecanismos financeiros independentes, principalmente pela Rússia e China, para fugir do sistema-dólar e para poder financiar seus próprios projetos (grandes, gigantes) de infra-estrutura, sob a liderança chinesa na iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, não poderia se desenvolver livremente sem confrontos: guerras e ameaças de guerra por parte do sistema transatlântico em bancarrota.

Uma nota curiosa é como a Petrobras passou a aparecer nos noticiários como uma boa empresa, com exibições elogiosas dos campos do pré-sal, algo inédito desde então. A empresa tem que aparecer bem na foto para melhor poder ser fatiada e vendida. Contudo, a Odebrecht (a famosa empresa que daria a “delação do fim do mundo”, hoje totalmente contestada de inúmeras maneiras) segue como pano de fundo das acusações principais contra o Partido dos Trabalhadores e, em seu prolongamento, prende empresários e políticos no Equador ou no Peru. Talvez o caso do Peru seja mais sintomático em relação à parceria BRICS por causa do projeto de construção da ferrovia bioceânica, acertada pelo grupo dos cinco países e seus associados em sua reunião anual de 2014 em Fortaleza. Essa obra será um novo Canal da Nicarágua, ligando o sul do continente ao Pacífico, e praticamente liquidando a hegemonia comercial da Europa e dos Estados Unidos por aqui. O Equador, com a continuidade de um governo progressista, ao contrário de Argentina, Brasil, Paraguai e Honduras, não poderia ficar de fora desses ataques.

A ferrovia transcontinental sul-americana foi concebida inicialmente para passar pela cidade de Saramirisa, no norte dos Andes (um de seus pontos menos elevados), e se ligar diretamente ao Peru. A Bolívia em todo esse processo assume uma liderança singular. Deve ser lembrada as contestações que o governo Lula enfrentou por ceder a Evo Morales quando ameaçou a Petrobras de ser expulsa do país. De um lado, deve se respeitar a soberania de qualquer Estado-nação, princípio básico da convivência pacífica entre os povos desde o fim das guerras de religião com a Paz de Westfália. Por outro, hoje se vê um dirigente com o discurso europeísta (pró-euro, troika, otan, etc.) estatizar empresas em seu país e não se vê nenhuma gritaria. Macon corre com medo da China. O fato é que a Bolívia iniciou seu projeto para se tonar uma nação nuclear (sem grandes recursos naturais além do gás, ou seja, com grande dependência energética), tem um contrato assinado com a chinesa Sinosteel para construir no país pela primeira vez um complexo de metalurgia, em 2020, e quer fazer parte da construção da ferrovia bi-oceânica. A ferrovia como proposta pelos bolivianos sairia do porto de Santos e chegaria ao Peru numa conexão ao sul dos Andes (ao contrário do projeto oficial, no norte, como dito), o que acarretaria na incorporação da Argentina, Paraguai e Uruguai ao projeto através da ligação da ferrovia com a hidrovia Paraná-Paraguai. Seis das doze nações sul-americanas estariam envolvidas nesse projeto ampliado, o que tornaria a Bolívia quase que no coração da integração sul-americana, o que, no mínimo, acarretaria sua soberania sobre os mares – algo historicamente, e legitimamente buscado – tanto do Atlântico como do Pacífico.

 

“A China está convidando a Ibero-América e o Caribe a participar do desenvolvimento chinês de trens de alta velocidade. Zhang Run, diretor do departamento de relações exteriores chinês para a América Latina e o Caribe anunciou em 20 de outubro numa conferência de imprensa em Pequim, além do convite, que “a América Latina e o Caribe são como uma extensão do projeto da Nova Rota da Seda chinês, e estamos próximos de estar mais intimamente nele envolvido”.

 

O excelente artigo de Gretchen Small para a Executive Intelligence Review, “The fight is on for South American Bioceanic Railway”, pode ser lido clicando aqui – em inglês.  Vale acompanhar também o excelente Monitor Mercantil, citado por Gretchen em outro artigo em que mostra a participação do Panamá na Nova Rota da Seda (“Ibero-America moves toward Belt and Road, urges Unites States to join”, exclusivo para assinantes em larouchepub.com), que resumiu dessa maneira a iniciativa chinesa (clique aqui para o artigo):

 

A iniciativa Cinturão e Rota foi proposta pela China em 2013. Quatro anos depois, mostra sinais concretos. Segundo dados do Ministério do Comércio da China, entre janeiro e março deste ano, as empresas chinesas investiram US$ 2,95 bilhões nos 43 países ao longo do Cinturão e Rota. Desde 2013, a China investiu mais de US$ 50 bilhões nestes países. É o eixo central sob o qual se apoiará a China para a promoção do seu desenvolvimento e a intensificação de suas relações e interações com os outros países, visando a estimular a economia global, que sofre uma acentuada desaceleração desde a crise financeira de 2008. É a alternativa apresentada para estimular a economia real e deixar para trás a preponderância do jogo financeiro internacional.

Em palestra no Fórum, Zheng Bijian, ideólogo do projeto de ascensão pacífica da China a grande potência mundial, apresentou a iniciativa como um momento de virada. Aos 85 anos, o conselheiro dos líderes do PC chinês ressaltou que o conceito é a cooperação para alcançar a nova globalização – que não se confunde com a liberalização dos fluxos financeiros e restrição do poder dos Estados, bases da globalização anglo-saxã que levou o mundo a sucessivas crises e a um beco – para o qual a China propõe uma saída.

 

O curioso é como Luís Nassif gasta saliva pra falar do óbvio ou como fala o óbvio de maneira tão instrutiva. Ele fez um “xadrez do pós-bacanal” – com imagens fortes, para provar o que falei aqui no último post sobre a América do Sul, que, em resumo, todos os movimentos da oligarquia financeira internacional são frontalmente contestados atualmente. Com sinceridade, não sei quem acompanha esse blog (essa entidade para mim não existe), ainda mais quem liga as pontas. O fato é que você tem uma crise econômica (todas provocadas; nada de “ciclos econômicos”, de crises cíclicas ou outros hermetismos do gênero) com vista à provocação de uma guerra de grandes proporções. A eleição de Trump foi um tiro no pé dessa oligarquia, que geme ao ver medidas conservadoras do presidente serem aprovadas como se algo de sincero tivesse nessa revolta, enquanto ele é o único se engajar (não só acenar) com uma parceria com a Ásia, para além da histeria neomacartista do “Russian-Gate”. E bom lembrar que uma das plataformas de governo de Obama, endossada por Hillary Clinton em sua campanha, era a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria (em pleno conflito com o Isis, mitigado nos últimos meses com reações mais tranquilas dos EUA, sem contar o estrebuchar de abril – para quem se lembra…), o que acarretaria na obrigatoriedade da Otan abater não só aviões sírios que voassem no espaço aéreo de seu país (!), como também em todos os aviões estacionados, assim como no de seus aliados, com Rússia incluída (!!!). O partido da guerra é amplamente contestado e o Brexit, por exemplo, é um pequeno capítulo de tudo isso.

Nada comparado à hegemonia do Plano Real. Seu governante foi duramente contestado em seu segundo mandato, depois da vitória em primeiro turno. O “pacote Real” entrava a Alca, por exemplo, como contraposto necessário. A uma economia dolarizada, criaríamos uma moeda única de todo continente, em associação direta com os EUA. Por isso as comparações erráticas, inclusive da “esquerda” (essa entidade por vezes sagrada e que por vezes nada mais significa do que direções do humor), do suposto subdesenvolvimento do Mercosul em comparação ao amplo livre-mercadismo levado a efeito com a conclusão da união monetária europeia. Todas essas porcarias são contestadas atualmente, de maneira difusa, é claro, caso contrário não teríamos chegado à grande enganação de 1989. Sabe-se contestar dessa maneira errática, o que equivale a algum valor. Caso o valor existisse, outra configuração sócio-econômica do mundo estaria à nossa frente, com a continuação de políticas como a de Roosevelt ou a de JK ou Vargas aqui no Brasil. É um momento singular depois de um gigantesco hiato histórico, só não menos esvaziado de valor para quem acompanha com desvelo o desenvolvimento inter-nacional, o que é flagrantemente demonstrado pelo desenvolvimento da vida e do pensamento de Lyndon LaRouche, mas também de algumas outra vertentes sobre as quais me alongaria demais caso fosse dar pormenores por aqui, mas que guardam relação com a poesia e o cinema – a música como entretempo – que parecem, por vezes, relíquias de tempos remotos…

Posso terminar com uma imagem sobre os bons tempos que nos aguardam, ainda que o perigo de guerra não tenha sido totalmente afastado. Na verdade, a guerra no sentido de vingança, d revanche, é o tema das manchetes diárias. A guerra total como vista por Deleuze e Guattari no Mil Platôs é imanente. A interrogação colocada por eles, se pode ser ou não nuclear, continua no ar. Permanecemos com as boas expectativas com a Nova Rota da Seda e o Cone Sul, apesar do franco contra-ataque do partido da destruição. Não fazemos questionamentos difusos, apesar da linguagem talvez um pouco mais elaborada. Que se aprenda a falar e a pensar em termos melhores antes de críticas genéricas. Todo esse post atingiu seu objetivo.

O futuro atual