Aldo Rebelo: misturar-se de uma vez com o todo

@aldorebelo
Foi difícil resumir o texto para apresentá-lo aqui na chamada. Fica só um breve parágrafo logo abaixo e que dificilmente dá conta do todo. Para quem acha que entende de política e de políticos, mas não conhece o papel de verdadeiro protagonista de Aldo Rebelo agora e nos últimos anos – pelo menos – não entende nada nem de uma nem dos outros. Ampliar o campo de nossa visão, compreender as diferentes estratégias, são as armas mais básicas para se ter a consciência tranquila e ter domínio da prática política mais concreta. Talvez isso que, muito simplesmente, a figura de Aldo Rebelo (na imagem, trajado como o Manuelzão de Guimarães Rosa) representa.

“Misturar-se de uma vez com o todo é saber da plataforma importante que foi construída ao longo dos anos, uma verdadeira abertura social que dificilmente será encerrada como esperam toda a histeria e sanha persecutória de seus inimigos. Misturar-se é ter a clara consciência do que é todo esse trabalho, de como ele se desenvolve, sem apelos a palavras de ordem ou a ideologias de gênero variado. Aldo Rebelo, como um homem simples acima de tudo, encarna esses ideais e por isso é um interlocutor privilegiado do lado democrático de nosso país. Escrever sua biografia seria escrever a história contemporânea do Brasil sob um ponto de vista privilegiado, no que muito ajudaria, em seu aspecto conjuntural, a entrever as conquistas e os desafios que estão vindo pela frente”.

Esse texto pode ser considerado também como a anti-imagem de Ciro Gomes. A ver.

Os movimentos de um político original

Aldo Rebelo ocupou o espaço, ou tem como intenção, ocupar o espaço deixado no PSB depois da morte do Eduardo Campos. Este foi convidado para ser vice da Dilma nas eleições de 2014. Seria o candidato a presidente apoiado pelo Lula e o PT nas eleições de 2018. Quis ter vida própria. Acabou morto num acidente de avião, algo que foi extremamente oportuno para sua vice-candidata, Marina Silva. Nem assim ela chegou ao segundo turno…

Em 2012, o PSB foi o partido que ganhou mais prefeituras durante as eleições municipais. Eduardo Campos é filho de Miguel Arraes, líder importante no nordeste desde a época da ditadura. Contudo, aliou-se aos liberais para poder ter a suposta “vida própria”. A mãe dele, integrante do Tribunal de Contas da União, teve um papel relevante na farsa das “pedaladas fiscais”. Depois de sua morte, seu partido descambou de vez para a oposição, aliando-se com PMDB e PSDB e apoiando massivamente o impeachment. Um partido de esquerda virou linha auxiliar do golpismo.

Aldo Rebelo saiu de uma militância de quatro décadas no PC do B, talvez o partido mais fiel ao PT durante os três mandatos e meio na presidência. Agora o PC do B, com uma moça chamada Manuela D’Ávila, se voltou para temas como o do multiculturalismo e outras banalidades ultraliberais com cara de progressismo. O Aldo foi importante em dois momentos: 1) ao se colocar como possível vice de Rodrigo Maia caso Temer fosse destituído (algo que quase ocorreu e cujas chances ainda não foram de todo afastadas), ou seja, se creditaria, como vice-presidente, como um fator de moderação na avalanche neoliberal que veio com o golpe; 2) Se colocou como fiador dos militares caso esses tomassem pela força o poder, algo que também esteve na ordem do dia e que não se concretizou, muito provavelmente, por se ter clareza da necessidade de intervenção dentro das Forças Armadas, mas não de um programa claro sobre como esta se daria (a clássica divisão, acentuada no momento atual, entre um setor entreguista e outro nacionalista). Isso é o que se depreende das falas do general Villas-Boas, e também do historiador Muniz Bandeira, o primeiro a alertar sobre a movimentação nas casernas, pouco antes de falecer. Por ter bom trânsito com o DEM (algo que remonta às discussões do Código Florestal), Rebelo seria o interlocutor da esquerda num governo pós-Temer. Por ser aliado do exército e antigo Ministro da Defesa, foi cogitado como o elemento civil caso alijassem Temer à força.

Sua ida ao PSB é oportuna porque reorienta o partido para as práticas progressistas, patrióticas, que vem desde de Arraes, e que seu filho desvirtuou ao se deslumbrar com os incríveis resultados eleitorais de 2012, onde todo o campo da esquerda saiu vitorioso, mas cujo papel de destaque foi do partido pernambucano. Para se ter uma ideia, foi cogitado no partido o convite a Joaquim Barbosa para sair candidato à presidência esse ano. Rebelo lançou sua pré-candidatura e disse que Joaquim pode vir, que ele irá “bater chapa” com ele, ou seja, disputar prévias e ver quem é mais forte. Joaquim quer ser uma unanimidade burra como foi durante seu protagonismo no mensalão, e dificilmente se prestará a algum embate político. Como consequência, o PSB se afasta do apoio a Temer e mantém distante esses aventureiros da “nova política”. Logo, seu papel é fundamental tanto como fiador de boas propostas durante a vigência desse estado de exceção que vivemos, quanto por reorientar programaticamente, politicamente, um dos partidos de esquerda mais importantes do país.

É bom lembrar só uma anedota que diz bem a diferença entre Joaquim Barbosa e o PSB “original”: o calendário do julgamento do mensalão foi manipulado para ocorrer junto com as eleições de 2012. O julgamento final se deu na semana de votação do segundo turno. Para se ter uma ideia de como foi meticulosamente arranjado para trazer um estrago leitoral para a esquerda. O fato é que enquanto Barbosa, Gilmar Mendes, e outros comemoravam sua suposta vitória com o mensalão, o PT, PSB, PC do B e todo esse arco de alianças do campo não-conservador obtinha a maior vitória eleitoral de sua história, talvez da história do país. O carlismo foi extinto na Bahia, o velho coronelismo acabou (brevemente ressuscitado nos retrocessos das eleições de 2016) e, logo depois, Flavio Dino iria tirar a dinastia dos Sarney no Maranhão. É a essa aliança vitoriosa que Aldo serve indo ao PSB e reorientando o partido como um todo. É um protagonista, ainda que não saia em nenhuma mídia.

2012: ultrapassar barreiras

No mais, uma breve comparação que diz também o motivo de se ter destacado Aldo Rebelo como um protagonista dos mais sérios quando se fala seriamente em democracia. Ciro Gomes ganhou notabilidade – e talvez esse fosse seu objetivo – quando não se posicionou claramente a favor de Lula antes do julgamento no TRF-4. Na verdade, ficar em cima do muro foi um meio de Ciro apontar uma impossibilidade judicial: quando ele falava que a justiça deveria ser feita nesse julgamento, partindo de alguém que nunca levou a sério os argumentos da seção curitibana do golpe, é apontar para os limites dessa mesma justiça, para sua impossibilidade. Esperar que a justiça seja feita, em Curitiba, é apontar para o próprio limite que a justiça não pode transpor. No caso, fazer justiça é agir injustamente. Esse o paradoxo que aponta a fala de Ciro ou a contradição insuperável dos que estão submetidos à lógica infernal inaugurada com a Lava-Jato. Contudo, “ficar em cima do muro”, por mais virtuoso que essa posição possa mostrar ao revelar um ponto sem volta, e dentro dos limites do direito, é ainda assim não ultrapassar as fronteiras. Quem se destacou sem ultrapassá-las?

Quantas fronteiras Lula, o caso paradigmático, ultrapassou? Difícil enumerar tudo aqui, mas a criação do PSOL durante a primeira votação da Reforma da Previdência e cujo caldo foi engrossado com o “mensalão” é um caso exemplar. Todos os atos de seu governo, não ideológicos, foram para romper barreiras. Mesmo talvez no que mais errou, não dirigir corretamente o sistema policial e judiciário (principalmente depois do escândalo do “grampo sem áudio” de Gilmar Mendes e Daniel Dantas e que levou ao afastamento de Paulo Lacerda da chefia da PF), a prática de escolher o primeiro votado na lista é algo que trouxe da época do sindicalismo onde, para não dizer que estava favorecendo partes, escolhia o que foi mais votado. Foi mais democrata que a democracia atual exigia, talvez mais realista que o rei, como se diz, e isso teve um impacto muito grande em todo seu governo e de sua sucessora e se estende até hoje. Mas mesmo esse ato, talvez falho, foi ultrapassar uma barreira, sair das velhas práticas de compadrio que tanto o acusam, mesmo não tendo “compadres” na diretoria da Petrobras.

A conjuntura de 2012, como apontamos acima, mostra todo um conjunto de ações individuais e sociais de se ultrapassar barreiras, e Aldo teve um papel fundamental nessa dinâmica que começou a ser abortada com a “primavera colorida” de 2013. Dilma Rousseff inicia um projeto de envergadura ao desafiar diretamente, pela primeira vez dentro do executivo federal, o sistema bancário e financeiro. De um lado, as taxas de juros reais e não nominais alcançaram seus menores patamares históricos, tanto nas taxas pré quanto pós fixadas. No outro front, a competição provocada pelo uso dos bancos públicos através da diminuição dos spreads bancários, o que obrigaria a banca privada a baixar suas taxas, já que a mera redução da taxa SELIC não é suficiente para dar crédito mais barato ao consumidor. Nesse momento o governo se movia com muita liberdade e Dilma chegava a quase 80% de aprovação, só um pouco abaixo da máxima histórica alcançada por Lula no fim de seu mandato. E veio 2013…

2012 foi um ano marcante pelas eleições terem derrotado o complô jurídico-midiático, no caso, o mensalão. Marcante pela liberdade como o governo agia na economia, o que levou rapidamente às taxas de pleno emprego em 2014 e, no mesmo ano, a saída do Brasil do mapa da fome da ONU. Em 2012, nesse ambiente talvez de “céu de brigadeiro”, ou quase isso, Aldo Rebelo enfrentou as mais duras críticas por liderar o projeto do Novo Código Florestal. A chamada esquerda é sempre muito burra por seguir ideologia; não se move por estratégias. Assim, a esquerda “libertária” acaba sendo a legitimação, no plano cultural, da direita liberal. Aldo ajudou a criar o marco regulatório que satisfazia a necessidade de desenvolvimento do agronegócio, tanto das grandes empresas quanto dos pequenos e médios proprietários. Se não penaliza demais um (os grandes, no caso), que de toda forma traria consequências negativas para a economia, deu mais liberdade para a expansão dos setores camponeses, de menor renda, auxiliados estes pela conjuntura econômica favorável, por acesso ao crédito e a amplos projetos sociais. É o caso clássico de isonomia. Agora criticam determinados fatores do Código, muitos deles que vieram posteriormente, como adição ou modificações da lei originalmente votada. Os críticos mal sabem distinguir uma das outras e querem fazer a implosão de tudo. Talvez fazer como a The Economist propôs:

Dado que florestas tropicais são ideais para sequestrar carbono, a revista inglesa “The Economist” divulgou recentemente a brilhante ideia surgida na Cúpula Mundial do Clima de reflorestar completamente o Cerrado brasileiro e a Savana africana, admitindo, é verdade, a possível resistência dos brasileiros a remover milhões de bovinos e hectares de soja da área. Para compensar a provável redução da oferta de proteína vermelha, a revista propõe uma dieta à base de insetos desde que, é claro, nenhum lepidóptero frequente a mesa dos súditos de Sua Majestade.

Esse é o artigo de Aldo no O Globo, que pode ser acompanhado da leitura de seu outro artigo em defesa do Código, publicado no Estadão. O contexto geral é que Aldo Rebelo se moveu contra a Máfia Ambientalista, apoiada em ONGs de todo o mundo, sustentadas pelo sistema financeiro, e que tem a ideia de crescimento zero, populacional e econômico, em favor do não desenvolvimento industrial de nação nenhuma. Não por outro motivo, quando saiu o “libertário” Obama a direita liberal reclamou das medidas de reindustrialização de Donald Trump. Com o Código Florestal, Rebelo se aproximou dos chamados nacionalistas das Forças Armadas e, ao defender parte do empresariado, aproximou-se também de alguns liberais. Ultrapassou a ideologia e, como Ciro Gomes ou Bolsonaro, a verborragia.

Esses dois candidatos tem mais em comum do que se parece. São, no plano político, o que se falou recentemente de dois jornalistas: Gregório Duvivier é o pé esquerdo do “jornalismo cor-de-rosa”; Thiago Laifert o pé direito. Como políticos, os dois acima mencionados, não são “vermelhos”, mas roxos! E por sua retórica inflamada e colocações genéricas, abstratas, sobre os problemas do país, se unem como dois irmãos gêmeos. No caso de Ciro, em particular, sabe-se que ele vai fazer “o Brasil funcionar” na marra, por causa da ombridade dele e do “histórico” que ele diz ter. Fora isso, nenhuma bandeira, nenhum programa, nenhuma estratégia. Nem mesmo um grupo, nem mesmo um partido minimamente coerente e com base social suficiente (pobre PDT…). Sobre a questão da dívida pública, por exemplo, Ciro sempre fala. Mas e sobre a Auditoria da Dívida, alguma vez isso foi colocado como programa de governo? Como tratar com os “técnicos” do Banco Central? Além dos culhões que disse ter, ele não falou nada a respeito.

Esses candidatos que puxam o entusiasmo de tantos são subprodutos da anomia social que cresceu vertiginosamente desde que fomos atacados pela primeira vez por uma guerra irregular moderna (o conceito de “guerra híbrida” é genérico; os militares da Rússia, China e muitos outros países asiáticos usam esse outro termo, o de guerra irregular, cunhado pelo falecido general alemão Von der Heidt, para nomear as “primaveras coloridas”). Eu mesmo, abismado com o que foi 2013, e sabendo de cara que os milhões que foram para a rua não foram por causa do aumento da passagem de ônibus (não vou falar de “20 centavos”, que vai ao campo simbólico e causa delírios variados nos que assim se expressam), tive que formular uma proposta factível, concreta, que pudesse ser feita para além da parafernália de coisas que se falavam. Era simples: se consolidou o aumento real do salário mínimo baseado na fórmula crescimento do PIB + inflação. Para mim, a fórmula deveria ser SELIC + inflação. Assim, nenhum rentista lucraria mais do que o mais pobre dos brasileiros. Medida simples e eficaz que poderia mobilizar pessoas em torno de algo concreto, factível (ainda que algo irreverente), ao invés de começar a ser contra “tudo o que está aí”. E esta aí: esse negócio de “passar o Brasil a limpo” realmente passou o rodo no país, exterminou empregos, a começar pela Lava-Jato.

Deve-se lembrar que em 2015 o FMI, sempre conservador, para dizer o mínimo, disse que pelo menos 2% do PIB daquele ano foi influenciado diretamente pela Lava-Jato; fora as influências indiretas, já que estamos tratando de uma organização do trabalho complexa que se organizou através das políticas industriais no setor naval, aeroespacial, com a Petrobras e com as inúmeras obras de infraestruturas albergadas no PAC. Desde o engenheiro ou o empreiteiro, até os eletricistas, gasistas, pedreiros e quem vendia quentinha e lanches nas obras foram afetados. Fora o que era colocado novamente no mercado pelo aumento da massa salarial, do trabalho formal que, por sua vez, remunerava os governos (dos três níveis) através do pagamento dos variados impostos. 2% do FMI é uma piada, mas tem um breve indício de realidade.

Misturar-se de uma vez com o todo

Vamos esquecer por um momento a originalidade e a obrigação de ultrapassar barreiras, temas abordados acima. O que fenômenos como Ciro, Bolsonaro, Dória, Huck, Barbosa e tantos outros (Até o prefeito de Manaus, Maia e Temer acham que tem chances!) apontam é para uma extensa formação social anômica que, de maneira excêntrica, pode ir pulando de um candidato a outro: tudo “terceira via”, como diz Aldo da eleição sem Lula. O que se deve ter em vista é algo que Eugênio Aragão disse recentemente, respondendo a falsas imputações da Veja:

Não me impressiona a tática de querer encher meu ego com a recitação de títulos acadêmicos que tive oportunidade de conquistar por generosidade de uma sociedade carente de políticas que estendam a todas e todos essa chance. Eles valem pouco diante do tamanho da tarefa de reconstrução de nossa democracia sequestrada e estuprada por um bando de interesseiros em causa própria. Eles valem nada diante do porte de Lula na história contemporânea do nosso sofrido continente.

A importância da liderança histórica de Lula é exatamente essa: ver que as ideias ou títulos pessoais não valem nada. Lutar por sua candidatura é baixar a cabeça e se misturar ao todo, ao todo imaterial que forma nossa cultural, às totalidades sociais que fizeram o Partido dos Trabalhadores ser o mais partido de esquerda da América Latina e, do mundo, se pensarmos que na China e em Cuba existe partido único. O maior partido de esquerda no chamado mundo democrático. Misturar-se a essa base social que fez esse partido ser construído de baixo para cima e, vendaval após vendaval, continua de pé. É misturar-se com um todo que não é nem o próprio PT, que no caso é apenas um meio, dos anseios comuns de nossa sociedade. O que seria esse “todo”, em suma, para concluir?

Vou ter que fazer uma breve alusão histórico-erudita, ainda que da maneira mais simples de todas. Lucien Febvre, um historiador francês de destaque, um dos fundadores da afamada Escola dos Annales, escreveu um pequeno livro sobre Martinho Lutero. Nele, o historiador, com muita perspicácia, mostra como Lutero nunca foi um incendiário. Se combateu a Igreja, os luxos do Vaticano, foi como monge. As obras que achavam desnecessárias e mesmo deletérias não eram só a simonia ou a venda de indulgências pelo papa. A dura vida de um mosteiro não levava a lugar algum além do desgosto pessoal ou a morte. Somente poucos, com uma disposição particular para aquele tipo de vida (seja por motivos subjetivos ou por motivos sociais), conseguiam viver relativamente felizes com as duras disciplinas. Aliás, quando Lutero casou, disse que fazia isso como um ato de desagravo: queria ver as escamas do capeta tremerem. Toda lei é material, infernal. Só a misericórdia, a infinidade dos dons concedidos de graça por Deus é que são válidos. Se casar é proibido, logo, é lícito. Isso faz parte de uma leitura bem particular de Lutero e não tem anda a ver com o tipo de teologia libertária, ultra-luterana, que muito mais tarde vai praticar André Gide, talvez o avô dos “multiculturalistas”.

Mas o historiador empaca ao ter de narrar o que chama de a terceira fase da vida de Lutero: primeiro foi a de monge, a das teses; a segunda, a fase idealista, quando saiu do exílio forçado para direcionar os camponeses, incendiados pela iconoclastia, pelo anabatismo, quando falava: uma imagem tem o mesmo poder de um rei. Estão ali mas não valem nada. Não há motivo para destruí-las. Para que saquear igrejas, colocar fogo em casas e tantos mais descalabros? E o Lutero que sempre aparece como uma espécie de revolucionário, numa terceira fase, se torna um camponês bonachão, casado, barrigudo, com filhos, fazendo trabalhos manuais para sobreviver, bebendo cerveja e vinho à vontade (para fazer arrepiar as escamas do diabo), recebendo amigos e admiradores em casa para comer e beber – de onde saíram suas famosas Conversas à mesa. A revolução luterana teria falido, se pergunta o historiador francês? Pergunta típica de um historiador desse país, já que na França as revoluções teriam que dar certo, ou pelo menos acontecerem, chegarem a um fim, como a de 1789, o que não quer dizer de forma alguma que ter cumprido esse processo fez vitoriosa essa revolução.

Lucien Febvre diz que a revolução de Lutero é como a de Fausto, ou seja, uma revolução toda interior, nada ou muito pouco preocupada com seus desdobramentos externos, sociais. E esse, apesar de se basear numa verdade relativa, é o erro da excelente biografia. Primeiro que comparar as revoluções modernas, as do fim século XVIII (americana e francesa) com veleidades políticas do século XVI e mesmo do período romântico de Weimar, não pode ser feito sem alguma mediação. Ao traçar uma correspondência direta, como se, através de Lutero, se pudesse de alguma maneira antecipar o caldo cultural e social que só foi permitido tempos depois, o historiador que disse que o maior pecado do historiador é cometer um anacronismo, acaba por pecar. É uma ilusão retrospectiva própria da intelectualidade, de sua imaginação, e que não viu, mas que acabou por descrever quase que a contragosto (sua maestria acaba por deixar em aberto o que foi a revolução que ele conscientemente rechaça. Lutero simplesmente segue, nessa “terceira fase”, a imagem mais singela do Evangelho. Torna-se um simples camponês, preocupado na manutenção dessa vida, sem veleidades políticas. Podemos até dizer que nessa fase tardia é quando Lutero se torna – gordo, casado, beberrão – de fato um monge, ou seja, entendido monge como aquele que de maneira mais singela, com o esforço mínimo e a consciência máxima, segue os ditados cristãos.

E o que isso tem relação com todo o contexto social, político e econômico que levantamos ao longo de nosso texto? A fala de Lula na entrevista dele em 1 de março para a Folha de São Paulo nos ajuda a explicar:

Eu sou contra a tese da hegemonização. Em algum momento pode ter um candidato de outro partido e o PT apoiar. Se o Eduardo Campos tivesse aceitado a proposta que fiz pra ele e pra Renata Campos em Bogotá em junho de 2011 dele ser vice da Dilma e ser o candidato em 2018, ele estaria sendo o candidato agora. Em 2010 era necessário o PMDB na vice porque a Dilma não era conhecida então ela precisava de mais tempo na televisão. Mas em 2014 ela não precisaria mais. O Eduardo Campos poderia ter sido vice dela e agora a gente estaria gostosamente discutindo a candidatura dele à presidência da república e não a minha. Se fosse fácil construir um candidato, você acha que eu seria candidato. Eu não seria candidato. Eu já fiz, por esse país – com a compreensão do povo e a ajuda do povo porque se o povo não ajudasse eu não teria feito – já fiz o que ninguém conseguiu fazer. Então porque você acha que eu ia querer voltar? Eu prometi pra coitada da Marisa em abril de 1978 que eu ia fazer meu último mandato no sindicato. Convoquei um assembleia e aprovei que nenhum presidente do sindicato poderia ser presidente mais de duas vezes e que eu ia voltar pra casa pra cuidar da minha família. Quando eu deixei a presidência eu falei “Marisa, agora eu vou ficar em casa”. Se ela tivesse viva você acha que eu ia ser candidato? Você acha que não tava na hora de eu baixar o fogo?

Três pontos em destaque. O que eles dizem? O fato relatado no primeiro trecho em destaque é uma das inúmeras provas irrefutáveis de que nunca houve um apego ao poder por parte de Lula (o que, mais do que tudo, o afastou da tradição varguista como sonhara a vanguarda petista); é demonstrado igualmente a eleição de Dilma (ou seja, não escolheu entre os “amigos” nem usou de seu mandato para servir de tampão para uma terceira eleição sua) e seu afastamento do governo (muito criticado; Lula na época foi quando deu mais palestras internacionais e não frequentava Brasília como se esperava ou colocava pautas ao governo; além de uma ou outra histeria midiática nada prova que isso ocorreu), e a escolha de um partido diferente para a cabeça de chapa para as eleições de 2018, endossando o que muitos pedem, o chamado “novo”, no caso, Eduardo Campos, líder de um partido de esquerda, com fortes raízes históricas, e que estava em plena ascensão. Logo, Lula está tão longe dos incendiários revolucionários quanto dos autocratas, dos líderes regionais que acabavam por se achar a única alternativa ao poder, como foi o caso de Vargas. Mostra a complexidade da formação política do Partido dos Trabalhadores, assim como o não menos complexo enraizamento social dessa instituição. A formação de bom quadros políticos, que mostram e mostraram serviços seja nos executivos municipais ou estaduais, em ministérios e no dia-a-dia do Congresso, demonstra como pode ser conturbada especulações a respeito do que seria o suposto “plano B” do PT. Celso Amorim, Haddad, Jaques Wagner e quem sabe até um outro “poste” escolhido por Lula? O fato é que o prestígio desse partido, sua imensa máquina eleitoral baseada em princípios democráticos avançados, faz a crítica enlouquecer, vendo em tudo movimentos para se perpetuar no poder, como se um partido democrático, de esquerda, só pudesse ter tantas vitórias consecutivas (e num plano nacional, vitórias muito amplas e importantes junto a seus aliados de outros partidos) através da malversação de recursos públicos ou do uso sistemático de caixa 2. Pode ter havido tudo isso – vamos supor – mas ainda assim não se explica a pujança político-eleitoral do PT, pois, como mais do que comprovado, todo e qualquer outro partido político no mínimo fez uso do caixa 2, algo imposto pelas empresas e um crime eleitoral e não criminal, como tristemente deturpam por agora – e somente contra os inimigos.

Misturar-se de uma vez com o todo é saber da plataforma importante que foi construída ao longo dos anos, uma verdadeira abertura social que dificilmente será encerrada como esperam toda a histeria e sanha persecutória de seus inimigos. Misturar-se é ter a clara consciência do que é todo esse trabalho, de como ele se desenvolve, sem apelos a palavras de ordem ou a ideologias de gênero variado. Aldo Rebelo, como um homem simples acima de tudo, encarna esses ideais e por isso é um interlocutor privilegiado do lado democrático de nosso país. Escrever sua biografia seria escrever a história contemporânea do Brasil sob um ponto de vista privilegiado, no que muito ajudaria, em seu aspecto conjuntural, a entrever as conquistas e os desafios que estão vindo pela frente.

Viver simplesmente e debater francamente, como Lula ou Aldo, como Lutero verdadeiro “monge” depois de velho, é o que fará os que estão em cima do muro, os que estão com raiva e querem candidatos que tem discursos que criam manchas roxas em suas faces, e até mesmo, ainda que quase que por má vontade, chamar os cor-de-rosa, de esquerda ou de direita, os “principistas” ou simplórios serviçais do império (Laifert ou Duvivier) para uma campanha em uníssono. É isso que nos espera num breve período. O refluxo das ações que provocaram a crise social total que ainda vivemos, a extrema anomia social gerada e que faz se voltarem atenções a Ciros e Bolsonaros, Dorias e Hucks, ou mesmo o voto empedernido nas políticas falidas em todos as esferas nacionais do liberalismo tucano, paulatinamente é revertida, e as intenções de voto em Lula e as indicações de que a maior parte da sociedade não aprova a perseguição que sofre, nos mostra um cenário não roxo ou cor de rosa, mas azul. É ver esse céu azul, ver a vida com otimismo, é misturar-se e dialogar com todos o que nos espera. E só quem tem uma não pretensão pessoal como Lula demonstra, ou que age heroicamente sem despertar os holofotes, como Aldo, terão as condições de serem líderes desse processo. Misturar-se ao todo é seguir o Todo, como exemplifica Lutero, e não o “tudo”, a miríade de informações desencontradas, de caos social, de hominização da figura humana que encontramos na guerra social vigente, ou queles que, em vão, querem dar uma direção qualquer a esses descalabros. Ter uma plataforma, agir com simplicidade. Ser mais ou menos famoso, ser Aldo ou Lula, para revitalizar o tecido social, seccionado das maneiras mais diversas desde que, encontrando agentes aqui dentro, da classe-média comum a agentes públicos com poderes delegados (fala-se do sistema judicial) em conluio com os inimigos empedernidos do país (os financistas e seus serviçais, os midiáticos). Em breve, e não duvido disso, até Ciro está gritando Lula lá! (talvez para seu desgosto, talvez para uma alegria amarga), Bolsonaro voltará a ser o medíocre que sempre foi, não muito diferente da mediocridade e servilismo de um Temer (Bolsonaro já mostra como é servil ao docilmente se curvar a plataforma econômica que não é eleita no Brasil desde 2003), e Doria, Huck e, quem sabe, Alckimin e correlatos (Serra já foi, Aécio idem), perderam a administração do que outrora foi a capitania de São Vicente e agora é a dos libero-genocidas tucanos, nem tão distante da dinastia Sarney, pois esta não tinha o mesmo “luxo” e apelo midiático e “transnacional” – um ultraregionalismo, em suma.

Sem pretensões além das Conversas à mesa, mas em todas as mesas e em todos os lugares. E de maneira franca e sem personalismos. Se não cometemos um anacronismo, essa é praticamente a lição do Evangelho como exemplificada por Martinho Lutero e, recentemente, por Martin Luther King e Nelson Mandela. Quem sabe em breve teremos o nosso Nobel da Paz!

PS: seria interessante explicar como, a partir do contexto internacional, os golpes refluem com uma foça inaudita. A facção transnacional, ultraliberal, da guerra, procura usar os meios mais violentos, inclusive com ameaças de guerra de aniquilação. um novo horizonte, com muito cuidado, cada vez mais pode ser entrevisto. Quais serão as armas, como muitos indicadores apontam, que a oligarquia transnacional terá, além da bomba atômica, para deter essa perspectiva? Enfim, assuntos para outras conversas, o que não quer dizer que já não abordamos esse tema em conversas anteriores.