Apple e a multiplicação de homicídios

 

Ainda que seja louvável a iniciativa do novíssimo Jornal do Brasil em relatar em sua manchete principal que a morte por overdoses nos EUA hoje superam em número os homicídios cometidos no Brasil, é ainda insuficiente o esforço de todo e qualquer imprensa em ver a figura toda do que constitui o mercado de drogas global. Ainda mais, a participação no comércio de drogas, tal como as promessas do Vale do Silício, se tornaram uma “carreira aberta aos talentos” tanto no sul global quanto no chamado “setor avançado”, hoje invariavelmente falido. A extrema valorização da Apple em meio à penúria econômica e humanitária (crise de imigrantes, de refugiados), mostra não uma vitória do livre-mercado, mas os vínculos indissolúveis entre liberalismo e genocídio.

 

“as névoas enganadoras das maravilhas consumidas sobre o arco-íris

         de Orfeu amortalhado despejavam um milhão de crianças atrás das

         portas sofrendo

nos espelhos meninas desarticuladas pelos mitos recém-nascidos vagabundeavam

         acompanhadas pelas pombas a serem fuziladas pelo veneno

         da noite no coração seco do amor solar

meu pequeno Dostoievski no último corrimão do ciclone de almofadas

         furadas derrama sua cabeça e sua barba como um enxoval noturno

         estende até o Mar no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória

         atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores

         pulam no Caos”

(trecho de Visão de 1961, de Roberto Piva)

 

Ainda que seja louvável a iniciativa do novíssimo Jornal do Brasil em relatar em sua manchete principal que a morte por overdoses nos EUA hoje superam em número os homicídios cometidos no Brasil, é ainda insuficiente o esforço de todo e qualquer imprensa em ver a figura toda do que constitui o mercado de drogas global. A epidemia de opioides nos EUA é coetânea da multiplicação das plantações de papoula no Afeganistão. Qualquer relato minimamente informado a respeito das consequências das guerras da OTAN no Oriente Médio que não leve em conta a multiplicação do tráfico de drogas, correspondente ao incremento do livre fluxo de capitais especulativos mundo afora depois de instaurada as políticas de flexibilização quantitativa tanto nos Estados Unidos quanto na União Europeia, apenas produz manchetes para escandalizar almas mais sensíveis ou tornar mais empedernido os ânimos de chumbo.

A multiplicação de receitas de remédios fabricados com opioides nos EUA é correlato da multiplicação dos planos de saúde de baixa categoria, não muito distante dos “planos populares” propostos pelo governo Temer no Brasil. O convívio com tais drogas afetou as populações mais vulneráveis do país que, sem recursos para sustentar a riquíssima indústria farmacêutica, busca nas esquinas de toda e qualquer cidade americana, das menores até as megalópoles, o ópio que sem o qual passou a acreditar não poder mais viver. Somado o fato que a multiplicação de trabalhos parciais, inclusive para aposentados que tiveram seus direitos comprometidos pela crise financeira generalizada (bastante eficiente em socorrer os “muito grandes para falir”, mas incapaz de sustentar as pensões nos municípios mais distantes), aumenta não só a penúria social, mas a tentativa de encontrar “soluções criativas” para superá-la. A participação no comércio de drogas, tal como as promessas do Vale do Silício, se tornaram uma “carreira aberta aos talentos” tanto no sul global quanto no chamado “setor avançado”, hoje invariavelmente falido.

Boa parte da demanda na legalização das drogas, com seus honoráveis marqueteiros de plantão como George Soros, Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton e Bill Gates (fora o filme produzido por Luciano Huck, “Quebrando o tabu”), mostra tanto que cada vez mais se deseja contabilizar nas estatísticas econômicas oficiais dos países o fluxo considerável de riquezas produzido pelo comércio de drogas, dado a crescente escassez de recursos dos setores produtivos, quanto se produzir um paradigma social que case muito bem com as hoje neo-hollywoodianas “industria 4.0” e as miragens produzidas pelo Vale do Silício.

Pelo contrário, a inovação tecnológica ainda está de mãos dados aos enormes gargalos de infraestrutura que existem no mundo todo, e cada vez mais no “setor avançado”, fato que fica a descoberto quando se vê os constantes acidentes nesses lugares, como a queda da ponte em Gênova ou o colapso recente do metrô de Nova Iorque. A ideia implícita na Nova Rota da Seda chinesa, a de ligar países com trens de alta velocidade, criar corredores de desenvolvimento, além de contribuir para o povoamento e a pacificação do Oriente Médio através da construção de usinas de dessalinização de base nuclear e a ionização da atmosfera, é realizar projetos nascidos no grande boom industrial ocorrido no século XIX nos países banhados pelo Mar do Norte, assim como no norte do continente americano. Não só existem esses gargalos de infraestrutura como a infraestrutura existente encontra-se em estado de miséria em boa parte dos países desenvolvidos, ou em grande atraso em relação ao que é feito de mais moderno no mundo, como os trens de levitação magnética chineses.

As manchetes recentes de publicidade da Apple, onde a empresa passou do 1 trilhão de dólares em valor mercado, dá conta dessa total inversão de valores, e mostra que não é por causa de estatísticas (número de overdoses X números de homicídios) que o Brasil tragicamente se aproxima dos EUA. Para dar conta da indústria publicitária, deve-se ter em conta que, com a política de flexibilização quantitativa, as gigantes corporações transnacionais pegam dinheiro quase de graça e compram suas próprias ações. É o caso da empresa criada por Steve Jobs. Mas não só: as agências de publicidade chamadas órgãos de imprensa fazem questão de enfatizar que a empresa não tem nenhum plano de inovação e que, mesmo sem perspectiva de aumentar as vendas e sem produtos no horizonte próximo que possam alavancá-las, a empresa bate todos os recordes no mercado financeiro. Um caso clássico de manipulação bursátil.

Assim, a Guerra do Ópio agora travada tem os mesmos objetivos imperiais da que foi levada a cabo no século XIX contra a China: a abertura de mercados e a contaminação por drogas de populações inteiras. Então, com mais eficácia do que as especulações científicas de Marx e Engels naquele século, filhos da escola britânica, o sistema protecionista de Alexander Hamilton aplicado em larga escala nos EUA pelo menos até a morte de Willian McKinley, último presidente americano da escola de Hamilton e Lincoln, e por Friedrich List e Bismarck na Alemanha, foram vetores de desenvolvimento social que serviram como barreiras à política de genocídio do Império Britânico. Com a recolonização dos Estados Unidos por este mesmo império depois da morte de Roosevelt, coube a inúmeras “ilhas” espalhadas pelo mundo se unirem contra as políticas imperialistas, como Cuba e Vietnã na luta armada (inclusive com consequências para a luta armada fora de suas fronteiras, em países aliados), ou a reunião dos países não alinhados, como a Iugoslávia de Tito, o Egito de Nasser, a Índia de Nehru, e de Sukarno na Indonésia.

Hoje, cabe aos assim chamados BRICS (na verdade uma reunião muito maior de países e que detém muito mais da metade da população mundial), a fuga do padrão dólar iniciado com Nixon com a quebra do regime de taxas fixas de câmbio estabelecido nos acordos de Bretton Woods,ou seja, dos petrodólares que vieram para consolidar esse novo regime depois das crises de desintegração econômica controlada criadas nos países do Oriente Médio na mesma década de 1970. Nesse sentido, a valorização da Apple, tal como a epidemia de opioides, são como as “correrias de maconha em piqueniques flutuantes”, como os versos escritos por Roberto Piva em seu livro Paranoia.

Ao invés de se acreditar que jovens possam enriquecer no setor de informática, na criação de aplicativos ou soluções criativas da indústria 4.0, ou seja, se tornarem milionários nessa suposta “carreira aberta aos talentos”, a formação de engenheiros, biólogos, químicos, físicos e especialistas das mais variadas áreas que possam utilizar seu conhecimento no setor produtivo é fundamental para se criar não novos ricos e novas mega bolhas financeiras, mas na eliminação da pobreza através da multiplicação de postos de trabalho, na melhoria das condições de vida da população com a realização de pequenas, médias e grandes obras (todas fundamentais), no rechaço ao capital especulativo e o foco na criação de um amplo sistema de crédito e de capacitação humana e profissional. Não há “solução para a educação” enquanto milhões de famílias viverem em extrema fragilidade social ao mesmo tempo que a meta de vida de outros é cursar direito ou medicina, ou seja, ou supostamente ganhar estabilidade através de um concurso público ou exercer uma profissão que, pelo menos no Brasil, dificilmente se fica desempregado ou se ganha mal.

A multiplicação de riquezas nos últimos anos, de 2003 até o início da Lava-Jato, fez o proficiente (quando lhe apraz) Estado brasileiro albergar amplos setores da classe-média que tem com interesse somente sua sobrevivência pessoal e a satisfação de seu ego através do “concursismo”. Nos últimos anos o Vale do Silício produziu a mesma quantidade de cidadãos “preparados”, mas que integram a “livre-iniciativa” e o super ramificado setor de espionagem e mineração de dados.  O que nos mostra, no mínimo, que não basta somente alfabetizar ou mesmo levar nossos filhos a completar a faculdade e pós-graduação. Sem uma visão de conjunto, social, repetiremos a alta capacitação técnica do regime fascista ou da escola econômica de Chicago. Como resultado, serão sempre “carreiras abertas ao talento” o comércio de drogas e as aventuras homicidas, o que muda somente em grau e não em natureza o dilema americano e o brasileiro. Genocídio e liberalismo.