Da montanha de derivativos a economia de quarentena

Nunca antes na história mundial se produziu tamanha soma de ativos podres quando surgiu a crise financeira de 2007-8. Contudo, as medidas keynesianas tomadas pelos governos ultraliberais europeus e americano hoje parecem uma brisa inofensiva frente a ofensiva quantitativista atual. Até agora foram impressos mais de 5 trilhões de dólares, só nos EUA, com o coronavírus como pano de fundo, contra 15 trilhões de dólares emitidos ao longo de mais de 10 anos que sucederam a crise anterior.

A espiral hiperinflacionária é vista com ceticismo por economistas de todos os espectros políticos após a prova de fogo das constantes flexibilizações quantitativas dos últimos anos. Uma possível hiperinflação, entretanto, é apenas um dos aspectos que preocupam. Com a crise pandêmica instituindo um novo normal, os sonhos de uma 4ª Revolução Industrial parecem cada vez mais próximos.

Por um lado, a renda universal como medida saneadora total aponta para a depreciação ainda maior do valor do trabalho. A classe trabalhadora teria sua luta histórica por melhores salários e menor jornada de trabalho frontalmente atacada porque, virtualmente, não haveria mais riscos de pauperização devido ao desemprego. Mas isso também é só mais um dos aspectos perversos da nova reestruturação da divisão do trabalho que se quer instaurar através da nova crise.

O que incrementa os poderes produtivos do trabalho é o incremento da densidade de fluxo energético, per capita e por km², ou seja, o investimento em projetos de alta complexidade científica e tecnológica capazes de criar empregos cada vez mais qualificados e ramos profissionais cada vez mais novos e complexos. Não há mudança de patamar de desenvolvimento econômico e social sem o uso intensivo de energia, em especial da fusão nuclear, cujos investimentos foram descontinuados no ocidente nas últimas seis décadas.

Medidas mitigadoras da fome e da miséria podem e devem ser tomadas, assim como a capacidade do Estado-nação de emitir crédito deve ser acionado. Tudo isso, entretanto, terá pouquíssimo efeito se almejarmos baixas taxas de crescimento econômico e taxas negativas de crescimento demográfico. Como sempre expressou o economista Lyndon LaRouche em toda sua vida [aqui], só a humanidade possui os meios de reverter os males que a própria noção geral de progresso cria.

O ser humano não pode ser visto como um parasita na Terra. Quando em pleno processo de progresso econômico e social durante a virada do governo Lula para o de Dilma, economistas como Eduardo Gianotti alertavam para os perigos da população brasileira comer cada vez mais carne, algo ainda mais nefasto do que a chamada extrema-direita se gestava. As vacas peidam, ele dizia, e contribuem assim para o aquecimento global. Se elas tem tantas flatulência, imagina 7, 8 ou 20 bilhões de seres humanos na Terra! Trata-se de um ódio elitista, genocida (para usar a palavra da moda), que prefere que retrocedamos à caça e a coleta e para a simplificação total das economias e de suas matrizes energéticas.

Não é por outro motivo que agora o fundo de investimentos BlackRock gerencia parte considerável dos fluxos monetários emitidos para sanar a coronacrise. Quando banqueiros do mundo todo, reunidos com representantes do Fed e do FMI em Jackson Hole em agosto do ano passado, disseram que era a hora para uma “mudança de regime” na economia mundial [aqui], depois do surgimento de um suposto vírus chinês selou a aliança entre a alta finança e o ambientalismo.

Apesar de uma suposta não existência de inflação, o nível de carestia cresce exponencialmente em escala global. Cada vez fica mais difícil viver. Esse é o dado básico. Enquanto isso, são distópicos os cenários com ampla robotização da economia e mitigação através de renda mínima. A economia, como as ciências como um todo, se move por salto qualitativos. Sem isso, o aprofundamento da pobreza como a que vimos no pós-2008 será ainda mais aguda, com uma divisão do trabalho ainda mais perversa [aqui].

Num mundo onde se precisa de tantas e tamanhas obras de infraestrutura, de conectividade física, apontam-nos para o uso não intensivo de eletricidade. Precisa-se de tantas e tamanhas obras para se criar os empregos que faltam, para melhorar a remuneração do trabalho de um modo geral, o poder de consumo nos países pobres e no atual mundo empobrecido do Atlântico norte, e para se acabar com a política da geopolítica, isto é, a de confrontação permanente com os povos de outras culturas e raças através de parcerias estratégicas outrora representadas pela aliança BRICS e, hoje, pela Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Para os novos quantitivistas e novos keynesianos, não adianta falar de emissão por emissão, muito menos apontar para economias de baixo carbono. Sem um amplo projeto de reindustrialização nacional, inclusive com a reativação de nossa indústria petroquímica e nucelar, continuaremos como cercadinho onde o império despeja seu lixo. O projeto da ferrovia bi-oceânica, por exemplo, tem que ser retomado, possivelmente com trens de alta velocidade do tipo maglev, além de outras ligações inter-regionais com o mesmo suporte.

De nada vale prometer rios de dinheiro e salário básico para uma população empobrecida, sem um horizonte de expectativas que transforme estruturalmente as relações econômicas e sociais do país. A confluência para o atual neokeynesianismo, impulsionado inicialmente pelas políticas ultraliberais de Barack Obama, servem como gigantesco aparelho de captura de amplos setores. Desenvolvimentistas que parecem ter descoberto a pólvora (a soberania nacional na emissão de moeda, cujo exemplo maior foi menos Hamilton do que o 2º Banco Nacional americano, o de Nicolas Biddle [aqui]), enquanto velhos liberais procuram mudar de roupa e se apresentarem com uma retórica mais humanitária, isto é, agora os neoliberais querem de novo para si a alcunha de social-democratas [aqui].

Além do mais, não adianta, como no mundo pós-Perestroika, ficar se buscando uma terceira via. A aliança Tony Blair e Bush Jr. foi um dos inúmeros casos que fez desacreditar a direita global. Blair está para o antigo setor avançado como FHC está para o Brasil. São tristes figuras que não falam mais a ninguém. Assim, o sentido forte da história nacional, a gargalhada que tínhamos na boca quando se falava “nunca antes na história desse país” ou “minha presidenta” terá que ser encarada novamente. Ela foi subitamente calada pelos mais diversos motivos. Esmagar ainda mais essa tradição com outras novidades nos levará cada vez mais para o atoleiro e jamais equacionará o grande mal iniciado nos últimos anos, cujo um dos nomes é o o ódio na política. Não é só compreensão, mas amor fati, incondicional, é o que precisamos.