Ditadura ou Wuhan?

Os teólogos declararam que não podiam definir claramente o que Deus é, mas em seu nome eles ditavam regras de conduta para os homens e não hesitavam em queimar hereges; os virologistas admitem que não sabem exatamente o que é um vírus, mas em seu nome afirmam decidir como os seres humanos devem viver“. Giorgio Agamben, 22 de abril de 2020.

O homem doente do leste asiático

Achei curiosa uma observação de Pepe Escobar no interessante canal Moderate Rebels: segundo o analista, a China pós-corona passou de uma diplomacia passiva para uma assertividade nunca antes vista. O que dizer? A assertividade teria vindo via Twitter! O governo chinês responsabilizou os Jogos Militares em Wuhan, na verdade a presença de militares americanos lá, como responsáveis pelo início da doença. Chegaram a traçar um paciente zero, militar hospedado no hotel onde a delegação americana se encontrava. Naquele hotel teria sido passado o vírus para chineses e aí começou toda a história.

Essa é a versão chinesa que remete ao Fort Detrick e a hipótese de arma química contra o país. Apesar de plausível, ainda mais considerando que o governo estava se preparando antes para um atentado desse tipo, a resposta chinesa não se resume a um Twitter. O país utilizou de meios ocidentais para dar a resposta à contaminação. Como qualquer dos vírus modernos, sua origem está sempre na África, Ásia ou América Latina. O Atlântico Norte só produz saúde! Quando se fala de racismo, se tem aí uma modalidade bastante comum. Ou é mera coincidência…

O fato é que os chineses deram uma resposta à crise que nenhum país ocidental consegue emular. A Nova Rota da Seda rapidamente se transformou em “Rota da Seda da Saúde” e a influência do soft power chinês, russo e cubano se estende a vários países. Se, com a arma química, houve uma tentativa de demonizar o Oriente e optar por uma solução predominantemente ocidental (fechamento das cidades e resgates financeiros), a resposta chinesa, de tão contundente, fez cair por terra a paranoia que se tentou instalar rapidamente ao dar nacionalidade ao “sinovírus”.

Pepe Escobar informa também que os chineses estavam preparados desde antes para um atentado biológico. O que podemos entender sobre isso? No contexto de uma pandemia com origem na China, caso o país utilizasse dos métodos de “fechamento do regime”, como parece ser o caso em Xangai e Pequim, ou seja, trabalhando com o que o Ocidente interpretaria como subnotificação da doença, provocaria a ira ocidental diante do país que, causa da crise, insistiria em negá-la ou minimizá-la. A resposta hollywoodiana de Pequim, com o cerceamento total de Wuhan, aponta para um poder de comunicação tão vulgar quanto eficaz para as massas ignorantes do Ocidente e, talvez para desespero de Slavoj Žižek, a “personalidade autoritária” de Xi Xinping demonstra estar bem distante de seu ocaso.

Pepe Escobar, no comentário mencionado, não conta a história do paulatino crescimento da assertividade chinesa em política externa. A apresentação ao mundo por Xi Jinping da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, ainda em 2013, marca o processo de expansão da economia chinesa para além das fronteiras nacionais, a multiplicação de acordos multilaterais fora dos grupos hegemônicos como ONU, G-7, etc., como exemplificado nos grandes projetos acordados na cúpula dos BRICS em Fortaleza em 2014. A sinofobia passou a conviver com a natural russofobia nos meios ocidentais.

O caso de Wuhan mostra uma resposta à ocidental da China para que não fossem culpabilizados pela propagação do vírus, nem pela negligencia de uma calamidade pública supostamente originada na Ásia. Contudo, o caso Wuhan não é a regra chinesa, que se aproxima mais da tática adotada por países com o Estado forte, de Cuba a China (aqui, em especial, os casos de Pequim e Xangai), da Russia a Venezuela, da Coreia no Norte ao Vietnã. Comparativamente, nesses países a crise do coronavírus parece muito menor. Deve-se ao sucesso do lockout?

Em artigo recente, a Foreign Affairs fez questão de ressaltar o “homem doente do leste asiático” como forma de mostrar as debilidades sanitárias, biológicas, políticas, sociais e econômicas da China. Trata-se de um panfleto que conclama a união do PC chinês aos Estados Unidos, ou seja, procurando cooptar líderes importantes do governo para traírem o partido e a Xi Jinping, retratado na revista com as piores tintas possíveis. Nem sombra de “análise imparcial”. No mais, outro pedido veemente feito na revista é pela montagem de redes de protesto ao estilo “revoluções coloridas” para deter o imperialismo de Xi.

Sem a China ter se mostrado saudável ao mundo nos moldes ocidentais, provavelmente uma campanha difamatória sem precedentes estaria ocorrendo agora, colocando o país como o novo vilão mundial. A “assertividade chinesa”, que data de 2013, não está só no tuíte de seu embaixador, mas na forma como se montou o teatro de Wuhan: um verdadeiro “case de sucesso” de sucesso no parimoramento de tecnologias estrangeiras.

A recente posição contundente, anti-americana, do órgão oficioso do PC chinês, Global Times, também pode ser visto como efeito de superfície do movimento iniciado 7 anos atrás. Sem tudo isso, com toda certeza, reivindicações como a da Henry Jackson Society que pede trilhões em multas ao governo chinês por causa da pandemia, seria o cafezinho diante da avalanche de revoltas contra o país.

Cabe lembrar que Wuhan enfrentou graves protestos em dezembro de 2019 contra as péssimas qualidades do ar na região (algo que não é comum ali, o protesto popular). Também é bom lembrar que, no auge do tratamento dos doentes da cidade, os médicos chineses colocaram o teste padrão, o PCR, de lado, e faziam as tomografias dos pulmões dos pacientes. Como é óbvio, pulmões doentes podem ou não ser resultados do coronavírus, ainda mais se vista a péssima qualidade do ar na região e a quantidade de mortes anuais por pneumonia nos país, em torno de 300 mil pessoas.

Com tais medidas, os chineses não são mais culpados pelas vidas ceifadas na Europa e EUA, por mais que tenha subido um amplo rumor a respeito, e ainda oferecem o que parece ser as melhores soluções, inclusive com ajuda humana e em equipamentos para outros países. O chefe de Estado não questiona a ciência porque não é esse seu papel. Caso o faça, é pelos meios do próprio Estado e não através de críticas e posturas negativas. O Estado não interfere na crença pessoal das coletividades. Isso é um princípio básico da ciência de Estado moderna, sacudida em séculos passados nos confrontos entre as diferentes fés pessoais e as razões de Estado.

O que se questiona é se os dados utilizados pela OMS para declarar a pandemia podem ou não ser considerados seguros, porque são inúmeros os estudos que questionam o entendimento da OMS. Abaixo farei referência a alguns. Por agora, o questionamento básico, um resumo bem sumário do que se extrai das diferentes “seitas” questionadoras do establishment científico é a seguinte: os que são contabilizados como mortos pelo coronavírus morrem do coronavírus ou com o coronavírus?

Pode-se ter esse vírus no corpo, o Sars-Covid-2, como uma série de outros “coronas” ou doenças respiratórias agudas. Os testes, ainda mais os rápidos, não precisam em muitos casos qual é a cepa que atinge o paciente. Além do mais, o PCR indica que existe o vírus na pessoa, porém é incapaz de mostrar se o vírus está se multiplicando o suficiente para dizer que a doença está ativa. Um método chamado de “padrão ouro“, de confirmação da indicação clínica oferecida pelo PCR, é a eletro-microscopia, ou seja, a análise em potentes microscópios que podem fotografar a presença do vírus e medir se ele está ou não se multiplicando.

Como dito, não cabe ao Estado contestar os dados da ciência oficial. As pessoas acreditam piamente que o coronavírus existe tal como é relatado pela OMS. O papel do Estado é proteger em todos os sentidos e não partir para um enfrentamento direto. Os que defendem a “imunidade de rebanho” simplesmente, colocam as pessoas numa situação em que elas consideram de risco. Quem vai querer arriscar sua vida por causa de um líder qualquer que diz que “quem tiver que morrer, morrerá”?

O fato é que, embora existam inúmeras evidências e estudos mais aprofundados que podem fazer demolir as prerrogativas da OMS. O que, na verdade, nos faz perguntar os motivos da organização ter declarado sem maiores estudos clínicos, mas em especial através de modelos matemáticos, uma pandemia tão severa. Apesar das aparência de um mundo que está unido no consenso que diz que todos devem ficar em casa e lavar as mãos quantas vezes for possível, não há unanimidade no reino da ciência – ou, em outros termos, não existe “a” ciência, mas múltiplas e cada uma com suas respectivas crenças.

Algumas interessantes pesquisas recentes, das poucas feitas próximas ao que se espera como “estudos clínicos”, apontam para resultados bem divergentes dos da OMS [aqui]. Contabilizando os casos totais de coronavírus numa população dada, os diferentes estudos convergem para uma taxa média de 15% de contaminação da população como um todo e uma taxa de mortalidade entre 0,6 e 1%. Fora os modelos matemáticos utilizados pelo Imperial College (é bom lembrar que se trata de um artigo científico não revisado e não publicado enquanto tal, ou seja, um draft e não um paper) e as brigas entre as universidades britânicas sobre qual modelo matemático é mais preciso, tais disputas parecem se dar num espaço qualquer, longe da necessária conexão com os casos clínicos, isto é, com estudos específicos sobre uma população dada (seja por PCR, como feito na referência acima ou por outros métodos, como indicado também, como exemplo, através da eletro-microscopia como forma complementar e comprobatório ao PCR).

Teste para Corona

Ao que parece, o atual “super-corona” guarda características biológicas e informacionais muito parecidas com a pandemia de SARS ocorrida em 2009. Na ocasião, a jornalista multipremiada, então trabalhando na CBS, Sharyl Attkisson, provou como havia uma proliferação de sobre-notificações da doença. Ela se pronunciou assim após o caso ser devidamente abafado da imprensa:

Descobrimos que antes do CDC parar misteriosamente de contar os casos de gripe suína, eles haviam aprendido que quase nenhum dos casos contados como gripe suína era, de fato, gripe suína ou qualquer tipo de gripe! A história despertou um grande interesse de um executivo da [CBS]. Ele disse que era “a história mais original” que ele havia visto em toda a epidemia de gripe suína. Mas outros pressionaram para pará-lo [depois que foi publicado no site da CBS News] e, no final, nenhuma transmissão [da televisão da CBS] queria tocar no tema. Nós publicamos inúmeras histórias inspirados nessa outra ideia de epidemia, mas não a que lançaria uma nova luz sobre todo o caso. Seria justo, preciso e legalmente aprovado, e fazia parte da história como um todo. Com o CDC mantendo em segredo as verdadeiras estatísticas sobre a gripe suína, isso significava que boa parte do público tomaram e deram a seus filhos uma vacina experimental que pode não ser necessária“.

São as duas pontas da história de 2009: uma série de reportagens, uma delas central, que denunciava como o CDC americano estava manipulando para cima o número de infectados. Rapidamente, talvez não por acaso, sai a vacina. A grande pandemia global se desfaz. Não tinha chegado ainda sua hora…

Em 2010, a Rockefeller Foundation publicou um informe onde coloca a crise da gripe de 2009 como caso paradigmático e projeta cenários para o ano de 2012, onde tais pandemias poderiam ser significativas. Pedem “um governo com controle mais rígido de cima para baixo e uma liderança mais autoritária, com inovações limitadas e resposta desfavoráveis da população”. O informe foi praticamente utilizado na forma copiar e colar pelo Budenstag, pelos EUA, México e sabe-se lá mais quantos países. Como no caso recente do Event 201, tais grupos de multibilionários projetam sem parar casos de uma pandemia perfeita, com múltiplas consequências para a sociedade onde, com certeza, os menos afetados serão eles mesmos. É digno de nota a seção Lock Step do Rockefeller Report, que pode ser lido aqui.

E eis que agora surgiu a tempestade perfeita, mas muito bem arquitetada anteriormente, como relatei em outra ocasião [aqui].

Para a montagem do SARS-2020 é importante olhar alguns documentos. O primeiro, do CDC americano sobre os testes PCR, CDC 2019-Novel Coronavirus (2019-nCoV) Real-Time RT-PCR Diagnostic Panel: “Detection of viral RNA may not indicate the presence of infectious virus or that 2019-nCoV is the causative agent for clinical symptoms”. Lê-se: um teste positivo não garante que exista a infecção viral ou que o covid-19 seja a causa dos sintomas que levaram a pessoa ao médico.

Da OMS, Coronavirus disease (COVID-19) technical guidance: Laboratory testing for 2019-nCoV in humans: “Several assays that detect the 2019-nCoV have been and are currently under development, both in-house and commercially. Some assays may detect only the novel virus and some may also detect other strains that are genetically similar”. Ou seja, alguns testes PCR podem indicar a presença não do novo coronavírus, mas de outros vírus coronas, de cepas antigas. Isso explicaria também os curiosos casos de pessoas reinfectadas?

Da também americana FDA (Food and Drug Administration), LabCorp COVID-19RT-PCR test EUA Summary: ACCELERATED EMERGENCY USE AUTHORIZATION (EUA) SUMMARYCOVID-19 RT-PCR TEST (LABORATORY CORPORATION OF AMERICA): “The SARS-CoV-2RNA is generally detectable in respiratory specimens during the acute phase of infection. Positive results are indicative of the presence of SARS-CoV-2 RNA; clinical correlation with patient history and other diagnostic information is necessary to determine patient infection status (…) The agent detected may not be definite cause of desease. Laboratories within the United States and its territories are required to report all positive results to the appropriate public health authorities”. Pode ser inferido daqui os inúmeros pacientes assintomáticos, apesar das incertezas apontadas nesse relatório e em outros. Mesmo assim, a indicação da presença do covid-19 pelo PCR deve ser relatado às autoridades e contado como casos novos da doença.

De um fabricante de testes chamado Creative Diagnostics, SARS-CoV-2 Coronavirus Multiplex RT-qPCR Kit: “Regulatory status: For research use only, not for use in diagnostic procedures”. O que dizer se eles são usados para o diagnóstico e não como ferramenta de pesquisa? E continua: ““non-specific interference of Influenza A Virus (H1N1), Influenza B Virus (Yamagata), Respiratory Syncytial Virus (type B), Respiratory Adenovirus (type 3, type 7), Parainfluenza Virus (type 2), Mycoplasma Pneumoniae, Chlamydia Pneumoniae, etc.”. Apesar do fabricante afirmar que seu teste pode detectar o novo corona, pode igualmente dar positivo para uma série de outras doenças respiratórias, ou seja, os tais “falsos positivos” e também os “novamente positivos” (reinfectados). Como saber?

Para concluir, o fabricante diz: ““The detection result of this product is only for clinical reference, and it should not be used as the only evidence for clinical diagnosis and treatment. The clinical management of patients should be considered in combination with their symptoms/signs, history, other laboratory tests and treatment responses. The detection results should not be directly used as the evidence for clinical diagnosis, and are only for the reference of clinicians” [grifos meus].

Caso se fale em “guerra viral”, pode ser compreendido como o uso do novo coronavírus é capaz de fazer colapsar os diagnósticos tradicionais da medicina, detectando inúmeros casos diferentes sob a mesma rubrica. Uma só doença, um só tratamento. Como isso pode ser péssimo para a medicina como um todo? Não é por outro motivo que os chineses passaram a simplesmente fazer a tomografia do pulmão das pessoas. O que também não é indicativo de coronavírus, ainda mais num ambiente altamente poluído como o de Wuhan. Esse é o aspecto informacional da guerra biológica atual.

Bom lembrar: para quem acha que os dados mostrados até aqui são fantasias de um franco atirador, Pepe Escobar, novamente, traz números precisos, seguindo a mesma linha, aqui. No mais, os dados que cerca de 90% dos países afetados pertencem a OTAN demonstra menos a eficácia asiática do que para qual população estava direcionada o vírus. Se fosse entendido que a população desses países foi afetada por causa dos chineses (por ser um regime fechado que não revela os dados, por não ter tratado a epidemia em seu nascedouro, por ter, por qualquer motivo, originado o vírus, etc.), como quis a explicação inicial refutada pela resposta hollywoodiana da China, a tal guerra comercial EUA com a atual maior economia do mundo viraria brincadeira de jovens imberbes…

Por outro lado, tem que ser levado em conta a dificuldade de se produzir em laboratório um vírus que afete a milhões, quiçá bilhões, de pessoas. O vírus criado em laboratório sofreria inúmeras modificações quando jogado no meio ambiente, provavelmente não se reproduziria quando transposto de um animal para um homem ou, quando possível, a maioria dos casos seriam assintomáticos, etc. Em artigo de 2011 da Science Magazine, foi exposta uma parte da controvérsia entre os cientistas que fazem testes com novos vírus. Em um dos casos, depois de fazer engenharia reversa e na décima geração do mamífero chamado Furão, a situação foi a seguinte: “Healthy ferrets became infected simply by being housed in a cage next to a sick one. The airborne strain had five mutations in two genes, each of which have already been found in nature, Fouchier says; just never all at once in the same strain”. Não teria melhor maneira de se fazer confundir um vírus natural com um artificial e ao mesmo tempo produzir uma cepa bastante virulenta: assim, ninguém pode saber o nome do verdadeiro algoz.

Como conclusão a esta seção do texto, a hipótese a ser levantada é em qual medida não há sobrenotificações de caso como ocorreu com o SARS em 2009. Como o PCR é incapaz de medir a carga viral, pode existir alta percentagem de casos positivos sem que isso nada signifique. Assim, dos muitos mortos com suspeitas de terem sidos vitimados pelo novo vírus, não se sabe se morreram com a doença ou da doença, como acima indiquei. No mais, os testes são ainda mais duvidosos no pós-mortem e, de uma maneira geral, autópsias não são feitas. Em caso de suspeita, diante de um cadáver, ele é embrulhado e levado para ser cremado. Não só a incidência do vírus pode ser contestada, como também sua letalidade.

Num estudo recente utilizando métodos tradicionais, feito pela universidade de Stanford, onde se procurou medir o total de infectados numa população dada, os números de positivos subiram drasticamente. Contudo, comparado com as taxas de mortalidade, essas chegaram a níveis mínimos, na casa de 0,1%. Seria interessante, antes de alardear as subnoficações da doença no Brasil, comparar com esse estudo e outros do mesmo tipo que já foram referidos por aqui. Pela testagem tradicional, tanto a de PCR quanto a de anti-corpos, o número de positivos tende a se elevar exponencialmente. Considerada uma região inteira, a taxa de mortalidade se aproxima das da gripe tradicional.

Não é o caso, como também foi dito, de que o vírus não existe. Ele pode ou não ter se originado em laboratório, porém o que deve ser levado em conta são os motivos da OMS ter declarado pandemia sem dados mais sólidos do que modelos matemáticos inválidos academicamente (foi um draft, como dito, e não um paper que saiu do Imperial College). Além do lockdown planetário, existem implicações ainda mais vastas que podem se desenvolver a partir da atual postura da OMS e que vai para além do contexto meramente econômico. Continuo o raciocínio na próxima seção.

(segue aqui alguns links, como prometido, com mais referências “heréticas”: nesse artigo de Pepe Escobar, ele coloca inúmeras referências dignas de estudo sobre os atuais questionamentos em relação ao modelo matemático e epidemiológico da OMS [aqui]; uma cobertura completa da “heresia médica” feita pelo Global Reasearch, capitaneado pelo professor Michel Chossudovsky, com atualizações diárias e um número infinito de referências de estudos não mainstream [aqui]; uma entrevista mais “didática” com epidemiologista argentino, radicado em Paris [aqui]; um depoimento de médica que trabalha na linha de frente, com a produção dos relatórios sobre a causa de morte de pacientes [aqui]; chamada do sindicato médico russo para o mundo [aqui]; carta aberta a Angela Merkel do infectologista alemão Sucharit Bhakdi, professor emérito de medicina microbiológica da Universidade de Gutenberg [aqui]; um estudo herético e longo sobre a validade dos testes PCR [aqui].

Brasil: questionar a vida?

Como visto, o caso Wuhan mostra um curioso desenvolvimento da pandemia: ela se espraiou pelos países membros da OTAN e seus vizinhos, mas quase sem nenhum reflexo, comparativamente, no interior da China. Razões de Estado levaram os chineses a responderem com um modelo tecnológico (midiático, logístico, médico, etc.) invejável para todos os países que agora fecham todas as portas possíveis diante do inimigo invisível.

Igualmente, fora uma casca de consenso formada a respeito do coronavírus, não se pode atribuir um conhecimento minimamente consensual sobre a origem, a forma de contágio, e o desenvolvimento da doença. Tanto os que optam pela quarentana horizontal ou vertical quanto pela imunização de rebanho acolhem tal como são os dados fornecidos pela OMS. Os resultados, como se vê, são variáveis como múltiplas são a realidades onde se enfrenta a pandemia. Por outro lado, seria bem exaustivo expor e analisar a quantidade de dados que vem sendo levantados hoje que, no geral, tendem a questionar o entendimento da OMS. Não se pode esquecer que essa entidade foi duramente criticada em 2009, com o H1N1, e talvez por fatores fortuítos, ali e não agora, se conseguiu arranjar um modelo de pandemia global.

Também hoje no Brasil se fala muito do modelo neo-zelandês. Talvez possa ser outro caso digno de análise. Porém, por que não se fala no modelo de Maricá, no estado do Rio? Fez uma força tarefa para inaugurar um grande hospital na região, criou uma linha de crédito de 30 milhões de reais para micro e pequenos empresários, um auxílio de um salário mínimo para MEIs, profissionais liberais e autônomos, além de multiplicar polos de atendimento a população. Maricá tem mais mortes que a Nova Zelândia (5 no total), mas luta com muito menos recursos e, em breve espaço de tempo, com a inauguração do hospital Ernesto Che Guevara, poderá atender a pacientes de toda a região, incluindo grandes municípios como São Gonçalo e Niteroi. Em caso de agravamento do quadro da pandemia no estado, o pequeno município poderá se tornar um lugar de referência.

O que é Nova Zelândia ao lado de Maricá? Talvez Niteroi… Enquanto esse município fecha todas as portas de entrada para os moradores das cidades vizinhas, em especial São Gonçalo, Quaquálingrado se prepara para abrir suas portas para receber todos os necessitados da região. No mais, Nova Zelândia é uma ilha no meio do nada, da qual sabe-se pouco de seus problemas internos, além de continuar a ser uma província do Commonwealth da realeza britânica…

Para quem não gosta de irreverências, ainda que sérias, adiciono um outro ponto aos dois que destaquei no início dessa seção: já que se sabe muito pouco a respeito da nova doença, as razões de Estado são bem diferentes dos questionamentos que aparecem tanto de especialistas na área de saúde ou de outros chatos questionadores, como o caso, que alguns diriam patológico, de Giorgio Agamben. Não só ele, mas como o várias vezes mencionado até aqui Pepe Escobar, o multi-best-seller desconhecido chamado Daniel Estulin e uma série de redes independentes guardam bastante desconfiança, para dizer o mínimo, a respeito do suposto consenso sobre o coronavírus. Fora os que não se atrevem a questionar o mínimo possível, apesar das dúvidas… Um presidente como o nosso não ajuda, isso é certo.

As razões de Estados não podem colidir com as da ciência não por um motivo de “razão”, mas de crença. Tal como a religião outrora, o que se chama de ciência aglomera consensos rapidamente entorno de si, dificilmente manejáveis. O Estado tem que operar entre sua tarefa de proteger e a de não assustar. Caso operasse para assustar a população, agiria no mesmo sentido da OMS, isto é, na criação menos da pandemia do que do pânico global. Nesse sentido, num país com o sistema de saúde tão frágil quanto sua população, pedir por imunização de rebanho em meio a uma correria por consultas e exames seria insano. Não é possível em curto prazo conter a correria e o pavor, e essa é a estratégia que levou ao decreto da nova pandemia, levando todo e qualquer chefe de executivo para as cordas.

A estratégia para o Brasil, como sempre, não é a de partir para cima e procurar resolver guerras internacionais por meio da força. O país, contudo, pode criar sua própria versão da vacina, pode usar do atual estado de exceção para reativar parte de sua produção industrial, suspender decretos neoliberais como todos as PECs aprovadas depois do golpe de Estado, reativar o BNDES, criar um programa nacional de reestatização, e sabe-se lá quantas mais alternativas.

Como em 2008, que o chefe do executivo usou a crise internacional para reativar o mercado interno ou fortalecê-lo ainda mais (naqueles tempos de ascesão social). O confinamento provisório, sempre precário em condições brasileiras (muito dependente do setor de serviços, alta taxa de trabalho informal, territórios imensos onde o Estado não chega, tanto no interior quanto nas capitais), deve ser substituído na mesma medida em que são contratados mais profissionais de saúde, melhoria das redes de atendimento, volta dos investimentos em pesquisa e na parte laboratorial. O desconfinamento tão pedido por setores empresariais tem que ser alcançado na medida em que o sistema de saúde, desde a saúde da família e UPAs até a criação de novos leitos de UTIs, passando por centros de excelência e universidades, sejam reativados em sua plena capacidade. Um plano de ação deveria ser estabelecido nesse sentido.

Se a guerra é uma guerra a partir da saúde, não existe negociação onde o SUS, em sua integralidade, não seja o primeiro contemplado. A única exceção à prioridade do sistema público de saúde, são as medidas mitigadoras das consequências econômicas do confinamento. O ideal seria a reposição integral do salário dos trabalhadores com o contrato de salário com suspensão total ou parcial, em negociações que deveriam envolver todos os sindicatos, com o objetivo principal de não haver perdas salarias no cenário futuro. Outra medida seria o mínimo de um salário mínimo para os desempregados e autônomos, sem restrição para a renda total familiar. Acho que por aqui falo o óbvio, mas tem um outro óbvio a mais: a fila de pedidos por Bolsa Família e a fila do INSS tem que andar rápido. Outro mutirão, portanto, deveria ser rapidamente agilizado.

Emrelação ao BNDES e a participaçã dos bancos públicos na emissão de crédito barato e de longo prazo, nada…

Um plano de ação e mutirões, portanto, seria a ação de qualquer governo responsável pela vida como um todo. O plano fantasioso de Jair Bolsonaro é mortífiro em qualquer cenário: o que ele chama de “normalidade econômica” é a normalidade das privatizações, da precarização do trabalho, isto é, diminuir o “custo Brasil”, o custo de seus pobres. A forma mais efetiva, no curto, médio e longo prazo é a morte de largas parcelas da população. Assim, mesmo num improvável cenário de confirmação dos prognósticos médicos da direita democrática e científica (a que ponto chegamos!), ou seja, dos argumentos da OMS, a tendência fantasiosa do ilegítimo presidente é a de aumentar o caos social e acelerar, em todos os aspectos, a precarização da vida e o aumento do número de óbitos.

A direita democrática e científica é um pouco mais cínica e sabe esperar resultados no médio e longo prazo. Sem um plano claro nacional, os aproveitadores se multiplicam. A carteira verde e amarela, não se sabe por qual truque mágico e sob quais chantagens, caducou, apesar de aprovada na Câmara. No Rio de Janeiro, seu Wilson propõe a privatização ou mesmo a desativação de tudo o que for possível, no que ele chama de plano mais racional, não ideológico, de diminuir custos. Outros governadores racionais se capitalizam para eleições futuras, não sendo outro o motivo de Mandeta ter saído aos risos do ministério: sua carreira de político em futuro próximo está devidamente pavimentada.

Sabedor do que compõe a matéria-prima da elite brasileira, seja na forma caricata de um Bolsodoria ou só na de Doria, toda e qualquer concessão às diretrizes internacionais teria que vir com a atenção prioritária das causas nacionais. Como dito, se o problema é sanitário, só se volta à normalidade com o amplo fortalecimento do SUS e o atendimento à população de um modo geral, em suas múltiplas necessidades. Se a China criou o seu “case de sucesso” a partir de Wuhan e hoje emerge como um soft power com mais força do que quando anunciou a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, o Brasil tem que construir o seu modelo particular e se tornar uma referência para os países em desenvolvimento. Nada disso passa pelos dogmas do suposto consenso científico internacional.

Para não me alongar discorrendo sobre medidas que estão sendo debatidas com muita propriedade por amplos setores da esquerda, com o objetivo de mitigação da depressão econômica e posterior reativação da economia nacional, no cenário atual, uma preocupação maior se revela. O enfraquecimento de Bolsonaro, sem a sua queda, traz com toda força a tutela militar, realidade de nosso país desde que se começaram a tramar o golpe de Estado contra Dilma. No cenário concreto de curto prazo, será tarefa bem árdua remover o oficialato no poder.

Militares com visões tão estreitas a respeito do país que criaram há pouco um documento digno de gargalhada: o documento Cenarios de Defesa 2040. Ali, como diz o professor Francisco Carlos Teixeira, se dá importância as forças territoriais, ou seja, Exército, sobre qualquer outra força, esquecendo totalmente o papel dissuasório da balística e aviônica, além de ignorar completamente o submarino nuclear, os caças Grippen e toda a engenharia de defesa que estava se formando para defender o pré-sal. A força terrestre busca seus inimigos próprios, como a Argentina, China e França, num claro reposicionamento das Forças Armadas para a época da Guerra do Paraguai. A extrema-direita tosca, como se diz, ocupa os altos cargos de Brasília também vestida de fardo.

Caso o Brasil não encontre seu próprio modelo, como foi o caso da China com Wuhan, nos restará a ditadura, ainda que vestida nos trajes de todo o fascismo depois da falência dos regimes militares no Cone Sul, ou seja, o que se chama de “fascismo de cara democrática”. É o que se vê agora quando cidadãos bem informados e bem intencionados, dizem que teremos que viver em quarentenas periodicas a partir de agora para o bem da humanidade. Nos próximos desdobramentos dramaticos que se avizinham no Braisl e no mundo, devemos escolher entre uma Wuhan tropical (bem diferente da chinesa) ou a ditadura transnacional, que está bem distante do que se chama de “perigo chinês” ou do persistente neomacartismo da década atual.

PS: peço desculpa aos leitores pelo texto longo. Esse é o segundo que publico sobre o tema. Haverá provavelmente mais dois, não menores do que a média de caracteres dos dois primeiros. Foi o modo encontrado para tratar do tema de maneira interconectada, porem sem cair na tentação de publicar algo imenso e de dificil leitura no modelo internet. Quem quiser ler o texto antecedente, fica o link aqui para “Mundo virtual e peste planetária”, onde é analisado com mais calma os desenvolvimentos recentes da tecnologia da comunicação e os posicionamentos do filósofo Giorgio Agamben sobre a “invenção da pandemia”. Só tenho a agradecer a quem conseguiu chegar até ao final da leitura e muito mais se conseguiram digerir ou fazer as devidas ligações entre as diferentes análises que tive que abordar em conjunto por agora.

Esse texto faz parte da série Paradigma do Contágio. Clique aqui para ter acesso.