Fernando Haddad, o formulador de paradoxos

Parafraseando Haddad: a pauta conservadora pode produzir mágica. Foto: Ricardo Stuckert

Com o violento ostracismo a que relegaram Lula e boa parte das lideranças históricas e populares do Partido dos Trabalhadores, se torna mais evidente um pensamento ilustrado e conservador, de corte esquerdista. Essa postura e esse pensamento se tornaram hegemônicos em parcelas da mídia independente ou de esquerda. Fernando Haddad e Mathias Alencastro são um excelente caso de estudo. Não é preciso só um “retorno às bases”, mas também um retorno às formulações políticas básicas de um governo popular. Sem um crítica a esse tipo eminente de esquerdismo, somente com dificuldades podemos retomar o que de mais legítimo existe em nossa história enquanto povo, enquanto cidadãos de um país com grandes aspirações sociais e humanas.

O texto também pode ser lido na íntegra, em pdf, no Academia.edu

O problema Real

Fernando Haddad causou polêmica logo após o fim das eleições numa rápida declaração enquanto fazia sua viagem para encontrar os líderes progressistas nos EUA. Com a turma ainda curtindo a ressaca, disse que o neoliberalismo de Paulo Guedes poderia trazer crescimento econômico. Primeiro paradoxo.

Ele ainda acrescentou o termo “radical” ao neoliberalismo, o que nos faz pensar no que seria uma proposta neoliberal “moderada”… Por que, apesar de jogado pela própria inépcia ao ostracismo, parece que ainda existe uma certa viuvez bastante difusa em relação ao governo devastador do príncipe da privataria?

“Em primeiro lugar gera um fluxo de caixa muito importante e dá fôlego, com a venda de ativos estatais, o que ocorreu com o primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com venda de estatais, o que bancou a sobrevalorização do câmbio por quatro anos”, disse Haddad na ocasião. São dois problemas que se colocam com a frase: foi a privataria que bancou a sobrevalorização do câmbio ou os juros astronômicos? Não sei se a venda da Vale por 1 bilhão e a do Bamerindus por 1 real ajudaram a trazer tanto capital…

O segundo problema é sobre o valor intrínseco da valorização cambial. A dolarização da economia brasileira, talvez mais do que qualquer privataria, foi o meio privilegiado de abertura comercial, ou seja, de desindustrialização. Existiria uma relação entre valorização do câmbio e manutenção de taxas de inflação baixa? Os “cabeças-de-planilha”, como diz o Luís Nassif, diriam que sim. O problema é que, com o aumento do desemprego e da informalidade por um governo que não investiu nem o real do Bamerindus na economia física, além de procurar desmontar a todo custo o que restou dela (“esquecer o legado de Vargas”, era o lema de FHC), você tem uma retração acelerada da demanda. É um passe de mágica para conter qualquer inflação. No mais, não adianta acabar com o aumento nominal dos preços se a população não tem renda para adquiri-los. Acabou-se com a inflação e a carestia cresceu. Genial.

Ele conclui com uma frase enigmática, para além dos paradoxos, mas que explica o conjunto da obra: “Vamos ter crescimento em 4 anos porque estamos há 4 anos sem crescer e isso vai dar um respiro para o governo”. Não existe adivinho com o mínimo de pudor que aposte em quatro anos contínuos de crescimento com o nem tão “bem temperado” neoliberalismo de Paulo Guedes. Pode ser que o crescimento econômico “varie na margem de erro”, na melhor das hipóteses, diante de uma média muito baixa. Qualquer 0,5% a mais é comemorado… Não há horizontes para a prosperidade econômica. Caso contrário, os Chicago Boys, quem sabe, poderão provar uma vez na história que podem “dar certo”. Apostar nisso é um verdadeiro ato de radicalismo e cegueira ideológica.

Ou seja, o exercício de futurologia comprova para o que servem os prognósticos econômicos favoráveis ao governo Bolsonaro: a Globo News e o comentarismo econômico de um modo geral. Se arrecadar com venda de ativos, crescem os índices macroeconômicos; se a economia crescer por ter algum valor próprio que desafie a lei da inércia, o crescimento nominal poderá levar ao júbilo celeste o jornalismo imparcial. Ou seja, pau no povo e engravatados felizes.

Da espuma ao chopp?

Ainda durante sua viagem a Nova Iorque, Haddad disse que “Você não pode ficar torcendo para um governo dar errado para você ganhar o poder. A melhor coisa do mundo é você ganhar de quem está indo bem, porque mostra que você foi melhor na sua mensagem”. Isso pode soar bonito num mundo ideal. O problema é que se “Bolsonaro der certo”, se o que se projeta em seu governo tiver o mínimo de êxito, será um desastre para a população. Mesmo se ele não aprovar nada, ficar engessado do início ao fim do mandato, seria um regresso, já que nenhuma pauta boa para a população como um todo teria condições de ser implantada. Aqui estaríamos na hipótese do governo “dar errado”. Não existe opção de alguma medida elogiável num governo destruidor e demagogo. Alguns apontam até que os militares seriam um “centro de racionalidade”…

O que existe, em todos os sentidos, é a luta da resistência. Talvez aprovar algo no legislativo que contrarie o executivo, mas fundamentalmente preservar o máximo possível da riqueza nacional (material, cultural, social, etc.) frente aos piratas, e isso só se dará em meio a uma profunda convulsão social. O povo brasileiro foi enganado com a Lava-Jato, com o “crime de responsabilidade” de Dilma, com uma crise econômica fabricada desde 2013-4, com os serviços prestados pelo TSE e pelo TRF-4, e pela galera que colocou grana não contabilizada no disparo de mensagens. Agora os falsários chegaram ao poder, supostamente do modo mais legítimo. O povo brasileiro irá se enganar de novo? Não há sinal de qualquer política de boa vizinhança pela frente, e isso não necessariamente sairá ou terá como foco a ação dos parlamentares ou governadores eleitos.

Haddad provavelmente recebeu muitas críticas depois das declarações acima. Numa entrevista posterior, a Mônica Bergamo, colocou condicionantes em suas afirmativas, o que permitiu que seu pensamento começasse a ser melhor apresentado. Talvez por ser em outra ocasião, com mais tempo, etc., pôde se expressar melhor: “Essa agenda [do governo Bolsonaro] não passa no teste da desigualdade. Tem baixa capacidade de sustentação. Mas, acoplada à agenda cultural regressiva, pode ter uma vida mais longa. Pode ter voto. Teve voto”. Como fica claro, até então ele fazia uma análise da espuma e não do chopp, ou seja, que uma boa espuma, um chopp bem tirado, pode enganar a princípio, e chega mesmo a enganar…

Nicolás Maduro não precisou provar a espuma e testar sua consistência, muito menos adivinhar as “notas” da bebida com a ponta da língua. Como todo profissional das lides etílicas sabe, tudo isso é irrelevante quando se trata de cerveja. No mais, se muitos precisam beber em distrações variadas, a maioria precisa de alimentos para se manter viva. Disse Maduro: “Os projetos neoliberais de direita na América Latina e no Caribe são inviáveis, e eles vão provocar o ressurgimento de uma nova onda de transformações populares”. Não lembra de Macri, candidato fabricado artificialmente e que leva agora um choque de realidade. Lembra de Duque e de Macri que evaporaram como espuma.

Não adianta dar uma de degustador. A América Latina é “um território em disputa” e o chopp que as elites nos oferecem está azedo desde antes de começarem sua festa. Se FHC agora tirou o seu fardão acadêmico por uma botina militar, pouco importa. O golpe foi realizado para voltar à política do consenso neoliberal do pós-1989. Qualquer outro tipo de análise do tipo “o Bozo é fascista”, FHC é “centro-direita” ou é uma conversa lunática ou de quem toma bebida estragada ou acha que com classificações estéreis pode chegar a alguma “grande conclusão”. Trata-se da mesma política, não importa a aparência.

Maduro ensina como tirar um chopp de qualidade. Foto: Reuters

Um problema de fé

A entrevista mais ponderada de Fernando Haddad foi a brecha necessária para que, cerca de um mês depois, tomasse fôlego e criasse seu segundo grande paradoxo (grifos meus): “Não é verdade que a desigualdade gera instabilidade. Você pode ter um cenário em que você tem uma estabilidade em meio ao aumento da desigualdade”. Será que foi uma pausa para produzir mais espuma? Como ele disse à Folha, “a política reacionária cria inclusive ficções”…

Esse foi o caso completo do Plano Real. Seu suposto criador, contudo, teve que manter a chamada âncora cambial “no limite da irresponsabilidade” (como diziam os privateiros) para manter a ilusão macroeconômica, além de ter contado com a ajuda de malas de dinheiro (para além de qualquer mensalão) para comprar votos e se garantir no poder. Dificilmente elegeria um poste, mesmo com o Real, com o Pérsio Arida, com a Globo, o FMI, Bill Clinton, com tudo. O plácido reinado do Farol de Alexandria ocorreu num mar tempestuoso, espumante ao infinito. Por que guardar recordações idílicas deste momento histórico? Por que acreditar que um “sucesso macroeconômico” só festejado pela mídia é capaz de dar base de sustentação para um governo? Ainda por cima, cada vez fica mais claro que Bolsonaro tem como apoiadores de 5 a 10% dos votantes, da galera que pedia intervenção militar, dos verde-amarelos que lotaram algumas ruas no Brasil, etc. Isso é evidente e talvez por esse motivo Haddad aponta para um problema de fé para fundamentar seu paradoxo. Um paradoxo fundamentado na fé…

Como se sustentaria a estabilidade política com a desigualdade econômica?

Considero uma tarefa muito difícil um governo neoliberal que se anuncia desprovido de um componente espiritual que de alguma maneira venha em seu socorro. Nos governos Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer houve um neoliberalismo cru, sem um tempero espiritual. Agora, [o novo governo] tem a teologia da prosperidade, em que [a ascensão social] só depende do indivíduo. E obviamente do pagamento de dízimos.

O governo tucano deu errado porque lhe faltou um “componente espiritual”? Esse “tempero” neopentecostal é o suficiente para realizar o que os outros governos neoliberais não conseguiram? Parece que Haddad aponta mais uma vez para a hipótese mais do que improvável do sucesso econômico (não importa por quais meios) dos Chicago Boys. Não deu certo nem no Chile (com Pinochet, Friedman e tudo), mas pode dar certo no Brasil porque os neopentecostais irão dar um substrato de fé à irracionalidade econômica? O próprio levantamento de tal hipótese soa a mim como alguém que desconsidera de maneira considerável a bravura do povo brasileiro, sobrevalorizando algum de seus aspectos menos nobres. No conjunto da obra, por terem sido “crus”, os neoliberais “menos radicais” falharam e agora, alicerçados na fé, pode dar certo. Mas, afinal, “dar certo” o quê?

Parece que Haddad acredita em coisas muitos estranhas.

Não… Não era Bolsonaro! Mas também estava no Twitter

O Twitter de Fernando Haddad, apesar de ter muitas coisas “bonitinhas” da “esquerda ilustrada”, não deixa de ter algumas intervenções bastante estranhas. Às vezes parece uma cloaca. Não vou dizer que é só porque a Marina Silva aparece por ali, do nada, para revelar aspectos do “mistério da fé”, como se referem os padres nas missas, ou porque ele faz análises meio estranhas e extemporâneas sobre séries da Netflix.

Quando ele diz: “Quem assistiu o noticiário de hoje entendeu por que há quem simplesmente não possa participar de debates”. Ele foi bloqueado pelo Bolsonaro depois que este truncou uma mensagem, entendeu de maneira bolsonárica a postagem de um link para um reportagem de um jornal alemão que falava sobre o atual anti-intelectualismo brasileiro. Essa história toda é inútil, mas eu gostaria de fazer uma observação ao tema candente do não comparecimento do Bozo nos debates.

O tema principal da campanha de oposição ao governo Temer era a bandeira dos referendos revogatórios das medidas mais impopulares, como o teto dos gastos, a reforma trabalhista, da previdência, e a privatização do pré-sal. Isso foi jogado no lixo principalmente no momento mais agudo da campanha eleitoral, o segundo turno, onde se escolheu abraçar a manchete da The Economist, o da luta da civilização contra a barbárie. Se o Bozo não vai ao debate da Globo, dane-se. Que se encurrale ele com a questão da tortura (muito bem feito), mas principalmente com a questão política atual, ou seja, que o Bozo é a continuação de Temer. Isso foi falado de maneira muito veloz, sem a ênfase necessária. A bandeira do referendo e a oposição radical a todas as medidas de volta do estatuto neoliberal pré-Lula fariam o Bozo ter que responder ponto a ponto.

Basicamente quatro temas (pré-sal, reforma trabalhista, da previdência e teto dos gastos), que poderiam ter sido marteladas bem antes da capa da Folha (!!!) dar uma sobrevida a campanha de Haddad, obrigariam o então candidato a se manifestar de alguma maneira. À sua maneira errática, Bolsonaro responderia. Até porque “não gosta de levar provocação para casa”. Toda a militância e a propaganda eleitoral, nessa passagem das eleições em que a campanha ficou fazendo reuniões com o “centro político” e perdendo um tempo valoroso, voltadas para a identificação óbvia entre Temer e Bolsonaro, colocaria este na defensiva. Nada se fez em busca de uma “unidade de centro”.

O outro tuíte recente coloca Haddad nesse misto “centrista” que parece dialogar com um público muito peculiar. Ele colocou o link para um reportagem traduzida do New York Times, dentre tantas que saíram ultimamente, sobre o iminente mas talvez nem tanto, impeachment de Donald Trump. Tanto esse texto de Roger Cohen, traduzido para o site da UOL, como o de Elizabeth Drew, traduzido pela Folha de São Paulo, fazem uma “análise de humor”. É o caso clássico dos que repreendiam Ciro Gomes pelo seu temperamento. A avaliação das emoções, tanto individuais como coletivas, em última instância, chega a abstrações das mais bizarras. Lembro de Carlos Sardenberg querendo elogiar a fantasiosa recuperação econômica americana sob Obama. Olhava gráficos e só sabia dizer: subiu! O nome de sua profissão talvez pudesse ser trocado de comentarista econômico para o de termômetro de Viagra.

Tanto os artigos de Cohen quanto o de Drew apontam para uma crescente insatisfação de senadores republicanos com a política de Trump. Isso poderia trazer maioria no Senado para a votação de seu impeachment, já que a Câmara tem maioria democrata, ainda que não tão grande. Outra leitura que se faz, na contramão dessas análises, é que o recente movimento de Trump de retirar as tropas da Síria e parte delas do Afeganistão foram resultado da maior liberdade que ele está tendo em seu governo depois do escândalo do “Russiangate” ter esfriado consideravelmente. Assim, conseguiu realizar movimentos que prometia desde sua campanha. Isso não é uma análise baseada em “humor”, mas num dado concreto da recente guerra civil norte-americana, o fake news de Trump ser um agente russo na Casa Branca.

As análises baseadas em percepções difusas não levam em consideração uma premissa básica: não é o impedimento de Trump que traria um desconforto ou mesmo colocaria Bolsonaro contra a parede. Saindo Trump, pode vir algo pior. Como o governo de Bolsonaro é neoliberal, uma Hillary Clinton, seu vice-presidente ou qualquer outro neocon postulante ao cargo, não seria a derrota de Bolsonaro, mas um viagra para suas pretensões de livre-comércio.

O enquadramento da Nova Guerra Fria

Existe um erro de percepção histórica muito elementar a respeito dos EUA e de Donald Trump: em resumo, os EUA considerado carrasco do desenvolvimento da América Latina e do “terceiro mundo” é os EUA dos tratados de livre-comércio, da Alca, e do expansionismo militar, com as guerras do Iraque até o recente teatro na Síria. Nessa agenda em específico, Trump, além de não adotar o sistema neoliberal, recua o expansionismo militar norte-americano. Um dos primeiros atos de seu governo foi sair do Tratado Transpacífico, um acordo de livre-comércio para criar oposição à presença chinesa na América Latina.

Ele até o momento não se mostrou o que se considera “um grande estadista”. Parece mesmo muito longe disso. A chamada “alt-right” nada mais é do que um recuo da ultradireita, dos neocons, do partido da guerra. Nesse recuo, algumas clareiras se abriram. O boicote aos tratados de livre-comércio não podem ser vistos do ponto de vista unilateral de que ameaçam a “ordem global”, esta mesma irremediavelmente falida, como demonstrou mais uma vez a crise de 2007-8 e a crise econômica que se avizinha.

O recuo da expansão da OTAN e a volta das negociações entre EUA, Rússia e China, mostra preocupação com os gastos americanos com as guerras desnecessárias, mas também implicam no aprimoramento da segurança planetária. O recuo na Síria é sintomático: abre espaço para a reconstrução do país, em pleno curso, e que pode ganhar uma dinâmica bem interessante caso a ligação eurasiática pressuposta na Nova Rota da Seda e no mega projeto em curso no Paquistão.

Um aspecto curioso que pode ser colocado nas comparações que fazem entre Trump e Bolsonaro, é que ambos os governos estão cercados de militares – uma das inúmeras marcas da Nova Guerra Fria. Há uma competição no governo entre John Bolton, um fanático que foi um dos maiores articuladores da Guerra do Iraque, e Mike Pompeo, elemento mais moderado, e que dá suporte aos avanços pró-détente de Donald Trump. O ideal seria que o general Michael Flynn estivesse no lugar de Bolton, a quem Bolsonaro se mostrou tão subserviente, mas o fake news que gerou o termo fake news, o Russiangate, retirou-o do governo logo no início. Tudo por causa de grampos instalados pelo governo Obama que captaram uma conversa sua com um militar russo. Como se isso fosse o suficiente, em tempos normais e num governo que se quer pró-détente, para se difamar, processar e demitir alguém de tanto valor.

Outro erro histórico básico é não lembrar que a máquina de espionagem, de mineração de dados, ou seja, sem essa combinação que permitiu a manipulação dos dados das redes sociais e se criou as primaveras coloridas pelo mundo, tudo isso se deu no governo Obama. Todos os golpes de Estado na América Latina, a começar por Honduras, foram capitaneados por Obama, e durante um largo período, por sua secretária de Estado, Hillary Clinton.

Os Estados Unidos que os bolsonaristas vêem é uma idealização de Trump, uma nostalgia da antiga ordem imperial pós-1989, mas que corresponde de maneira não muito objetiva com os movimentos do governo Trump: não é expansionista militarmente, não é neoliberal. Venezuela e acordos tipo Alca só aparecem na imaginação dos olavetes. Trump tem flagrantes limitações, como pude analisar recentemente em alguns de seus aspectos, mas não contribui ou parece não querer contribuir para a manutenção das políticas ultra-reacionárias dos neocons que sacudiram a política latino americana nos últimos anos.

Nesse sentido, aparece uma interessante fábula na mídia de esquerda: a de que os irmãos Koch, um dos nefastos elementos da elite internacional que financiaram MBL e toda as contra-insurgências internacionais desde 2013, aparentemente agora estão arrependidos e querendo “apostar no social”. Eles estariam “redescobrindo a democracia”… Mas de onde tiraram uma asneira dessas?!

O candidato deles nunca foi Trump, mas Teddy Cruz. Para este é que foi designado primeiramente os serviços de Steve Bannon. Na derrota do candidato, houve uma acomodação desses grandes financiadores, talvez mais por motivos formais, de aparência ideológica, do que de fundo. No caso, é como tentar compreender a oposição entre o recém falecido senador, o republicano John McCain, e Hillary e Obama. Em questões econômicas e de política externa, assim como nas tratativas para legalizar o Ato Patriota de Bush Jr., sempre se entenderam muito bem. Não é com histórias por vezes mais risíveis que as de livros infantis que se poderá compreender os intrincados meandros na Nova Guerra Fria.

O “conservadorismo ilustrado”

Ah, Mathias… Viva a França!

Para compreender o posicionamento político de Fernando Haddad, seria interessante uma comparação com o articulista conservador, especialista em política internacional, aparentemente de esquerda e que tem sua coluna na Folha de São Paulo, Mathias Alencastro. Talvez em algumas de suas nuances Haddad consiga ser um pouco mais progressista, não tanto por ser militante profissional há décadas, mas por ter participado de perto do governo Lula, de ter ficado sob a órbita de influência do ex-presidente num momento de grandeza do país – o que corresponde a uma enorme possibilidade de aprendizado político. De um modo geral, tanto Alencastro como Haddad se enquadram no que se considera “quadros técnicos qualificados” e, em especial no caso do ex-prefeito de São Paulo, podem administrar diferentes pastas de maneira muito boa, ainda mais se comparados com a média geral.

Recentemente, Mathias Alencastro escreveu um artigo intitulado “Diplomacia a quatro mãos”. Nele, o articulista propõe como algo vantajoso o trabalho em conjunto do super-ministério de Paulo Guedes com o Itamaraty. Com os super-poderes do ministro da Economia, ele poderia se sobrepor a tradicional primazia do ministério das Relações Exteriores sobre as negociações de comércio internacional. Mathias sabe que o pró-americanismo da nova chancelaria não traz muitos benefícios econômicos. Assim, o Brasil poderia refazer seus elos com os países asiáticos ,em especial com a China, através dessa sobreposição do ministério da Fazenda sobre o das Relações Exteriores. Dar ainda mais poderes a Guedes teria como resultado o seguinte: “No limite, se o presidente eleito arbitrar a favor de Guedes, poderíamos ver a emergência de uma política externa com rótulo pró-americano, levada pelo Itamaraty, e uma política comercial com viés pró-asiático, conduzida pela Economia”.

Como dado concreto, o articulista propõe parcerias de livre-comércio, numa sub-versão da proposta original dos BRICS. Mathias se refere a artigo publicado no jornal onde se relata as movimentações radiantes de Temer ao redor do BRICS pós-golpes na América Latina: “‘O processo de aproximação entre os países do Mercosul e da Aliança do Pacífico, já em si mesmo relevante, adquire significado especial na atual conjuntura’, afirmou Temer”. Seria potencializado o comércio brasileiro numa espécie de Alca transpacífica, sem a ferrovia bi-oceânica e com o Itamaraty ajoelhado. Boa proposta!

Haddad também colocou em seu Twitter recentemente não mais um artigo do New York Times, mas do Financial Times. Dessa vez não sobre Trump e Rússia, porém sobre a China. Só uma nota: considero nessas páginas os tuítes de Haddad que vão da entrevista dada ao Jornal Nexo até agora. Acredito que seja mais do que o suficiente. No texto mencionado no tuíte de Haddad, a China é comparada com o Japão da década de 1980 que, segundo a imaginação de alguns, seria a potência dominante do século XXI, porém não atendeu às expectativas…

Nenhuma dado macroeconômico que procure demonstrar a decadência da economia chinesa tem valor. A proposta da Nova Rota da Seda, num entendimento muito restrito, serve para resolver alguns problemas domésticos do país. A expansão financeira e empresarial da China traria benefícios imediatos a economia nacional. No entanto, no quadro geral da política internacional, podemos apontar dois quadros do maior interesse para as nações de um modo geral. O único país com recursos suficientes para financiar a reconstrução da Síria é a China. Os sírios, num esforço admirável, como foi narrado recentemente num excelente programa do LPAC (clique aqui para acessar), tem feito muito para refazer o país depois de anos de bombardeio. Com o financiamento da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, aliado à ideia geral de interconectividade eurasiática, a Síria pode se transformar num país plenamente estável e até admirado internacionalmente.

O mesmo vale para o projeto Transaqua, capitaneado pela empresa italiana Bonifica, para a revitalização do Lago Chad, na Nigéria, o que traria benefícios para inúmeros países do continente e, em especial, para essa região onde proliferam milícias armadas para alimentar as redes terroristas, como o Boko Haram e seu “terrorismo sintético”. Pude falar de maneira um pouco mais detida sobre esse tema em outro artigo (clique aqui para ler). Além do mais, não se deve desconsiderar que a crise na Nicarágua é contemporânea aos ataques à construção do Canal naquele país. Ainda hoje o Panamá tem que ser uma espécie de território desde que criaram artificialmente o país para se apoderarem de suas facilidades geográficas e logísticas.

No mesmo enquadramento, não foi por acaso que a China foi a maior parceira do Brasil no projeto de partilha do pré-sal. Igualmente, antes do golpe de Estado, se discutia a pleno vapor a construção da ferrovia bi-oceânica em parceria com os chineses. Também da mesma forma, o projeto abortado dos trens de alta velocidade poderia ser retomado via China. A Alemanha está muito atrasada em relação ao tema e essa discussão, feita com os alemães, caiu em desgraçada não por causa das anátemas à época de José Serra, mas por causa dos desdobramentos da crise financeira de 2007-8.

No artigo mencionado por Haddad junto ao posicionamento de Mathias Alencastro, pode ser visto o inconveniente de ver a China como uma ameaça (e talvez não os EUA, mas Trump…), que seria “regulamentada” com acordos de livre-comércio. Isso, vocês me desculpem, mas é neoliberalismo na veia – não sei o quão distante do “radicalismo” de Paulo Guedes. No quadro geral, contudo, o que os BRICS propõem, e a China agora assume maior protagonismo por causa do golpe no Brasil, é a criação de um novo modelo econômico não baseado no modelo pós-Bretton Woods, ou seja, o modelo contemporâneo ao regime de trocas fixas internacionais inaugurado por Nixon, à desvirtuação da orientação original do FMI e do Banco Mundial, aliado à desregulação financeira com o fim da lei Glass-Steagall no governo Bill Clinton (um desmonte que foi sendo feito ao longo de décadas). Um novo modelo de financiamento internacional de projetos de infraestrutura é o que está no fundo da criação do Banco dos BRICS e o que a China faz através da Organização para Cooperação de Xangai.

Só uma última nota para terminar o texto com o bom chopp oferecido acima por Nicolás Maduro, mas também com mais um “paradoxo”. Em outro texto recente, Mathias Alencastro afirma: “Quanto mais a situação da Venezuela piorar, maior a chance de regime durar”. É uma cantilena diante da impossibilidade flagrante, pelo menos no curto prazo, do Brasil tomar medidas “mais drásticas” contra nosso vizinho. O governo brasileiro terá que se contentar em multiplicar as bravatas pela internet e anunciar medidas meramente simbólicas.

Logicamente, Maduro é um presidente ilegítimo, já que criou uma nova Assembléia Constituinte em 2013 e se reelegeu. É curioso porque, em meio às conspirações antes do golpe de Estado de 2016, o que se debateu no Brasil era a criação dessa Assembléia como meio de se formar um mínimo de consenso popular para manutenção do governo e para sanar algumas das críticas difusas que o mesmo recebia. Caso houve possibilidade de isso ter sido criado na ocasião, Dilma poderia ter terminado seu mandato e, quem sabe, entregue o bastão presidencial a Lula. Alencastro iria dizer que o governo brasileiro, pela criação dessa medida e por suas consequências, seria ilegítimo?

Como disse, Haddad, não só pela vivência que teve com Lula, como também pela posição que passou a ocupar no PT depois de ministro da Educação, para ao menos não divergir do partido, não chega aos extremos de Alencastro, o que não o impede de considerar Nicarágua e Venezuela não-democracias. Em linguagem comum, seriam regimes autoritários. Ele alega que não são democracias por causa da situação de guerra civil que esses países vivem. Mas a França e os EUA, para ficar nos mais conhecidos, também vivem situações de guerra civil graves, tanto com “coletes amarelos” ou atentados terroristas, com Ku Klux Klan, Antifa e Russiangate, mas, como são países do Atlântico norte, talvez pegue um pouco mal dizer que “democracias seculares” não são bem democracias… No mais, se recusa a expor sua opinião com mais profundidade, o que é um claro respeito às diretrizes do partido e talvez um cala a boca em suas convicções pessoais.

O caso da Venezuela, já que falamos de pessoas estudiosas, é um excelente caso para pesquisa. A sabotagem econômica, a campanha ferrenha dos meios de comunicação internacionais, junto ao apoio popular permanente não tem como chamar a atenção do observador minimamente interessado nos desdobramentos da política latino americana. Contudo, ao que parece, preferem fechar-se em preconceitos. A Venezuela é um excelente caso de estudo ainda hoje frente à derrota para as forças elitistas em nosso país, assim como a Rússia e seu sistema de inteligência e militar, seria excelente para o governo brasileiro em 2013. Oportunidades passadas…

Quando a a direita passou a aumentar seu tom de voz há poucos anos, vira e mexe se falava que não existia mais direitistas como antigamente. Fazia-se alusões a Melchior, Paulo Francis e sei lá mais quem. Eram declaradamente de direita, porém tinham o mínimo de articulação, sabiam dialogar e não apenas xingar ou difamar como o que vemos hoje. Talvez esse conservadorismo já exista. Quem sabe, um pouco melhorado. São meio livre-mercadistas, meio esquerdistas, por isso que não passaram pelo processo que os acima mencionados passaram até não se incomodarem associações com o pensamento conservador. Isso talvez venha com o tempo.

Não os acredito mal intencionados ou falsários como um Fernando Henrique ou José Serra. Quando Haddad cria seus paradoxos, ou seja, cria frases de efeito para poder dizer que o bolsonarismo pode ter algum grau relativo de sucesso, ainda que plenamente artificial, quer dizer que a luta deve ser feita com pés no chão e não acreditar que a comédia generalizada que aparenta ser seu governo vai terminar em Comédia. O que não considera, e isso é válido para suas afirmações a respeito do substrato de fé que poderia sustentar a estabilidade política frente a desigualdade econômica, é que Bolsonaro só de maneira muito aparente tem apoio popular. Em suas declarações Haddad não considera o valente povo brasileiro. Será pela ação desse povo, de sua bravura histórica, que não nos ajoelharemos diante da barbárie de um novo FHC sem os ouropéis do aculturamento no estrangeiro.

A previsão para os dias seguintes é de chuva ácida e não de aparente bonança econômica e social. Somente a valentia do povo e não a fé neopentecostal de alguns (os ortodoxos são minoria, assim como os bolsonaristas de fato são muito escassos) é que desequilibrará a balança a nosso favor. São tempos de valentia e, mais do que nunca, do exercício da palavra franca. Posicionamentos para agradar deus e ao diabo são sempre um desserviço. Contudo, para lembrar a era lulista, podemos fazer uma concessão: quando o ex-candidato diz que “você não pode ficar torcendo para um governo dar errado para você ganhar o poder. A melhor coisa do mundo é você ganhar de quem está indo bem, porque mostra que você foi melhor na sua mensagem”.

Torceria muito para sua vitória, por um bom governo. Com certeza, torceria igualmente para que um outro governo – poderia ser do mesmo partido, que muito admiro – fosse “melhor na sua mensagem” e pudesse levar mais além pautas tão importantes negligenciadas por essa esquerda internacionalista. Somente nesse enquadramento bastante restrito é que poderia compreender a declaração de Haddad. E chegaremos lá o quanto antes (não sei se 2022 é uma data boa para o governo e seus militares de pijama). O Bozo só tem o poder econômico que alberga, como sempre, militares de alta patente, juízes e a mídia. Se teve um trecho da aprovação popular depois de inumeráveis fraudes, ele não tem nem nunca terá o povo.

Valente povo brasileiro!, não se engane com as recentes e múltiplas bravatas. O futuro, talvez mais breve do que se imagina, será nosso. No governo neoliberal não haverá país. Com eles, não nos tornaremos Cuba ou Venezuela, mas corre-se o risco de virarmos uma série de republiquetas. O governo Bolsonaro e os governos neoliberais de um modo geral, na quadra atual, ameaçam a própria integridade territorial do país. Não passarão!