Fusão nuclear contra os “moinhos de vento”: um debate possível

A energia de fusão traz como possibilidade recriar na Terra as reações químicas do Sol e das estrelas

Pós-escrito sobre o debate ambiental

O texto abaixo é a continuação do tema abordado em postagem anterior,
Os terraplanistas da 4ª Revolução Industrial

O debate ambientalista, por ser um tanto delicado e não ser o objeto principal do tema do artigo acima mencionado, foi deixado um pouco de lado quando o escrevi. Mas existe algo que poderia ter sido onejto de maior destaque, ainda que pudesse abrir espaço para mais considerações. Seria a distinção entre a “energia verde” e a energia de fusão nuclear. O texto anterior já é meio grande e iria ficar, talvez, inviável para o “formato internet”. Contudo, a discussão deve ser feita.

O objetivo principal do tema tratado anteriormente seria procurar mostrar que o avanço científico e tecnológico não deve ser entendido como empecilho para a criação de novos empregos. Acho que esse é o ponto falho dos debates sobre a “indústria 4.0”. Não sei nem em qual ponto isso pode ser considerado uma “revolução” (chamada de 4ª revolução industrial), porque me parece uma extensão de descobertas científicas que já conhecemos. Pelo contrário, o que aponta para uma ruptura em direção a novos conhecimentos é o desenvolvimento da energia de fusão nuclear.

Vou apontar dois fatos: 1) a possibilidade de transformar a matéria em plasma, algo que modifica totalmente a exploração das matérias-primas. Na parte ambiental, a própria questão do lixo, seja industrial, farmacêutico, urbano, residencial, os resíduos das usinas nucleares, etc., em forma plasmática, pode ser transformado em novas matérias-primas e não ser meramente acumulado em algum lugar. 2) A fusão nuclear não deixa os resíduos tóxicos que a fissão nuclear deixa. Ela se desenha, pelo menos até aonde apontam as pesquisas atuais, como a fonte de energia mais limpa e eficiente construída até agora. Os problema atuais da produção da energia de fusão são as altas temperaturas em que ela (a fusão) é realizada, o que requer reatores muito sofisticados. Cada reator nuclear acaba reproduzindo quantidades de calor da proporção das que são produzidas no sol… O outro problema é que a fusão acontece com o deutério + hélio-3. Esse só é obtido, pelo menos atualmente, na Lua. A atmosfera da Terra quebra as partículas de hélio-3, transformando-as em hélio-2. Somente com a exploração da Lua ou sua mineração esse elemento poderá ser largamente utilizado por aqui.

Um acelerador de partícula Tokamak do Centro de Energia de Fusão de Culham (Reino Unido)

O problema do New Green Deal, como o de toda política com foco central em premissas ambientalistas, é pensar na utilização de fontes perenes para o abastecimento energético da sociedade. Essas “fontes perenes” são questionadas tanto por sua eficiência (são intermitentes), quanto por seus gastos e até pelo aproveitamento territorial (precisam de largas áreas para produzirem o mínimo de energia requerida). Além do fato de ainda estar por se provar que a criação de novas fontes energéticas prescinde de novos avanços físicos na exploração da matéria. O que seria dizer também que chegamos a um ponto de não retorno, já que os “moinhos de vento” estão sempre aí e que basta aperfeiçoá-los pelo resto dos tempos para que o planeta seja abastecido energeticamente de maneira adequada.

O problema do New Green Deal, como o de toda política com foco central em premissas ambientalistas, também é desconsiderar que sem a modificação ampla da atual configuração geo-humana da Terra, não irá ser criado plataformas de desenvolvimento suficientes para dar conta não só do aumento populacional, mas dos imensos gargalos de investimento necessários para que a população atual viva em condições dignas. Ainda que haja um ponto de contato entre a proposta do New Green Deal com a visão que defendo, ou seja, a necessidade da construção de trens de alta velocidade (em especial, os de levitação magnética), não acredito que essa proposta leve em consideração a integração regional e esteja mais preocupada com a resolução de problemas mais imediatas, como o da logística nas grandes cidades.

Por que repaginar tecnologias tão antigas como o “futuro da humanidade”?

De fato, a alta concentração populacional nos grandes centros urbanos faz com que o ecossistema dessas regiões seja altamente poluído, se não tóxicos. Mas desconfio que haja um problema global, um aquecimento verdadeiramente global. O consenso sobre o aquecimento global é bastante frágil. Mas, talvez, teria que fazer um texto à parte para colocar os questionamentos pertinentes, de uma maneira ainda mais cuidadosa atualmente devido à forma com que a ciência ambiental vem sendo tratada com o avanço da extrema-direita no mundo. O debate anos atrás era sobre a impossibilidade de uma China, por exemplo, ser desenvolvida devido aos riscos de aquecimento do planeta. A China se modernizou bastante e não sei se esse fato contribuiu para a piora do quadro das supostas altas de temperaturas… Imagina se a África se desenvolve um pouco mais, os países subdesenvolvidos de um modo geral? Ou caímos na premissa de que só os países banhadas pelo norte do oceano Atlântico podem se desenvolver, ou o que talvez dê no mesmo, de que há um limite populacional para o planeta. Essa é a perspectiva falaciosa básica, defendida pela escola de economia britânica clássica. Se Thomas Malthus não acreditava que a população mundial chegasse a um bilhão de pessoas, por que estariam certos os que hoje dizem que dez ou vinte bilhões de pessoas seria algo inviável?

O desenvolvimento do Oriente Médio e do norte da África são fundamentais para mudar a política de guerras na região e integrar a Ásia com a Europa. A geopolítica sempre teve essa integração como anátema, porque um sistema eurasiático bem construído seria uma afronta, ou mesmo o fim, do Império Britânico. Lamentavelmente, a Europa e os EUA, mesmo após o fim da 2ª Guerra, continuaram a ver assim, isto é, não mais como um impeditivo para a primazia econômica e naval britânica, mas vendo o surgimento de um novo e potente bloco econômico como algo fatal para a dominação física e econômica do setor transatlântico, da City de Londres e Wall Street e da OTAN. Iniciativas como as dos BRICS e a união entre diferentes países asiáticos tem como premissa a construção de um modelo econômico bastante diferente do atual, baseado na economia física e não na especulação, e em grandes projetos de infraestrutura.

Visão da Ponte Terrestre Mundial, desenvolvido pelo Instituto Schiller e por Lyndon LaRouche

Um mundo com 5 ou seis bilhões de pessoas ainda se mostra relativamente manejável, fácil de ser controlado por um setor muito restrito da população mundial. Um mundo com 10 ou 20 bilhões de pessoas seria o fim dessa velha oligarquia e de seu atual sistema financeiro e sua geopolítica. Para resolver de maneira mais incisiva os problemas da fome e da guerra, somente a mudança da estrutura física do planeta (ou da noosfera, como chamava o Vladimir Vernadsky), com a construção de novas cidades e a conexão entre países, além dos avanços num modelo de produção energético mais eficiente, pode valer. Não é que diversas regulamentações ambientais devam ser desconsideradas. Elas não podem servir de empecilho para uma política mais humana, baseada numa perspectiva mais larga. Quando o ambientalismo se torna histeria, como é exemplificado pelo caso dos protestos infantis atualmente, não dá nem para se começar a fazer o debate. Com uma arquitetura inteligente, uma concepção até mesmo estética da política, esse mundo mais complexo que se entrevê com a emergência do sul global, acredito que se possa construir um planeta mais bonito e habitável e não, claro, mais florestas de concreto e aço e suas inúmeras injustiças sociais.

O aumento demográfico do planeta não é mais algo a ser impedido, por inviável, como era a utopia do Império Britânico no século XIX. Logo, devem ser criadas novas ferramentas para se lidar com esse mundo bem mais povoado, assim como é preciso uma nova imaginação, generosa, onde caibam o protagonismo de novos povos, como também um ambiente mais agradável e bonito onde todos nós possamos viver. Para isso é urgente, além de todas as considerações políticas, econômicas e sociais, o desenvolvimento de uma fonte energética mais potente e eficaz como a fusão nuclear. Nessa perspectiva, a exploração espacial é inevitável.

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