Há cinquenta anos foi feita uma grande promessa para a humanidade

A passeata dos cem mil no Rio de Janeiro: mais uma data simbólica do ano de 1968

Caso for levado em consideração um panorama mais amplo, o demagogo Jair Bolsonaro e seus asseclas não terão um dia fácil nos próximos meses. Cinquenta anos atrás uma grande promessa foi feita a humanidade. Aguardamos pelo seu cumprimento, cuja origem se deu como resultado das fecundas movimentações políticas mundo afora abortadas cinquenta anos atrás. Elas não se calaram e podem ser retomadas a qualquer instante, dado a imensa aceleração do tempo histórico que agora, mais do nunca, nem mesmo no longuíssimo século XX, vivenciamos. 

Para o amigo Timothy Rush, sem o qual muitas dessas conversas não seriam possíveis

Um evento simbólico no natal, 50 anos atrás

Na noite de natal de 1968, a missão espacial Apollo 8 fez a primeira circum-navegação tripulada da lua. Há 50 anos se cumpria simbolicamente o que meses depois seria realidade com a missão Apollo 11. Em 1962, o então presidente John F. Kennedy pediu ao Congresso um investimento de 25 bilhões de dólares para iniciar o que depois se tornou o Projeto Apollo.

Houve um momento em que se tornou senso comum o cálculo de que a cada dólar investido no Projeto Apollo, 14 dólares voltaram para os contribuintes. Isso é uma falácia porque os benefícios do Projeto se estendem para a economia mundial até hoje. Não é mensurável com modelos da matemática formal.

As tecnologias de microchips, a comunicação por satélites, a medicina nuclear e mais uma série de novas áreas de conhecimento se abriram. Diante disso, é um erro em seus próprios termos acreditar que o desenvolvimento científico e tecnológico gera desemprego por causa do aumento da maquinização da produção. Isso é realidade para setores econômicos cristalizados pelo tempo e, ainda mais, por economias nacionais estagnadas. Nesse enquadramento, procura-se retirar o máximo de lucro do lugar onde a produtividade é decrescente.

Pelo contrário, o desenvolvimento e progressos das sociedades pode ser medidos pelo aumento de fluxo energético per capita e por quilômetro quadrado, como comprovam os estudos de Lyndon LaRouche, que ainda aguardam por pesquisadores de diferentes áreas para poder mensurar a exata dimensão de seu impacto. Hoje, sob sua visão, a nova fronteira para se criar novas formas de trabalho, com capacidade técnica cada vez maior, é o desenvolvimento da energia de fusão nuclear. Por isso a China fez a missão ao lado escuro da lua na semana passada: capturar hélio-3 que, em fusão com o deutério, pode produzir o que os cientistas chamam de “tocha de fusão”, o que pode levar a matéria a estado tal elevado de temperatura, ou seja, a um desprendimento de cada uma de suas partículas, que até do lixo se poderá extrair e montar novos elementos químicos com alto grau de pureza. Esse é o salto tecnológico abortado durante a década de 70, que seguiria as pesquisas do Projeto Apollo, e hoje poderia corresponder a parte considerável do PIB mundial.

Os EUA declinaram da tarefa na ocasião. Agora a China está disposta a enfrentá-la.

Uma bela imagem retirada da lua por Apollo 8

Uma promessa ainda não cumprida

Em seu discurso inaugural como presidente, Kennedy disse que “o homem tem hoje o poder de abolir toda as formas de pobreza e todas as formas de vida”. Na ocasião, ele torna claro, de inúmeras maneiras, os diferentes desafios que a ciência passou a impor aos seres humanos, muito próximo à concepção do cientista russo Vladimir Vernadsky que entendia que, com a colonização de todos os continentes do planeta e o desenvolvimento da energia nuclear, o homem se tornou uma força geológica planetária.

Não só: sabia que para a correta exploração dos potenciais científicos era imperativo a cooperação entre as nações do planeta. Reuni-se com
Nikita Khrushchev bem antes da Crise dos Mísseis e propôs a cooperação em conjunto no programa espacial entre EUA e URSS. Como a prometida retirada das tropas do Vietnã, promessas que ficaram em aberto…

No mesmo discurso de sua posse, disse:

“Àquelas nações que se fazem nossas adversárias, oferecemos não uma promessa, mas um pedido: que ambos os lados recomecem a busca pela paz antes que as forças sombrias da destruição , desencadeadas pela ciência, engulam toda a humanidade em um autoextermínio planejado ou acidental”.

“Quem ambos os lado procurem invocar as maravilhas da ciência e não os seus terrores. Juntos, vamos explorar as estrelas, conquistar os desertos, erradicar as doenças, alcançar as profundezas do oceano e incentivar as artes e o comércio”

Ele não propunha um novo “balanço de poder” como na “era dos impérios”, mas o que chamou de Aliança para o Progresso. Esta talvez só possa ser melhor compreendida não apenas pela adoção por Juscelino, no Brasil, o Raúl Prebisch, na Argentina, ou mesmo como uma nova “doutrina Monroe” atualizada para o contexto da Guerra Fria. Na ocasião, se movimentando ao redor do impulsivo vital para se debelar a política da Guerra Fria, se reuniu desde Charles de Gaulle até os presidentes dos chamados “países não alinhados”, ou seja, a nomes como o do primeiro-ministro indiano Nerhu, o presidente Nasser do Egito e Tito da Iugoslávia.

Foto do discurso de Kennedy na Rice University, que colocou a NASA no programa espacial

Na promessa feita em seu primeiro dia de mandato, podemos compreender melhor as palavras do historiador Moniz Bandeira, em seu De Martí a Fidel, de que o interesse da revolução cubana não era, nas palavras de Che Guevara, sair do jugo de um império para cair em outro: trocar a servidão aos EUA pela servidão a URSS. Guevara tinha o plano de industrializar Cuba e procurou em inúmeras ocasiões uma reunião com Kennedy. Com os preparativos realizados, a reunião nunca ocorreu devido a sabotagens internas do governo dos EUA que contavam, na ocasião, com a nefasta influência dos irmãos Dulles, aqueles que tiveram não só a participação, mas a liderança em eventos como a Invasão da Baía dos Porcos e o Golpe Militar de 1964. Como Nasser posteriormente, Cuba voltou-se para a União Soviética, incapaz de chegar a qualquer acordo com as administrações americanas.

A aliança dos países do mundo para o progresso conjunto, através do programa espacial, poderia incluir inclusive (ou principalmente) a URSS e dar fim a Guerra Fria. Promessas…

O caso para a cooperação conjunta da humanidade, hoje

A Nova Rota da Seda chinesa tem o caso bem especial de uma ferrovia que se constrói, ainda em fase inicial, entre a China e o Paquistão. Um projeto grandioso que pretende em fase posterior chegar ao coração do Oriente Médio, via Irã e Iraque até a Síria, e ser o elo de ligação eurasiático. Esse polo, junto com a pesquisa aeroespacial, será a próxima fronteira tecnológica do século XXI. E isso, claro, pressupõe um modelo econômico completamente diferente do que estamos acostumados desde que os acordos originais de Bretton Woods, de Roosevelt, foram definitivamente jogados no lixo na década de 1970.

O caso do Paquistão é digno de estudo porque envolve também inúmeras questões políticas das regiões envolvidas, como áreas de disputa territorial com a Índia, questões relacionadas a viabilidade do financiamento das obras, além da parceria país a país que deve ser feita através de acordos diretos, e que muitas vezes esbarram nos mais variados empecilhos a depender da localidade. Por exemplo, meses antes da queda de Dilma Rousseff, se levantou a possibilidade, promissora, da construção da ferrovia bioceânia na América do Sul. O problema maior na ocasião era passar ou não a ferrovia pela Bolívia, o que seria a opção correta para dar ao país acesso direto a ambos os oceanos. Com o golpe, o projeto ganhou ares de quimera.

Imagem do Corredor Econômico China-Paquistão

Outro caso que divide opiniões é o do ambicioso projeto do Canal da Nicarágua, além de muitos outros na América do Sul e no Caribe. Na ´poca de início da construção do Canal, lembro de discursos entusiasmados de Dilma. Mas o mundo virou de ponta-cabeça…

Provavelmente em breve lançarei um artigo minucioso sobre o caso do Paquistão. Por hora, posso indicar dois textos: um em português, bem resumido, e outro em inglês, num infográfico impressionantemente belo. O projeto é tão ambicioso que passou a ser debatido uma “Nova Rota da Seda digital”. Sabe-se que ela é terrestre e marítima, mas agora já se amplia o entendimento a respeito de suas grandes possibilidades.

Não há limites para o crescimento. Quem pensa em termos da entropia do desenvolvimento humano endossa as teses imperialistas, aquelas mesmas tão toscas que fizeram a fama de um Thomas Malthus. A humanidade, por sua própria característica, é neguentrópica, como apontada num belo resumo, as chamadas “quatro leis econômicas” de Lyndon LaRouche.

A década de 1970 e a subversão da cultura

Nessa seção buscarei mostrar porque a revolução cultural de 1968 não deve ser encarada num sentido unívoco, ou seja, como simples apologia da maturidade dos movimentos estudantis. Existe um contexto mais amplo que, sem analisá-lo, não se compreende os desdobramentos dessa mesma revolução.

Daniel Estulin narra o caso da psicologia do povo estadunidense depois do assassinato de Kennedy:

O que deveria estar muito claro para todo aquele que estuda a psicologia das massas é o quase imediato declive que sofreu o povo estadunidense como resultado desse surpreendente assassinato transmitido pela televisão. Há muitos indicadores de tal transformação. No prazo de um ano, os estadunidenses deixaram de usar roupas de algodão, tingidas de cores naturais e tons suaves, e começaram a colocar roupa de fibra artificial e cores chamativas. A música popular se tornou mais estridente, mais rápida e mais cacofônica. As drogas saíram pela primeira vez dos guetos boêmios da sub-cultura e apareceram entre a gente comum. Entraram na moda todas as classes de extremismos. Começaram a ser vistas no horizonte revoluções nas ideias e no comportamento, desde os Beatles até Charles Manson, desde o amor livre ao LSD[.

Estulin, Daniel. El Instituto Tavistock. Barcelona: Ediciones B, 2011, p, 99-100.

A chamada “geração de 68” sofreu diretamente o impacto da política subversiva dos altos escalões do poder. No caso da França, são visíveis os amplos debates a respeito da participação juvenil e dos intelectuais num movimento de renovação de ideias. Foucault e Deleuze, por exemplo, ao contrário de Sartre, que talvez gostaria de ser o mestre-cuca da juventude, pegaram um tema bastante específico para criarem seu engajamento político, o Grupo de Informações sobre as Prisões. Dentro da confusão que se tornou a sociedade francesa com os mais variados protestos genéricos aos estilo “jornadas de junho de 2013” no Brasil, focalizaram um campo de lutas e ajudaram a dar corpo ao importante debate sobre a situação carcerária francesa. A bandeira de Mao não teria razão para ficar levantada.

Mao na França, Mao na China

Nos EUA, como descrito na citação acima, uma nuvem de pessimismo tomou conta da população, influenciando seu modo de vestir e seu gosto musical, o que levou diretamente a contracultura. Esse é outro debate que se pode travar em separado. Contudo, a alusão de Estulin ao correr do livro citado sobre as cartas entre Theodor Adorno e John Lennon, dão conta de como foi fabricado no escopo do Radio Research Project dirigido pelo filósofo, a contracultura. No caso, Lucy in the Skie with Diamonds teria sido escrito pelo própria Adorno, com clara intenção subliminar para animar as festas da época. Eu não vou falar mal de Jimmy Hendrix, no caso, apesar de lamentar a sua morte e a maneira como aconteceu… Porém foram usadas as pestes do pessimismo cultural para alimentar a cultura das drogas nos grandes festivais de rock, inclusive com agentes da CIA (como o infame “Coiote”), que eram os responsáveis pelo fornecimento das novas drogas sintéticas cantadas nas letras dos Beatles.

(pode ser lido a respeito interessante artigo no Cinegnose)

Os lamentáveis episódios que deram vazão a movimentos variados, dos hippies aos ambientalistas, criaram um caldo cultural diante do qual as grandiosas promessas das décadas ´passadas, de Luther King a Kennedy, não puderam mais ser ouvidas. A ação política foi substituída pelo seu fantasma, a revolução cultural de Mao, ou por drogas de outras origens. Os grandes projetos em conjunto passaram a sofrer assédios constantes frente ao crescimento exponencial da máfia ambientalista. Esse nunca foi um “movimento de esquerda” como os olavetes falam, mas um movimento elitista de cabo a rabo, com um de seus inícios no aristocrático Clube de Roma, e procurou capturar a juventude em marcha sendo, por suas próprias características, mais um dos tipos de narcóticos produzidos em escala industrial, sintéticos ou não, durante aqueles anos.

No Brasil, uma promessa que não se calou

No Brasil, as lutas sociais intensas iniciadas antes ainda do Golpe de 1964 – o Comício da Central do Brasil – plasmaram-se na gigantesca Marcha dos 100 mil, num movimento político com objetivos claros, encadeado, na ocasião, a um contexto de sindicatos altamente mobilizados, um difícil quadro eleitoral para os milicos, além do transbordamento cultural com a proliferação nunca antes vista de artistas da melhor qualidade, e que até hoje servem a nossa cultura e são balizas importantes, pontos de referência capitais, em nossa luta política. Como diz José Dirceu em sua autobiografia: havia todas as condições no país para se criar uma 2ª Semana de Arte Moderna.

Vinícius ao fundo

Para debelar a sociedade que se mostrava forte o suficiente para resistir, veio o AI-5. Se esse movimento jovem foi relativamente desorganizado por causa da repressão política sem precedentes, ela se coloca, pela lutas sociais reais que encampava, como modelo para outras rebeliões jovens nos países estrangeiros. Criamos quadros políticos qualificados, artistas muito respeitados, professores e pesquisadores de altíssima qualidade, e que em diferentes momentos exerceram papel de liderança no país, até a destituição da ex-guerrilheira Dilma Rousseff da presidência da república. O Brasil era o centro do mundo na ocasião, ainda que os historiadores continuem querendo ver maio de 68 na França ou o movimento hippie norte-americano como centrais. O programa para o futuro, no Ocidente, estava no Brasil.

Sem aquela década, não haveria caldo cultural para turbinar os desdobramentos das grandes greves do ABC paulista, da criação do PT, até o partido chegar ao poder para suspender o estado de exceção permanente. Assim, pôde o movimento de 1968 ecoar as promessas de Luther King, Kennedy, como também as dos chamados “países não alinhados” + Cuba, décadas depois, assumindo o Palácio do Planalto. No fim desse percurso, com a consolidação da aliança BRICS, do Mercosul e Unasul, junto às parcerias com os países africanos, o quadro das promessas se fechava sob a liderança do maior partido popular do Ocidente. Foi bruscamente interrompido pela linha de fratura da Guerra Fria que conseguiu atravessar o mundo todo novamente.

O resultado de um mundo de promessas, 50 anos depois

À morte de Franklin Roosevelt se seguiu a fala de Winston Churchill, em março de 1946, no Westminster College, onde anunciou o início das “relações especiais” entre EUA e Grã-Bretanha, no famoso discurso da Cortina de Ferro. A Guerra Fria tinha início. Após o assassinato de Kennedy em 1963, a lógica da Guerra Fria não se tornou mais perversa, porém fez perder qualquer esperança de terminar num prazo minimamente curto.

Este assassinato foi o último ato de uma corrente de assassinatos políticos de presidentes dos EUA, primeiro com Abraham Lincoln e depois com o interlúdio do perverso assassinato de William McKinley, último representante da facção política de Lincoln e também o último a representar a política dos fundadores do país, em contraposição à “democracia jeffersoniana”, de escravismo e livre-mercado, causa da fundação do Partido Democrata e da presidência de Andrew Jackson.

Com a morte de McKinley, o Partido Republicano não apresentou mais nenhum presidente a altura de sua tradição histórica. A tradição histórica progressista nos EUA se deslocou para o Partido Democrata no século XX sob a liderança de Roosevelt. Kennedy não foi só o último grande líder de seu partido (pelo menos o que trouxe as maiores promessas…), mas a última figura dessa grande corrente, de Republicanos (séc. XIX) a democratas (séc. XX). Ainda nos anos 1970-80, houve figuras como a do senador Richard Gephardt, democrata que queria fazer com que os EUA voltassem a ter uma política industrial no sentido de Roosevelt. A tentativa de implantar essa política, contudo, foi dizimada pelo FBI e o Departamento de Justiça com práticas judiciais persecutórias que hoje conhecemos tão bem, tais como as de Brilab e Abscam no final da década de 1970 e início da de 1980.

O povo dos EUA passou a adquirir, como resultado do pessimismo cultural, as cores cinzas e o amor por melodias estridentes, como acima mencionado. Com o consenso neoliberal consolidado no pós-1989, o pastiche de um mundo colorido, contudo, se afirmou. No seu contrapé, após a destruição da Rússia pela liberalização de sua economia e das potências asiáticas após a crise de 1997, a China e a Rússia passaram a se autoafirmar com políticas industrialistas. A primeira, vem conseguindo com relativo sucesso ultrapassar as altas taxas de pobreza de sua população; o segundo país reconstruiu sua indústria militar que, com um orçamento bem inferior ao da OTAN, hoje aos olhos de muitos especialistas é mais eficiente do que a grande, corrupta e corporativa máquina de guerra ocidental.

Concomitantemente, com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, seguido logo após pela vitória de Néstor Kirschner na Argentina e de Lula, a América do Sul passou a engrossar a fileira dos países emergentes que se desfiliavam da ortodoxia política econômica do consenso pós-1989. Todos estes países, da Ásia a América do Sul, destruídos pelas políticas de livre-mercado, criaram uma promissora alternativa para o desenvolvimento econômico em conjunto, conhecido simbolicamente como BRICS.

Como todos sabem e sentem, o mundo virou de ponta-cabeça nos últimos 4-5 anos. As ameaças de confronto leste-oeste engrandeceram como nunca antes visto. Uma Nova Guerra Fria, muito mais quente, emergiu. Ao mesmo tempo, com o desmantelamento, via sucessivos golpes de Estado, da independência dos países sul-americanos, o modelo econômico chinês continua a apresentar uma clara alternativa ao falido sistema financeiro transatlântico. Como oposição a essa proposta, e aceitando o fato que a razão neoliberal também está falida, surge uma nova direita com discursos nacionalistas, relativamente anti-guerra, porém com profundo ranço anti-chinês.

A questão da guerra continua a ser delicada, como mostra a reação raivosa do general Mattis ao pedir demissão do governo Trump depois do anúncio da retirada das tropas da Síria, as recentes aventuras de Petro Poroshenko na Ucrânia, e os sucessivos escândalos criados pelos britânicos a respeito de “agentes químicos” usados no caso Skripal ou, na hipótese ainda mais lunática, pelo governo sírio contra os “rebeldes moderados”.

Existem muitas críticas formais em relação a Trump, muitos ainda endossam a mentira do DOJ e do FBI sobre suas ligações russas – o fato que criou o termo “fake news” – e acreditam que ele não é um democrata no sentido clássico. Está próximo de Vladimir Putin e outros considerados autocratas. Além de extremamente reducionista, essa visão não tem o mínimo de lastro histórico. O bom democrata Barack Obama montou uma rede imensa de espionagem, fazia suas reuniões de terça-feira para escolher quais inimigos políticos assassinaria (tudo isso que levou ao protagonismo Gleen Greenwald), apertou o cerco contra a Rússia com uma expansão sem precedente da OTAN nas fronteiras do país “autoritário” (chegou a ser levantada a hipótese de se criar uma “zona de exclusão aérea” na Síria que seria simplesmente a primeira trombeta do Apocalipse a soar), além de ter criado, com as políticas de “flexibilização quantitativa” que ameaçam agora estouram, com um peso inúmeras vezes maior do que a da crise de 2007-8.

Não sei até que ponto há compreensão de Trump ou ambiente político para se criar uma parceria econômica dos EUA com a China. Esse seria o único caminho para retomarem de fato sua economia. A próxima crise econômica internacional levará o mundo novamente para uma encruzilhada: Trump estará cercado pela imensa oposição que lhe acompanha. Assim, com o fracasso econômico, seu impeachment, aventado desde antes de tomar posse, pode ocorrer. Na volta da facção ultraliberal ao poder, a possibilidade de guerra é imensa, além de não trazer nenhum alívio econômico além das que aparecem através de manchetes fakes da mídia, associadas ao neoconservadorismo, aparentemente “democrático e plural”. Numa situação de encruzilhada, pode ser pensada uma união mais firme do ocidente com China e Rússia, debelando os neoliberais e os novos direitistas ao mesmo tempo.

Diante das imensas crises que vivemos atualmente, temos visto claramente a possibilidade da derrota do velho paradigma e o restabelecimento do trilho histórico abandonado nas décadas de 1960-70, com um verdadeiro movimento dos “não-alinhados”, ou seja, um mundo multipolar e um sistema de crédito internacional ao estilho dos acordos originais, com Roosevelt, em Bretton Woods. No próximos anos, mais provavelmente nos próximos meses, a radicalização dos movimentos planetários levará os atores mundiais a se posicionarem frente a uma ou outra alternativa. O velho paradigma não apresenta mais nenhum prestígio, ou mesmo capital, para reeditar a farsa neoliberal dos anos 1990, como no caso do genocídio econômico na Rússia e a derrocada generalizada da economia brasileira sob os governos tucanos. Tudo isso ainda cheirava a modernidade. Essa era seu charme e sua desculpa. Agora cheira a mofo.

Caso for olhado esse panorama mais amplo, o demagogo Jair Bolsonaro e seus asseclas não terão um dia fácil nos próximos meses. Ano que vem, quando se completar os primeiros cinquenta anos da chegada do homem na lua, a direção para a qual se move o mundo deverá estar ainda mais clara, num contexto de radicalização ainda maior. Aguardamos pelo cumprimento das promessas das fecundas movimentações políticas mundo afora abortadas cinquenta anos atrás. Elas não se calaram e podem ser retomadas a qualquer instante, dado a imensa aceleração do tempo histórico que agora, mais do nunca, nem mesmo no longuíssimo século XX, vivenciamos.

No Brasil, uma promessa que não se calou