Liberais e flamenguistas

A última alegria, debochada e pachorrenta, de PHA num Maracanã que não tem mais “cheiro de mijo”.

O poeta é como o liberal. Ele colhe vergonhas e na vida vive lotado como o Maracanã. Amarga derrotas e faz um silêncio obsceno como o da multidão saída do estádio após um derrota inesperada. O silêncio de uma multidão barulhenta é o que compõe a subjetividade do liberal, saída como rebanho, cabisbaixo, como a manada de aspirações de um poeta qualquer.

E não se queira dizer que é minoritário devir liberal. Sonhar com um New Deal verde, com condições de possibilidades mais do que propícias para empreender, com um país livre ao mesmo tempo que amarrado às premissas de law and order. Mas esses são poetas que expressam publicamente seus desejos, tal como os torcedores entusiasmados, muitas vezes tresloucados, que trazem rubor à face dos poetas tímidos, recolhidos em algum recanto da multidão e que só cantam se for em meio ao coro. Nunca berram.

Tal como uma antiga doutrina, contemporânea da descoberta das pílulas anticoncepcionais e da revolução cosmética, de que o sujeito tem que encontrar um meio preliminarmente e devotadamente construído para expressar livremente sua sexualidade, a utopia não esconde quem é o pequeno-burguês.

Ora, a busca pela plena expressão ou satisfação perene de seus anseios sentimentais e emotivos, do descarregar as inquietações do corpo frente a uma beleza composta de corpos e paisagens tão imaginárias quanto fugazes, é o grito bruto da afirmação da própria individualidade. O desejo por uma satisfação perene de qualquer sorte é como o anseio por uma fonte perene de produção energética… Do fundo vermelho e negro, tudo se torna verde.

Não existe plena afirmação individual sem a cisão que ela provoca, ou seja, a utopia não vê que a expressão livre do amor não é um lema para a sociedade como um todo. O sucesso individual esconde a completa falta de chance de sequer sonhar de inúmeros setores sociais, como também, caso adquirido, as angústias que o pequeno eu teve de se submeter para poder transformar um “case” de sucesso numa paradigma para sua vida e, talvez, para quem lhe escute as histórias.

O indivíduo nunca faz sua vida, pois esta é sempre passado. Não interessa o passado se não composto em uma história. Fazer sua história é bem diferente do lema usual do “eu é que faço minha vida”. A história é coletiva enquanto a vida, tal como o existir biológico, é solipsista e desagregadora: tende à morte e, sempre, à corrupção.

A multidão que sai do estádio depois da derrota vergonhosa é como o agregado evanescente de vidas nuas cobertas somente por um fino manto: a bandeira de suas escolhas individuais traduzidas em lemas de utópicas liberdades e supostas conquistas. O flamenguista, para além de qualquer mística consagrada ao manto, é formado pela composição da multidão comum. O homem comum e seu imaginário o enchem interiormente como um Maracanã às vésperas de um clássico e o aproximam, como nunca, aos poetas.

Se existe anomia social de tamanho tão grande a produzir a idolatria de um Heliogábalo no poder, é porque esse homem comum, tal como o Vaticano, abençoou coisas demais. Ele teve nojo de seu próprio destino biológico: a corrupção da carne. Poetas com sonhos de liberdade são tão numerosos como flamenguistas nas esquinas cariocas. Nunca serão os titãs, aqueles que, produzindo ou não poesia, mas sempre história, comumente são chamados de “poetas”.

Hoje, repletos de vergonhas que o fazem se sentir lotados como o Maracanã, saem em debandada, mudos e cabisbaixos. Alguns ainda procuram fazer lembrar antigas glórias que serão consumadas no futuro com novas roupagens: reféns da utopia, nunca verão que o conjunto complexo de aspirações que permeiam o tecido social somente é entrelaçado pela harmonia das múltiplas heterotopias.

Enquanto rebanho e acreditando em grandezas passadas (1989 para uns, 1981 para outros, 1917 para mais alguns), lambem suas próprias feridas, entrecortados em sua caminhada por pequenos balbucios, como se suspirasse pedaços de velhos sonetos. Enquanto isso, a cidade ferve em aspirações múltiplas, sem dar a esperança da criação de um novo Lenin ou a legitimação de um novo Pelé.

A cidade é o lado de fora pleno. Nunca está aberta, porque jamais se fecha. Na cidade, não se submete os corpos ou seus objetos – seu conteúdo empírico – sem a violência do pensamento formalizador, o produtor de transcendentais. A estranha mistura do par empírico-transcendental, a ilusão antropológica ou os delírios do homem, cinde a cidade na dicotomia da lei e da ordem.

Por fora, longe da multidão e da calada proliferação de desejos imaginários, num lugar qualquer, se escondem os gigantes. Diante da perda monumental, do luto, o lugar desses seres fica num horizonte sob neblina, porque a palavra só pode emergir onde o silêncio é completo. Na fenda aberta, não se imagina o que está porvir.

PS: Texto em homenagem à sentida perda do jornalista Paulo Henrique Amorim. Ele, além de compor a estirpe de jornalistas como a de Sérgio Porto, na alusão óbvia, faz parte uma linhagem mais antiga, aquela que vai de Nelson Rodrigues a Lima Barreto. Flamenguistas ou não, nunca foram poetas, muito menos liberais. Por isso, fizeram história e se, nela, sempre há poesia, é como sua parte maldita, como o excesso produzido pelo acúmulo de riqueza. Sua morte nos faz novamente perguntar: aonde está aquela estirpe, a dos titãs e a dos poetas? Não imaginamos o que está porvir.

Esse post faz parte da série Genocídio e liberalismo. Clique aqui para acessar.

Liberais e flamenguistas?